agosto 15, 2011

“Inocência”, de Taunay: valioso – mas desigual

Sejamos claros: Inocência, de Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay, mais conhecido como visconde de Taunay, é um romancinho sentimental, contaminado daquele sentimentalismo – tão próprio dos românticos brasileiros – que dá vida a Romeus e Julietas apartados do gênio shakespeariano. Neste caso, a filha dos Capuletos é uma jovem de atrativos duvidosos, agradáveis aos que nascem e vivem na rudeza do sertão – “Vinha vestida de uma saia de algodão grosseiro e, à cabeça, trazia uma grande manta da mesma fazenda, cujas dobras as suas mãos prendiam junto ao corpo. Estava descalça, e a firmeza com que pisava o chão coberto de seixinhos e gravetos, mostrava que o hábito lhe havia endurecido a planta dos pés, sem lhes alterar, contudo, a primitiva elegância e pequenez” – ou aos que, semelhantes a Taunay, forçado a passar longo tempo sob situações adversas, encontram maneiras censuráveis de satisfazer as pulsões sexuais: em suas Memórias, ele recorda o período durante o qual, ocupando o posto de engenheiro do exército na Guerra do Paraguai, enfurnado no sertão mato-grossense, comprou de certo homem, hábil negociante, a posse da filha, uma indiazinha chané, por “um saco de feijão, outro de milho, dois alqueires de arroz, uma vaca para o corte e um boi de montaria”, valores aos quais teve de acrescentar, a fim de conseguir a plena anuência da jovem, “um colar de contas de ouro, que, em Uberaba, me havia custado quarenta ou cinquenta mil-réis”. Participando de uma guerra, estacionado nesta ou naquela vila, Taunay, dócil à lei da necessidade, certamente idealizou os pés grosseiros da indiazinha – além de outros detalhes, inarráveis –, a ponto de, anos mais tarde, escrever:

[...] Em tudo lhe achava graça, especialmente no modo ingênuo de dizer as coisas e na elegância inata dos gestos e movimentos. Embelezei-me de todo por esta amável rapariga e, sem resistência, me entreguei ao sentimento forte, demasiado forte, que em mim nasceu. Passei, pois, ao seu lado dias descuidosos e bem felizes, desejando de coração que muito tempo decorresse antes que me visse constrangido a voltar às agitações do mundo, de que me achava tão separado e alheio.

Pensando por vezes e sempre com sinceras saudades daquela época, quer parecer-me que essa ingênua índia foi das mulheres a quem mais amei.

Sentimentos que inspiraram um conto, “Ierecê a Guaná”, e, sem dúvida, Inocência.

De volta à realidade e às “agitações do mundo” – que lhe conferiram, até a queda do Império, honrarias próprias de um respeitável homem público, merecedor da confiança de Pedro II –, Taunay casou-se com Cristina Teixeira Leite, filha e neta de barões. Como disse G. K. Chesterton, “a sentimentalidade, a que é de bom gosto chamar de doentia, é de todas as coisas a mais natural e saudável; é a verdadeira extravagância da saúde juvenil”.

Verbosidade

Questões biográficas à parte, Inocência tem recebido encômios dos principais críticos brasileiros, algumas vezes com evidente exagero. Trata-se de prática rotineira entre nós, infelizmente, chamar de genial o apenas razoável, como se o país, destituído de um número de gênios que corresponda ao tamanho do seu território, se dispusesse a criá-los à força, ainda que, para tanto, fosse obrigado a edulcorar a verdade. E não há exagero em minhas palavras. Leiam os cadernos culturais: aqui, nasce um gênio a cada semana. É pena que a quase absoluta maioria tenha vida efêmera – muitos não resistem à primeira troca de fraldas; poucos, cujos amigos estão nos postos certos, ganham sobrevida de uma década.

Mas a fama de Taunay não se deve ao empenho de pistolões. Somaram-se alguns fatores para conceder à ficção do visconde a importância de que desfruta ainda hoje: Inocência é o primeiro sopro, razoavelmente feliz, do realismo; o sinal de que, enfim, a temática dos nossos escritores começava a mudar e, lentamente, afastava-se da estética romântica. Acrescentemos a isso o ímpeto de se agarrar a qualquer tábua de salvação – afinal, precisamos de bons escritores! –, as poucas e inegáveis qualidades do livro, a recepção positiva da obra no exterior e a vocação repetitória de parcela da nossa crítica – e entenderemos como Taunay chegou ao panteão da literatura brasileira.

