julho 24, 2011

Inglês de Sousa – acima do naturalismo

A coletânea Contos amazônicos reúne a melhor produção do paraense Inglês de Sousa, para fins didáticos classificado, entre as escolas literárias, como naturalista. Contudo, a desdizer tal classificação, trata-se do seu livro menos preso ao naturalismo, apresentando características realistas e, também, fantásticas. Reunidas em 1893, essas narrativas conformam a despedida do autor em relação à escrita ficcional, pois ele continuaria escrevendo, mas exclusivamente obras jurídicas, incluindo-se o Projeto de Código Comercial, de 1912.

Para nossa felicidade, esses contos, publicados três anos depois de O Cortiço, não apresentam, no geral, a preocupação ou a necessidade de provar teses sociológicas com base na biologia, denunciar vícios supostamente hereditários ou condenar a humanidade ao fado da corrupção moral, as chamadas “superstições do naturalismo”, segundo Sérgio Buarque de Holanda (no clássico ensaio “Inglês de Sousa: O Missionário”), que agradavam sobremaneira a Aluísio Azevedo. 

Trata-se de uma coletânea desigual, cuja epígrafe é formada por alguns versos de “Adozinda”, de Almeida Garret, escolha reveladora das motivações do autor, pois o poema romântico nasce da pesquisa sobre poesias trovadorescas e outras composições do romanceiro popular português, enquanto os contos do brasileiro estão repletos de referências a lendas, costumes e episódios históricos da região amazônica.

Poder descritivo

Composto de oito narrativas curtas e uma noveleta de cunho histórico, “O rebelde”, o livro inicia com “Voluntário”, título que define, de maneira irônica, o recrutamento forçado durante o período da Guerra do Paraguai, tema central do conto. Encontramos aqui as frases de “ritmo sereno e ondulante” e o “espraiamento das palavras com breve estação nos incidentes ora curtos, ora longos” que, segundo Aurélio Buarque de Holanda (no prefácio à 3ª edição de O Missionário), o autor teria aprendido com Eça de Queirós. Mas o texto ainda está contaminado de determinismos típicos da escola naturalista, como ao descrever os moradores ribeirinhos:

É naturalmente melancólica a gente da beira do rio. Face a face toda a vida com a natureza grandiosa e solene, mas monótona e triste do Amazonas, isolada e distante da agitação social, concentra-se a alma num apático recolhimento, que se traduz externamente pela tristeza do semblante e pela gravidade do gesto.

O caboclo não ri, sorri apenas; e a sua natureza contemplativa revela-se no olhar fixo e vago em que se leem os devaneios íntimos, nascidos da sujeição da inteligência ao mundo objetivo, e dele assoberbada. Os seus pensamentos não se manifestam em palavras por lhes faltar, a esses pobres tapuios, a expressão comunicativa, atrofiada pelo silêncio forçado da solidão.

Inglês de Sousa também se mostra panfletário em diferentes trechos, por exemplo, ao acusar o governo brasileiro de não compreender o que Solano Lopes realmente era: “Uma coragem de herói, uma vontade forte, uma inteligência superior ao serviço de uma ambição retrógrada”. E perde-se numa retórica enfadonha, fazendo exatamente o que prometera não fazer: “Carregar nos tons sombrios do quadro de miséria do proletariado brasileiro naqueles tempos calamitosos”.

À parte tais exageros, ele apresenta um pouco de suas melhores qualidades: timing para criar falsas esperanças no leitor, fazendo-o duvidar que a história realmente acabará mal; e inegável poder descritivo, atento aos pormenores que iluminam situações, como nestes ridículos soldados do Império:

As portas e as janelas das ruas por onde passava a nova leva de recrutas estavam apinhadas de gente. As mulheres e as crianças corriam a vê-los de perto, conservando-se, porém, a uma distância respeitável dos guardas nacionais, que marchavam pesadamente, acanhados, vestidos na sua jaqueta de velho pano azul, quase vermelho, e vexados com a comprida baioneta colocada muito atrás, a bater-lhes os rins num compasso irregular, conforme os acidentes das ruas mal calçadas.

E neste outro trecho – início de um longo e melancólico parágrafo –, no qual o narrador quase se coloca, por um brilhante momento, no lugar dos recrutados que partem:

Quando as canoas largaram da praia, as mulheres romperam num clamor; e os tapuios, acocorados ao fundo da igarité que os separava da ribanceira, seguiam com a vista a terra que recuava, fugindo deles. Tinham os olhos secos, mas amortecidos.

Saliente-se também, neste primeiro conto, o final terrível, em que uma inocente quadrinha popular intensifica o drama da tapuia enlouquecida.

Um cético

“A feiticeira” principia de forma peculiar, como se o narrador falasse na sequência de outros contadores de histórias, todos reunidos ao pé do fogo. Essa voz, que chega a ser agradavelmente coloquial, constrói bem o protagonista, o incrédulo e zombeteiro tenente Antônio de Sousa, e Maria Mucoim, a feiticeira, figura clássica, digna de estar nas mais tétricas narrativas de mistério.

O tenente, “vítima de sua leviandade”, ousará enfrentar a Mucoim; e quando sai para o derradeiro encontro, a própria natureza prenuncia o seu destino. Natureza, aliás, que se rebela completamente no final, quando pesadelo e fantástico se instalam, conduzindo o cético Antônio a uma situação funesta.

Inconvincente

Na narrativa seguinte, “Amor de Maria”, o mal também prevalece. O narrador, contrapondo-se a seu colega do conto “A feiticeira”, pretende que sua história seja melhor, mais verossímil. Contudo, o frívolo Lourenço de Miranda e Mariquinha, torturada pelo ciúme, não convencem – e as melhores cenas, como a do amanhecer em que a jovem é embalada na rede pela velha e imprudente Margarida, não enveredam para um final realmente dramático, capaz de nos comover ou aterrorizar.

