junho 25, 2012

Nelson Rodrigues: tragédia, obsessão e liberdade


Em sua última entrevista, concedida à Revista Visão em fevereiro de 1974, Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, que viria a falecer poucos meses depois, diz que “conquistar a tragédia é [...] a postura mais popular que existe: em nome do povo brasileiro, a conquista, a descoberta da tragédia, você conseguir fazer uma tragédia, olhar nos olhos da tragédia e fazer com que ela seja dominada”. Ele próprio explica melhor sua ideia, ao afirmar, de maneira alegórica, que, diante da primeira tragédia, “o povo grego devia sair em passeata, em carnaval”, conclamando: “finalmente temos a nossa tragédia, descobrimos, olhamos, estamos olhando nos olhos os grandes problemas da nossa vida, da nossa existência, da condição humana”. 

Sem desmerecer a dramaturgia de Vianinha, esses comentários representam perfeita introdução à obra de Nelson Rodrigues, seu contemporâneo, com quem, aliás, se antagonizou no início da década de 1960. E não me refiro apenas às peças teatrais de Nelson, mas também aos romances e às crônicas, relançados pela Editora Agir. No volume O reacionário – memórias e confissões há exemplos do que afirmo, a começar de uma constatação facilmente observável: Nelson pode ser lírico, dramático ou histriônico, pode ser corrosivo ou meigo, mas é sempre desmesurado, chegando a paroxismos. Tal busca do excessivo é não só dramática, mas trágica. Não importa se o texto tem a acrimônia das suas posições antiesquerditas, a sagacidade de sua psicologia social, ou nasce carregado de lancinante autobiografia – Nelson Rodrigues é sempre trágico. E não há qualquer exagero em afirmar que, ao ler seus textos, muitas vezes temos a impressão de reencontrar Édipo, cego, conduzido por Creonte, enquanto o corifeu proclama: “Até o dia fatal de cerrarmos os olhos / não devemos dizer que um mortal foi feliz de verdade / antes dele cruzar as fronteiras da vida inconstante / sem jamais ter provado o sabor de qualquer sofrimento!”.

Essa plena expressão do trágico não é apenas fruto de leituras escolhidas ou de algumas qualidades literárias. Não. Nelson viveu a tragédia, foi seu personagem, embriagou-se dela. Vejamos o que ele fala ao recordar o assassinato de seu irmão, na crônica “Memória nº 25”:

Três anos depois, descobri o teatro. De repente, descobri o teatro. Fui ver, com uns outros, um vaudeville. Durante os três atos, houve, ali, uma loucura de gargalhadas. Só um espectador não ria: – eu. Depois da morte de Roberto, aprendera a quase não rir; o meu próprio riso me feria e  envergonhava. E, no teatro, para não rir, eu comecei a pensar em Roberto e na nudez violada da autópsia. Mas no segundo ato, eu já achava que ninguém deve rir no teatro. Liguei as duas coisas: – teatro e martírio, teatro e desespero. No terceiro ato, ou no intervalo do segundo para o último, eu imaginei uma igreja. De repente, em tal igreja, o padre começa a engolir espadas, os coroinhas a plantar bananeiras, os santos a equilibrar laranjas no nariz como focas amestradas. Ao sair do vaudeville, eu levava, comigo, todo um projeto dramático definitivo. Acabava de tocar o mistério profundíssimo do teatro. Eis a verdade súbita que eu descobrira: – a peça para rir, com essa destinação específica, é tão obscena e idiota como o seria uma missa cômica.   

Descontada a afirmação de que ali, em poucos minutos, assistindo àquela comédia, ele elaborara seu “projeto dramático”, fica evidente o processo intuitivo que norteou a obra rodriguiana.  

Em uma de suas crônicas mais clássicas, “A menina”, a pungência da tragédia se instala lentamente. O leitmotiv da cegueira se propaga desde a primeira linha, contaminando o texto até o último momento, quando a condenação do herói cai sobre o leitor num impacto avassalante. Em doze parágrafos, Nelson Rodrigues sintetiza e explora todos os elementos da tragédia: o sofrimento que provoca, ao mesmo tempo, terror e compaixão; a condição humana, vítima do engano ou de um estranho magnetismo que, muitas vezes, nos atrai para a ruína; a dor imerecida. E apesar da destruição, da queda que lança o protagonista da segurança à desgraça, a dignidade intocável do herói: ele observa o drama no qual está enredado, reconhece, num átimo, os caminhos que o levaram até o destino atroz, mas segue adiante, sofrendo conscientemente, aguardando que Deus volte a abençoá-lo. “A menina” é um texto que deveríamos ler de joelhos.      

E como poderíamos definir a crônica “Paulo Rodrigues”? É um altar erigido em memória daqueles que amamos e, infelizmente, morreram antes de nós. A lamentação fúnebre nos surpreende no meio da noite, quando estamos indefesos, certos de que tudo está bem. Trata-se de um exemplo da ampla coleção de crônicas autobiográficas nas quais Nelson se coloca no papel do herói trágico: personagem e narrador; paciente e testemunha – mas submetido aos desígnios do destino.

Os trágicos nunca olham a morte como algo fortuito ou previsível, mas como a força que, inerente ao homem, o condena à fragilidade. “Na hora de morrer, e quando sabe que está morrendo – o homem tem um olhar súplice e insuportável de criança batida. Não, não, um olhar de contínuo. Sempre imagino que o arquiduque austríaco, com os intestinos de fora, morreu como o último dos contínuos”, diz Nelson Rodrigues.

A experiência da tragédia não se resume, no entanto, às mortes familiares. A tuberculose também se encarregou de moldar a forma de Nelson ver a existência. Os meses que viveu em contato íntimo com a morte – ouvindo as tosses que se repetiam noite adentro, compartilhando as frustrações de um tratamento que em nada se assemelha aos métodos da medicina contemporânea, podendo testemunhar a decadência física e moral dos companheiros de enfermaria – estão relatados em inúmeras crônicas. Mas “A casa dos mortos” guarda elementos peculiares: há nesse texto a síntese da técnica rodriguiana. O começo despretensioso engana o leitor. Segundos depois, percebemos que adentramos um túnel povoado de lembranças infelizes. Então, talvez desejando nos despistar mais uma vez, Nelson torna-se tragicômico. Mas há um tom grotesco que sibila por trás da narrativa, como se a tragédia não aceitasse ser destronada pela comédia. Até que, três parágrafos antes do fim, a primeira vence, qualquer possibilidade de riso desaparece, e a derrota humana surge na sua forma mais abjeta: espelhando-se na derrota animal. O escritor se lembraria para sempre daquele primeiro período em que lutou contra a doença, em Campos de Jordão: “No Sanatorinho, aprendi a olhar no fundo da nossa brutal e indefesa fragilidade. Ninguém é forte”.

Igualmente trágica é a sinceridade de Nelson. Seus relatos sobre como pedia aos colegas para que escrevessem elogiando suas peças, ou a confissão de ter escrito artigos furiosos contra o crítico Álvaro Lins, que repugnara Álbum de família, mas assinando-os, pusilânime, com os nomes dos amigos, colocam-no na condição do herói que busca purgar a própria culpa. Herói solitário, cujo isolamento ganha uma dolorosa concretude no contraponto da crônica “O autor sem apoteose”: de um lado, a fama, o sucesso brilhando nas “cintilações delirantes do lustre do Municipal”; de outro, a fria realidade do bife com fritas, na solidão depois da primeira apresentação de Vestido de noiva.

As coisas ditas uma vez

O estilo de Nelson Rodrigues é uma prova de que os manuais nem sempre estão certos. Ele caminha, por exemplo, na contramão do ideário poundiano, incansavelmente disseminado no Brasil, e não se preocupa em condensar a mensagem num mínimo pouco inteligível de palavras, como as novíssimas gerações gostam de fazer. Ao contrário, sua adjetivação desconhece barragens e os superlativos são usados sem pudor.