O texto que mais se aproxima do equilíbrio, quando se trata de analisar a ficção de Taunay, é o capítulo “Ecos românticos, veleidades realistas” do livro Prosa de ficção, escrito por Lúcia Miguel-Pereira. A autora capta os matizes do período de passagem do romantismo à obra madura de Machado de Assis – e quando chega a Taunay, não deixa, apesar das contemporizações, de apontar problemas. Lúcia cita qualidades do escritor – “o íntimo sentimento da língua, a graça da narrativa, o poder de animar as personagens, a arte de criar ressonâncias” – mas ressalta que ele as possuía “sem grande relevo”. Aponta também sua falta de “dotes para os conflitos psicológicos”; salienta o pernosticismo de suas personagens femininas; e, ao falar de Inocência, acrescenta ao último senão a simplicidade esquemática das personagens e o caráter “bastante prolixo” de seu narrador.

De fato, Taunay sofre de uma tendência irrefreável à verbosidade. Estilo, aliás, que contaminou Euclides da Cunha, cujos ritmo da frase e organização dos parágrafos assemelham-se aos do visconde. O leitor que cotejar trechos de Os Sertões com o primeiro capítulo de Inocência ficará desagradavelmente surpreso. Assim escreve Taunay:

Através da atmosfera enublada mal pode então coar a luz do sol. A incineração é completa, o calor intenso; e nos ares revoltos volitam palhinhas carboretadas, detritos, argueiros e grânulos de carvão que redemoinham, sobem, descem e se emaranham nos sorvedouros e adelgaçadas trombas, caprichosamente formadas pelas aragens, ao embaterem umas de encontro às outras.

Por toda a parte melancolia; de todos os lados tétricas perspectivas.

É cair, porém, daí a dias copiosa chuva, e parece que uma varinha de fada andou por aqueles sombrios recantos a traçar às pressas jardins encantados e nunca vistos. Entra tudo num trabalho íntimo de espantosa atividade. Transborda a vida. Não há ponto em que não brote capim, em que não desabrochem rebentões com o olhar sôfrego de quem espreita azada ocasião para buscar a liberdade, despedaçando as prisões da penosa clausura.

Àquela instantânea ressurreição nada, nada pode pôr peias.

E ele segue, adicionando adjetivos sobre adjetivos, a ponto de causar entojo:

Basta uma noite, para que formosa alfombra verde, verde-claro, verde-gaio, acetinado, cubra todas as tristezas de há pouco. Aprimoram-se depois os esforços; rompem as flores do campo que desabotoam às carícias da brisa as delicadas corolas e lhes entregam as primícias dos seus cândidos perfumes.

Quando Taunay narra, a enumeração detalhada significa, principalmente, adjetivar. Antes dos trechos acima, ao descrever o princípio do incêndio, as chamas são “esguias”, “trêmulas”, “medrosas”, “vacilantes” e “sôfregas” – e isso num espaço de três ou quatro linhas. Mais à frente, o leitor desavisado pode sofrer engulhos diante do texto piegas, que exibe as piores características do romantismo brasileiro:

Se falham essas chuvas vivificadoras, então por muitos e muitos meses, aí ficam aquelas campinas, devastadas pelo fogo, lugrubemente iluminadas por avermelhados clarões sem uma sombra, um sorriso, uma esperança de vida, com todas as suas opulências e verdejantes pimpolhos ocultos, como que raladas de dor e mudo desespero por não poderem ostentar as riquezas e galas encerradas no ubertoso seio.

Problemas que se repetem no transcorrer do romance, como nesta aula de empolamento, no Capítulo XXIII, em que aprendemos a descrever com exagero ou enfadar leitores:

Aquela hora dava a lua de minguante alguma claridade à terra; entretanto, como que se pressentia outra luz a preparar-se no céu para irradiar com súbito esplendor e infundir animação e alegria à natureza adormecida. Nos galhos das laranjeiras, ouvia-se o pipilar de pássaros prestes a despertar, um gorjeio íntimo e aveludado de ave que cochila; e ao longe um sabiá mais madrugador desfiava melodias que o silêncio harmoniosamente repercutia. Riscava-se o oriente de dúbias linhas vermelhas, prenúncio mal percebível da manhã; nos espaços pestanejavam as estrelas com brilho bastante amortecido, ao passo que fina e amarelada névoa empalecia o tênue segmento iluminado do argênteo astro.

Não basta a Taunay listar os sinais do amanhecer; ele é magnetizado pelo circunlóquio: a cena pegajosa está colocada diante do leitor, os adjetivos encharcam a página, mas o visconde precisa adicionar ainda mais retórica e dizer “prenúncio mal percebível da manhã”. Reencontraremos esse vício, em diferentes proporções. Quase no final, quando Cirino conhece o sertanejo a quem Inocência está prometida, pensa: “– Enfim, conheci o Manecão! [...] E para esse é que reservam a minha gentil Inocência?!... Bonito homem para qualquer... para mim, para ela, horrendo monstro!... E como é forte!”. Não satisfeito, o narrador se intromete, a fim de completar o que não necessita de complemento: “Digamo-lo, sem por isso amesquinhar o nosso herói, a ideia de força do rival acabrunhava-o”. E de maneira a comprovar a superfluidade da intromissão, volta a permitir que seu personagem reflita: “– Se eu pudesse... esmagava-o!... E que ar sombrio e desconfiado!... Meu Deus, daí-me coragem... [...]”. Outras vezes, ele opta pela construção pleonástica evidente e pode deixar escapulir uma “carniça putrefata”.