Fantasmagoria

“Acauã” segue pelo mesmo caminho, infelizmente, apesar do início fantasmagórico, impressionante, que lembra as melhores cenas de “A Salamanca do Jarau” e “A mboitatá”, lendas recontadas pelo gaúcho Simões Lopes Neto:

Raios caíram com fragor enorme, prostrando cedros grandes, velhos de cem anos. O capitão Jerônimo não podia mais dar um passo, nem já sabia onde estava. Mas tudo isso não era nada. Do fundo do rio, das profundezas da lagoa formada pelo Nhamundá, levantava-se um ruído que foi crescendo, crescendo e se tornou um clamor horrível, insano, uma voz sem nome que dominava todos os ruídos da tempestade. Era um clamor só comparável ao brado imenso que hão de soltar os condenados no dia do Juízo Final.

Os cabelos do capitão Ferreira puseram-se de pé e duros como estacas. Ele bem sabia o que aquilo era. Aquela voz era a voz da cobra grande, da colossal sucuriju, que reside no fundo dos rios e dos lagos. Eram os lamentos do monstro em laborioso parto.

O clima mágico se desfaz ao longo da narrativa, no entanto, e o tema lendário torna-se mero exotismo, com uma das personagens transformada num ser diabólico incapaz de convencer até mesmo o leitor menos assíduo às histórias da carochinha.

Bom humor

A Questão Christie, crise diplomática que envolveu Brasil e Grã-Bretanha – e durou de 1862 a 1865 –, é o tema de “O donativo do capitão Silvestre”. Na iminência de o Brasil ser invadido pelos ingleses – uma esquadra inglesa chegou a bloquear o porto do Rio de Janeiro –, os moradores de Óbidos, no interior do Pará, deixam-se levar pela histeria coletiva: “Os mais ignorantes tremiam de susto à ideia de ver surgir no porto de cima um navio de guerra de S. M. Britânica, pejado de canhões negros e ameaçadores”. O conto tem trechos prolixos, eivados de patriotada, mas o autor consegue captar o clima de loucura e a esperteza das lideranças políticas locais, que se aproveitam da crise para angariar fundos e reunir prosélitos. A narrativa termina com a excelente pilhéria do capitão Silvestre.

Infernal

Encontramos um bom número de preconceitos populares em “O baile do judeu” – festa evidentemente diabólica. O narrador, um divertido católico, sustenta a narrativa de maneira espirituosa e oferece bons trechos, como este, no qual um incógnito convidado dança com a mulher mais atraente da festa:    

No meio destas e outras exclamações semelhantes, o original cavalheiro saltava, fazia trejeitos sinistros, dava guinchos estúrdios, dançava desordenadamente, agarrado a d. Mariquinhas, que já começava a perder o fôlego e parara de rir. O Rabequinha friccionava com força o instrumento e sacudia nervosamente a cabeça; o Carapanã dobrava-se sobre o violão e calejava os dedos para tirar sons mais fortes, que dominassem a vozeria; o Penaforte, mal contendo o riso, perdera a embocadura e só conseguia tirar da flauta uns estrídulos sons desafinados, que aumentavam o burlesco do episódio; os três músicos, eletrizados pelos aplausos dos circunstantes e mais pela originalidade do caso, faziam um supremo esforço, enchendo o ar de uma confusão de notas agudas, roucas e estridentes, que dilaceravam os ouvidos, irritavam os nervos e aumentavam a excitação cerebral, de que eles mesmos e os convidados estavam possuídos.

Assim, tudo se torna infernal nessa reunião festiva – mas, por razões que não vale a pena adiantar, será esse o último concorrido baile do judeu.

Religião e aguardente

Os críticos marxistas e a historiografia politicamente correta devem ter ataques de urticária ao ler a noveleta “O rebelde”, pois Inglês de Sousa resume a Cabanagem a um movimento “vítima de dupla alucinação: religiosa e patriótica”. Sua visão crítica surge nesta cena perfeita, na qual o romântico moderno vê a concretização dos ideais socialistas, enquanto as pessoas lúcidas só encontram crime e desvario:

[...] Uma centena de pessoas, homens, mulheres e crianças, caboclos na maior parte, negros e mulatos muito poucos, desembarcavam desordenada e ruidosamente. Os homens vestiam calças e camisas de algodão tinto em murixi vermelho, cobriam-se com grande chapéu de palha, com topes de duas cores, vermelha e negra, em forma de cruz. No peito da camisa tinham distintivo igual, e à cintura traziam um horroroso troféu de orelhas humanas, enfiadas em um embira, em ostentação de perversidade e valentia.

As mulheres trajavam saias e camisas da mesma fazenda de algodão, sendo somente as saias tintas em murixi, e sobre os amplos peitos morenos destacava-se a cruz de duas cores que distinguia os cabanos, inimigos dos maçons e dos portugueses. As crianças estavam quase todas nuas. Homens e mulheres [...] tinham fisionomia bestial e feroz e vinham armados de espingardas, terçados, chuços e espadas.

Toda aquela gente, num tumulto de desenfreada licença, ria e gritava, praguejava e rezava ladainhas, entrecortados de soluços aguardentados e de gestos de ameaça e de ódio que me causavam calafrios. [...]

É pena que certa loquacidade contamine a narrativa. Bons trechos, como o acima, acabam se diluindo numa lenga-lenga algo sentimental, em que certo mulato, herói da Revolução Pernambucana de 1817, enfrenta o dilema ético de apoiar os revoltosos ou proteger uma família de portugueses e o pároco da vila.

O melhor

Dois contos merecem atenção redobrada: “O gado do Valha-me-Deus” e “A quadrilha de Jacó Patacho”.

No primeiro, somos guiados por um narrador de tom coloquial agradavelmente ranzinza, cujo discurso é repleto de frases interpostas e autoelogios. Estilo, aliás, do qual Guimarães Rosa deve ter sorvido algumas boas doses. Trata-se do vaqueiro Domingos Espalha, famoso, segundo o que ele nos diz, por “conhecer as manhas do gadinho” e segurar-se “na sela sem estribos nem esporas”. Idoso, ele recorda quando foi contratado por Amaro Pais para recolher o gado na fazenda que este herdara de um padre: “As proezas de Amaro Pais tinham feito embravecer o gado, que, por fim, já ninguém era capaz de o levar para a malhada e ainda menos de o meter no curral [...]”. Incumbido, juntamente com outro vaqueiro, Chico Pitanga, de “tomar conta da fazenda, assinalar o gado orelhudo” e escolher “uma vaca bem gorda”, para ser assada na festa de S. João, os dois partem certos de que as tarefas serão cumpridas facilmente.  