A composição de sua frase ganha, assim, uma potência que reanima os substantivos; e suas metáforas, ainda que paguem, algumas vezes, o preço da grandiloquência, guardam certa brutalidade, certa carga muitas vezes quase indecorosa, que coloca a língua em um surpreendente patamar. A psicanálise é a “joia da ociosidade”, a “flor do lazer”. Um amigo “tinha a tal voz fininha de criança que baixa em centro espírita”. Ao falar de sua própria ingenuidade, trata-a como “crassa e espessa”. Há “homens fluviais”, aqueles que fertilizam várias gerações com suas ideias. E há também as “verdades totais”, o “extrovertido ululante” (“ululante” é um dos seus qualificativos prediletos), a “polidez hedionda”. A dignidade de Quintino Bocaiuva torna-se incontestável diante da afirmativa: “Saía da redação como uma estátua que volta ao seu monumento”. “No centro de Londres, com um sol de rachar catedrais”, um amigo vê “um inglês, de casaca e cartola, deslizando como um cisne”. Os suspensórios que trazem desenhos de vaquinhas, carneirinhos, etc., são definidos como “um presépio liliputiano”. E falando de si próprio, ele diz, “eu era pequenino e cabeçudo como um anão de Velásquez”.

Somemos essa linguagem aos personagens recorrentes – o milionário paulista, a estagiária de calcanhar sujo, o padre e a freira de passeata, etc. –, aos temas que ele ataca de maneira obsessiva – Nelson confessaria: “eu sou uma flor de obsessão” –, e teremos um todo multifacetado e coerente, centenas de crônicas que, enfeixadas, poderiam ser um vasto romance, o grande romance brasileiro, o panorama de uma época. E não nos enganemos: tudo é intencional nessa obra. O próprio Nelson nos diz: “Aprendi que as coisas ditas uma vez e só uma vez, morrem inéditas”.

Rei dos oximoros, Nelson também é o cultor por excelência das contradições. Moralista ao estilo de La Rochefoucauld, ele pode desacreditar dos homens e, ao mesmo tempo, endeusar aqueles que escolhe. Defende o amor eterno, o amor predestinado de almas supostamente gêmeas, mas também afirma que “sem um mínimo de morbidez, ninguém consegue gostar de ninguém. O amor ou é puro desejo ou, menos do que isso, a posse sem desejo”. Em “A mulher da gargalhada”, faz um estudo antropológico sobre a decadência da civilidade e do pudor, mas páginas depois se deixa arrebatar por alguma vulgaridade, estarrecendo seus leitores, que não sabem quanto do seu discurso é puro sarcasmo. Na crônica “O milionário não sabe comer”, revela-se um refinado psicólogo social, mas nega-se a aceitar ou compreender os movimentos sociais que se opõem à ditadura, a chamada “opinião pública”, para ele, “uma doente mental”.

Vaticínios

Carlos Heitor Cony acertou em grande parte do que escreveu no prefácio que abre O reacionário – memórias e confissões, mas erra ao dizer que “as crônicas de Nelson são datadas”.

Na verdade, Nelson Rodrigues foi profético. Se as críticas que fazia aos regimes comunistas, entre as décadas de 1960 e 70, pareciam reacionárias, o tempo as transformou em peças de clarividência e sensatez. Não é magnífico ler essas crônicas e ver as tolices que já foram escritas neste país? Imaginem Alceu de Amoroso Lima defendendo a Revolução Cultural chinesa. Devia provocar orgasmos na esquerda de 1971. Mas, hoje, quem se atreveria a tal disparate, a não ser – outro adorado personagem de Nelson – o eterno “débil mental por simples pose ideológica”?

Fiel às suas contradições, Nelson Rodrigues, censurado diversas vezes, tripudia sobre a esquerda em nome da liberdade – “Eu sou um homem que põe a liberdade acima do pão”, ele diz –, e, vivendo sob a ditadura militar, chega a tecer elogios ao general-presidente Garrastazu Médici. Mas ninguém pode acusá-lo de ser tímido ou hipócrita. Ele jamais teceu um discurso melífluo, que se autodesculpa a cada parágrafo ou faz contorcionismos retóricos para edulcorar o que deseja dizer e, assim, agradar igrejinhas, manter-se amigo de todos. A seu modo, permaneceu coerente até o fim, ironizando os que defendiam “a marcha irreversível para o socialismo”: “Acho admirável a simplicidade com que o mestre [Alceu Amoroso Lima] administra a História, sem dar satisfações a ninguém, e muito menos à própria História. Não lhe faria mal um pouco mais de modéstia”.

Hoje, quando as utopias mostraram-se falsas e inexequíveis, quando o pensamento anti-histórico foi derrotado, a arte de Nelson Rodrigues permanece atual e incólume. E se, como ele bem anteviu, a “ascensão dos idiotas” prossegue, voltar à sua obra representa – neste império de filisteus – um exercício de prazer e lucidez.

junho 15, 2012

Inveni cor meum


Livrei-me do inverno de minha alma há dois anos. E da escuridão. E também de certa perplexidade angustiada, de quem olha o mundo, as pessoas e diz a si mesmo que não é possível que tudo seja, ao final, apenas vazio, apenas nada. E que estrela após estrela, cada vez mais longe na viagem noturna, reste apenas um antifinal, vazio ininterrupto. Noite após noite, com a insônia vencida graças à antiga oração – a mesma que ouvia meu pai balbuciar em seu quarto –, desfolhei as camadas do mistério, adentrei os cômodos empoeirados, subi a pequena escada suja, repleta de insetos mortos, e encontrei meu coração. Inveni cor meum. Ele palpitava à minha frente, minúsculo, frágil, infartado. Escondido na urna que queimava sem se consumir. Guardaste meu coração, Senhor, em Teu coração. Guardaste meu segredo em Teu segredo. Escondeste a minha dor na Tua imorredoura piedade pelos homens. Então me ofereceste o centro da minha vida, que já não era mais meu, que já não batia mais por minha vontade ou graças ao pulsar do meu sangue, mas era agora parte de Ti. Ou me resignava ao vazio – ou aceitava o Teu dom, que ainda era eu, mas estava longe de ser o que eu fora, pois já se consumia, sem que eu soubesse, no fogo do Teu amor. E eu o aceitei, Senhor. O que me sustenta, então, agora também me consome. Nada mudou. Tudo mudou. E meu coração, preso ao Teu, leva-me para longe da infância, longe das ondas agitadas por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens e pela astúcia que conduz ao erro. Leva-me sempre, a cada manhã. E quando os ventos querem trazer-me de volta à praia repleta de escolhos, vem o Sopro, o Murmúrio de uma brisa suave – e faço-me ao largo, enquanto meu coração vibra no Teu coração, como nos dias da juventude, quando lia o romance de Conrad e rezava, solitário, na capelinha do Carmelo. Vem a cada instante, Senhor, com Teu coração que incendeia o meu, expulsando “o sangue velho dos avós” e seduzindo-me a permanecer em Ti. Inveni cor meum, ut orem Deum meum. Et ego inveni cor regis, fratris et amici benigni Jesu. Et nunquid non adorabo? Orabo utique. Cor enim illius mecum est, audacter dicam, si, imo quia caput meum Christus est.

junho 13, 2012

Parcialmente escondido, parcialmente manifesto


Se não houvesse obscuridade, o homem não sentiria a sua corrupção; se não houvesse luz, o homem não esperaria remédio. Assim, não é apenas justo, mas também útil para nós, que Deus esteja parcialmente escondido, e parcialmente manifesto, pois que é igualmente perigoso para o homem conhecer a Deus sem conhecer a própria miséria, e conhecer a própria miséria sem conhecer a Deus. – Blaise Pascal

junho 05, 2012

Três indicações de leitura para quem não se considera um obstinado esquerdista


Se você, caro leitor, não se considera um esquerdista contumaz, talvez tenha chegado o momento de informar-se um pouquinho sobre o que está acontecendo na face da Terra. Para tanto, indico três livros indispensáveis:


A tese central deste livro é que a esquerda, havendo fracassado durante o século XX em seu programa clássico (o socialismo), substituiu, no século XXI, a revolução socioeconômica pela moral-cultural. A esquerda, assim, já não tem um projeto econômico, mas um projeto cultural de “engenharia social”.