Apesar de nascido no Brasil, Taunay era descendente de nobres franceses. Em família, aprendeu, desde cedo, a fidelidade ao sistema monárquico e às raízes aristocráticas. Dedicado ao país – sua digna carreira política só foi cerceada pelo advento da República –, parecia, no entanto, escrever para deleite dos europeus. Em Inocência, o narrador interrompe seu relato a fim de explicar a esses hipotéticos leitores o comportamento dos personagens e os costumes da região; e o faz com estranho distanciamento, assumindo a voz do etnógrafo que narra a estrangeiros os traços exóticos de certo povo.

No Capítulo V, Pereira, o pai de Inocência, verbaliza sua opinião sobre as mulheres:

– Esta obrigação de casar as mulheres é o diabo!... Se não tomam estado, ficam jururus e fanadinhas...; se casam podem cair nas mãos de algum marido malvado... E depois, as histórias!... Ih, meu Deus, mulheres numa casa, é coisa de meter medo... São redomas de vidro que tudo pode quebrar... Enfim, minha filha, enquanto solteira, honrou o nome de meus pais... O Manecão que se aguente, quando a tiver por sua... Com gente de saia não há que fiar... Cruz! botam famílias inteiras a perder, enquanto o demo esfrega um olho.

Preconceituosas, as palavras refletem o pensamento típico do homem rude ou interiorano, transmitido boca a boca até hoje, e recuperam a saborosa forma de falar da gente simples. Taunay, contudo, se encarrega de enfraquecer a naturalidade do parágrafo, acrescentando:

Esta opinião injuriosa sobre as mulheres é, em geral, corrente nos nossos sertões e traz como consequência imediata e prática, além da rigorosa clausura em que são mantidas, não só o casamento convencionado entre parentes muito chegados para filhos de menor idade, mas sobretudo os numerosos crimes cometidos, mal se suspeita possibilidade de qualquer intriga amorosa entre pessoa da família e algum estranho.

Passamos, assim, da ficção ao relatório de excentricidades, o que talvez justifique as inúmeras traduções do livro na Europa. Pari passu, várias notas de rodapé servem a igual propósito. No Capítulo XVI, a divertida negociação entre o curandeiro Cirino e um paciente sovina, que regateia o preço do tratamento, estabelecido em “cem mil réis”, é ilustrada pela nota de rodapé que o visconde deve ter considerado importantíssima: “É o preço por que um curandeiro queria curar um empalamado, por cuja fazendola passamos em julho de 1867, nesse mesmo sertão de Sant’Ana”.

Voltando aos adjetivos, muitas vezes a imaginação de Taunay torna-se febril – e no afã de encontrar o qualificativo correto, acaba fazendo péssimas escolhas. Assim, os buritis começam a “ciciar a modo de harpas eólias”, os cocos são vestidos de “escamas romboidais”, a vila de Sant’Ana do Parnaíba é “sezonática e decadente”, um personagem apresenta respiração “isocrônica e ruidosa”... A infantilização também ronda o livro: um “lepidóptero” pode ser azul “como cerúleo cantinho do céu”.

São inaceitáveis e incompreensíveis, portanto, os juízos a respeito do livro que se consolidaram e continuam a ser repetidos. Os pródigos elogios de José Veríssimo fazem-nos pensar se ele, de fato, leu o livro: “Não havia em Inocência os arrebiques e enfeites com que ainda os melhores dos nossos romances presumiam embelezar-nos a vida e os costumes e a si mesmos sublimarem-se. E com rara simplicidade de meios, língua chã e até comum, estilo natural de quase nenhum lavor literário, composição sóbria, desartificiosa, quase ingênua, e, relativamente à então vigente, original e nova, saía uma obra-prima”. Alfredo Bosi, peremptório e desmedido, diz que, “no âmbito de nosso regionalismo, romântico ou realista, nada há que supere Inocência em simplicidade e bom gosto”. E apenas para citar mais um exemplo, fiquemos com o destempero de João Luiz Lafetá: “[...] A narrativa de Inocência tem a graça das coisas simples, e por isso é que nos atinge de modo tão direto em nossa sensibilidade. Uma história de juventude e amor, contada sem afetação e sem pretensões de grandeza, despida de idealizações eloquentes, tem a exemplaridade dos fatos paradigmáticos, representa com exatidão um dos grandes momentos da vida de cada um de nós”.