Encontrada a rês, começam os problemas. O inesperado e o fantástico surgem lentamente na narrativa – e o objetivo do trabalho sempre escapa aos dois vaqueiros, por mais que se esforcem:

Vimos perfeitamente o lugar onde o gado passara a noite, um grande largo, com o capim todo machucado, mas nem uma cabecinha pra remédio! Já tinham os diachos seguido seu caminho, sempre deixando atrás de si uma rua larga, aberta no capinzal, em direção à serra do Valha-me-Deus, que depois de duas horas de viagem começamos a ver muito longe, espetando no céu as suas pontas azuis. Galopamos, galopamos atrás deles, mas qual gado, nem pera gado, só víamos diante da cara dos cavalos aquele imenso mar de capim com as pontas torradas por um sol de brasa, parecendo sujas de sangue, e no fundo a serra do Valha-me-Deus, que parecia fugir de nós a toda pressa. Ainda dormimos aquela noite no campo, a outra e a outra, sempre seguindo durante o dia as pegadas dos bois, e ouvindo à noite a grande choradeira que faziam a alguns passos de distância de nós, mas sem nunca lhes pormos a vista em cima, nem um bezerro desgarrado, nem uma vaquinha preguiçosa! Eu já estava mesmo levado da carepa, anojado, triste, desesperado da vida, cansado na alma de ouvir aquela prantina desenfreada todas as noites, sem me deixar pregar o olho [...]; ambos com fome, já não podíamos mover os braços e as pernas, galopando, galopando por cima do rasto da boiada, e nada de vermos coisa que parecesse com boi nem vaca, e só campo e céu, céu e campo, e de vez em quando bandos e bandos de marrecas, colhereiras, nambus, maguaris, garças, tuiuiús, guarás, carões, gaivotas, maçaricos e arapapás que levantavam o voo debaixo das patas dos cavalos, soltando gritos agudos, verdadeiras gargalhadas por se estarem rindo do nosso vexame lá na sua língua deles. [...]

O que prometia ser facílimo torna-se, num crescendo, inalcançável. Sorrimos diante de cada nova dificuldade, mas, sob a camada de humor – não só nesse belo e hiperbólico parágrafo –, o inusitado transpira. A angústia se instala; o fracasso implacável assume a condição de protagonista. Nada se conclui – e, exatamente por esse motivo, a história é perfeita.

O conto “A quadrilha de Jacó Patacho” pode ser dividido em quatro seções. Principia com a descrição do velho Salvaterra e sua família, que experimentam o clima de absoluta tranquilidade noturna, logo após o jantar. Um ruído estranho, contudo, ouvido pela jovem Anica, filha de Salvaterra, quebra a paz. Ela e a mãe, mais lúcidas que o pai e os outros dois filhos, introduzem o receio ao verbalizarem seus temores. Do fundo das trevas surgirão os personagens que tornam o medo palpável. A partir desse momento, o leitor é preso numa gangorra emocional, pois simples características – certo olhar lascivo, um “riso alvar” – ou pensamentos podem nos levar da certeza à dúvida, e vice-versa: existe a quadrilha? Quem são esses homens? Os dois caboclos que surgem no meio da noite representam o mal ou são pobres trabalhadores a pedir abrigo?

A segunda seção começa com as divagações de Anica em seu quarto, preparando-se para dormir. Os temores crescem entre as sombras do cômodo. Enquanto a jovem se deixa levar por alucinações, o leitor já não sabe em que se apoiar. Então, do fundo da memória de Anica surge um pormenor esquecido. Lembrança após lembrança, ela se indaga sobre qual é a verdade – e atrás dela segue o leitor, perdido, desorientado, num vaivém que não se esgota nem mesmo quando a jovem toma sua decisão. A noite, antes escura, com um céu no qual “nuvens negras corriam para o sul como fantasmas em disparada”, agora está límpida: “A chuva cessara inteiramente, e do chão molhado subia uma evaporação de umidade, que, misturada ao cheiro ativo das laranjeiras em flor, dava aos sentidos uma sensação de odorosa frescura”. Mas essa natureza é apenas o símbolo antagônico por meio do qual o autor deseja, mais uma vez, nos desorientar, pois logo Anica é tomada de pavor, o que só aprofunda sua hesitação.

O grito da jovem dá início à terceira parte:

A sua voz nervosa repercutiu como um brado de suprema angústia pela modesta casinha, e o eco foi perder-se dolorosamente, ao longe, na outra margem do rio, dominando o ruído da corrente e os murmúrios noturnos da floresta.

Tem início a luta terrível, enquanto o brado dos cabanos selvagens – “Mata marinheiro! Mata! Mata!” – ecoa mais alto que o da jovem heroína. O embate desigual concretiza as piores expectativas – nossas e de Anica –, mas o narrador reserva ainda a quarta e última seção, um testemunho melancólico que amplia a tragédia familiar: poucas observações, mas capazes de conceder ao desespero os tremores do horror.

São duas narrativas soberbas – em termos de linguagem e estrutura –, que colocam toda a produção literária de Inglês de Sousa em segundo plano. Elas excedem, inclusive, as qualidades que Sérgio Buarque de Holanda elenca no ensaio já citado: “a tranquilidade honesta e quase descuidada de quem reconhece e sabe aceitar as próprias limitações” e a sábia escolha do vocabulário, capaz de dispor “sempre do termo justo para exprimir um comportamento ou para definir um personagem”. Dois contos que deveriam ser lidos e estudados não como exemplos da escola naturalista, pois estão muito acima dela, mas do que a literatura brasileira produziu, até hoje, de melhor.
 

julho 19, 2011

Poesia e silêncio

Como se descobre “que não é a razão que traz tristeza ou alegria”? O homem aberto às epifanias que podem nos engolfar é um místico – e também, escreva ou não, um poeta.

O fato de poetas e místicos viverem êxtases e descreverem seus momentos de arrebatamento, mas submetidos aos limites dos sentidos e dos signos da linguagem, em nada desmerece os resultados. Estes, ao contrário, apenas reafirmam que o homem “não poderá nunca suprimir de todo a ansiedade que o impulsiona para uma meta que todavia não pode ser alcançada no tempo”, como afirmou um sábio teólogo contemporâneo, Divo Barsotti – “il cercatore di Dio”.