Eugenia Rocella e Lucetta Scaraffia mostram, nesta obra, que os direitos humanos, aos quais se referem todas as organizações sociais, vêm perdendo, ao longo dos anos, sua característica original de código ético, convertendo-se, pouco a pouco, na base ideológica de um relativismo totalitário.


O livro de Monsenhor Juan Claudio Sanahuja aprofunda as questões levantadas nas obras anteriores, fazendo-nos lembrar, a cada página, as palavras do cardeal Jean Daniélou: “Não há nada pior que um idealismo otimista, em cujo nome certas civilizações se consideram como representantes dos valores autênticos”.

Estes três livros falam, basicamente, da nova ética que está sendo engendrada nos bastidores da política mundial; na verdade, uma religião laica e ateia, cujos princípios são muito simples:

1) Bem e mal são conceitos relativos, variáveis de acordo com cada subjetividade. Nada é bom ou mau em si.

2) As verdades são mutáveis, ditadas por qualquer cientista que possua respeitabilidade midiática ou anuência da Organização das Nações Unidas (ONU).

3) O conceito de “direitos humanos” será permanentemente passível de modificações, negociado e alterado ao sabor das pressões políticas e midiáticas.  

4) O centro da vida humana é o corpo. Cabe ao homem satisfazer suas vontades, seus apetites, livre de qualquer injunção, salvo as estabelecidas pelos partidos que, momentaneamente, ascendam ao poder, dos quais pode-se discordar em silêncio, desde que estejamos prontos a obedecê-los.

Ou seja, nada mais que a arrogância humana – levada ao seu extremo.

junho 01, 2012

maio 30, 2012

O que de mim não sei


O que sei de mim, por Tua luz o sei; e o que de mim não sei, continuarei a ignorá-lo até que minhas trevas se mudem em meio-dia diante de Tua face. – Santo Agostinho

maio 29, 2012

Immaculata ex maculatis



“Um teólogo como Bento XVI é totalmente consciente de que a Igreja foi, é e será sempre, como diziam os Padres, ‘immaculata ex maculatis’: sem mancha em seu Mistério, que é o próprio Cristo, e, com frequência, demasiado suja em seu envoltório institucional, composta por homens a quem os sacramentos não transformaram em santos. O Papa sabe bem que a Pessoa da Igreja não deve ser confundida com seu pessoal.”

maio 23, 2012

Romano Guardini e a angústia do homem moderno


“[…] A angústia do homem da Idade Moderna, que é diferente da do homem medieval. Este também sentia angústia, porque o senti-la é algo que pertence ao homem enquanto tal, e o homem a sentirá sempre, ainda quando pareça que a ciência e a técnica podem lhe dar uma segurança ainda maior. No entanto, a causa e o caráter da angústia são diferentes em cada época. A angústia do homem medieval nascia, sem dúvida, do peso da limitação cósmica frente ao ímpeto expansivo da alma, que encontrava a calma nesse transcender constante a um mundo superior. A angústia da Idade Moderna, ao contrário, procede, não em pequena medida, da consciência de não ter nem um só ponto de apoio simbólico, nem refúgio que lhe ofereça seguridade imediata; da experiência, renovada constantemente, de que o mundo não proporciona ao homem um lugar de existência que satisfaça, de modo convincente, as exigências do seu espírito.”

Romano Guardini, El ocaso de la Edad Moderna

maio 22, 2012

Ecclesia militans


Hoje, muitos acreditam que a verdade não pode ser simples, objetiva, clara. O relativismo transformou a realidade num cenário nebuloso, opaco, no qual todos têm razão. Ou seja, onde ninguém está certo.

Em meio a estes dias turvos, quando grande parte dos intelectuais e da mídia nos dizem que bem e mal são indistinguíveis, o mal se traveste de humildade – e a mentira de inteligência. Palavras que, num primeiro momento, impressionam agradavelmente, refletem, depois de breve análise, o seu caráter contraditório e, muitas vezes, nocivo.

Numa realidade assim, o discurso de Bento XVI, proferido ontem, num encontro informal com os cardeais, ganha relevância surpreendente: “Hoje, a expressão ecclesia militans está um pouco fora de moda, mas, na realidade, podemos sempre compreender melhor que ela é verdadeira, carrega em si a verdade. Vemos que o mal está dominando o mundo e que é necessário entrar em luta contra o mal. Vemos como ele o faz de tantas maneiras, cruéis, com as diversas formas de violência, mas também mascarado como bem e destruindo, dessa forma, os fundamentos morais da sociedade”.

Na verdade, vivemos uma guerra permanente contra o mal, contra as falácias da herança iluminista e marxista – e, portanto, contra a mixórdia de niilismo e desconstrucionismo que assola o pensamento. Vivemos uma guerra cultural – e tenhamos certeza: somos convocados a participar dessa luta.

maio 19, 2012

Como corromper o pensamento de René Girard


Nesta entrevista, entrevistador e entrevistado, usando palavras melífluas, destilam corrupção: passo a passo, corrompem o pensamento de René Girard – e, pior, querem manipular Girard para corromper a Igreja; querem instrumentalizar Girard para transformar a Igreja no que eles desejam, no seu projeto particular e mesquinho. Como já afirmei aqui, eles querem, de Girard, apenas o que pode servir às suas ideias corruptoras, mas não querem a verdade de Girard – e a falsificam.

maio 18, 2012

Males do crítico envergonhado


Se não há certezas, se não há como definir o que é boa ou má literatura, então todos, absolutamente todos – escritores, críticos, biógrafos, professores – deveriam ficar calados. 

O relativismo, de fato, contagia toda a cultura.

maio 17, 2012

A coragem de Jean Daniélou, cardeal jesuíta


Minha primeira ideia foi dar a este post um título provocativo – A crise dos jesuítas na América Latina, Parte 2 –, pois ele é, sob muitos aspectos, uma continuação do texto que publiquei no início deste mês, repercutindo, com informações sobre alguns dos jesuítas brasileiros, o artigo do vaticanista Andrés Beltramo, La crisis de los jesuitas (latinoamericanos).

Não o fiz, contudo, para salientar a figura do cardeal Daniélou, cujo pensamento foi objeto de recente jornada de estudos na Pontificia Università della Santa Croce, em Roma, e de quem o vaticanista Sandro Magister publicou, há poucos dias, uma incrível entrevista, originalmente feita em 1972, mas que apresenta respostas, infelizmente atualíssimas, sobre as causas da decadência da vida religiosa.

Magister afirma que, na época, “a entrevista foi lida como uma acusação lançada contra a Companhia de Jesus”, e que o jesuíta Bruno Ribes, então diretor da revista Études, mostrou-se como um dos mais ativos em destruir a reputação de Daniélou.

À parte essas questões, a corajosa entrevista fala por si mesma (em espanhol, italiano, inglês e francês). A seguir, alguns dos melhores trechos:

Penso que há, atualmente, uma crise muito grave da vida religiosa e que não se deve falar de renovação, mas, sim, de decadência. [...] Esta crise se manifesta em todas as esferas. Os ensinamentos evangélicos já não são considerados como consagração a Deus, mas são vistos numa perspectiva sociológica e psicológica. Preocupamo-nos em não apresentar uma fachada burguesa, mas, no plano individual, não se pratica a pobreza. A dinâmica de grupo substitui a obediência religiosa; com o pretexto de reagir contra o formalismo, abandona-se toda a vida de oração segundo as Regras [...].