Antevisão do realismo

Se há uma qualidade no texto de Taunay, ela se concentra no perfil e nas vozes de alguns personagens. Cirino e Inocência, o par de apaixonados, ainda que obedeçam a planos esquemáticos – seguem, até o paroxismo, os piores chavões da estética romântica –, demonstram certa complexidade, infelizmente mal aproveitada. Cirino apresenta-se como médico, mas sequer tirou o diploma de farmacêutico; não passa, logo, de um curandeiro. Soma mais acertos que erros à sua prática, mas não hesita em agir como mentiroso e aproveitador quando lhe faltam os remédios certos, passando a receitar mezinhas cujo efeito é incerto – e apesar de se dizer homem de ciência, mostra-se apegado a superstições. Está longe, portanto, de representar o herói romântico de moral inquebrantável. Quanto a Inocência, nada tem de inocente. Pouco aparece no livro, escondida numa espécie de gineceu, mas, quando surge, comporta-se de maneira a ratificar as ideias machistas de Pereira: mal conheceu Cirino, age como sua cúmplice e, instintivamente, finge diante do pai:

– Sente mais febre? Perguntou Cirino muito baixinho.
– Não sei, foi a resposta, e resposta demorada.
– Deixe-me ver o seu pulso.
E tomando-lhe a mão, apertou-a com ardor entre as suas, retendo-a, apesar dos ligeiros esforços que, para a retrair, empregou ela por vezes.
Nisto, entrou Pereira. Inocência fechou com presteza os olhos e Cirino voltou-se rapidamente, levando um dedo aos lábios para recomendar silêncio.
– Está dormindo, avisou com voz sumida.

Depois que os jovens finalmente se declaram, veem-se diante da impossibilidade de ficarem juntos, pois Inocência está prometida a Manecão. Após longa conversa e muitas lágrimas, é dela que parte a ideia de pedir ajuda a seu padrinho, a quem o pai respeita e deve favores e dinheiro. Ladina, mais maliciosa que Cirino – apesar de viver quase enclausurada –, ela insiste:

– Mas, interrompeu Inocência, não lhe fale em mim, ouviu? Não lhe diga que tratou comigo... que comigo mapiou... Estava tudo perdido... Invente umas histórias... faça-se de rico... nem de leve deixe assuntar que foi por meu juízo que mecê bateu à porta dele... Hi! Com gente desconfiada, é preciso saber negaciar...

Num breve trecho, Taunay pode retratar perfeitamente as falas e os gestos típicos, somando-os ao orgulho do pai que, a seu modo, ama a filha:

– Pois bem, o Manecão ficou ansim meio em dúvida; mas quando lhe mostrei a pequena, foi outra cantiga... Ah! Também é uma menina!...
E Pereira, esquecido das primeiras prevenções, deu um muxoxo expressivo, apoiando a palma da mão aberta de encontro aos grossos lábios.
– Agora, ela está um tanto desfeita; mas quando tem saúde é choradinha que nem mangaba do areal. Tem cabelos compridos e finos como seda de paina, um nariz mimoso e uns olhos matadores...
Nem parece filha de quem é...

Um segundo par, formado por personalidades antagônicas, prende nossa atenção: o entomologista alemão Tembel Meyer e seu criado, José. O relacionamento desses dois é marcado por uma tolerância na qual à relativa tensão soma-se perfeita dose de humor, pois o cientista está sempre a corrigir, de maneira paternal, o empregado, enquanto este vive numa indignação permanente, sem compreender o porquê de caçar borboletas e outros insetos, mas resignando-se, pois necessita do emprego. O sábio e o rude unem-se, desse modo, numa relação que, apesar do esquematismo, jamais perde a graça.   
 
À dramaticidade fácil e previsível do embate final, entre Manecão e Cirino, contrapõe-se o comovente Capítulo XVII, em que um morfético busca, desesperado, a ajuda do falso médico para sua doença, àquela época sem cura. É um dos trechos mais bem estruturados do romance, composto basicamente por dois longos diálogos, nos quais seguimos o violento preconceito que até hoje subsiste em relação à lepra e o trágico desamparo do fazendeiro atacado pelo mal.

O grotesco também está presente no romance, na figura do anão Tico, de rosto repleto de rugas e mudo – “uma espécie de cachorro de Nocência”, diz o pai. Será ele, demoníaco em sua propensão a vigiar a protagonista, que alertará Pereira e Manecão, desencadeando o fim do jovem curandeiro. Tico simboliza a própria rudeza do sertão, cujas regras nascem de uma ética funesta, se comparada à do mundo civilizado.