No caso dos poetas, o texto que nasce de um arroubo, ainda que não se assemelhe, na forma, às descrições místicas que podemos encontrar, por exemplo, nos escritos de Santa Teresa de Ávila, revela a mesma “inadaptação do nosso psiquismo às experiências espirituais insólitas” – segundo a perfeita descrição de êxtase que São João da Cruz elaborou.

É nesse contexto que se inscreve “Of mere being”, de Wallace Stevens:

A palmeira no final da mente,
Além do pensamento último, se eleva
Na brônzea distância,

Um pássaro de penas de ouro
Canta na palmeira, sem sentido humano,
Nem sentimento humano, um canto estrangeiro.

Então compreende-se que não é a razão
Que traz tristeza ou alegria.
O pássaro canta. As penas brilham.

A palmeira paira no limiar do espaço.
O vento roça devagar seus galhos.
As penas de fogo do pássaro pendem frouxas.

O estranho pássaro de Stevens é certamente o mesmo que Keats ouviu, aquela ave que “não nasceu para a morte” e que já havia sido escutada “no triste coração de Rute, quando, ansiando pelo lar, ela ficou chorando em meio ao trigo do estrangeiro”. Um “canto estrangeiro”, diz Stevens, sem “sentido” ou “sentimento” humanos. Visão ou sonho que sonhei desperto?, pergunta-se Keats em seu “Ode to a Nightingale” – e o próprio poema é a resposta, a frágil composição que restou do súbito encantamento.

Não é diferente o assombro de Eugenio Montale:

Talvez uma manhã andando num ar de vidro,
Voltando-me, verei cumprir-se o milagre:
O nada às minhas costas, detrás de mim
O vazio, com um terror de bêbedo.

Depois como numa tela, acamparão de um jato
Árvores casas colinas para a ilusão costumeira.
Mas será tarde já; e eu partirei calado
Entre os homens que não se voltam, com o meu segredo.

O caminhante na manhã envolta de um brilho inusual vê algo que se assemelha ao ouro e à “brônzea distância” do poema de Wallace Stevens. E o que, a princípio, parece um ofuscamento, transforma-se na revelação difícil de suportar. O “segredo”de Montale é parte do preço da experiência mística: “Se o homem”, afirma Divo Barsotti, “pudesse alcançar a finalidade de sua vida no tempo, depois de o haver conseguido, recairia no vazio de uma vida que não teria mais sentido”. Não por outro motivo as descrições dos êxtases – de místicos e poetas – são, quase sempre, sucintas e sempre algo incomuns, quando não confusas: como descrever o transporte cuja violência ofusca os sentidos, bem como a consciência de si e da realidade exterior?

O inadvertido místico de Montale parte em silêncio, fadado a viver entre os que não podem entendê-lo: calar-se talvez represente a melhor expressão para aqueles a quem foi permitido intuir Deus.

julho 05, 2011

Diálogo com o “Endymion”

A nova manhã é um dom graças ao qual afastamos a mortalha de nossas almas. O angustiado insone; o trabalhador que percorre, madrugada adentro, os corredores mal iluminados do imenso galpão; o solitário que aguarda um telefonema improvável; o dorminhoco acossado por pesadelos repletos de culpa; o jovem cuja ansiedade estilhaça o sono em dezenas de partículas que debilitam ao invés de revigorar; o noctívago que, satisfeito por qualquer vício, se aproxima de sua morada e vê, por um instante, no reflexo da janela, o sol nascer às suas costas, como a lembrá-lo de que o seu prazer jamais será completo – todos eles, como diz John Keats, “malgrado o desespero, a carestia cruel de nobres naturezas e os sombreados e malsãos caminhos abertos para a nossa busca”, todos eles podem, graças à manhã, reencontrar a promessa que a Beleza esconde nas coisas mais improváveis: “a majestade dos destinos que imaginamos para os mortos poderosos, os lindos contos que nós vemos ou ouvimos ou as árvores que lançam a dádiva da sombra às ovelhas sem mal”. Tudo respira – e não por uma “curta hora”, mas para sempre. Assim, no último domingo, quando os sinos tocaram, chamando para a missa, e eu não estava lá fora – em algum velho quarto, remoendo minhas frustrações, ou circundado de pessoas que riem como profissionais e apenas contam, umas às outras, suas ínfimas vantagens –, mas acolhido na penumbra e no silêncio, ouvindo as badaladas repercutirem pela nave, então entendi como cada mínimo gesto pode se tornar sagrado; e imaginando até onde o repique dos sinos alcançaria, lembrei-me dos versos do Endymion: se, “como as árvores que murmuram em torno a um templo logo estão preciosas como o próprio templo”, então, de algum modo, todas as formas de Beleza se uniam a nós, ali, concentradas naquele Sacrifício que nos aturde e alegra, que se renova e é irrepetível. A vida inteira estava ali, pronta a renascer, “luz que incita nossa alma” – e une-se “a nós de modo tão estreito, que existam sobre nós trevas ou fulgor, ela deve estar sempre conosco, ou morremos”.

julho 01, 2011

A minha prece, hoje

“Guarda-me, Senhor, com a Tua mão misteriosa – e não me abandones. Guia-me pelas pontes luminosas que atravessam o vertiginoso abismo, onde aprisionas a escuridão.” – Pär Lagerkvist

junho 30, 2011

Ultraje e manipulação ideológica

Foi um ultraje, sim. Ofensa gravíssima. Crime de vilipêndio, que pretende rebaixar e perverter a mensagem evangélica. Como afirmou o cardeal Odilo Scherer, foram “provocações e ofensas ostensivas à comunidade católica e cristã”. Mas tratou-se, também, de um gesto premeditado de manipulação ideológica – construído com o apoio da mídia, do governo, de partidos políticos. Verdadeiro acinte.

E tudo se torna ainda mais grave – como bem aponta o Voto Católico – pelo fato de a Parada do Orgulho Lésbico, Gay, Bissexual e Transgênero de São Paulo receber financiamento público, especialmente dos ministérios da Cultura e da Saúde, da Petrobras, da Caixa Econômica Federal e da Prefeitura de São Paulo.