A fonte essencial dessa crise é uma falsa interpretação do Vaticano II. As diretivas do Concílio eram claríssimas: maior fidelidade dos religiosos e religiosas às exigências do Evangelho, expressadas nas Constituições de cada instituto e, ao mesmo tempo, uma adaptação das modalidades dessas Constituições às condições da vida moderna. [...] Mas, em muitos casos, as diretivas do Vaticano II são substituídas por ideologias errôneas, colocadas em circulação por revistas, congressos e teólogos. Entre esses erros, podemos mencionar:

– A secularização. O Vaticano II declarou que os valores humanos devem ser levados a sério. Jamais disse que devemos ingressar num mundo secularizado, no sentido de que a dimensão religiosa já não haverá de estar presente na civilização; e é em nome de uma falsa secularização que religiosos e religiosas renunciam aos seus hábitos, abandonam suas obras para inserir-se em instituições seculares, substituindo a adoração a Deus por atividades sociais e políticas. Entre outras coisas, vão na contramão no que se refere à necessidade de espiritualidade que se manifesta no mundo de hoje.

– Uma falsa concepção de liberdade que leva consigo a desvalorização das Constituições e Regras, e exalta a espontaneidade e a improvisação. Isto é tanto mais absurdo quanto a sociedade ocidental sofre atualmente de uma ausência de disciplina da liberdade.

– Uma concepção errônea da mutação do homem e da Igreja. Ainda quando os contextos mudam, os elementos constitutivos do homem e da Igreja são permanentes [...].

Como afirmei acima, a entrevista tem incrível e triste atualidade. É como se o cardeal Daniélou tivesse acabado de falar à Rádio Vaticano. E torna-se impossível, depois de ler sua íntegra, não retornar aos textos de Andrés Beltramo [La crisis de los jesuitas (latinoamericanos) e Más de jesuitas latinoamericanos (impresentables)] ou às afirmações que fiz em meu post. E que repito: Não, não se trata de uma crise eventual, infelizmente. Trata-se, na verdade, de nítida ruptura, de escancarado desejo de insubordinação, de um patente movimento de secularização e laxismo – que, pelo visto, teve início há várias décadas.

maio 15, 2012

Quais seus desejos ou sentimentos agora?

O horizonte do homem contemporâneo está limitado, em muitos casos, por um novo tipo de xamanismo. Os teólogos secularistas, os novíssimos gurus, a vanguarda dos cientistas, pensadores e médicos politicamente corretos, os escritores de autoajuda, a esquerda que recupera filosofias, símbolos e cultos pagãos: todos dançam nus, noite após noite, em torno de uma imensa fogueira, embriagados por algum tipo de chá, sonhando que copulam com golfinhos, ninfas, sátiros... São personagens de um vasto painel naïf, pueris em suas cantigas de roda, em seu enaltecimento do corpo, em seus rituais dionisíacos, em sua crença de que vivem além do bem e do mal, enquanto o mundo segue uma trajetória nada inocente. Lembram Nietzsche dando entrada no manicômio de Jena: fazem grandes reverências, andam de forma majestática, com o olhar preso ao teto, e agradecem pela “magnífica acolhida”. As diversas formas de “amor a Gaia” representam uma alucinação coletiva, um retorno ao que existe de mais primitivo. A esperança foi acorrentada ao transitório por esses ilusionistas, seguidores tardios de Franz Mesmer. E eles prometem, solenemente, o mais nobre dos fins ao homem de hoje, quando lhe perguntarão, cheios de ingênua arrogância: “M. Valdemar, can you explain to us what are your feelings or wishes now?”.

maio 10, 2012

Presunção e vanidade


“Somos tão presunçosos que gostaríamos de ser conhecidos por toda a terra e até por pessoas que virão quando não existirmos mais. E somos tão vãos que a estima de cinco ou seis pessoas que nos cercam nos distrai e nos contenta.” – Pascal

maio 09, 2012

Literatura, subjetivismo e covardia


Vivemos uma época de simplismos. Ou melhor, um tempo no qual o simplismo e o raciocínio esquemático pretendem substituir os caminhos do espírito que, demonstrando coragem e maturidade, olha para si mesmo, em seguida, prolongadamente, para o real, volta-se mais uma vez para o seu próprio eu – e só então expressa suas ideias, seus sentimentos.


Esta é uma época na qual a imprudência e a precipitação brilham a cada textinho de quatro ou seis parágrafos, escrito com a arrogância de ser não só uma reflexão, mas de apontar caminhos, soluções, regras, quando não verdades.


Um tempo em que os textos fedem a rascunho, a esboço. A boa menina faz seu resuminho escolar com capricho, usa canetinhas coloridas para as flores das margens, numera as linhas – e fecha a página do caderno com delicada iluminura. Mas o texto continua um resumo. O esquematismo refulge a cada linha.


Assim, a coluninha de jornal se transforma em ensaio, o conto estendido em romance, as trinta linhas repetindo lições de Derrida em crítica literária.


Ora, quando o centro da consciência já não é a verdade, mas apenas o gosto efêmero, então o subjetivismo comanda. É o império dos croniqueiros, coelhinhos de olhar róseo, tiques nervosos e pelagem branca, apressados e superficiais. Tempo triste, desolador – não só para a literatura –, no qual os homens, sem perceber, se transformam em covardes, pois só têm uma única resposta aos seus desejos pessoais e ao senso comum: Sim.

maio 08, 2012

À espera de justiça


Este mês, no jornal Rascunho, falo sobre o esquecido romance A falência, de Júlia Lopes de Almeida:

No tecido da literatura brasileira há um vigor que não cansa de pulsar. São os autores esquecidos, sobranceados pelos que, injustamente, se tornaram famosos. Traídos pelas convenções estéticas, pelas panelinhas que controlam os cadernos culturais e pelos críticos obedientes a modismos, esses menosprezados cumprem, no entanto, digno papel: o de aguilhoar o establishment e comprovar que, andando na contramão, também é possível produzir boa literatura. Silentes, preenchendo as prateleiras dos sebos ou o canto úmido das bibliotecas, tais obras sussurram aos novos escritores: “Não receiem tomar emprestados meus acertos e melhores lições”.

maio 02, 2012

A crise dos jesuítas na América Latina


Em seu texto de hoje, o vaticanista Andrés Beltramo fala sobre a crise vivida pelos jesuítas latino-americanos. Não, não se trata de uma crise eventual, infelizmente. Trata-se, na verdade, de nítida ruptura, de escancarado desejo de insubordinação, de um patente movimento de secularização e laxismo que congrega parcela significativa da Companhia de Jesus, ordem que já foi conhecida por sua absoluta fidelidade ao Papa.

As denúncias apresentadas por Beltramo, contudo, ainda que gravíssimas, revelam apenas parte do declínio moral, filosófico e teológico vivido pelos jesuítas latino-americanos. Veja-se, por exemplo, no Brasil, o caso do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, cisto de filosofia marxista e projeto revolucionário que defende, abertamente, o que de mais radical há na Teologia da Libertação. Os jesuítas ali reunidos são, inclusive, anacrônicos – comprova-o o slogan de 1968 que serve como epígrafe e eixo estratégico do IHU: “Arrisca teus passos por caminhos pelos quais ninguém passou; arrisca tua cabeça pensando o que ninguém pensou”.

Sob o romantismo passadista dessa frase de efeito, esconde-se o esquerdismo e cultua-se, em nome da liberdade de pensamento, a vocação de afrontar o Magistério da Igreja e a Santa Tradição, tarefa que os jesuítas ali reunidos desempenham incansável e cotidianamente, amparados pelos superiores coniventes e por um episcopado dividido entre a tolerância excessiva – agradavelmente disfarçada de indulgência evangélica – e a timidez.

Agora mesmo prepara-se ali um Congresso Continental de Teologia, a ser realizado em outubro deste ano, cujo nome, no entanto, é deixado propositalmente incompleto, para camuflar o seu real objetivo: cultuar a Teologia da Libertação – é o que qualquer inteligência de média capacidade pode concluir dos textos que apresentam o evento.