Mas no que se refere aos diálogos plenos de naturalidade, espalhados por todo o romance, Taunay alcança sua melhor forma no Capítulo XXIV, no qual reúne, em torno de Cirino, moradores importantes da vila de Sant’Ana. A epígrafe do capítulo, irônica – repetindo, aliás, o poder sugestivo das demais, sempre bem escolhidas pelo autor –, anuncia: “Debaixo do céu há uma coisa que nunca se viu: é uma cidade pequena sem falatórios, mentiras e bisbilhotices”. O major Taques, o vigário e o coletor crivam Cirino de perguntas, às quais o rapaz responde, às vezes de maneira capenga, pois pretende esconder o real motivo da viagem. Trata-se de um quarteto operístico perfeito, em que cada personalidade assume uma voz própria, intrometendo-se na conversa e fazendo observações paralelas. Logo a seguir, Manecão aparece e a tensão se instala. Quando o grupo se desfaz e os rivais se afastam, tomando rumos opostos, os inevitáveis comentários surgem, dando vida a especulações.

Tais cenas, que merecem elogios, formam uma antevisão do que o melhor realismo e os mais importantes ficcionistas pós-Semana de Arte Moderna produziram em nosso país. É pena que não pertençam a um todo coerente, uniforme, mas sejam o reflexo da personalidade que Wilson Martins sintetizou: “Realista pela inspiração, mas romântico pelo estilo e pelos sentimentos; olhando a realidade bem nos olhos... mas com os olhos ingênuos do menino louro e de cabelos anelados criado junto à saia da mãe [...]”. Voltaremos a Taunay num próximo ensaio. Por enquanto, deixo os leitores com este romancinho valioso, mas desigual.

agosto 13, 2011

Recuperar Ernest Hello


Crítico de Ernest Renan e René Descartes, Ernest Hello (1828-1885) é um nome infelizmente pouco lembrado nos dias de hoje. Filósofo, ensaísta, crítico literário, biógrafo e tradutor (de Ângela de Foligno e Van Ruysbroeck), foi influenciado por Barbey d'Aurevilly e por São João Maria Batista Vianney, o Cura d’Ars, a quem conheceu pessoalmente e que dele diria: “Monsieur Hello a reçu de Dieu le génie”.

Ernest Hello marcou o pensamento de Leon Bloy (que o considerava seu mestre), Georges Bernanos, Paul Claudel e vários outros. Foi depois de ler seu livro O Homem que Garrigou-Lagrange decidiu abandonar a medicina e ingressar na Ordem dos Dominicanos, tornando-se, mais tarde, notável filósofo e teólogo.

São nomes como esse que precisamos recuperar, por razões evidentes para quem é leitor deste blog.

A seguir, algumas citações atualíssimas de Hello – apenas um aperitivo, para estimular a inteligência e a sensibilidade dos amigos:   

O homem medíocre

Ao medíocre agradam-lhe os escritores que não dizem nem sim nem não sobre nenhum tema, que nada afirmam e que tratam com respeito todas as opiniões contraditórias. Toda afirmação lhe parece insolente, pois exclui a proposição contrária. Mas se alguém é um pouco amigo e um pouco inimigo de todas as coisas, o medíocre o considerará sábio e reservado, admirará sua delicadeza de pensamento e elogiará o talento das transições e dos matizes.

Para escapar da censura de intolerante, feita pelo medíocre a todos os que pensam solidamente, seria necessário se refugiar na dúvida absoluta; e, ainda nesse caso, seria preciso não chamar a dúvida pelo seu nome. É necessário formulá-la em termos de opinião modesta, que preserva os direitos da opinião oposta, tomar ares de dizer alguma coisa e não dizer nada. É preciso acrescentar a cada frase uma perífrase açucarada: “parece que”, “ousaria dizer que”, “se é permitido expressar-se assim”.

O gélido fantasma da fealdade

É importante estudar a lógica do delírio. Temos de segui-la passo a passo. Se o homem sempre tivesse associado em sua mente a beleza com o bem, a beleza continuaria sendo a beleza e o bem seguiria sendo o bem; o homem, permanecendo fiel à primeira, teria sentido, então, que permanecia fiel ao segundo. Mas, tendo o homem dito, tendo permitido aos escritores dizer que os tipos do belo deviam se encontrar ali onde o bem já não se encontrava, isto é, nos crimes audazes, nos escândalos de repercussão; que a desordem e o gênio eram a mesma coisa; havendo, pois, pensado o homem que a ideia do belo e a ideia do bem eram duas ideias contraditórias, concluiu que a ideia do belo era contraditória consigo mesma e terminou por dizer: o belo é o feio! Magnífica homenagem prestada à unidade pelos que haviam perdido a noção de unidade! Eles nos provaram que a ideia do belo, quando não está associada com a ideia da ordem, do verdadeiro, do bem, nega-se a si mesma e já não se reconhece. Eles nos provaram que quando o homem quer colocar suas mãos na beleza, desprendida da ordem, associada à ideia de desordem, a beleza que deseja alcançar escapa em eterna fuga; o objeto vacila e, na mão do homem enganado, resta o gélido fantasma da fealdade.