Contra todos esses crimes, nós, cidadãos que nos sentimos ultrajados e ofendidos, devemos:

1. Apresentar queixas às entidades governamentais que financiaram o evento;


3. Entrar em contato com as Procuradorias Regionais dos Direitos do Cidadão, para denunciar crime de ofensa ao sentimento religioso.

junho 28, 2011

Muito além do falso humanismo

Às vezes tenho a alegria de encontrar um texto que, por suas inúmeras qualidades, gostaria de ter escrito. Raras pessoas apresentam, nos dias de hoje, lucidez para abandonar a lógica do senso comum. Aliás, na maioria dos casos, desconfio que não se trata de falta de inteligência, mas, sim, de covardia mesmo. Poucos têm coragem de se contrapor às mentiras, aos chavões e à soberba epistêmica que dominam os discursos na mídia, na política e nas universidades. E se não há coragem, a inteligência também claudica, fraqueja – e torna-se mais cômodo pensar como todos pensam, seguir a torrente de sofismas chamada, com doçura hipócrita, de “politicamente correto”.

Não é o caso do artigo que publico a seguir. Ele rompe com os artificialismos da lógica atualmente hegemônica, vira-a pelo avesso, e mostra como um pensamento limitado pode ter um discurso convincente – mas jamais, jamais representará a verdade. Ele denuncia a mediocridade e a pequenez do humanismo que hoje encontramos na mídia, na Web, nos chamados movimentos sociais e nas rodinhas de intelectuais; e mostra como a mais execrada das mensagens – execrada por ser radicalmente libertadora – recusa as soluções simplistas e superficiais, guarda uma universalidade insuperável e permanece incólume através dos séculos.

O texto foi publicado no blog Contos do Átrio. Ao seu perspicaz e, infelizmente, anônimo autor, ofereço minha sincera admiração.           

Se é “católico”, dispensa adjetivos

A tendência secular hoje é celebrar a diversidade por si só, como se a existência das diferenças fosse por ela mesma algo a se comemorar, e não uma obviedade da raça humana.

É evidente que somos diferentes e que a possibilidade de expressarmos nossas diferenças é uma coisa boa. Mas isso é muito mesquinho e pequeno perto da proposta do cristianismo, que se propõe católico, isto é, universal. E exigir do cristianismo que ele também celebre essas diferenças é podar o cristianismo, tirando sua radicalidade. Transforma-o numa carta de boas intenções que qualquer ONG ou instituição humanitária teria, com suas propostas geralmente óbvias como é óbvia a diversidade humana.

O cristianismo só pode ser universal, logo o único adjetivo que suporta é “católico”. Celebrar diferenças é exatamente o que não pode acontecer no cristianismo. Se o cristianismo olhar para as diferenças, ele simplesmente desaba.

Foi precisamente essa a discussão no Concílio de Jerusalém, narrado nos Atos dos Apóstolos. No começo do cristianismo, contrapunham-se as tendências judaizante – centrada na manutenção de algo da lei judaica, com destaque para a circuncisão – e helenizante, que igualava judeus e estrangeiros e tirava a importância da circuncisão. Segundo o historiador Daniel-Rops, esse debate moldou o cristianismo como ele é logo no primeiro século. Enquanto se diferenciavam os judeus dos gentios, o cristianismo não alcançava seu potencial inicial.

O desafio do cristão não é acolher o homossexual, o negro, o pobre. É acolher o próximo independentemente de ele ser homossexual, negro, pobre ou estrangeiro. Há aí uma diferença sutil, que passa batida, na palavra “independentemente”: se esse rótulo não importa, ressaltá-lo é justamente o que lhe dá importância.

É por isso que o cristianismo é mais feminista do que as feministas, mais “homossimpatizante” do que os LGBTTT, mais social do que os socialistas, mais libertador do que os libertários, mais avançado do que os progressistas, muito mais humano do que os humanistas. O cristianismo é próximo. Rebaixou Deus à dignidade do homem e elevou o homem à proximidade de Deus. Colocar qualquer outro adjetivo que ressalta diferenças – feminista, dos pobres, dos negros, sertaneja, campesina ou o que seja – mutila o cristianismo.

E isso é bíblico. Há uma pilha de tradições cristãs e passagens bíblicas que elimina qualquer diferenciação no cristianismo e chama todos à unidade, porque a verdade só pode ser uma só.

Também é repleto de fundamento bíblico o fato de que o cristianismo aceita a todas as pessoas porque rejeita todos os vícios. Os vícios acentuam a cegueira que leva as pessoas a ab-rogarem a autoridade – de Deus – para dizerem quando e em quê devem fazer o bem aos outros, o que é de uma ingenuidade tremenda. Mal sabemos quando fazemos o bem a nós mesmos; imagina se vamos saber se fazemos o bem aos outros. O cristianismo que aceitasse vícios não reuniria comunidades, só seria um fingimento, um engodo de união entre as pessoas.

Por isso, a invenção de um cristianismo que aceita o pecador sem rejeitar seu pecado – invocando aquela famosa passagem bíblica da pecadora que seria apedrejada – não tem qualquer lógica. É a ridicularização do cristianismo. Se os vícios não forem abandonados, não é possível amar o próximo sob um dos maiores mandamentos, como escrito em Mateus 22, 36, Marcos 12, 28 e João 14,15, e em tantos outros textos bíblicos. Não existe cristianismo sem eles.

junho 26, 2011

Sine Dominico non possumus

“Em uma cultura cada vez mais individualista, como é aquela na qual estamos imersos na sociedade ocidental, e que tende a se difundir por todo o mundo, a Eucaristia constitui uma espécie de ‘antídoto’ que opera nas mentes e nos corações dos que creem, e continuamente semeia neles a lógica da comunhão, do serviço, da partilha, em suma, a lógica do Evangelho. Os primeiros cristãos, em Jerusalém, foram um sinal claro desse novo estilo de vida, pois viviam em fraternidade e colocavam seus bens em comum, a fim de que ninguém vivesse na indigência (cf. At 2, 42-47). De onde derivava tudo isso? Da Eucaristia, isto é, de Cristo ressuscitado, realmente presente em meio aos seus discípulos e operante com a força do Espírito Santo. E também nas gerações seguintes, através dos séculos, a Igreja, apesar dos limites e dos erros humanos, continuou sendo no mundo uma força de comunhão. Pensemos especialmente nos períodos mais difíceis, de provação: o que significou, por exemplo, para os países subjugados por regimes totalitários, a possibilidade de se reencontrar na missa dominical! Como diziam os antigos mártires de Abitene, Sine Dominico non possumus – sem o Dominicum, isto é, sem a Eucaristia dominical, não podemos viver. Mas o vazio produzido pela falsa liberdade pode ser do mesmo modo perigoso; e nesse caso, a comunhão com o Corpo de Cristo é o medicamento da inteligência e da vontade, para reencontrar o gosto pela verdade e pelo bem comum.”