Os jesuítas da Unisinos dão, assim, mais um passo no anelado projeto – deles e de parte dos nossos bispos – de desligar a Igreja latino-americana de Roma; de erigir a Teologia da Libertação à condição de pensamento hegemônico; de pensar e agir sem qualquer colegialidade – ou melhor, de construir uma falsa colegialidade, na qual as conferências episcopais passariam a falar ex cathedra e o Papa não seria o sucessor de Pedro, mas apenas um mero adereço.

Parte das consequências desse tipo de comportamento se manifesta na confusão moral, na achincalhação teológica defendida pelo jesuíta chileno Pedro Labrín, analisada com destemor por Andrés Beltramo. Há muito mais, contudo. A teologia defendida pelos jesuítas, incluindo os da Unisinos, é a grande arma de guerra que, nos últimos anos, destruiu a liturgia em centenas de nossas paróquias, transformando a celebração do Sacrifício de Jesus Cristo em festinhas de confraternização, reuniões sindicais ou encontros para se cantar, sapatear e saracotear ao ritmo de hinos protestantes ou canções que se assemelham a marchinhas de Carnaval.

Número significativo de jesuítas latino-americanos especializou-se em cumprir apenas a primeira parte da recomendação, apócrifa, de Inácio de Loyola – “Confia em Deus mas age como se o resultado de teus empreendimentos só dependesse de ti e não de Deus” –, preferindo esquecer o restante: “Entretanto, mesmo dedicando todos os teus cuidados a tais empreendimentos, age como se tua ação devesse ser nula e como se Deus devesse tudo fazer”.    

Sob a inspiração do Instituto Humanitas Unisinos – e de outros centros de teologia secularista –, os “padres de passeata” de Nelson Rodrigues se transformaram em perigosos neopelagianos, padres de chinelo, anelzinho de plástico imitando osso, rotas calças jeans e missas-relâmpago, nas quais a consagração é somente um elemento fortuito, superado pela “alegria de estar entre irmãos”. Eles certamente se acreditam os novos Franciscos de Assis, os novíssimos Inácios de Loyola, mas não passam de corruptelas do que a História da Igreja produziu de mais nobre e mais puro. Sob a bem cuidada imagem de vanguardistas, carregam o estandarte da decadência teológica, de uma teologia que não consegue erguer o olhar acima do próprio umbigo.

maio 01, 2012

O segredo do Papa Ratzinger


“À fé nula ou escassa de tantos homens de hoje, nas missas banalmente reduzidas a abraços da paz e assembleias solidárias, o papa Bento XVI oferece a fé substancial em um Deus que se faz realmente próximo, que se deixa tocar e comer.”

(Para aqueles que desejarem, em espanhol, a íntegra do artigo de Sandro Magister.)

abril 28, 2012

A ditadura do pensamento débil e a Igreja


“Sua mera existência [da Igreja Católica] como ‘metarrelato’, como visão densa do mundo, que utiliza ainda um conceito forte de verdade objetiva, resulta intolerável numa atmosfera intelectual presidida pelo pensamento débil, pela desconstrução pós-moderna, pela ‘ditadura do relativismo’ e pela convicção de que a crença em absolutos é sinônimo de fundamentalismo e intolerância.”

(in Nueva izquierda y Cristianismo, de Francisco José Contreras y Diego Poole)

abril 27, 2012

A dissidência, a fé dos simples e o neoclericalismo

Ótimo artigo do vaticanista Andrea Tornielli, publicado em Vatican Insider. Serve como uma luva a grande parte do mundo eclesiástico brasileiro, incluindo os teólogos esquerdistas.

abril 26, 2012

A importância da coragem literária


[...] A necessidade de cálculos prolongados ou o estabelecimento de esquemas complicados impedem o medroso e o inexperiente de se lançar a um estudo mais complexo; mas se dispomos de suficiente habilidade para analisar esses cálculos e estudar os princípios em que se baseiam, descobriremos que nossos medos careciam de fundamento. Divide e conquistarás é um princípio que se ajusta tanto à ciência como à política. As complicações constituem uma espécie de confederação que, enquanto está unida, desafia de forma ousada o cérebro mais ativo e poderoso; contudo, quando a desagregamos e tomamos suas partes em separado, pode-se submetê-la sem dificuldade e destruí-la sem oposição.

– Samuel Johnson

abril 24, 2012

Só uma coisa é sempre mortal


“Quando, depois de muitas mortes, morremos pela última vez, então nesse ato de vida suprema a existência deixou de morrer. Só uma coisa é sempre mortal: não querer morrer enquanto se vive. Toda morte realizada voluntariamente é origem de vida.”
—        Hans Urs von Balthasar

abril 19, 2012

Quando o sal ganha verdadeiro sabor – 7 anos de pontificado


Para comemorar o 7º ano do pontificado de Bento XVI, publico, a seguir, um trecho de sua homilia na Praça Terreiro do Paço de Lisboa, no dia 11 de maio de 2010:

Sabemos que não lhe faltam filhos insubmissos e até rebeldes, mas é nos Santos que a Igreja reconhece os seus traços característicos e, precisamente neles, saboreia a sua alegria mais profunda. Irmana-os, a todos, a vontade de encarnar na sua existência o Evangelho, sob o impulso do eterno animador do Povo de Deus que é o Espírito Santo. Fixando os seus Santos, esta Igreja local concluiu justamente que a prioridade pastoral hoje é fazer de cada mulher e homem cristão uma presença irradiante da perspectiva evangélica no meio do mundo, na família, na cultura, na economia, na política. Muitas vezes preocupamo-nos afanosamente com as consequências sociais, culturais e políticas da fé, dando por suposto que a fé existe, o que é cada vez menos realista. Colocou-se uma confiança talvez excessiva nas estruturas e nos programas eclesiais, na distribuição de poderes e funções; mas que acontece se o sal se tornar insípido?

Para isso é preciso voltar a anunciar com vigor e alegria o acontecimento da morte e ressurreição de Cristo, coração do cristianismo, fulcro e sustentáculo da nossa fé, alavanca poderosa das nossas certezas, vento impetuoso que varre qualquer medo e indecisão, qualquer dúvida e cálculo humano. A ressurreição de Cristo assegura-nos que nenhuma força adversa poderá jamais destruir a Igreja. Portanto a nossa fé tem fundamento, mas é preciso que esta fé se torne vida em cada um de nós. Assim há um vasto esforço capilar a fazer para que cada cristão se transforme em testemunha capaz de dar conta a todos e sempre da esperança que o anima (cf. 1 Pd 3, 15): só Cristo pode satisfazer plenamente os anseios profundos de cada coração humano e responder às suas questões mais inquietantes acerca do sofrimento, da injustiça e do mal, sobre a morte e a vida do Além.

abril 18, 2012

Para esquerdistas, “mensalão é salário justo de operário”


O parnaso-marxismo hegemonizou a estética faz tempo, mas a denúncia irônica de Régis Bonvicino será sempre atual. Abaixo, apenas alguns trechos do seu brilhante libelo “O Parnaso-marxismo”:

O parnaso-marxismo não tem vigor, mas tem rancor. O rancor é o seu verdadeiro “método crítico”.

O parnaso-marxismo fechou – como é habitual – os olhos para o social-liberalismo do PT de Lula. Se não faz crítica (o rancor é seu verdadeiro “método crítico”), em compensação, também não faz autocrítica. Para ele, “mensalão” é salário justo de operário.

O Parnaso-marxismo Inc. tranforma  – atrás de sua tela protetora marxiana – faculdades de Letras públicas em res privata.

abril 16, 2012

A reconquista da alegria


Pensamentos de Bento XVI extraídos do excelente artigo de Andrea Monda, “Un Papa raro: con ‘sentido del humor’”:

“Toda a minha vida está atravessada sempre por um fio condutor que é o seguinte: o cristianismo da alegria alarga os horizontes.”

“Se hoje a humildade foi desacreditada como virtude, não será de todo supérfluo observar que esse descrédito coincide com a grande regressão da alegria na literatura e na filosofia contemporâneas.”

“O elemento constitutivo do cristianismo é a alegria. Alegria não no sentido de uma diversão superficial, cujo fundo pode ser também a desesperação.”