Crítica ao laxismo

O nome da caridade se volta contra a luz sempre que, ao invés de esmagar o erro, pactua com ele, sob o pretexto de se comportar prudentemente em relação aos homens. O nome da caridade se volta contra a luz todas as vezes em que é empregado para fraquejar na execração do mal. 

O homem transige na presença da debilidade que quer invadi-lo quando adquiriu o hábito de chamar de caridade o acomodamento universal de toda debilidade, ainda que remota.

A ausência de horror para com o erro, para com o mal, para com o Inferno, para com o demônio, esta ausência parece que chega a ser uma desculpa para o mal que cada um leva em si mesmo. Quanto menos se detesta o mal em si mesmo, mais se prepara um meio de desculpar o que se acaricia na própria alma.

agosto 10, 2011

Reflexões sobre o católico escritor

No ensaio que escreveu sobre François Mauriac – “Mauriac?” –, Otto Maria Carpeaux, com sua característica consistência, cria não só um roteiro seguro para se conhecer as bases do pensamento desse romancista francês, mas, sopesando aspectos positivos e negativos, estabelece, de maneira indireta, as linhas mestras da ficção e do ensaísmo católicos.

De antemão afirmo que não se trata, neste texto, de colocar o problema da possibilidade de uma ficção católica brasileira contemporânea. E por um simples motivo: o tema não me preocupa, pois, sob o ponto de vista teológico, o qual não desprezo nem um pouco, “o Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as profundidades de Deus” (1Co 2,10). Ou seja, apesar do ateísmo, do materialismo e de todos os demais “ismos” que proliferam hoje, a oportunidade de uma literatura que se pretenda católica está presente, ainda que desprezada por certa intelligentsia cínica – e fadada a cumprir, sem qualquer demérito, o papel de sal e fermento: desaparecer, mas para dar sabor e volume; para ocupar, no substrato da cultura, um papel talvez despercebido, mas jamais secundário.

As perguntas que me coloco são outras: de que trata uma literatura católica? Ou um ensaísmo católico? O que significa ser católico e também escritor?

Seguindo o raciocínio de Carpeaux, há um tema básico: o pecado. Por sua própria natureza, o homem vive em oposição à vontade de Deus; sua inclinação para o bem está debilitada. O senso comum, se deseja compreender esta questão, precisa abandonar a ideia de pecado enquanto mera desobediência a preceitos religiosos. Para a teologia católica, o pecado é uma tendência natural, um “hábito inato”. Por razões sobre as quais não tratarei aqui, o homem tende ao mal. Assim, se o pecado é, como diz Carpeaux, “o caminho da morte e da vida”, será inevitável ao escritor católico se defrontar com esse tema.

Mas como fazê-lo? Segundo Carpeaux, com a “inquietação” de Mauriac. Mas não só. Usando de finíssima ironia, o ensaísta nos aponta o caminho: abandonar os moralismos. Ele nos dá um exemplo curioso, próprio do que ocorria quando escreveu seu texto, ao criticar aqueles que, “em meio ao incêndio da civilização cristã e à difamação do nome cristão por povos cristãos, se ocupam dos maillots na praia”. Mas também nós corremos esse perigo, apesar de não estarmos vivendo as consequências da Segunda Guerra Mundial e os maiôs já não serem novidade, visto que há sempre o risco de colocarmos “a ética antes do ser”, como afirma Bento XVI, lembrando que “o cristianismo não é um moralismo”, pois “não somos nós que temos de realizar aquilo que Deus espera do mundo, mas em primeiro lugar temos de entrar” no que o Papa chama de “mistério ontológico: Deus entrega-se a si mesmo. O seu ser, o seu amar precede o nosso agir [...]”.

Um católico, incluindo aqueles que são escritores, deve compreender que, apesar da indiscutível realidade do pecado, Deus deseja conceder ao homem um novo ser. “Esta é a grande dádiva”, diz Bento XVI, “o ser precede o agir e a partir dele segue-se, depois, o agir, como uma realidade orgânica, porque o que somos, podemos sê-lo também na nossa atividade”. É assim que Deus nos aparta do moralismo, pois ser cristão não significa apenas “obedecer a uma lei que está diante de nós, mas simplesmente [...] agir em conformidade com a nossa nova identidade”. Não se trata, portanto, de “uma obediência, algo exterior, mas sim uma realização do dom do novo ser”.

Voltando a Carpeaux, trata-se, portanto, para o ficcionista, de “resolver o problema do pecado e da graça (literariamente, não teologicamente)”, de “não desfigurar o seu cristianismo em moralismo”. Graça – ou seja, doação, pois Deus “se nos doou antecipadamente a si mesmo, entregando-nos o seu amor”, lembra o Papa.

Outro risco é “petrificar-se” no pietismo, o que Carpeaux chama de “catolicismo de fórmulas vazias”. Ele não se refere apenas à tese da superioridade da fé sobre a razão, mas àquela tendência de responder ao pecado não por meio de uma vida autenticamente evangélica, mas de uma religiosidade superficial, apegada a manifestações sentimentais.

Carpeaux também defende o abandono de quaisquer mediações: o artista deve enfrentar os problemas do seu tempo, sob pena de, recusando-se a fazê-lo, condenar-se ao laxismo (afirmação, aliás, extremamente contemporânea). Assim, nosso crítico repudia o intelectual apenas “bem-pensante”, que privilegia seu comodismo e prefere fazer concessões a se defrontar com temas espinhosos. Carpeaux, com razão, qualifica esse tipo de católico como “um abastardamento” do escritor.

Amor criativo

Em busca de escritores que sejam mais do que “filhos dos seus confessores”, Otto Maria Carpeaux demonstra ter um objetivo claro: “A própria vida, assunto do romance, é o caminho da santidade”.

Um novo elemento se adiciona, dessa forma, ao nosso raciocínio: a que se refere o crítico quando diz “santidade”? O santo é aquele que, tendo compreendido as realidades do pecado e da graça, cinge-se àquele “mistério ontológico” sobre o qual falamos acima e descobre a verdadeira alegria, que não é apenas laetitia, mas gaudium, júbilo, regozijo. “Quem se deixou sensibilizar por este mistério, que Deus se revelou, rasgou o véu do templo e mostrou o seu rosto, encontra uma fonte de alegria permanente”, diz Bento XVI.

Vejo, a partir deste ponto, uma estrada com duas vias: numa, encontro o escritor que compreende o mistério, ou que ao menos deseja desvendá-lo, e por esse motivo busca, em sua vida pessoal, a santidade – e na outra descubro o mesmo escritor, traduzindo, por meio da escrita, as quedas e recaídas do homem que, dividido entre o pecado e a graça, anseia experimentar, concretamente, a verdadeira alegria. Ocorre que este escritor é indissociável do primeiro: ele sabe, portanto, que viver na graça “é amor, amor criativo, que encontra sozinho a riqueza, a abundância do bem”, segundo o que nos ensina Bento XVI – e também por esse motivo escreve.

Mas, atenção: quando Bento XVI diz que “quanto mais repletos estivermos desta alegria de ter descoberto o rosto de Deus, tanto mais o entusiasmo do amor será autêntico em nós e produzirá fruto”, ele não se refere a uma vida desgarrada da realidade, na qual só há espaço para o arroubo místico, mas a experiências concretas – tão palpáveis quanto o ato de escrever um livro. Carpeaux tem consciência disso; e por esse motivo pode dizer, graças não só à erudição, mas principalmente movido por sua fé, que “um romance católico que pretende ignorar o pecado, é mentira” – e “um romance católico que inclui e supera o pecado, tem valor de teodiceia”, ou seja, pode defender e justificar a crença em Deus.

Humanismo cristão

Retomando a questão da santidade, o católico que é escritor deve saber – exatamente como Santa Teresa de Jesus – que “a morte dá à história a sua verdadeira medida”. É o que lemos no ensaio de Carpeaux (“A lição de uma santa”) sobre essa religiosa carmelita canonizada em 1622, a quem Paulo VI concederia, em 1970, o título de Doutora da Igreja. Teresa, ela própria sublime escritora, serve como modelo aos intelectuais católicos contemporâneos, ficcionistas ou não. Seus escritos e sua vida confirmam a abundância gratuita que nasce do “amor criativo”, seiva que o escritor, ramo da videira, sorve e distribui, repleto de alegria por ter descoberto o rosto de Deus. Não é à toa que Teresa exclama, em meio aos seus textos, “Oxalá pudesse eu escrever com muitas mãos!”.

Só intelectuais dessa estirpe podem deixar uma obra capaz de confrontar, ao longo dos séculos, heresias, modismos, miragens fabricadas pela estultícia humana. E Teresa alcançou esse objetivo exatamente por não almejar tal glória. Como acertadamente afirma Juan Marichal (La voluntad de estilo – teoría e historia del ensayismo hispánico), “em Santa Teresa opera sobretudo um princípio espiritual oposto ao de todo criador artístico: porque ela desejava testemunhar, com seus escritos, mais sua condição de criatura [grifo do autor] do que seu poder de criadora”.

“Não se dá esse rei senão a quem se entrega de todo”, dizia Santa Teresa – e foi o seu fervor que a transformou num dos melhores símbolos do que Carpeaux chama de “notável e estranha oposição do humanismo cristão”. Oposição à qual os católicos são constantemente chamados, hoje e sempre. Quando prepondera a autossuficiência humana – nada mais que um neopelagianismo –, o católico que escreve alerta para os limites do homem e sua dependência em relação a Deus. Quando a ciência pretende se tornar um novo baal, o católico que escreve recorda os milhares de crimes perpetrados em nome da razão. Quando se propagandeia o espírito revolucionário, o católico que escreve relembra os totalitarismos e se recusa a fazer da história uma tábula rasa. Quando o humanismo ateu deseja se impor, o católico que escreve clama contra a falsa ética dessa deformação do pensamento, sempre pronta a instituir o hedonismo e a egolatria como leis gerais.      

Charles Moeller, na introdução ao volume IV do seu Literatura do século XX e Cristianismo, afirma que “a escravidão da percepção literária consiste em se aproximar por baixo, partindo do sofrimento dos homens e de sua nostalgia da felicidade, para alcançar o mundo da Revelação, que está acima”. E ele próprio conclui: “Mas ‘Deus nos busca antes que nós o busquemos’. Vem a nós até onde estamos. O povo de Israel sabia algo disto. Este povo é também a Igreja. E cada um de nós”. Carpeaux, ao falar sobre Mauriac em sua História da Literatura Ocidental, dirá que “a representação completa do pecado justifica o trabalho do romancista: o desfecho literariamente satisfatório vale como reconhecimento da Justiça e da Graça de Deus”. Esses dois pensamentos formam, com certeza, a síntese do trabalho a que se propõe o escritor católico: partir do que pode chegar a ser inumano para mostrar a transcendência escondida no homem; descrever o nível de degradação que a sociedade pode atingir para fazer sobressair a irrupção da graça divina. Há nele paixão e lógica, mística e zelo – o zelo de Teresa de Jesus; ou o de Elias, no Horeb, que exclama duas vezes, a última com o rosto coberto pelo manto: “Eu me consumo de ardente zelo por Iahweh dos Exércitos, porque os filhos de Israel abandonaram tua aliança, derrubaram teus altares e mataram teus profetas à espada” (1Rs 20,10.14).

agosto 08, 2011

Quem são? O que fazem? Gostam de Brahms?

Saio à rua e só encontro desconhecidos. Nunca é a mesma funcionária que me atende no balcão da padaria – que fim levou a alegre menina de ontem? Cumprimento o porteiro do prédio sem vê-lo, enclausurado no seu cubículo de janelas escuras; ergo a mão, agradeço por abrir os portões da fortaleza, mas não sei qual a sua resposta. Cruzo por centenas de pessoas numa caminhada de poucos quarteirões: quem são? O que fazem? Gostam de Brahms? Jamais saberei. Jamais. Na verdade, muitas vezes, a cidade me impulsiona a execrar os desconhecidos: no aperto do metrô, quando a multidão suarenta me empurra, a disputar a primazia da escada rolante; ou o gerente da padaria, sufocado na bela gravata, incapaz de sorrir, olhando-me do ponto mais alto da sua pirâmide imaginária. É preciso esforço e uma breve oração para não referendar Sartre – e sua teoria de que “o inferno são os outros” – ou a ética que se tornou costumeira, exercício de sociologia vulgar, segundo a qual devemos compreender as pessoas em seus limites, condicionadas pela origem pobre e pela vida desumana, cruel. Repudio a visão sartriana do outro como opositor e o coitadismo esquerdista, camada de verniz que pretende me eximir da única atitude verdadeiramente humana: amar. Observo cada um deles – a mulher que finge dormir para não ter de oferecer seu lugar ao idoso no metrô, o padre que distribui a comunhão como se estivesse numa mesa de carteado, a empregada que chacoalha ladeira acima o carrinho de bebê, transformando a criança na sua pedra de Sísifo – e quero vê-los não como semelhantes ou próximos, mas irmãos que vivem graças à bondade do Pai; homens e mulheres feitos à Sua semelhança, impulsionados pelo Espírito que tudo sonda, tudo penetra. Ainda que se apequenem, nada pode diminui-los diante de Deus: muito menos meu olhar de orgulhosa censura. Sim, o mal nos entorpece mutuamente, mas vibra em nós, suplicando por uma oportunidade, a graça santificante. Quando, num átimo de segundo, consigo olhá-los como realmente são, quando pisoteio meu miserável orgulho, então o inferno sartriano se desfaz, as teoriazinhas esquerdistas se estilhaçam e os homens surgem na sua verdadeira dimensão, obscuros e também abertos à luz, sofrendo no mesmo ritmo que eu, tocados – conscientes ou não – pelo amor do Pai. Não, não quero apenas entendê-los – mas amá-los graças à “plenitude daquele que plenifica tudo em tudo”.