– Estas foram as palavras de Bento XVI no Angelus deste domingo. Precisamos cada dia mais desse fármaco, capaz de, em meio ao crescente relativismo, nos inspirar e nos conduzir à Verdade.

junho 21, 2011

Romantismo autodestrutivo

A afirmação de que José de Alencar é o primeiro grande prosador da literatura brasileira tornou-se consenso. E há, inclusive, quem ache o seu Iracema verdadeira obra-prima – o que, em minha opinião, não passa de um despautério. O que não se fala – e raramente se ensina – é que a obra alencariana, quando comparada aos grandes nomes do romantismo alemão ou inglês, transforma-se num fato estético insignificante, cujo único valor se resume ao que afirmamos no início deste parágrafo: fenômeno de importância restrita ao Brasil – e nunca, jamais universal.

No entanto, a maioria dos professores – principalmente no ensino médio – acostumou-se a mostrar o romantismo brasileiro como uma consequência natural do romantismo europeu. Lê-se o capítulo dedicado ao tema, no livro didático, e fica-se com a impressão de que as características das obras fundadoras desse movimento passaram de maneira automática para os autores brasileiros, havendo, entre os dois grupos, uma correspondência absoluta. Nada pode ser mais mentiroso, contudo.

Jamais encontraremos nos românticos nacionais, apenas para citar um exemplo, a genialidade de Friedrich Schlegel, profundo estudioso de Shakespeare e Goethe, crítico literário excepcional. Schlegel recuperou os valores clássicos da poesia grega, defendeu a necessidade de uma literatura universal e, convertido ao catolicismo e apontado, em política, como reacionário, deixou um romance incompleto – Lucinde –, obra contraditória, odiada por Schiller, na qual se faz a apologia do amor livre. Não satisfeito, Schlegel libertou a ironia do seu caráter de mero chiste ou travessura linguística, elevando-a à condição de comportamento filosófico diante da arte e da vida, pois, em sua opinião, só a ironia pode redimir um mundo baseado em falsas verdades.

Os nacionalistas certamente retrucarão que, se seguirmos esse raciocínio, teremos de jogar no lixo grande parte da literatura brasileira, não apenas a romântica, e que, agindo dessa forma, desvalorizaremos nosso patrimônio cultural. Tais afirmações, no entanto, são sofismas. Trata-se, isso sim, de colocarmos os românticos brasileiros onde realmente devem estar – e não utilizarmos, em nome do ufanismo, critérios condescendentes de julgamento; prática, aliás, que se torna cada vez mais comum entre nós.

Nossos românticos têm papel fundamental na formação da literatura e da língua portuguesa característica do Brasil – e Alencar foi um dos que mais defendeu a importância de uma expressão genuinamente brasileira, ainda que tal matéria seja, em minha opinião, secundária (*) –, mas, em termos estéticos, a ficção romântica permaneceu presa ao pitoresco, à idealização exagerada do elemento indígena. Ou seja, trata-se de um romantismo que, ao contrário do que fizeram alguns dos principais escritores alemães e ingleses, não cultua a autoconsciência, não se sente superior pela sua própria excepcionalidade. Entre nós, a supervalorização da sensibilidade ocorreu quase sempre de maneira negativa, assumindo a forma de um recalque ou substituída por qualquer solução apaziguadora, conciliatória (como ocorre no segundo mais importante romance de Alencar, Senhora); e se surgem pulsões libertadoras, estas acabam por se congelar na forma de patologias melancólicas, encerradas entre quatro paredes. Quanto à linguagem, o romantismo brasileiro é, bem sabemos, o império do adjetivo, da hipérbole, do arroubo grandiloquente.

A lama no tanque

No caso específico de Lucíola, publicado em 1862 – em minha opinião, o melhor romance de Alencar, ainda que seja uma releitura de A Dama das Camélias –, o que primeiro chama nossa atenção é o problema do narrador. O romance inicia com uma “Nota ao autor”, escrita pela destinatária das cartas que, enviadas pelo narrador, foram reunidas e, sem que este soubesse, transformadas em livro. O que era, portanto, para ser um relato particular, ganha o caráter de narrativa pública. O motivo desse contorcionismo parece-me evidente: se Lúcia, a protagonista, é a prostituta que se transforma em “musa cristã” – e que “trilha o pó com os olhos no céu” –, nada melhor que outra mulher para referendar, perante os leitores, a história dessa purificação. De maneira medrosa, mas hábil, o narrador/autor, tenta se abster de qualquer responsabilidade.

Essa forma de fugir às consequências de um relato que, apesar de todas as concessões feitas à religião e à moral, causou escândalo ao ser publicado, confirma-se logo no início do primeiro capítulo, quando o narrador, justificando o envio das cartas, nas quais pretende traçar o perfil de Lúcia, afirma sua “excessiva indulgência pelas criaturas infelizes”. A pretensão do narrador não é, portanto, contar a história de uma paixão mútua, abrasadora, mas, principalmente, descrever o objeto de seu relato como um espécime curioso.   