“A alegria é o signo da graça. Quem está profundamente sereno, quem sofreu sem por isso perder a alegria, esse não está longe do Deus do Evangelho, do Espírito de Deus, que é o Espírito da alegria eterna.”

abril 13, 2012

É pouco, CNBB, muito pouco

Não basta uma Nota Oficial – tímida, burocrática e meramente protocolar –, senhores bispos. Não basta uma Nota Oficial que ninguém lê. Queremos ouvi-los clamando nos altares, denunciando em alta e indignada voz nas praças públicas, nos jornais, nas rádios, na Internet. Queremos ver, ouvir e participar da indignação dos senhores e de toda a Igreja. Queremos nos sentir verdadeiramente amparados e defendidos por nossos pastores. Queremos vê-los e ouvi-los agindo, à luz do dia, segundo a exortação de São Paulo: “Não vos conformeis com este mundo” (Rm 12, 2). Façam mais pela verdade, senhores bispos! Façam mais pela vida! 

abril 05, 2012

A homilia que será lembrada para sempre


Na história da Igreja Católica, poucas vezes um papa investiu, em suas homilias, contra um problema específico – e de forma clara, objetiva, sem usar recursos metafóricos. O Beato João Paulo II inaugurou, no século XX, o uso desse discurso direto, chegando a, em algumas oportunidades, admoestar publicamente os que se encontravam no caminho do erro.

Hoje, durante a Santa Missa Crismal, Bento XVI, movido pelo Espírito Santo, pleno de lucidez teológica e amor paternal, respondeu não só ao “Chamado à desobediência” dos padres austríacos, mas também àqueles que, pertencentes à Igreja Universal, semeiam a cizânia, a confusão entre os fieis, difundindo uma teologia “mais voluntariosa que iluminada, inteiramente dedicada à árdua e improvável tarefa de salvar, através de suas próprias categorias, a Jesus Cristo e Sua Palavra”, como bem afirmou, com evidente ironia, Dom Francesco Moraglia, o novo Patriarca de Veneza.

Chamando o clero à obediência, ao abandono do secularismo e do comportamento laxista – aliás, tão comum entre padres e bispos brasileiros –, Bento XVI foi claro: “[...] A configuração a Cristo é o pressuposto e a base de toda a renovação. [...] Os Santos indicam-nos como funciona a renovação e como podemos servi-la. E fazem-nos compreender também que Deus não olha para os grandes números nem para os êxitos exteriores, mas consegue as suas vitórias sob o sinal humilde do grão de mostarda”. De fato, como dizia o Beato Cardeal John Henry Newman, “a crítica à Igreja sem disposição de obedecer resulta necessariamente estéril”.

Mais que uma crítica clara aos que desejam revolucionar a Igreja e lutam abertamente contra a Santa Tradição e o Magistério, as palavras de Bento XVI são um apelo a que toda a hierarquia eclesial retome o “zelo das almas”: “Não se faça a minha vontade, mas a tua: esta é a palavra que revela o Filho, a sua humildade e conjuntamente a sua divindade, e nos indica a estrada”.

Abaixo, segue o texto integral da homilia:

Amados irmãos e irmãs!

Nesta Santa Missa, o nosso pensamento volta àquela hora em que o Bispo, através da imposição das mãos e da oração consacratória, nos integrou no sacerdócio de Jesus Cristo, para sermos «consagrados na verdade» (Jo 17, 19), como Jesus pediu ao Pai na sua Oração Sacerdotal. Ele mesmo é a Verdade. Consagrou-nos, isto é, entregou-nos para sempre a Deus, a fim de que, a partir de Deus e em vista d’Ele, pudéssemos servir os homens. Mas somos também consagrados na realidade da nossa vida? Somos homens que atuam a partir de Deus e em comunhão com Jesus Cristo? Com esta pergunta, o Senhor está diante de nós, e nós diante d’Ele. «Quereis viver mais intimamente unidos a Cristo e configurar-vos com Ele, renunciando a vós mesmos e permanecendo fiéis aos compromissos que, por amor de Cristo e da sua Igreja, aceitastes alegremente no dia da vossa Ordenação Sacerdotal?» Tal é a pergunta que, depois desta homilia, será dirigida singularmente a cada um de vós e a mim mesmo. Nela, são pedidas sobretudo duas coisas: uma união íntima, mais ainda, uma configuração a Cristo e, condição necessária para isso mesmo, uma superação de nós mesmos, uma renúncia àquilo que é exclusivamente nosso, à tão falada autorrealização. É-nos pedido que não reivindique a minha vida para mim mesmo, mas a coloque à disposição de outrem: de Cristo. Que não pergunte: Que ganho eu com isso? Mas sim: Que posso eu doar a Ele e, por Ele, aos outros? Ou mais concretamente ainda: Como se deve realizar esta configuração a Cristo, que não domina mas serve, não toma mas dá. Como se deve realizar na situação tantas vezes dramática da Igreja de hoje? Recentemente, num país europeu, um grupo de sacerdotes publicou um apelo à desobediência, referindo ao mesmo tempo também exemplos concretos de como exprimir esta desobediência, que deveria ignorar até mesmo decisões definitivas do Magistério, como, por exemplo, na questão relativa à Ordenação das mulheres, a propósito da qual o beato Papa João Paulo II declarou de maneira irrevogável que a Igreja não recebeu, da parte do Senhor, qualquer autorização para o fazer. Será a desobediência um caminho para renovar a Igreja? Queremos dar crédito aos autores deste apelo quando dizem que é a solicitude pela Igreja que os move, quando afirmam estar convencidos de que se deve enfrentar a lentidão das Instituições com meios drásticos para abrir novos caminhos, para colocar a Igreja à altura dos tempos de hoje. Mas será verdadeiramente um caminho a desobediência? Nela pode-se intuir algo daquela configuração a Cristo que é o pressuposto para toda a verdadeira renovação, ou, pelo contrário, não é apenas um impulso desesperado de fazer qualquer coisa, de transformar a Igreja segundo os nossos desejos e as nossas ideias?

Mas o problema não é assim tão simples. Porventura Cristo não corrigiu as tradições humanas que ameaçavam sufocar a palavra e a vontade de Deus? É verdade que o fez, mas para despertar novamente a obediência à verdadeira vontade de Deus, à sua palavra sempre válida. O que Ele tinha a peito era precisamente a verdadeira obediência, contra o arbítrio do homem. E não esqueçamos que Ele era o Filho, com a singular autoridade e responsabilidade de desvendar a autêntica vontade de Deus, para deste modo abrir a estrada da palavra de Deus rumo ao mundo dos gentios. E, por fim, Ele concretizou o seu mandato através da sua própria obediência e humildade até à Cruz, tornando assim credível a sua missão. Não se faça a minha vontade, mas a tua: esta é a palavra que revela o Filho, a sua humildade e conjuntamente a sua divindade, e nos indica a estrada.

Deixemo-nos interpelar por mais uma questão: Não será que, com tais considerações, o que na realidade se defende é o imobilismo, a rigidez da tradição? Não! Quem observa a história do período pós-conciliar pode reconhecer a dinâmica da verdadeira renovação, que frequentemente assumiu formas inesperadas em movimentos cheios de vida e que tornam quase palpável a vivacidade inexaurível da santa Igreja, a presença e a ação eficaz do Espírito Santo. E se olharmos para as pessoas de quem dimanaram, e dimanam, estes rios pujantes de vida, vemos também que, para uma nova fecundidade, se requer o transbordar da alegria da fé, a radicalidade da obediência, a dinâmica da esperança e a força do amor.

Queridos amigos, daqui se vê claramente que a configuração a Cristo é o pressuposto e a base de toda a renovação. Mas talvez a figura de Cristo nos apareça por vezes demasiado alta e grande para podermos ousar tomar as suas medidas. O Senhor sabe-o. Por isso providenciou «traduções» em ordens de grandeza mais acessíveis e próximas de nós. Precisamente por este motivo, São Paulo resolutamente diz às suas comunidades: Imitai-me, mas eu pertenço a Cristo. Ele era para os seus fiéis uma «tradução» do estilo de vida de Cristo, que eles podiam ver e à qual podiam aderir. A partir de Paulo e ao longo de toda a história, existiram continuamente tais «traduções» do caminho de Jesus em figuras históricas vivas. Nós, sacerdotes, podemos pensar numa série imensa de sacerdotes santos que vão à nossa frente para nos apontar a estrada, a começar por Policarpo de Esmirna e Inácio de Antioquia, passando por grandes Pastores como Ambrósio, Agostinho e Gregório Magno, depois Inácio de Loiola, Carlos Borromeu, João Maria Vianney, até chegar aos sacerdotes mártires do século XX e, finalmente, ao Papa João Paulo II, que, na acção e no sofrimento, nos serviu de exemplo na configuração a Cristo, como «dom e mistério». Os Santos indicam-nos como funciona a renovação e como podemos servi-la. E fazem-nos compreender também que Deus não olha para os grandes números nem para os êxitos exteriores, mas consegue as suas vitórias sob o sinal humilde do grão de mostarda.

Queridos amigos, queria ainda, brevemente, acenar a duas palavras-chave da renovação das promessas sacerdotais, que deveriam induzir-nos a refletir nesta hora da Igreja e da nossa vida pessoal. Em primeiro lugar, é-nos recordado o facto de sermos – como se exprime Paulo - «dispensadores dos mistérios de Deus» (1 Cor 4, 1) e que nos incumbe o ministério de ensinar, o (munus docendi), que constitui precisamente uma parte desta distribuição dos mistérios de Deus, onde Ele nos mostra o seu rosto e o seu coração, para Se dar a Si mesmo. No encontro dos Cardeais por ocasião do recente Consistório, diversos Pastores, baseando-se na sua experiência, falaram dum analfabetismo religioso que cresce no meio desta nossa sociedade tão inteligente. Os elementos fundamentais da fé, que no passado toda e qualquer criança sabia, são cada vez menos conhecidos. Mas, para se poder viver e amar a nossa fé, para se poder amar a Deus e, consequentemente, tornar-se capaz de O ouvir corretamente, devemos saber aquilo que Deus nos disse; a nossa razão e o nosso coração devem ser tocados pela sua palavra. O Ano da Fé, a comemoração da abertura do Concílio Vaticano II há 50 anos, deve ser uma ocasião para anunciarmos a mensagem da fé com novo zelo e nova alegria. Esta mensagem, na sua forma fundamental e primária, encontramo-la naturalmente na Sagrada Escritura, que não leremos nem meditaremos jamais suficientemente. Nisto, porém, todos sentimos necessidade de um auxílio para a transmitir rectamente no presente, de modo que toque verdadeiramente o nosso coração. Este auxílio encontramo-lo, em primeiro lugar, na palavra da Igreja docente: os textos do Concílio Vaticano II e o Catecismo da Igreja Católica são os instrumentos essenciais que nos indicam, de maneira autêntica, aquilo que a Igreja acredita a partir da Palavra de Deus. E naturalmente faz parte de tal auxílio todo o tesouro dos documentos que o Papa João Paulo II nos deu e que está ainda longe de ser cabalmente explorado.

Todo o nosso anúncio se deve confrontar com esta palavra de Jesus Cristo: «A minha doutrina não é minha» (Jo 7, 16). Não anunciamos teorias nem opiniões privadas, mas a fé da Igreja da qual somos servidores. Isto, porém, não deve naturalmente significar que eu não sustente esta doutrina com todo o meu ser e não esteja firmemente ancorado nela. Neste contexto, sempre me vem à mente o seguinte texto de Santo Agostinho: Que há de mais meu do que eu próprio? E no entanto que há de menos meu do que o sou eu mesmo? Não me pertenço a mim próprio e torno-me eu mesmo precisamente pelo facto de me ultrapassar a mim próprio e é através da superação de mim próprio que consigo inserir-me em Cristo e no seu Corpo que é a Igreja. Se não nos anunciamos a nós mesmos e se, intimamente, nos tornamos um só com Aquele que nos chamou para sermos seus mensageiros de tal modo que sejamos plasmados pela fé e a vivamos, então a nossa pregação será credível. Não faço publicidade de mim mesmo, mas dou-me a mim mesmo. Como sabemos, o Cura d’Ars não era um erudito, um intelectual. Mas, com o seu anúncio, tocou os corações das pessoas, porque ele mesmo fora tocado no coração.

A última palavra-chave, a que ainda queria aludir, designa-se zelo das almas (animarum zelus). É uma expressão fora de moda, que hoje já quase não se usa. Nalguns ambientes, o termo «alma» é até considerado como palavra proibida, porque – diz-se – exprimiria um dualismo entre corpo e alma, cometendo o erro de dividir o homem. Certamente o homem é uma unidade, destinada com corpo e alma à eternidade. Mas isso não pode significar que já não temos uma alma, um princípio constitutivo que garante a unidade do homem durante a sua vida e para além da sua morte terrena. E, enquanto sacerdotes, preocupamo-nos naturalmente com o homem inteiro, incluindo precisamente as suas necessidades físicas: com os famintos, os doentes, os sem-abrigo; contudo, não nos preocupamos apenas com o corpo, mas também com as necessidades da alma do homem: com as pessoas que sofrem devido à violação do direito ou por um amor desfeito; com as pessoas que, relativamente à verdade, se encontram na escuridão; que sofrem por falta de verdade e de amor. Preocupamo-nos com a salvação dos homens em corpo e alma. E, enquanto sacerdotes de Jesus Cristo, fazemo-lo com zelo. As pessoas não devem jamais ter a sensação de que o nosso horário de trabalho cumprimo-lo conscienciosamente, mas antes e depois pertencemo-nos apenas a nós mesmos. Um sacerdote nunca se pertence a si mesmo. As pessoas devem notar o nosso zelo, através do qual testemunhamos de modo credível o Evangelho de Jesus Cristo. Peçamos ao Senhor que nos encha com a alegria da sua mensagem, a fim de podermos servir, com jubiloso zelo, a sua verdade e o seu amor. Amém.

abril 04, 2012

Memória e lágrimas: “Os desaparecidos – a procura de 6 em 6 milhões de vítimas do Holocausto”, de Daniel Mendelsohn


No Canto I da Eneida, o protagonista, Eneias, se depara, em certo templo de Cartago, com um mural que retrata a Guerra de Troia, de que fora um dos poucos sobreviventes. E, chorando, lastima: Sunt lacrimae rerum, et mentem mortalia tangunt (“Há lágrimas nas coisas, e os sofrimentos tocam nossa alma”). Para Daniel Mendelsohn, autor de Os desaparecidos – a procura de 6 em 6 milhões de vítimas do Holocausto, a primeira parte desse verso se transforma, à medida que o escritor avança em sua busca, numa “espécie de legenda para distâncias comoventemente insuperáveis criadas pelo tempo”. No caso de Eneias, o adorno do templo cartaginês representou a revivescência de um fato terrível. No que se refere a Mendelsohn, o autor testemunha emoção semelhante à do troiano quando apresenta, a uma de suas entrevistadas, fotografias dos familiares mortos no Holocausto: para ele, imagens de parentes quase desconhecidos, dos quais tentava se aproximar décadas depois de terem sido assassinados; mas à idosa sentada a seu lado, que convivera vários anos com aquelas pessoas e participara dos acontecimentos brutais que as condenaram à morte, as fotos tinham um significado pungente. “Eles estiveram lá e nós, não”, conclui Mendelsohn, e assevera: “Há lágrimas nas coisas; mas todos nós choramos por razões diferentes”.

De fato, a ampla, exaustiva investigação de Os desaparecidos é uma pugna detetivesca, às vezes angustiosa, às vezes consoladora, mas sempre lacunar, marcada pela distância não só temporal, não apenas física, mas também psicológica. Em vão Mendelsohn tentará preencher o vácuo que o separa dos familiares mortos sob o nazismo, pois, apesar de todas as suas inúmeras descobertas, ele guarda uma torturante certeza:

[...] quanto mais eu conversava com as pessoas, mais estava ciente de quanto simplesmente não pode ser conhecido, em parte porque a coisa [...] jamais foi testemunhada e, portanto, é agora incognoscível, e em parte porque a própria memória daquelas coisas que foram testemunhadas pode pregar peças, pode omitir o que é doloroso demais, ou ser enfeitada de modo a se adequar a um padrão do qual gostamos.

Sim, nenhum esforço, nenhum empenho poderá preencher as fissuras que nascem desta certeza: “Eles estiveram lá e nós, não”. Ou, como diz padre António Vieira, “os discursos de quem não viu, são discursos; os discursos de quem viu, são profecias”.

Mas, de que forma nasce Os desaparecidos? O que move seu autor na direção do passado, em busca da vida e da morte de seis parentes – o tio-avô materno, sua esposa e as quatro filhas – perdidos entre seis milhões de vítimas?

Tudo começa por uma leve semelhança e as reações que ela provoca. Quando menino, Mendelsohn tem alguns traços – certo arco desenhado pela sobrancelha e a linha do queixo – de Shmiel Jäger, o tio-avô. E sempre que os parentes veem a criança, a emoção, incontrolável, aflora. Com o tempo, às perguntas sobre o motivo das lágrimas acrescenta-se a personalidade do garoto que criva o avô materno – homem refinado, religioso, que “transpira europeidade” – de perguntas e não se cansa de ouvi-lo contar histórias familiares, dentre as quais, a dos seis mortos é a única que permanece incompleta. Somem-se a tais elementos o adolescente que ama o estudo, a busca da verdade, a incansável classificação de informações, e o adulto apaixonado pela literatura clássica – e teremos o quadro propício à investigação serena, lúcida, que Mendelsohn empreende, emocionando-se diante de cada nova descoberta, sem desistir mesmo quando sofre decepções. Uma pesquisa que procura saber, minuciosamente, não apenas como seis pessoas morreram, mas também como viveram e... como viveram seus últimos momentos.

Daniel Mendelsohn cria, assim, uma impressionante teia de memórias, na qual se entrecruzam o epistolário familiar, genealogias, testemunhos de sobreviventes, viagens transoceânicas, história do antissemitismo, exegese bíblica e poucos mas surpreendentes sincronismos.

Consciência do efêmero

A estrutura do livro obedece a um permanente diálogo entre as descobertas do autor e seus pensamentos sobre duas diferentes interpretações da Torá: a do rabino francês Shlomo ben Itz’hak, mais conhecido como Rashi, nascido em Troyes, em 1040, e a do rabi Richard Elliot Friedman, mais recente, que busca ligar o texto antigo à vida contemporânea. Os comentários desses estudiosos iluminam as idas e vindas de Mendelsohn, que recupera várias das loucuras cometidas em nome do antissemitismo – das vinganças ocasionais aos assassinatos sistemáticos das aktionen nazistas, passando por diferentes perseguições de ordem econômica –, parte da história da Galícia, figuras marcantes do pensamento judaico e o somatório de detalhes que compõem a existência dos heróis anônimos que, vivendo na cidadezinha polonesa onde seu tio-avô residia – Bolechow (hoje Bolekhiv, na Ucrânia) –, conseguiram sobreviver.

Mendelsohn constrói lentamente sua narrativa, apoiando-se nesses fragmentos de memórias sofridas, das quais, muitas vezes, avulta a pior das dores, a psíquica. Enquanto descortina a verdade sobre seus familiares, também acorda para suas lembranças da infância – quando se sentia decepcionado com seu povo, que lhe parecia, ele confessa, “um povo de perdedores” – e da adolescência, quando compreende o que é ser judeu e de como estava ligado a uma intrincada e milenar trama de relações.  

Sessenta anos depois do Holocausto e duas décadas após o suicídio de seu avô, que já não suportava a tortura do câncer, Mendelsohn aprenderá que o trivial pode se transformar, com a passagem do tempo, em algo merecedor de ser preservado. Cada nova revelação ampliará sua angústia, fazendo-o tomar consciência de como “é fácil para alguém se perder, permanecer desconhecido para sempre”. Durante os longos meses em que procura dar vida aos que morreram, experimentará a decepção de não poder modificar o passado – e também, durante raros e gratificantes momentos, a proximidade com os mortos, até acordar para a verdade das palavras do irmão que o acompanha na maioria das viagens: “o Holocausto não foi algo que simplesmente aconteceu, mas é um evento que ainda está acontecendo”.

Duplo investigador

Contudo, se há uma característica central nessa busca que se defronta ora com testemunhos contraditórios, ora com relatos que desmentem, inclusive, parte das histórias que o próprio avô de Mendelsohn contava, ela tem um nome: fragilidade. Mas, terrível ironia, é exatamente essa fragilidade, nascida da distância de que falávamos acima, que permite a existência do narrador, daquele que se propõe contar a história.

Dentre outros méritos, o narrador de Os desaparecidos não hesita em expor até mesmo divisões familiares, velhos ressentimentos. Não o faz para obedecer a alguma doentia compulsão, mas porque – movido, aparentemente, pela sinceridade – estabelece analogias entre o passado de seus ancestrais, próximos e distantes, e as descobertas que realiza no presente, utilizando-as como parte de seu método investigativo. Acompanhamos, assim, um duplo pesquisador: o que interroga suas testemunhas e o que se questiona sobre de que maneira as respostas obtidas não só o aproximam ou afastam da verdade, mas também lhe franqueiam as portas do autoconhecimento e das raízes do judaísmo.

Dotado de bom humor, destituído de qualquer ingenuidade, Mendelsohn está certo de que todo conhecimento traz, em seu bojo, alguma dor – e que se há orgulho na acumulação do saber, há também a possibilidade de conhecer certas coisas tarde demais para que nos façam algum bem. Dessa forma, ele nunca deixa de se perguntar se deve ou não prosseguir.

Inspirando-se na técnica narrativa do avô, plena de digressões, técnica reencontrada, anos mais tarde, em Homero, Heródoto, Proust e Sebald, esse narrador detalhista mostra-se capaz de analisar inclusive sutilezas linguísticas, com o objetivo de esclarecer, por exemplo, o sentido de uma palavra em iídiche – e assim iluminar sua história e a de seu povo.

Mas, insisto, trata-se, acima de tudo, de uma voz consciente de que seu olhar e suas conclusões sobre o testemunho dos que viveram o Holocausto é, somente, uma frágil aproximação da verdade.

O homem que vê e se vê

Homenagem aos que se recusam a esquecer, preito à memória, a cada página de Os desaparecidos ressoa a exclamação: lembrem dos judeus de Bolechow, daqueles milhares que foram humilhados gratuitamente e morreram sob a iniquidade. Ao final, deles restaram apenas 48, dispersos sobre a terra. E lembrem-se também daqueles seis, emudecidos pelo ódio.

Mais de três séculos antes de Os desaparecidos ser publicado, no ano de 1674, em Roma, pronunciando, perante a rainha Cristina da Suécia, o panegírico “Lágrimas de Heráclito”, António Vieira comentava o verso de Virgílio que Mendelsohn escolheu como epígrafe:

Não residem as lágrimas só nos olhos, que veem os objetos, mas nos mesmos objetos, que são vistos; ali está a fonte, aqui está o rio; ali nascem as lágrimas, aqui correm; e se as mesmas coisas que não veem, choram, quanto mais razão tem o homem que vê e se vê?.


Quando chegamos às páginas finais de Os desaparecidos, descobrimos – ou lembramos – quão extensa é a dor que impregna a vida – ainda que tal verdade seja perceptível apenas ao “homem que vê e se vê” –, pois o relato de Daniel Mendelsohn nos fornece inúmeras, desoladoras razões para distinguir as lágrimas das coisas, chorar com elas – e também por nós.