Estamos diante de um narrador, Paulo, que se mostra imaturo para a vida na Corte, ou, como ele mesmo se define, um “profano na difícil ciência das banalidades sociais”. Impressionado pela beleza de Lúcia – que ele encontra de maneira fortuita, mal havia chegado ao Rio de Janeiro –, o narrador descobre que por trás da “serenidade do olhar” se escondia uma prostituta. Passado o choque inevitável, inicia-se um jogo de insinuações durante o qual Paulo afirma não amar tal mulher, mas ter “apenas sede de prazer”. O problema é que o jovem não interpreta os sinais que Lúcia lhe dá; provinciano, parvo em alguns momentos, ele se engana em relação às reações da meretriz. Na confusão de sentimentos que ocorre – da qual temos apenas o ponto de vista de Paulo, que confessa não possuir perspicácia suficiente para entender os fatos –, Lúcia acaba por conduzir o narrador a sensações de prazer inusitadas.

Mas Paulo deseja algo além do sexo? Quando vê, em certos momentos, a mulher abandonar seu “modo singelo e modesto” para expressar-se por meio da “frase ríspida, incisiva e levemente embebida em ironia”, ele afirma sentir desvanecer dentro de si uma “doce ilusão, que, por mais transparente que seja, nubla o espírito crédulo, quando procura no fundo do prazer um átomo sequer de amor”. Essas divagações, contudo, não passam de retórica. O leitor não deve se enganar: Lúcia será, do começo ao fim do romance, o obscuro objeto do desejo de Paulo – apenas do desejo. E aqui faço uma referência precisa: ela será a fêmea inalcançável a que Paulo se submeterá, semelhante à personagem da novela de Pierre Louÿs que Buñuel imortalizou em seu último filme.

A questão central do romance, portanto, não é só, como se costuma repetir, a da mulher que, por ser prostituta, considera-se moralmente corrompida para o amor e tenta, desesperadamente, purificar-se, até alcançar a autodestruição. Há essa passionalidade, sem dúvida – e nesse sentido, o livro caminha na contramão do romantismo, pois a heroína não se liberta das amarras sociais, escravizando-se a elas, certa de que o fato de ser uma cortesã a impede de viver seu grande amor. Mas, de maneira paralela a esse drama, há o outro eixo de Lucíola, mais instigante, do narrador/personagem que embarca numa aventura duvidosa, abrindo mão dos prazeres sexuais em troca de uma experiência de aflitiva castidade, na qual se torna um fantoche, espectador do conflito que a cortesã vive – e sem jamais expressar seu amor por Lúcia, pois realmente não a ama, somente a endeusa, mantendo com ela uma relação nitidamente edipiana. À desagregação mental de Lúcia, que vemos crescer na exata medida em que a jovem se conscientiza de seu amor por Paulo, corresponde a obediência do rapaz inexperiente, satisfeito em seu papel acessório, admirando o escapismo de sua companheira, incentivador excêntrico do que move Lúcia: negar, a si mesma, a possibilidade de unir prazer e amor.

A jovem prostituta acredita que deve seguir repetindo o que fez por seus familiares: tornar-se o cordeiro imolado, mas agora num ritual em que ela assume, ao mesmo tempo, o papel de vítima e de sacrificante – e, o mais terrível, em nome de um amor que não é recíproco. Seu masoquismo chega às raias da promiscuidade quando ela propõe a Paulo que ame sua irmã caçula, sugerindo que Ana lhe daria “os castos prazeres” que ela não podia dar – “e recebendo-os dela, ainda os receberias de mim”. Delirando em sua histeria, Lúcia conclui: “Que podia eu mais desejar neste mundo? Que vida mais doce do que viver da ventura de ambos? Ana se parece comigo; amarias nela minha imagem purificada, beijarias nela os meus lábios virgens; e minha alma entre a sua boca e a tua gozaria dos beijos de ambos”. Ou, um pouco antes, anunciando a morbidez de seus pensamentos: “Quero uni-la ao santo consórcio de nossas almas. Formaremos uma só família; os filhos que ela te der, serão meus filhos também; as carícias que lhe fizeres, eu as receberei na pessoa dela. Seremos duas para amar-te; uma só para o teu amor”.

O desvio é nítido: o desejo não realizado tornou-se neurose. Mas essa é a única proposta que Paulo recusa. Às outras, obedecerá sempre, resignando-se a um único prazer sexual, o ato de, arrastando-se pela relva, beijar as pontas das botinas de Lúcia, que surgem sob “a orla do vestido” (numa clara alusão ao fetiche que Alencar exploraria em A pata da gazela, de 1870).

Lúcia hipnotiza e submete esse elemento masculino dócil; e à medida que o romance se aproxima do fim, enquanto ela abandona a antiga personalidade, chegando a adotar um novo nome, não por acaso “Maria”, a ex-cortesã passa a controlar, ordenar, exigir – e será obedecida nas menores vontades. Paulo descreve o “gesto imperativo” que o faz obedecer ou que o “obriga” a, por exemplo, ajudá-la a pentear a irmã e, principalmente, beijar as pontas dos anéis de “cabelos finos e sutis”. Diante do que ele conclui: “O que ela exigiria de mim que eu não fizesse para vê-la feliz do seu desejo satisfeito?”. E mesmo antes, quando a transformação de Lúcia, mal iniciada, já nega a Paulo os arroubos da libido, ele confessa: “Contudo, ou por um doce hábito, ou por uma misteriosa influência do passado, preferia a frieza dessa mulher aos transportes de qualquer beleza; guardava-lhe sem sacrifício, como sem intenção, uma fidelidade exemplar”.

Tal é o amor antirromântico de Alencar, processo de sublimação que condena Lúcia a se autodestruir e Paulo a um prazer frio – paixões pervertidas por preconceitos, por psicopatologias e pela culpa. E por um cristianismo deformado, que Alencar transforma em mero misticismo, religiosidade que acorrenta a protagonista ao pecado – situação, por sinal, descrita muito bem, ao fazer Lúcia comentar, quando vê que Paulo joga pedrinhas em um pequeno tanque natural, de águas a princípio cristalinas: “– A lama deste tanque é meu corpo: enquanto a deixam no fundo e em repouso, a água está pura e límpida”.

Ao introjetarem, de maneira errônea, os valores de sua época, os personagens de Alencar se cobrem de uma estranha vestidura, de um romantismo que ou nasce distorcido pela moral, pelas regras sociais e por um falso cristianismo, ou exige do leitor que volte a ser criança e acredite na ilusão das novelas de cavalaria – como propôs, aliás, seriamente, Augusto Meyer num ensaio publicado em 1964 (no volume A chave e a máscara), chamando de “degenerados leitores” aqueles que não conseguiam olhar sem desagrado o “clima de intemperança fantasista” de O guarani.

Bons e maus resultados

No que se refere à linguagem, também não podemos pedir muito de Alencar. Se pensarmos de quais matrizes saíram seus romances, nossa primeira reação será a da indulgência: os folhetins abundavam na Corte, traduzidos ou escritos por autores nacionais, e ele se acostumou a produzir essa forma literária bem pouco exigente; além disso, uma das suas principais inspirações, François-Auguste-René, visconde de Chateaubriand, é, segundo Otto Maria Carpeaux, pleno de “eloquência ornada”.

A desenvoltura do pensamento de Lúcia, sua agilidade mental, domina a primeira parte do romance graças aos diálogos de frases breves e incisivas. E mesmo nos capítulos finais, quando nossa anti-heroína já se encontra destituída de vigor, da febre que manifestava ao se entregar a Paulo, ela ainda expressará uma lógica que, passível de ser contestada, é impecável.

O árduo trabalho de Alencar com a língua – Araripe Júnior conta que, quando jovem estudante em São Paulo, o escritor perdia horas “copiando trechos de João de Barros e Damião de Góes, decompondo os períodos monumentais destes escritores, diluindo frases, compondo de novo, buscando com parcimônia beneditina descobrir o segredo da originalidade dos seus dizeres tão pitorescos” – produziu frutos. O movimento insinuante da cortesã ganha vida não só graças à construção da frase, mas ao rumorejar que nasce da aliteração: “Ao sair, dobrou o seu talhe flexível inclinando-se vivamente para o meu lado, enquanto a mão ligeira roçava os amplos folhos da seda que rugia arrastando”. E quando o escritor faz uso equilibrado dos adjetivos, seu texto se liberta do romantismo sentimentaloide, mesmo se ele nos apresenta Lúcia na forma de um animalzinho casto: “Passei-lhe o braço pela cintura e apertei-a ao peito; eu estava sentado, ela em pé; meus lábios encontraram naturalmente o seu colo e se embeberam sequiosos na covinha que formavam nascendo os dois seios modestamente ocultos pela cambraia. Com um primeiro movimento, Lúcia cobriu-se de ardente rubor; e deixou-se ir sem a menor resistência, com um modo de tímida resignação”. Mas pode chegar a uma linguagem quase realista, como no trecho a seguir, em que vemos a personalidade da cortesã, agradavelmente pendular desde o início, explodir num paroxismo de concupiscência: “Enquanto a admirava, a sua mão ágil e sôfrega desfazia ou antes despedaçava os frágeis laços que prendiam-lhe as vestes. À mais leve resistência dobrava-se sobre si mesmo como uma cobra, e os dentes de pérola talhavam mais rápidos do que a tesoura o cadarço de seda que lhe opunha obstáculos. [...] Há mulheres gastas, máquinas de prazer que vendem, autômatos só movidos por molas de ouro. Mas Lúcia sentia; sentia sim com tal acrimônia e desespero, que o prazer a estorcia em cãibras pungentes. Seu olhar queimava; e às vezes parecia que ela ia estrangular-me nos seus braços, ou asfixiar-me com seus beijos”. Ou, ainda, esta bela descrição, em que Paulo, enciumado, quase desfaz a imagem que temos dele: “Estava excessivamente pálida, e a cor escarlate do vestido ainda lhe aumentava o desmaio; os olhos luziam com ardor febril que incomodava, e os lábios se contraíam num movimento que não era riso nem ânsia, mas uma e outra coisa. Entretanto nunca essa mulher me pareceu tão bela; e a ideia de que ela se enfeitava para outro homem irritava-me a ponto que estive de precipitar-me e espedaçar, arrancando-lhe do corpo, as galas que a cobriam”.

Em outros momentos, contudo, o escritor não consegue se livrar do ranço folhetinesco, estragando sua narrativa com adereços melosos: “O meu pensamento impregnado de desejos lascivos se depurava de repente, como o ar se depura com as brisas do mar que lavam as exalações da terra” – ou “duas lágrimas em fio, duas lágrimas longas e sentidas, como dizem que chora a corça expirando, pareciam cristalizadas sobre as faces, de tão lentas que rolavam” [grifos nossos]. Esses artifícios, essas concessões ao público da época, estragam às vezes longos trechos.

Êxtase final

Que Alencar tenha condenado seu narrador à subserviência e à timidez de caráter, e Lúcia à exacerbação da culpa, são escolhas que não podem ser perdoadas. Mas as palavras finais da cortesã negam a purificação doentia a que se entregou. Seu êxtase final é semelhante a um clímax em que a pobre vítima de si mesma implora para ser tomada não pela divindade, mas por seu submisso: “– Recebe-me... Paulo!”. Assim permanecem, ao fecharmos o livro, as duas Lúcias: a meretriz e o anjo que, coberto de preto, caminha rumo à igreja, pedindo clemência à sociedade e a Deus – mas que, por não aceitar o perdão, jamais provará o amor.

________________________________

(*) A presença de um vocabulário de forte influência portuguesa em Memórias de um sargento milícias – publicado, na forma de folhetim, três anos antes de surgir O guarani – em nada diminui a vivacidade do romance de Manuel Antônio de Almeida, demonstrando o quanto não era essencial a campanha de Alencar para dar vida a uma linguagem verdadeiramente brasileira.

junho 18, 2011

Conversão


“A conversão é como sair, através de uma chaminé, de um mundo de espelhos onde tudo é uma caricatura absurda, para entrar no verdadeiro mundo criado por Deus; é quando, então, começa o delicioso processo de explorá-lo sem limites” – Evelyn Waugh

junho 14, 2011

Curso sobre o “De Trinitate”, de Santo Agostinho

Já estão abertas as inscrições para um novo curso de Patrística no Mosteiro de São Bento, em São Paulo. As aulas serão ministradas pelo professor Joel Gracioso, doutor em Filosofia pela USP com a tese “Interioridade e filosofia do espírito nas Confissões de Santo Agostinho”: