abril 13, 2012
É pouco, CNBB, muito pouco
Não basta uma Nota Oficial – tímida, burocrática e
meramente protocolar –, senhores bispos. Não basta uma Nota Oficial que ninguém
lê. Queremos ouvi-los clamando nos altares, denunciando em alta e indignada voz
nas praças públicas, nos jornais, nas rádios, na Internet. Queremos ver, ouvir
e participar da indignação dos senhores e de toda a Igreja. Queremos nos sentir verdadeiramente amparados e
defendidos por nossos pastores. Queremos vê-los e
ouvi-los agindo, à luz do dia, segundo a exortação de São Paulo: “Não vos
conformeis com este mundo” (Rm 12, 2). Façam mais pela verdade, senhores
bispos! Façam mais pela vida!
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abril 05, 2012
A homilia que será lembrada para sempre
Na
história da Igreja Católica, poucas vezes um papa investiu, em suas homilias, contra
um problema específico – e de forma clara, objetiva, sem usar recursos
metafóricos. O Beato João Paulo II inaugurou, no século XX, o uso desse
discurso direto, chegando a, em algumas oportunidades, admoestar publicamente
os que se encontravam no caminho do erro.
Hoje,
durante a Santa Missa Crismal, Bento XVI, movido pelo Espírito Santo, pleno de lucidez
teológica e amor paternal, respondeu não só ao “Chamado à desobediência” dos padres austríacos, mas também àqueles que, pertencentes à Igreja Universal,
semeiam a cizânia, a confusão entre os fieis, difundindo uma teologia “mais
voluntariosa que iluminada, inteiramente dedicada à árdua e improvável tarefa
de salvar, através de suas próprias categorias, a Jesus Cristo e Sua Palavra”,
como bem afirmou, com evidente ironia, Dom Francesco Moraglia, o novo Patriarca
de Veneza.
Chamando
o clero à obediência, ao abandono do secularismo e do comportamento laxista –
aliás, tão comum entre padres e bispos brasileiros –, Bento XVI foi claro: “[...]
A configuração a Cristo é o pressuposto e a base de toda a renovação. [...] Os
Santos indicam-nos como funciona a renovação e como podemos servi-la. E
fazem-nos compreender também que Deus não olha para os grandes números nem para
os êxitos exteriores, mas consegue as suas vitórias sob o sinal humilde do grão
de mostarda”. De fato, como dizia o Beato Cardeal John Henry Newman, “a crítica
à Igreja sem disposição de obedecer resulta necessariamente estéril”.
Mais
que uma crítica clara aos que desejam revolucionar a Igreja e lutam abertamente
contra a Santa Tradição e o Magistério, as palavras de Bento XVI são um apelo a
que toda a hierarquia eclesial retome o “zelo das almas”: “Não se faça a minha
vontade, mas a tua: esta é a palavra que revela o Filho, a sua humildade e
conjuntamente a sua divindade, e nos indica a estrada”.
Abaixo,
segue o texto integral da homilia:
Amados irmãos e irmãs!
Nesta Santa Missa, o nosso
pensamento volta àquela hora em que o Bispo, através da imposição das mãos e da
oração consacratória, nos integrou no sacerdócio de Jesus Cristo, para sermos
«consagrados na verdade» (Jo 17, 19), como Jesus pediu ao Pai na sua Oração
Sacerdotal. Ele mesmo é a Verdade. Consagrou-nos, isto é, entregou-nos para
sempre a Deus, a fim de que, a partir de Deus e em vista d’Ele, pudéssemos
servir os homens. Mas somos também consagrados na realidade da nossa vida?
Somos homens que atuam a partir de Deus e em comunhão com Jesus Cristo? Com
esta pergunta, o Senhor está diante de nós, e nós diante d’Ele. «Quereis viver
mais intimamente unidos a Cristo e configurar-vos com Ele, renunciando a vós
mesmos e permanecendo fiéis aos compromissos que, por amor de Cristo e da sua
Igreja, aceitastes alegremente no dia da vossa Ordenação Sacerdotal?» Tal é a
pergunta que, depois desta homilia, será dirigida singularmente a cada um de
vós e a mim mesmo. Nela, são pedidas sobretudo duas coisas: uma união íntima,
mais ainda, uma configuração a Cristo e, condição necessária para isso mesmo,
uma superação de nós mesmos, uma renúncia àquilo que é exclusivamente nosso, à
tão falada autorrealização. É-nos pedido que não reivindique a minha vida para
mim mesmo, mas a coloque à disposição de outrem: de Cristo. Que não pergunte:
Que ganho eu com isso? Mas sim: Que posso eu doar a Ele e, por Ele, aos outros?
Ou mais concretamente ainda: Como se deve realizar esta configuração a Cristo,
que não domina mas serve, não toma mas dá. Como se deve realizar na situação
tantas vezes dramática da Igreja de hoje? Recentemente, num país europeu, um
grupo de sacerdotes publicou um apelo à desobediência, referindo ao mesmo tempo
também exemplos concretos de como exprimir esta desobediência, que deveria
ignorar até mesmo decisões definitivas do Magistério, como, por exemplo, na
questão relativa à Ordenação das mulheres, a propósito da qual o beato Papa
João Paulo II declarou de maneira irrevogável que a Igreja não recebeu, da
parte do Senhor, qualquer autorização para o fazer. Será a desobediência um
caminho para renovar a Igreja? Queremos dar crédito aos autores deste apelo
quando dizem que é a solicitude pela Igreja que os move, quando afirmam estar
convencidos de que se deve enfrentar a lentidão das Instituições com meios
drásticos para abrir novos caminhos, para colocar a Igreja à altura dos tempos
de hoje. Mas será verdadeiramente um caminho a desobediência? Nela pode-se
intuir algo daquela configuração a Cristo que é o pressuposto para toda a
verdadeira renovação, ou, pelo contrário, não é apenas um impulso desesperado
de fazer qualquer coisa, de transformar a Igreja segundo os nossos desejos e as
nossas ideias?
Mas o problema não é assim
tão simples. Porventura Cristo não corrigiu as tradições humanas que ameaçavam
sufocar a palavra e a vontade de Deus? É verdade que o fez, mas para despertar
novamente a obediência à verdadeira vontade de Deus, à sua palavra sempre
válida. O que Ele tinha a peito era precisamente a verdadeira obediência,
contra o arbítrio do homem. E não esqueçamos que Ele era o Filho, com a
singular autoridade e responsabilidade de desvendar a autêntica vontade de
Deus, para deste modo abrir a estrada da palavra de Deus rumo ao mundo dos
gentios. E, por fim, Ele concretizou o seu mandato através da sua própria
obediência e humildade até à Cruz, tornando assim credível a sua missão. Não se
faça a minha vontade, mas a tua: esta é a palavra que revela o Filho, a sua
humildade e conjuntamente a sua divindade, e nos indica a estrada.
Deixemo-nos interpelar por
mais uma questão: Não será que, com tais considerações, o que na realidade se
defende é o imobilismo, a rigidez da tradição? Não! Quem observa a história do
período pós-conciliar pode reconhecer a dinâmica da verdadeira renovação, que
frequentemente assumiu formas inesperadas em movimentos cheios de vida e que
tornam quase palpável a vivacidade inexaurível da santa Igreja, a presença e a ação
eficaz do Espírito Santo. E se olharmos para as pessoas de quem dimanaram, e
dimanam, estes rios pujantes de vida, vemos também que, para uma nova
fecundidade, se requer o transbordar da alegria da fé, a radicalidade da
obediência, a dinâmica da esperança e a força do amor.
Queridos amigos, daqui se
vê claramente que a configuração a Cristo é o pressuposto e a base de toda a
renovação. Mas talvez a figura de Cristo nos apareça por vezes demasiado alta e
grande para podermos ousar tomar as suas medidas. O Senhor sabe-o. Por isso
providenciou «traduções» em ordens de grandeza mais acessíveis e próximas de
nós. Precisamente por este motivo, São Paulo resolutamente diz às suas
comunidades: Imitai-me, mas eu pertenço a Cristo. Ele era para os seus fiéis
uma «tradução» do estilo de vida de Cristo, que eles podiam ver e à qual podiam
aderir. A partir de Paulo e ao longo de toda a história, existiram
continuamente tais «traduções» do caminho de Jesus em figuras históricas vivas.
Nós, sacerdotes, podemos pensar numa série imensa de sacerdotes santos que vão
à nossa frente para nos apontar a estrada, a começar por Policarpo de Esmirna e
Inácio de Antioquia, passando por grandes Pastores como Ambrósio, Agostinho e
Gregório Magno, depois Inácio de Loiola, Carlos Borromeu, João Maria Vianney,
até chegar aos sacerdotes mártires do século XX e, finalmente, ao Papa João
Paulo II, que, na acção e no sofrimento, nos serviu de exemplo na configuração
a Cristo, como «dom e mistério». Os Santos indicam-nos como funciona a
renovação e como podemos servi-la. E fazem-nos compreender também que Deus não
olha para os grandes números nem para os êxitos exteriores, mas consegue as
suas vitórias sob o sinal humilde do grão de mostarda.
Queridos amigos, queria
ainda, brevemente, acenar a duas palavras-chave da renovação das promessas
sacerdotais, que deveriam induzir-nos a refletir nesta hora da Igreja e da
nossa vida pessoal. Em primeiro lugar, é-nos recordado o facto de sermos – como
se exprime Paulo - «dispensadores dos mistérios de Deus» (1 Cor 4, 1) e que nos
incumbe o ministério de ensinar, o (munus docendi), que constitui precisamente
uma parte desta distribuição dos mistérios de Deus, onde Ele nos mostra o seu
rosto e o seu coração, para Se dar a Si mesmo. No encontro dos Cardeais por
ocasião do recente Consistório, diversos Pastores, baseando-se na sua
experiência, falaram dum analfabetismo religioso que cresce no meio desta nossa
sociedade tão inteligente. Os elementos fundamentais da fé, que no passado toda
e qualquer criança sabia, são cada vez menos conhecidos. Mas, para se poder
viver e amar a nossa fé, para se poder amar a Deus e, consequentemente,
tornar-se capaz de O ouvir corretamente, devemos saber aquilo que Deus nos
disse; a nossa razão e o nosso coração devem ser tocados pela sua palavra. O
Ano da Fé, a comemoração da abertura do Concílio Vaticano II há 50 anos, deve
ser uma ocasião para anunciarmos a mensagem da fé com novo zelo e nova alegria.
Esta mensagem, na sua forma fundamental e primária, encontramo-la naturalmente
na Sagrada Escritura, que não leremos nem meditaremos jamais suficientemente.
Nisto, porém, todos sentimos necessidade de um auxílio para a transmitir
rectamente no presente, de modo que toque verdadeiramente o nosso coração. Este
auxílio encontramo-lo, em primeiro lugar, na palavra da Igreja docente: os
textos do Concílio Vaticano II e o Catecismo da Igreja Católica são os
instrumentos essenciais que nos indicam, de maneira autêntica, aquilo que a
Igreja acredita a partir da Palavra de Deus. E naturalmente faz parte de tal
auxílio todo o tesouro dos documentos que o Papa João Paulo II nos deu e que
está ainda longe de ser cabalmente explorado.
Todo o nosso anúncio se
deve confrontar com esta palavra de Jesus Cristo: «A minha doutrina não é
minha» (Jo 7, 16). Não anunciamos teorias nem opiniões privadas, mas a fé da
Igreja da qual somos servidores. Isto, porém, não deve naturalmente significar
que eu não sustente esta doutrina com todo o meu ser e não esteja firmemente
ancorado nela. Neste contexto, sempre me vem à mente o seguinte texto de Santo
Agostinho: Que há de mais meu do que eu próprio? E no entanto que há de menos
meu do que o sou eu mesmo? Não me pertenço a mim próprio e torno-me eu mesmo
precisamente pelo facto de me ultrapassar a mim próprio e é através da
superação de mim próprio que consigo inserir-me em Cristo e no seu Corpo que é
a Igreja. Se não nos anunciamos a nós mesmos e se, intimamente, nos tornamos um
só com Aquele que nos chamou para sermos seus mensageiros de tal modo que
sejamos plasmados pela fé e a vivamos, então a nossa pregação será credível.
Não faço publicidade de mim mesmo, mas dou-me a mim mesmo. Como sabemos, o Cura
d’Ars não era um erudito, um intelectual. Mas, com o seu anúncio, tocou os
corações das pessoas, porque ele mesmo fora tocado no coração.
A última palavra-chave, a
que ainda queria aludir, designa-se zelo das almas (animarum zelus). É uma expressão fora de moda, que hoje já quase
não se usa. Nalguns ambientes, o termo «alma» é até considerado como palavra
proibida, porque – diz-se – exprimiria um dualismo entre corpo e alma, cometendo
o erro de dividir o homem. Certamente o homem é uma unidade, destinada com
corpo e alma à eternidade. Mas isso não pode significar que já não temos uma
alma, um princípio constitutivo que garante a unidade do homem durante a sua
vida e para além da sua morte terrena. E, enquanto sacerdotes, preocupamo-nos
naturalmente com o homem inteiro, incluindo precisamente as suas necessidades
físicas: com os famintos, os doentes, os sem-abrigo; contudo, não nos
preocupamos apenas com o corpo, mas também com as necessidades da alma do
homem: com as pessoas que sofrem devido à violação do direito ou por um amor
desfeito; com as pessoas que, relativamente à verdade, se encontram na
escuridão; que sofrem por falta de verdade e de amor. Preocupamo-nos com a
salvação dos homens em corpo e alma. E, enquanto sacerdotes de Jesus Cristo,
fazemo-lo com zelo. As pessoas não devem jamais ter a sensação de que o nosso
horário de trabalho cumprimo-lo conscienciosamente, mas antes e depois
pertencemo-nos apenas a nós mesmos. Um sacerdote nunca se pertence a si mesmo.
As pessoas devem notar o nosso zelo, através do qual testemunhamos de modo
credível o Evangelho de Jesus Cristo. Peçamos ao Senhor que nos encha com a
alegria da sua mensagem, a fim de podermos servir, com jubiloso zelo, a sua
verdade e o seu amor. Amém.
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abril 04, 2012
Memória e lágrimas: “Os desaparecidos – a procura de 6 em 6 milhões de vítimas do Holocausto”, de Daniel Mendelsohn
No Canto I da Eneida, o protagonista, Eneias, se depara, em certo templo de Cartago,
com um mural que retrata a Guerra de Troia, de que fora um dos poucos
sobreviventes. E, chorando, lastima: Sunt
lacrimae rerum, et mentem mortalia tangunt (“Há lágrimas nas coisas, e os
sofrimentos tocam nossa alma”). Para Daniel Mendelsohn, autor de Os desaparecidos – a procura de 6 em 6 milhões de vítimas do Holocausto, a primeira parte desse verso se transforma,
à medida que o escritor avança em sua busca, numa “espécie de legenda para
distâncias comoventemente insuperáveis criadas pelo tempo”. No caso de Eneias, o
adorno do templo cartaginês representou a revivescência de um fato terrível. No
que se refere a Mendelsohn, o autor testemunha emoção semelhante à do troiano quando
apresenta, a uma de suas entrevistadas, fotografias dos familiares mortos no
Holocausto: para ele, imagens de parentes quase desconhecidos, dos quais
tentava se aproximar décadas depois de terem sido assassinados; mas à idosa
sentada a seu lado, que convivera vários anos com aquelas pessoas e participara
dos acontecimentos brutais que as condenaram à morte, as fotos tinham um
significado pungente. “Eles estiveram lá e nós, não”, conclui Mendelsohn, e assevera:
“Há lágrimas nas coisas; mas todos nós choramos por razões diferentes”.
De fato, a ampla, exaustiva investigação de
Os desaparecidos é uma pugna
detetivesca, às vezes angustiosa, às vezes consoladora, mas sempre lacunar,
marcada pela distância não só temporal, não apenas física, mas também
psicológica. Em vão Mendelsohn tentará preencher o vácuo que o separa dos
familiares mortos sob o nazismo, pois, apesar de todas as suas inúmeras
descobertas, ele guarda uma torturante certeza:
[...]
quanto mais eu conversava com as pessoas, mais estava ciente de quanto
simplesmente não pode ser conhecido, em parte porque a coisa [...] jamais foi
testemunhada e, portanto, é agora incognoscível, e em parte porque a própria
memória daquelas coisas que foram testemunhadas pode pregar peças, pode omitir
o que é doloroso demais, ou ser enfeitada de modo a se adequar a um padrão do
qual gostamos.
Sim, nenhum esforço, nenhum empenho
poderá preencher as fissuras que nascem desta certeza: “Eles estiveram lá e
nós, não”. Ou, como diz padre António Vieira, “os discursos de quem não viu,
são discursos; os discursos de quem viu, são profecias”.
Mas, de que forma nasce Os desaparecidos? O que move seu autor
na direção do passado, em busca da vida e da morte de seis parentes – o tio-avô
materno, sua esposa e as quatro filhas – perdidos entre seis milhões de
vítimas?
Tudo começa por uma leve semelhança e as
reações que ela provoca. Quando menino, Mendelsohn tem alguns traços – certo
arco desenhado pela sobrancelha e a linha do queixo – de Shmiel Jäger, o
tio-avô. E sempre que os parentes veem a criança, a emoção, incontrolável,
aflora. Com o tempo, às perguntas sobre o motivo das lágrimas acrescenta-se a
personalidade do garoto que criva o avô materno – homem refinado, religioso,
que “transpira europeidade” – de perguntas e não se cansa de ouvi-lo contar histórias
familiares, dentre as quais, a dos seis mortos é a única que permanece
incompleta. Somem-se a tais elementos o adolescente que ama o estudo, a busca
da verdade, a incansável classificação de informações, e o adulto apaixonado
pela literatura clássica – e teremos o quadro propício à investigação serena,
lúcida, que Mendelsohn empreende, emocionando-se diante de cada nova descoberta,
sem desistir mesmo quando sofre decepções. Uma pesquisa que procura saber,
minuciosamente, não apenas como seis pessoas morreram, mas também como viveram
e... como viveram seus últimos momentos.
Daniel Mendelsohn cria, assim, uma
impressionante teia de memórias, na qual se entrecruzam o epistolário familiar,
genealogias, testemunhos de sobreviventes, viagens transoceânicas, história do antissemitismo,
exegese bíblica e poucos mas surpreendentes sincronismos.
Consciência
do efêmero
A estrutura do livro obedece a um permanente
diálogo entre as descobertas do autor e seus pensamentos sobre duas diferentes
interpretações da Torá: a do rabino francês
Shlomo ben Itz’hak, mais conhecido como Rashi, nascido em Troyes, em 1040, e a
do rabi Richard Elliot Friedman, mais recente, que busca ligar o texto antigo à
vida contemporânea. Os comentários desses estudiosos iluminam as idas e vindas
de Mendelsohn, que recupera várias das loucuras cometidas em nome do antissemitismo
– das vinganças ocasionais aos assassinatos sistemáticos das aktionen nazistas, passando por
diferentes perseguições de ordem econômica –, parte da história da Galícia, figuras
marcantes do pensamento judaico e o somatório de detalhes que compõem a existência
dos heróis anônimos que, vivendo na cidadezinha polonesa onde seu tio-avô
residia – Bolechow (hoje Bolekhiv, na Ucrânia) –, conseguiram sobreviver.
Mendelsohn constrói lentamente sua
narrativa, apoiando-se nesses fragmentos de memórias sofridas, das quais,
muitas vezes, avulta a pior das dores, a psíquica. Enquanto descortina a
verdade sobre seus familiares, também acorda para suas lembranças da infância –
quando se sentia decepcionado com seu povo, que lhe parecia, ele confessa, “um
povo de perdedores” – e da adolescência, quando compreende o que é ser judeu e
de como estava ligado a uma intrincada e milenar trama de relações.
Sessenta anos depois do Holocausto e duas
décadas após o suicídio de seu avô, que já não suportava a tortura do câncer, Mendelsohn
aprenderá que o trivial pode se transformar, com a passagem do tempo, em algo
merecedor de ser preservado. Cada nova revelação ampliará sua angústia,
fazendo-o tomar consciência de como “é fácil para alguém se perder, permanecer
desconhecido para sempre”. Durante os longos meses em que procura dar vida aos
que morreram, experimentará a decepção de não poder modificar o passado – e
também, durante raros e gratificantes momentos, a proximidade com os mortos,
até acordar para a verdade das palavras do irmão que o acompanha na maioria das
viagens: “o Holocausto não foi algo que simplesmente aconteceu, mas é um evento
que ainda está acontecendo”.
Duplo
investigador
Contudo, se há uma característica central
nessa busca que se defronta ora com testemunhos contraditórios, ora com relatos
que desmentem, inclusive, parte das histórias que o próprio avô de Mendelsohn contava,
ela tem um nome: fragilidade. Mas, terrível ironia, é exatamente essa
fragilidade, nascida da distância de que falávamos acima, que permite a existência
do narrador, daquele que se propõe contar a história.
Dentre outros méritos, o narrador de Os desaparecidos não hesita em expor até
mesmo divisões familiares, velhos ressentimentos. Não o faz para obedecer a
alguma doentia compulsão, mas porque – movido, aparentemente, pela sinceridade
– estabelece analogias entre o passado de seus ancestrais, próximos e
distantes, e as descobertas que realiza no presente, utilizando-as como parte de
seu método investigativo. Acompanhamos, assim, um duplo pesquisador: o que interroga
suas testemunhas e o que se questiona sobre de que maneira as respostas obtidas
não só o aproximam ou afastam da verdade, mas também lhe franqueiam as portas
do autoconhecimento e das raízes do judaísmo.
Dotado de bom humor, destituído de
qualquer ingenuidade, Mendelsohn está certo de que todo conhecimento traz, em
seu bojo, alguma dor – e que se há orgulho na acumulação do saber, há também a
possibilidade de conhecer certas coisas tarde demais para que nos façam algum
bem. Dessa forma, ele nunca deixa de se perguntar se deve ou não prosseguir.
Inspirando-se na técnica narrativa do
avô, plena de digressões, técnica reencontrada, anos mais tarde, em Homero,
Heródoto, Proust e Sebald, esse narrador detalhista mostra-se capaz de analisar
inclusive sutilezas linguísticas, com o objetivo de esclarecer, por exemplo, o
sentido de uma palavra em iídiche – e assim iluminar sua história e a de seu
povo.
Mas, insisto, trata-se, acima de tudo, de
uma voz consciente de que seu olhar e suas conclusões sobre o testemunho dos
que viveram o Holocausto é, somente, uma frágil aproximação da verdade.
O
homem que vê e se vê
Homenagem aos que se recusam a esquecer,
preito à memória, a cada página de Os
desaparecidos ressoa a exclamação: lembrem dos judeus de Bolechow, daqueles
milhares que foram humilhados gratuitamente e morreram sob a iniquidade. Ao
final, deles restaram apenas 48, dispersos sobre a terra. E lembrem-se também
daqueles seis, emudecidos pelo ódio.
Mais de três séculos antes de Os desaparecidos ser publicado, no ano
de 1674, em Roma, pronunciando, perante a rainha Cristina da Suécia, o panegírico
“Lágrimas de Heráclito”, António Vieira comentava o verso de Virgílio que Mendelsohn
escolheu como epígrafe:
Não
residem as lágrimas só nos olhos, que veem os objetos, mas nos mesmos objetos,
que são vistos; ali está a fonte, aqui está o rio; ali nascem as lágrimas, aqui
correm; e se as mesmas coisas que não veem, choram, quanto mais razão tem o
homem que vê e se vê?.
Quando chegamos às páginas finais de Os desaparecidos, descobrimos – ou lembramos – quão extensa é a dor que impregna a vida – ainda que tal verdade seja perceptível apenas ao “homem que vê e se vê” –, pois o relato de Daniel Mendelsohn nos fornece inúmeras, desoladoras razões para distinguir as lágrimas das coisas, chorar com elas – e também por nós.
Quando chegamos às páginas finais de Os desaparecidos, descobrimos – ou lembramos – quão extensa é a dor que impregna a vida – ainda que tal verdade seja perceptível apenas ao “homem que vê e se vê” –, pois o relato de Daniel Mendelsohn nos fornece inúmeras, desoladoras razões para distinguir as lágrimas das coisas, chorar com elas – e também por nós.
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abril 03, 2012
Puro pedantismo
No Rascunho
deste mês, minha análise do romance Canaã, de Graça Aranha: “Jamais entendi por
qual motivo afirma-se que Canaã é um
romance nacionalista — e, consequentemente, teria sido uma das obras que
anteciparam as ideias da Semana de 22. A bem da verdade, se há exaltação dos
valores nacionais nesse livro, estão descritos às avessas — ou foram
encontrados por algum crítico fantasioso. [...] A cada página, reaparece o fel
do naturalismo, pretensamente científico, de Aluísio Azevedo. Eco da escola
evolucionista e do germanismo de Tobias Barreto, de quem Graça Aranha foi
discípulo, Canaã também apresenta
respingos da lama frenologista e preconceituosa de Mestiçagem, degenerescência e crime, de Nina Rodrigues”.
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Tobias Barreto
abril 02, 2012
Ao ego de Leonardo Boff, sem retoques
Alguém, por favor, avise a Leonardo Boff que ninguém
está aguardando por ele na Igreja Católica; que não somos agradecidos a ele – e
a outros teólogos da libertação – pela cizânia que semearam entre nós (e continuam tentando semear); que desejamos que ele continue vendendo bem os seus livros de
teologia New Age, publicados por uma editora supostamente fransciscana, pois o
que seria do mercado editorial se não existisse subliteratura?; e que a Igreja,
Bento XVI e nós, católicos fieis a Roma, dormimos todas as noites sem dar a
mínima para o que ele pensa, deixou de pensar ou falou aos esquerdistas empregados no Estadão.
abril 01, 2012
Pantomimas no Domingo de Ramos (ou, se preferirem: Para onde vai a Igreja no Brasil?)
Hoje, porta de entrada para a Semana Santa, fui
brindado com altas doses de populismo durante a missa. Não, não bastaram os
cânticos semelhantes a marchinhas de Carnaval, em alto volume, com os fiéis,
empolgados, quase sambando na procissão. O bom padre, aparentemente certo de
estar fazendo o melhor, primeiro dispensou-se de pronunciar a homilia, pois,
segundo ele, “nada pode substituir o que que cada um sente em seu coração”. Antes
do ofertório, contudo, foi enfático ao falar sobre a importância da coleta para
a Campanha da Fraternidade – e insistiu que fôssemos “generosos”. No Pai Nosso,
inventou um teatrinho alegre, exigindo que todos erguessem a mão direita para o
alto – a fim de “segurar na mão de Jesus” – e com a esquerda apertassem “com
força” o ombro do irmão que estivesse ao lado, pois precisamos “demonstrar como
somos verdadeiramente unidos” (para minha sorte, a pessoa que estava a meu lado
era uma frágil octogenária...). Antes da comunhão, disse que queria ver “todos
sorrindo, todos com alegria”, pois ele e os ministros não estavam “dando veneno”
às pessoas. E insistiu que devemos sempre recusar a comunhão quando o “padre
ou ministro não sorri”. Ainda insatisfeito, recusou-se a dar a bênção final,
alegando que, “depois de tantos anos de sacerdócio”, seu “estoque de bênçãos
tinha se esgotado” – pelo visto, ele realmente acredita que a bênção é obra
pessoal sua, e não fruto da Graça de Deus, da qual ele serve, apenas, como
intermediário. E, respondendo ao apelo do padre, a assembleia novamente se
transformou num rancho de Carnaval. Parti, então, para casa, em busca do silêncio
do meu lar e da homilia de Bento XVI, deixando um padre realizado, certo de ter
feito o melhor, não sem antes que ele, sorrindo, feliz, perguntasse a todos, de
maneira a finalizar dignamente a celebração: “Até que a missa não demorou
muito, né, pessoal?!”. Foram suas últimas e santas palavras.
março 23, 2012
Diálogo com Joseph Pearce
Um dos grandes críticos literários da atualidade, infelizmente
desconhecido no Brasil, nesta longa entrevista Joseph Pearce fala sobre
Shakespeare, Chesterton, C. S. Lewis, John Henry Cardeal Newman, J. R. R.
Tolkien e vários outros assuntos. A entrevista, em espanhol, pode ser lida, na
íntegra, aqui. Imperdível.
março 10, 2012
O meu verdadeiro destino
“A
Graça é o acontecimento perante o qual o homem entende o seu destino, o seu
verdadeiro destino.”
Flannery
O’Connor
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Catolicismo,
Flannery O'Connor,
Reflexões
março 07, 2012
“Jana e Joel”, de Xavier Marques
Na edição deste mês do Rascunho, minha análise da novela Jana e Joel, de Xavier Marques: “Longe de ser obra-prima, Jana e Joel revela, em seu perfil
agradavelmente anacrônico, um dos caminhos possíveis à nossa literatura,
projeto repudiado pelos modernistas mas ainda aberto à inventividade dos que se
dispuserem a escrever boas histórias, sem a obrigação de fazer, a cada
parágrafo, malabarismos verbais”.
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Crítica literária,
Jana e Joel,
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Xavier Marques
março 01, 2012
Hoje, primeira aula do curso “Bases da criação literária”
1. Introdução:
O que é criação literária. Diferentes processos criativos. A teoria literária: independência e
relação com a cultura.
2. O real:
A realidade e a categoria da experiência. A “província da arte”, segundo Henry
James. O “eu” e a “circunstância” de Ortega y Gasset.
– Inscrições abertas: Cedet Online.
– Inscrições abertas: Cedet Online.
Marcadores:
Crítica literária,
Curso “Bases da criação literária”,
Livros
fevereiro 27, 2012
Curso “Bases da criação literária”
Aula inaugural: dia 1º de março, quinta-feira, às
20h30, via Internet (Cedet.Online). Inscrições abertas.
Marcadores:
Crítica literária,
Curso “Bases da criação literária”,
Livros
fevereiro 13, 2012
Romper a escuridão, a dúvida e a loucura
Nos
próximos dias 1, 8, 15 e 22 de março (quintas-feiras), das 20h30 às 21h30, ministrarei,
on-line, o curso “Bases da criação
literária”. Durante quatro aulas, vamos dar os primeiros passos para romper a
escuridão, a dúvida e a loucura de que falava Henry James: “Trabalhamos na
escuridão – fazemos o que podemos – damos o que temos. Nossa dúvida é nossa
paixão, e nossa paixão é nossa tarefa. O resto é a loucura da arte”. A síntese do curso e outras informações podem ser encontradas na página do Cedet Online,
que transmitirá as aulas.
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Curso “Bases da criação literária”,
Henry James
fevereiro 11, 2012
O homem medíocre e seus escritores prediletos
“Ao
medíocre agradam-lhe os escritores que não dizem nem sim nem não sobre nenhum
tema, que nada afirmam e que tratam com respeito todas as opiniões
contraditórias. Toda afirmação lhe parece insolente, pois exclui a proposição
contrária. Mas se alguém é um pouco amigo e um pouco inimigo de todas as
coisas, o medíocre o considerará sábio e reservado, admirará sua delicadeza de
pensamento e elogiará o talento das transições e dos matizes.
Para
escapar da censura de intolerante, feita pelo medíocre a todos os que pensam
solidamente, seria necessário se refugiar na dúvida absoluta; e, ainda nesse
caso, seria preciso não chamar a dúvida pelo seu nome. É necessário formulá-la
em termos de opinião modesta, que preserva os direitos da opinião oposta, tomar
ares de dizer alguma coisa e não dizer nada. É preciso acrescentar a cada frase
uma perífrase açucarada: ‘parece que’, ‘ousaria dizer que’, ‘se é permitido
expressar-se assim’.” – Ernest Hello
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fevereiro 08, 2012
– Professor, o que é subliteratura?
“La
sub-literatura es el conjunto de libros estimables que cada nueva generación
lee con deleite, pero que nadie puede releer.” – Nicolás Gómez Dávila (Escolios a un texto implícito)
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fevereiro 07, 2012
Murilo Rubião e suas respostas à vida agonizante
A
reduzida obra de Murilo Rubião pode ser qualificada como extemporânea, se a
analisamos no âmbito estrito da literatura brasileira. Contudo, quando
observados sob um ângulo mais abrangente, o da produção literária latino-americana,
os contos do escritor mineiro passam a dialogar com o realismo mágico de, por
exemplo, Borges e Cortázar.
Alguns preferem utilizar
a expressão “realismo fantástico” para designar esse subgênero que foi renovado
durante o famoso boom da
literatura latino-americana de língua hispânica e alcançou importância
medular na literatura mundial, mas o qualificativo “mágico” reflete melhor essa
ficção aparentemente realista, na qual fantasia e realidade confundem-se a
ponto de ser impossível, algumas vezes, discerni-las com precisão. Os elementos
extraordinários ou maravilhosos encontram-se inseridos na normalidade, nunca
obscurecidos pelo corriqueiro, mas despontando aqui e ali, de maneira a
provocar guinadas no enredo, extasiar ou confundir o leitor, ou simplesmente inocular
desconsolo, espanto, estranheza. Trata-se de uma literatura que privilegia o
insólito, mas sem ferir a congruência interna das narrativas, criando, sob a
aparência de absoluta naturalidade, uma verossimilhança cuja lógica está
fundada no irreal, mas não necessariamente no fantasmagórico ou no terror.
Em sua tentativa de
rastrear as origens do realismo mágico, o filósofo mexicano Ramón Xirau, no
ensaio “Crisis del realismo” (América
Latina en su literatura), procura “os diversos sintomas e diversos
caminhos de uma busca literária que não se conforma com um realismo relativo
aos fatos”, e os encontra nas primeiras narrativas da literatura espanhola,
como o Cantar del Mío Cid:
“[...] Nesta literatura real e de vulto, às vezes exposta brutalmente, sem paliativos,
está muitas vezes presente uma maneira de violentar a realidade e
transcendê-la. El Cid é real e concreto; não esqueçamos que ganha sua última
batalha, já herói mítico, depois de morto”.
Com certeza, não são
essas as raízes do realismo mágico de Rubião, mas talvez remontem àquela
primeira narrativa da descoberta, quando, sob o olhar de Pero Vaz de Caminha,
os índios tornam-se “tão limpos e tão gordos e tão fremosos que não pode ser
mais!”, sem esquecer das descrições sobre o Éden enfim reencontrado, que
conformam um relato nitidamente onírico, no qual já se anunciava, segundo a
observação de Luciana Stegagno Picchio (História
da literatura brasileira), “o mito sempre colimado [...] do eldorado
edênico, ‘visão do paraíso’, na feliz expressão de Sérgio Buarque de Holanda
[...]”.
Decepções irremediáveis
No entanto, se de fato
forem essas as raízes do realismo mágico brasileiro, Murilo Rubião utiliza tal
herança de maneira felizmente adversa, destruindo qualquer possibilidade de
esperança, subvertendo o ideal do paraíso à crua realidade, na qual o tédio, a
amargura, o amor irrealizado, o desespero irremediável e as buscas
decepcionantes são intensificados pelo elemento de delírio que, ao invés de
oferecer uma possibilidade de escape ou de superação metafísica, massacra ainda
mais os personagens aflitos, quase sempre medíocres, escravizados às suas
familiazinhas pequeno-burguesas – ou tentando inutilmente fugir delas – e ao
cotidiano mesquinho.
Em
“A casa do girassol vermelho”, por exemplo, no livro de mesmo título, a narrativa
começa sob um clima de alegria sensual. O êxtase físico marca as páginas
iniciais com ânimos inflamados pelo sentimento de libertação. “[...] Naquela
manhã quente, queimada por um sol violento, a Casa do Girassol Vermelho, com os
seus imensos jardins, longe da cidade e do mundo, respirava uma alegria
desvairada”, diz o narrador. Pouco a pouco, a sombra do velho Simeão, “porco
imundo” e “puritano hipócrita”, pai adotivo de todos os personagens, falecido
subitamente, retorna ao convívio dos filhos, pois suas agressões são
inesquecíveis. Então, a atmosfera de entusiasmo se arrefece, não só por causa
das lembranças opressivas, mas também pela morte de um dos irmãos, o desbocado
Xixiu, que submerge nas águas da represa. A partir desse ponto, é como se o
velho Simeão jamais tivesse morrido. “Olhavam-me mudos”, diz o narrador, “os
rostos sem esperança. [...] Tudo se quebrara.” Eles viviam “o último dia”, sem
nada que pudesse amenizar a existência, contaminados pela morte e pelas dores
que toda a euforia inicial não conseguira abrandar. Assim, sem qualquer
explicação, os personagens se entregam a um fado de silencioso desespero,
enquanto o narrador vê nascer, no ventre de uma das irmãs, “as primeiras
pétalas de um minúsculo girassol vermelho”.
A mesma irrecuperabilidade
encontra-se em “O lodo” (in O pirotécnico
Zacarias). Os desencontros marcam, desde o começo, a relação entre
Galateu e o psicanalista Pink da Silva e Glória, a quem o primeiro procura,
motivado por “uma depressão ocasional”. O diagnóstico surge antes mesmo do
término da primeira consulta: “[...] Repreensivo, assegurou que o paciente
carregava dentro de si imenso lodaçal”. Sem nada entender, o paciente se recusa
a continuar o tratamento. Perseguido por Pink, que insiste em curá-lo, Galateu se
debate em um delírio crescente e angustiante. Depois de ter um pesadelo – “uma
faca penetrava-lhe a carne, escarafunchava os tecidos, à procura de um segredo.
Sua irmã Epsila e o analista, debruçados sobre seu corpo, acompanhavam atentos
os movimentos irregulares da lâmina” –, ele acorda e, ao se olhar no espelho,
vê que, no lugar do mamilo esquerdo, “despontara uma ferida sangrenta, aberta
em pétalas escarlates”. O pesadelo deixara sua marca. O espanto, contudo, é
superado. Passados dois meses de aparente tranqüilidade, a intuição de que
voltaria a ser perseguido pelo médico faz a ferida reabrir. E, realmente, tudo
recomeça. Sob intensa pressão, Galateu não resiste e adoece. Inesperadamente, a
irmã surge para cuidar dele, acompanhada do filho “retardado mental”. A partir
desse ponto, tudo se precipita e o horror se instala, até chegarmos ao final,
quando a cena do pesadelo se concretiza, com Pink e Epsila debruçando-se “sobre
o corpo moribundo”.
Desde os primeiros
parágrafos, uma culpa apenas presumível se introduz no relato, como se o animal
libertado durante a primeira sessão de análise não pudesse mais ser contido.
Finalmente, a culpa explode a carne, mas só depois se revela na confirmação do
incesto entre os irmãos, levando a uma sucessão de acontecimentos que acabam
por condenar Galateu. Quando não há mais espaço para qualquer atitude lúcida,
quando tudo é invadido pela incoerência, resta apenas a ferida aberta ao
sadismo dos algozes.
Essa narrativa atroz não
pretende, no entanto, comunicar qualquer moral. Não se trata de uma parábola
nos moldes bíblicos e tampouco de uma alegoria. Mais do que a pretensão de
transmitir valores sob uma forma figurada, o conto objetiva criar um microcosmo
terrível, sufocante, no qual o narrador fornece apenas os elementos essenciais
para manter a lógica do enredo. A história fecha-se em si mesma de tal maneira,
que o desvendamento de alguns supostos símbolos seria um exercício fútil.
Sarcasmo e zombaria
Mas Rubião tem momentos
de bom humor. No conto “O ex-mágico da Taberna Minhota” (in O pirotécnico Zacarias), apesar do
desconsolo que acompanha toda a narrativa, o mágico – suspenso em uma
existência sem passado e desejando um fim impossível, enfastiado de viver –
decide tornar-se um burocrata, pois “ouvira de um homem triste que ser
funcionário público era suicidar-se aos poucos”. Meses depois, quando volta a
precisar de seus dotes de ilusionista, descobre que “a faculdade de fazer
mágicas [...] fora anulada pela burocracia”. Uma evidente crítica mordaz, na
qual o serviço público aniquila inclusive o que é fabuloso ou incomum.
Em “Ofélia, meu cachimbo
e o mar”, presente na mesma coletânea de “O ex-mágico da Taberna Minhota”, a
irrisão reaparece. O narrador nos conduz por memórias tortuosas, marcadas de
evidente melancolia, nascida, por sua vez, de uma história de insucessos que
atestam a inevitável – e insuperável – distância entre os desejos e a
realidade. Durante suas recordações, o narrador reserva à memória do pai dois
comentários sarcásticos. O primeiro, de que a última viagem paterna por pouco
não havia sido marítima, pois ele “morreu engasgado com uma espinha de peixe”.
A seguir – dando seqüência ao relato dos eventos marítimos que distinguem a
história da família, apesar de ter nascido em “um vilarejo de Minas, agoniado
nas fraldas da Mantiqueira” –, surge a segunda revelação, uma importante
referência à higiene do genitor: o pai jamais externara “o desejo de ser
navegador, nem tampouco abusou dos banhos”. Ao final, vencida uma série de
contradições, tudo se revela falso, incluindo a companheira que o escuta, sua
adorável Ofélia, e o leitor percebe, penhorado, que caiu em uma esparrela.
O mesmo tipo de escárnio
é encontrado em “Memórias do contabilista Pedro Inácio” (in A casa do girassol vermelho), a começar
de uma das epígrafes, retirada de Machado de Assis: “Marcela amou-me durante
quinze meses e onze contos de réis”. A um passo do final da narrativa, o
contabilista descobre que, além de todas as suas memórias serem infundadas, ele
é filho de uma prostituta. O que abala seu ânimo, entretanto, é pensar em todos
os gastos que teve nos estudos genealógicos sobre sua falsa família e,
igualmente grave, o fato de que jamais saberá a origem de sua calvície. Mais
uma vez, o narrador/personagem encontra-se suspenso em uma situação dúbia e
inexplicável, da qual ele se salva, neste caso, graças à sua ilimitada e
incontrolável fixação nos cálculos das despesas e dos ganhos que se escondem na
realidade. O insólito, distante do sobrenatural, transmuta-se em fatos
rotineiros, plenos de banalidade.
Narrador onisciente
“O ex-mágico da Taberna
Minhota”, “Ofélia, meu cachimbo e o mar” e “Memórias do contabilista Pedro
Inácio” fazem parte de um conjunto formado por doze contos narrados em primeira
pessoa, dentre os 22 que compõem os dois volumes lançados, até março de 2007, pela
Editora Companhia das Letras. É a característica de Rubião que, depois dos
temas extraordinários, mais ressalta. Trata-se de um narrador que se dirige aos
leitores às vezes com intimidade, oferecendo descrições eivadas de suposta
sabedoria, anunciada pelas epígrafes da Bíblia que abrem todos os contos, mas
que acaba sempre por se dissipar, substituída pelo desvario ou pelo erro.
A fórmula se repete
tanto, que chega a contrariar. Assim, em um primeiro momento, o tom
confessional surge como uma desagradável fragilidade, a chamar a atenção do
leitor, insistentemente, para o ato de narrar, como se desejasse lembrar-nos
que o texto é apenas ficção. Mais tarde, em uma segunda leitura, ao
reencontrarmos o narrador que não só testemunha, mas protagoniza vários
relatos, percebemos que esse foco narrativo, necessariamente limitado, é a
ferramenta justa, em muitos casos, à construção do universo mágico do autor, no
qual o realismo comum se desintegra sob a autoridade onisciente da voz que tudo
vê e tudo sabe.
Murilo Rubião nos
deixou apenas 33 histórias, reescritas incansavelmente. A figura desse
funcionário público, com seu bigode bem aparado e sua calva, limando anos
seguidos as frases que dão vida ao seu mundo fantasioso, é também ela uma
personagem mágica, pois esconde dentro de si o bufão e o burocrata entediado, o
confidente de um coelhinho chamado Teleco e Godofredo, caminhando em círculos,
de uma mulher a outra, somente para reencontrar a mesma figura, a mesma insatisfação.
Ou um morto-vivo como o pirotécnico Zacarias, a perguntar-se, sem encontrar
resposta, “que acontecimentos o destino reservará a um morto se os vivos
respiram uma vida agonizante?”.
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janeiro 31, 2012
A adúltera e a contradição
Gustave
Flaubert escreveu Madame Bovary entre
1851 e 1856. Na verdade, “escrever”, neste caso, é um eufemismo. O verbo não dá
conta de todos os estados emocionais experimentados durante a execução do
projeto e, muito menos, do confronto ocorrido – não só naqueles anos – entre o
escritor e as palavras. Mas podemos acompanhar os altos e baixos da relação
autor–obra lendo a correspondência de Flaubert, da qual uma pequena parte foi traduzida no Brasil.
No
início de novembro de 1851, ele escreve à amante, Louise Colet: “[...] Avanço
penosamente no meu livro. Eu gasto bastante papel. Quantas rasuras! A frase
demora a vir. Que diabo de estilo escolhi! Que desgraça os temas simples!”. E
conclui: “Eis-me comprometido por um ano pelo menos”. Poucas semanas mais
tarde, em fevereiro de 1852, percebe que previu mal o futuro: “[...] Isso está
tomando proporções formidáveis em termos de tempo. Com certeza, eu ainda não
terei terminado até o início do próximo inverno”. E as dificuldades persistem:
“Não escrevo mais que cinco ou seis páginas por semana”.
Mal
abril começou, ele está desesperado:
Estou mais cansado do que
se empurrasse montanhas. Há momentos em que tenho vontade de chorar. É preciso
uma vontade sobre-humana para escrever e eu sou apenas um homem. [...] Você
sabe quantas páginas eu vou completar dentro de oito dias desde que voltei daí?
Vinte. Vinte páginas em um mês e trabalhando pelo menos sete horas por dia; e
qual o fim de tudo isto? O resultado? Amarguras, humilhações internas, nada em
que se amparar a não ser a ferocidade de
uma fantasia indomável.
Ainda
escrevendo a Louise, sua privilegiada interlocutora, a 24 de abril ele
experimenta sentimentos contraditórios:
Eu completei [...] vinte e
cinco páginas (vinte e cinco páginas em seis semanas). Foram duras de conseguir.
[...] Eu as trabalhei tanto, recopiei, mudei, remanejei, que no momento não
vejo mais nada. [...] Levo uma vida áspera, deserta de qualquer alegria
exterior e onde não tenho nada em que me apoiar a não ser uma espécie de raiva
permanente, que às vezes chora de impotência, mas que é contínua. Eu gosto do
meu trabalho com um amor frenético e pervertido, como um asceta do cilício que
lhe arranha o ventre. Às vezes, quando eu me encontro vazio, quando a expressão
se furta, quando, depois de ter garatujado longas páginas, descubro que não fiz
nem uma frase, caio no meu divã e fico ali paralisado num pântano interior de
tédio.
Eu me odeio e me acuso por
essa demência de orgulho que me faz arquejar atrás da quimera. Um quarto de
hora depois, tudo mudou; meu coração bate de alegria. Na última quarta-feira,
eu fui obrigado a me levantar para apanhar meu lenço de bolso; é que as
lágrimas corriam sobre o meu rosto. Eu me enterneci escrevendo, eu gozava,
deliciosamente, da emoção de minha idéia e da frase que a revelava e da
satisfação de tê-la encontrado.
Até
o início de junho de 1856, as cartas oscilarão do júbilo ao cansaço, do
desespero ao encontro repentino de forças para perseverar, da repugnância ao prazer
de conseguir a palavra correta para o que ele deseja dizer.
“Passo
várias horas a procurar uma palavra”, afirma em maio de 1852. No dia 23 do
mesmo mês, sente-se “estéril como uma pedra”. Mas em 18 de julho, comemora:
“Quinta à noite, às duas horas da manhã, eu me deitei tão animado com meu
trabalho que às três me levantei e trabalhei até o meio-dia. [...] Eu ainda
sinto o gosto dessas trinta e seis horas olímpicas e fiquei contente, como na
felicidade”. Entretanto, passados quatro dias, se diz pronto a “recopiar,
corrigir e rasurar toda a primeira parte”, concluindo: “Que coisa desgraçada é
a prosa! Não termina nunca; tem-se que refazer sempre”. E logo depois, a 27 de
julho, a constatação lapidar: “Ao escrever esse livro, eu sou como um homem que
tocasse piano com bolas de chumbo sobre cada falange”.
No
dia 26 de outubro, afirma ter “vinte e sete páginas (quase prontas) que são o
trabalho de dois grandes meses”. Em janeiro de 1853, diz ter conseguido 65
páginas em cinco
meses. Em abril, contando a partir de janeiro, alcança a
marca de 39 páginas. E em meio à “fadiga” e à “fetidez do tema”, que se
alastram por todo o abril, ele lamenta: “Há três semanas que estou a escrever dez páginas! Passo dias inteiros a mudar
palavras repetidas, a evitar assonâncias! E quando trabalho bem, estou menos
adiantado no fim do dia do que no começo”.
Quando
chega outubro, ele detesta o livro e a si mesmo:
Este livro, no ponto em que
estou, me tortura de tal modo (e se eu achasse uma palavra mais forte, eu a
empregaria) que eu fico às vezes doente fisicamente. Há três semanas que tenho
com frequência dores de fazer desmaiar. De outras vezes, são opressões, ou
melhor, vontade de vomitar na mesa. Tudo me desgosta. Acho que hoje me teria
enforcado com delícia, se o orgulho não me tivesse impedido. É certo que às
vezes sou tentado a mandar tudo se foder, e a Bovary em primeiro lugar. Que
santa idéia maldita eu tive em apanhar um tema semelhante! Ah! eu bem os conheci,
os pavores da Arte!
No
entanto, pouco antes do Natal, a 23 de dezembro, às duas da madrugada,
Flaubert, apesar de “fatigado com a lentidão” e de temer “o despertar, as
desilusões das páginas recopiadas”, é um homem seduzido pela escrita:
[...] Bem ou mal, é uma
coisa deliciosa escrever, não ser mais para si mesmo, mas circular
em toda a criação de que se fala. Hoje, por exemplo, homem e mulher tudo junto,
um e outro amante ao mesmo tempo, eu passeei a cavalo, numa floresta, por uma
tarde de outono, sob folhas amarelas, e eu era os cavalos, as folhas, o vento,
as palavras que eles diziam e o sol vermelho que fazia entrecerrar as pálpebras
afogadas de amor. É orgulho ou piedade, é o extravasamento néscio de uma
auto-satisfação exagerada? ou então um vago e nobre instinto de religião? Mas
quando eu rumino, depois de tê-las sentido, estas alegrias, vejo-me tentado a
fazer uma oração de agradecimento ao bom Deus, se eu soubesse que ele me
ouviria. Que ele seja bendito por não me ter feito nascer negociante de
algodão, escritor de vaudeville,
homem espirituoso etc!
Mais
tarde, em 18 de abril de 1854, ele reclamará novamente: “Quando é que virá o
dia bem-aventurado em que escreverei a palavra fim? Em setembro, vão fazer três anos que estou neste livro. É
muito, três anos passados sobre a mesma idéia, a escrever com o mesmo estilo
[...], a viver sempre com os mesmos personagens, no mesmo meio, com os flancos
de encontro à mesma ilusão”.
No
ano seguinte, 1855, em maio, escrevendo ao amigo Louis Bouilhet, diz temer que
o fim do romance pareça “acanhado, pelo menos como dimensão material”. Quando
setembro está prestes a terminar, trabalha “mediocremente e sem gosto ou talvez
com desgosto” e se diz “verdadeiramente cansado”. Finalmente, a 1º de junho de
1856, revela a Bouilhet ter enviado o manuscrito ao editor – mas só depois de suprimir
“cerca de trinta páginas, sem contar nisso aí muitas linhas subtraídas”, além
de detalhar vários outros cortes.
Método e paixão
Se
há várias maneiras de narrar uma história, há um número quase infinito de se
escrever uma biografia. Esse período de 1851 a 1856 poderia ser visto sob diversos
prismas, mas prefiro pensar nesses anos torturados como uma seqüência de meses
centrais na carreira do escritor, não apenas por terem resultado em Madame Bovary, mas principalmente pelas
centenas de páginas jogadas no lixo, pelo número inexprimível de palavras
rasuradas e frases refeitas, pelas horas de angústia e pelo gozo, ainda que
efêmero, de chegar a um resultado – uma infatigável luta com as palavras.
Flaubert
não estabeleceu apenas um método de trabalho. Sim, ele sabia que “todo talento
de escrever não consiste senão na escolha das palavras. É a precisão que faz a
força” – diz a Louise Colet, a 22 de julho de 1852. Mas não se tratou somente
de disciplina. Flaubert tinha consciência das correntes que o prendiam, maiores
que os seus próprios limites. Sabia que a expressão humana é claudicante, falha,
imperfeita; que há um abismo separando a idéia e o discurso, a emoção e a
palavra. O narrador de Madame Bovary
conclui em certo trecho que “a palavra humana é como um caldeirão rachado, no
qual batemos melodias próprias para fazer dançar os ursos, quando desejaríamos
enternecer as estrelas”. Ter a clara consciência da imperfeição, da rudeza dos
meios humanos, do idioma, e ainda assim persistir, demanda mais que obediência
a um método: exige obsessão, exige viver em um mórbido estado de vigilância e
pesquisa, cuja primeira conseqüência é a solidão, e, logo a seguir, a visão terrível
de seus semelhantes como uma horda de estúpidos e insensíveis. De fato, em 22
de abril de 1853, ele escreve: “O único meio de viver em paz é colocar-se, de
um salto, acima da humanidade inteira e não ter nada em comum com ela, a não
ser pelo olhar”. Se Flaubert agiu corretamente ao se transformar em um tipo
especial de misantropo, isso podemos discutir em outro momento. O que interessa
neste texto é que, pensando dessa forma e agindo como agiu, exatamente por
esses motivos, deu vida a Emma Bovary.
Em
seu ensaio sobre Flaubert, Henry James chama nossa atenção para a personalidade
de Emma: “[...] Ela mergulha cada vez mais fundo em duplicidade, dívidas,
desespero, e encontra um fim trágico [...]. E faz tudo isso enquanto permanece
absorvida pela visão e pela intenção românticas, e permanece absorvida pela
visão e pela intenção românticas enquanto rola na lama”. Ora, a febre de Emma
reflete a febre de seu criador. Flaubert não escreve apenas, mas se espoja nos
rascunhos da obra, cego a tudo que não seja o romance, reclamando do que o
obriga a interromper seu trabalho e procrastinando o mais que pode os encontros
com Louise Colet, dedicado exclusiva e apaixonadamente à literatura, escrevendo
e devorando Rabelais, Cervantes e Montaigne – a vida que ele chamou de uma
“orgia perpétua”.
Fetichismo
Mas
para se viver em uma “orgia perpétua” faz-se necessário desejar não somente o clímax
do prazer – esse gozo que se aproxima do estertor. Alguns amantes imaginam que
a volúpia é feita também do amor aos detalhes; às vezes, do apego fetichista a
este ou àquele pormenor. E Flaubert demonstra ser esse tipo doentio de amante. Uma
cena, para ele, requer a evocação de tantas minúcias, que chegamos a nos
perguntar se, de fato, tudo é imprescindível. Mas tudo é imprescindível. Um editor malevolente poderia suprimir algumas
frases – e Madame Bovary continuaria
genial –; perderíamos, entretanto, uma série de elementos que, combinados, não
só forjam verossimilhança, mas seduzem, modelam o mundo do qual nos aproximamos
como animais curiosos, sedentos de uma realidade que não seja a nossa.
Quando
Charles Bovary visita pela primeira vez a propriedade dos Bertaux, onde Emma
vive com o pai, a quinta se revela para o leitor em meio à sonolência do médico.
Amanhece, e não bastasse o vapor úmido que se eleva de uma grande estrumeira,
“sob o telheiro havia duas grandes carroças e quatro charruas com seus
chicotes, seus cabrestos, sua equipagem completa, entre os quais as peles de
carneiro pintadas de azul sujavam-se com o pó fino que caía dos celeiros”. Ao
penetrar na casa, Bovary vê o almoço dos criados fervendo ao redor do fogo, as
roupas úmidas secando na lareira, e “a pá, as pinças e os foles, todos de
proporções colossais”, que “brilhavam como aço polido”, e a “abundante bateria
de cozinha onde se refletiam de forma desigual a chama clara do fogão
juntamente com os primeiros raios de sol que entravam pelas vidraças”. É a
exaltação do detalhe. Mas não há um único elemento que, ao ser retirado, dele possamos
dizer: – Realmente, era desnecessário.
Nas
seguidas visitas que Bovary faz aos Bertaux, Emma, ao se despedir,
sempre o acompanhava até o
primeiro degrau da escada externa. Enquanto não traziam seu cavalo, ela
permanecia ali. Já se haviam despedido, não se falavam mais; o ar livre a
rodeava, levantando em desordem os pequenos e loucos cabelos de sua nuca ou
sacudindo em seus quadris os cordões do avental que se enroscavam como
bandeirolas. Uma vez, num dia de degelo, a casca das árvores ressumava no
pátio, a neve fundia nos telhados das construções. Ela estava na soleira da
porta; foi procurar a sombrinha, abriu-a. A sombrinha de seda furta-cor que o
sol atravessava iluminava com reflexos móveis a pele branca do seu rosto.
Embaixo, ela sorria no calor tépido e ouviam-se as gotas d’água, uma a uma, que
caíam sobre o chamalote esticado.
O
jogo de luzes, a brisa e a leve tensão da despedida, ampliada pelo silêncio de
Emma e Charles. E as gotas d’água a entrecortar o silêncio, propagando ainda
mais a tensão – Flaubert interliga os elementos, e semeia no leitor o desejo de
estender a mão para conceder à cena o tato, o sentido que falta.
Algum
tempo depois do casamento, os Bovary são convidados ao castelo do marquês de
Andervilliers. Emma penetra em uma galeria na qual se sucedem, “sobre a madeira
escura do lambri”, as pinturas que retratam os antepassados da família. Ela tenta,
em vão, captar todas as imagens, sorver cada detalhe, mas é impossível:
Depois, mal se distinguiam
os que vinham em seguida, pois a luz das lâmpadas, caindo sobre o tapete verde
do bilhar, deixava flutuar uma certa sombra na sala. Escurecendo as telas horizontais,
quebrava-se contra elas em finas arestas seguindo as fendas do verniz; e, de
todos aqueles quadrados negros debruados de ouro saíam, cá e lá, uma porção
mais clara de pintura, uma fronte pálida, dois olhos que fixavam o observador,
perucas que caíam sobre os ombros empoeirados dos trajes vermelhos, ou então a
fivela de uma jarreteira no alto de uma panturrilha roliça.
A
miríade de pormenores, a volúpia por descrever, por chafurdar num oceano de
cores, formas e perfumes, se repetirá sempre. Flaubert agoniza para dar conta
de toda a realidade, e parece, a cada novo parágrafo, próximo do paroxismo ou
do êxtase, o que configura uma sobrecarga emocional permanente. Quando Emma
retorna do castelo, sofrendo pelo fato de abandonar aquele mundo ideal, fecha
“piedosamente na cômoda seu belo vestido e até seus sapatos de cetim [...]”. Mas
não só. Falta algo à frase. E então Flaubert nos oferece o complemento preciso:
“[...], cuja sola amarelara-se com a cera deslizante do assoalho”. A busca do pormenor
exato faz com que Flaubert escreva a um passo do esgotamento; mas ele se dispõe
a pagar o preço, a fim de que nada escape ao leitor.
Amor e ódio
Esse
extremo cuidado com os detalhes nos fornece indícios da personalidade de Emma
desde as primeiras páginas do romance. Em uma das visitas de Bovary à quinta
dos Bertaux, o futuro casal bebe licor. Depois de servir a si mesma uma dose
pequena, Emma leva o copinho à boca: “Como estava quase vazio, ela inclinava-se
para trás, para beber; e com a cabeça deitada, avançando os lábios, com o
pescoço retesado, ria por nada sentir, enquanto, passando a ponta da língua
entre os dentes finos, lambia aos poucos o fundo do copo”. A adúltera já não
está toda nesses gestos? Sua luxúria não freme na ponta dessa língua serpeante?
Flaubert
descreve bem inclusive quando recusa pormenores ao leitor. Depois de
reencontrar Léon Dupuis em
Rouen, Emma iniciará seu segundo caso de adultério, agora com
o jovem escrevente, que conhecera em Yonville. Quando saem da catedral e se
fecham na carruagem que passa a trafegar por toda a cidade, nada mais sabemos. O
escritor não precisa dizer o que ocorre por trás das cortinas – e também não
precisamos ter, sob os olhos, um mapa de Rouen, a fim de acompanhar a sucessão
de ruas. O infindável e tortuoso percurso alimenta num crescendo a nossa
desconfiança e, ao mesmo tempo, explica tudo. À nossa imaginação bastam a mão
nua que passa sob as cortinas e joga fora a carta de despedida que Emma havia
escrito a Léon, agora transformada em pedacinhos de papel; e depois de horas fechados
ali, a mulher que desce sozinha, “caminhando com o véu abaixado e sem virar a
cabeça”. Minutos mais tarde, sabendo que o marido a aguarda em Yonville, o
narrador arremata nossa certeza, dizendo que Emma sente “no coração aquela
covarde docilidade que é, para muitas mulheres, ao mesmo tempo como o castigo e
o preço do adultério”.
O
escritor nos faz amar e odiar Emma Bovary. Poucos homens não se encantariam ao
ver a clara nudez dessa mulher contrastando com o carmim das cortinas de má
qualidade e, a melhor parte, depois que não existem mais segredos, ela, tão
experiente em dissimular e trair, agindo como uma menina envergonhada:
A cama era uma cama de
casal de acaju em forma de barca. As cortinas de levantina vermelha que desciam
do teto fechavam-se baixo demais, perto da cabeceira que se alargava; e nada
havia no mundo de mais bonito do que sua cabeça morena e sua pele branca
destacando-se sobre aquela cor púrpura quando, com um gesto de pudor, ela
fechava os dois braços nus, escondendo o rosto nas mãos.
Nossa
imaginação despreza as cenas chulas e o vocabulário mortalmente cru ao nos
depararmos com uma descrição que oferece, melhor que as palavras grosseiras, o frenesi
da entrega:
Despia-se brutalmente,
arrancando o fino cordão do seu corpete que lhe sibilava ao redor das ancas
como o escorregar de uma cobra. Ia na ponta dos pés nus ver ainda uma vez se a
porta estava fechada; depois, com um único gesto, deixava cair, juntas, todas
as suas roupas; – e, pálida, sem falar, séria, abatia-se contra seu peito, com
um longo estremecimento.
Mas
ela se entrega apenas quando ama. Chantageada, oprimida pela cobrança das
dívidas e das promissórias, pelo processo e pela penhora dos bens, pode
insinuar a Léon que ele deveria roubar para ajudá-la, mas não aceita ser
seduzida pelo notário de Yonville. Revolta-se, tenta persuadir Rodolphe, o
primeiro amante, a lhe dar dinheiro, e quando percebe que está perdida,
manipula ainda uma última vez. Demonstrando a argúcia e a agilidade de reflexos
que a tornam exuberante, manipula para poder se matar. E a mesma avidez daquela
língua que buscava o fundo do copo de licor, reencontramos na mão que, arrancando
a rolha do pote de veneno, mergulha para retornar cheia do pó branco que Emma
se põe a comer sofregamente.
A dor das mulheres
Numa
carta de setembro de 1852, Flaubert escreve a Louise Colet sobre a dor das
mulheres, de como se aproximou delas e as observou para escrever seu romance: “Eu
conheci suas dores, pobres almas obscuras, úmidas de melancolia guardada, como
estes pátios fundos das casas de província, cujos muros estão cheios de musgo”.
Pergunto-me o quanto esta afirmativa é sincera. Quem escreve não é o homem que
pretendia viver acima da humanidade, sem nada ter em comum com ela, “a não ser
pelo olhar”? A contradição do escritor revela mais que a mera simpatia pelo
drama alheio. O intenso desejo de perfeição, a busca febril dos detalhes e das
palavras precisas – essas forças certamente dominam Flaubert. Mas no íntimo
desse homem há lugar para a solidariedade que o aproxima de seus semelhantes. Caso
não fosse assim, não teria criado uma personagem tão múltipla, em relação à
qual não só ele, mas todos nós, com maior ou menor exatidão, podemos dizer: Madame Bovary c’est moi.
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janeiro 28, 2012
Oração
Infalível
Criador, que dos tesouros da Vossa sabedoria tirastes as hierarquias dos anjos,
colocando-as com ordem admirável no céu e distribuístes o universo com
maravilhosa harmonia; Vós que sois a verdadeira fonte da luz e o princípio
supremo da sabedoria, difundi sobre as trevas da minha mente o raio do
esplendor, removendo as duplas trevas nas quais nasci: o pecado e a ignorância.
Vós que
tornastes fecunda a língua das crianças, tornai erudita a minha língua e
espalhai sobre os meus lábios a vossa bênção. Concede-me o rigor para entender,
a capacidade de reter, a sutileza de relevar, a facilidade de aprender, a graça
abundante de falar e de escrever. Ensina-me a começar, rege-me a continuar e
perseverar até o término. Vós que sois verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que
vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.
São Tomás de
Aquino
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janeiro 26, 2012
Aos ludibriadores e falsos profetas que pregam o “discernimento”
“Ó Verdade, em
toda a parte estás à disposição de todos os que te consultam, e respondes ao
mesmo tempo a todos os que te consultam, ainda que sobre coisas diversas. Tu
respondes claramente, mas nem todos te ouvem claramente. Todos te consultam
sobre o que querem, mas nem sempre ouvem o que querem. O melhor dos teus servos
é aquele que não concentra mais a sua atenção em ouvir de ti aquilo que ele
próprio quer, mas antes em querer aquilo que de ti ouvir.”
– Santo Agostinho,
Confissões, Livro X
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janeiro 24, 2012
Perscrutadores da verdade
“O homem não pode se contentar com uma simples e tolerante troca de céticas opiniões e experiências de vida: todos somos perscrutadores da verdade e compartilhamos este profundo anseio, sobretudo neste nosso tempo em que, ‘quando as pessoas trocam informações, estão já a partilhar-se a si mesmas, a sua visão do mundo, as suas esperanças, os seus ideais’ (Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2011).”
– É o que nos diz, com sabedoria, Bento XVI em sua mensagem para o 46º Dia Mundial das Comunicações Sociais.
– É o que nos diz, com sabedoria, Bento XVI em sua mensagem para o 46º Dia Mundial das Comunicações Sociais.
janeiro 21, 2012
“Humility is endless”
The only wisdom we can hope to acquire
Is the wisdom of humility: humility is endless.
A única sabedoria a que podemos aspirar
É a sabedoria da humildade: a humildade é infinita.
T. S. Eliot
(“East Coker”, Four Quartets)
– Tradução de Ivan Junqueira
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janeiro 08, 2012
Poema para a Solenidade da Epifania do Senhor
Obreiros somos – mestre, aprendizes, serventes –
e te construímos, ó grande nave altaneira.
Às vezes chega a nós um peregrino silente;
ei-lo que como um clarão cruza as nossas cem mentes
e trêmulo nos traz alguma nova maneira.
Galgamos andaimes que ao nosso passo estremecem;
maciços os martelos que nossas mãos sustêm;
isso até aflorar-nos a fronte uma hora que se
irisa e fulge como se de tudo soubesse:
como o vento vem do mar, é de ti que ela vem.
Ouve-se então um malhar de martelos inúmeros
que, golpe após golpe, pelas montanhas se expande.
Só te deixamos quando a noite cai e no escuro
podemos já ver-te os vagos contornos futuros.
Deus, como tu és grande.
Rainer Maria Rilke
(tradução de José Paulo Paes)
e te construímos, ó grande nave altaneira.
Às vezes chega a nós um peregrino silente;
ei-lo que como um clarão cruza as nossas cem mentes
e trêmulo nos traz alguma nova maneira.
Galgamos andaimes que ao nosso passo estremecem;
maciços os martelos que nossas mãos sustêm;
isso até aflorar-nos a fronte uma hora que se
irisa e fulge como se de tudo soubesse:
como o vento vem do mar, é de ti que ela vem.
Ouve-se então um malhar de martelos inúmeros
que, golpe após golpe, pelas montanhas se expande.
Só te deixamos quando a noite cai e no escuro
podemos já ver-te os vagos contornos futuros.
Deus, como tu és grande.
Rainer Maria Rilke
(tradução de José Paulo Paes)
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Rainer Maria Rilke
outubro 24, 2011
Manuel Antônio de Almeida: talento para recriar a vida
Há uma qualidade indiscutível em Memórias de um sargento de milícias, de
Manuel Antônio de Almeida: passado mais de um século e meio da sua publicação –
de 1852 a 1853, na forma de um folhetim semanal anônimo, no suplemento
“Pacotilha” do jornal Correio Mercantil
–, o romance não se dobra às classificações da crítica. E a qualidade só
aumenta quando lembramos que a obra nasce em pleno romantismo, três anos antes de
surgir, também no formato de folhetim, O
guarani, de Alencar; e cresce ainda mais pelo fato de a narrativa ser uma
contraposição – ao que parece, irrefletida, espontânea – à grandiloquência, à
retórica e ao sentimentalismo exacerbado dos românticos.
Aliás, no que se refere à espontaneidade, a obra
de Manuel Antônio de Almeida apresenta aos escritores a chance de refletirem
sobre o ofício da escrita, pois nosso autor sempre falhou – vejam seus poemas,
absolutamente medíocres – quando pretendeu ser literato. Alguns de seus trabalhos
são, portanto, um convite à reflexão sobre a fronteira que separa a
literariedade do texto artificial, o metaforismo do jogo de palavras vazio, a
literatura dos malabarismos verbais, a arte do vanguardismo oco, o que
efetivamente permanecerá do que é apenas moda aprovada por uma minoria de
supostos mandarins da crítica – que também acabam, com o tempo, esquecidos.
Marques Rebelo, autor de um ótimo livro sobre
Manuel Antônio de Almeida – esgotado, infelizmente, há mais de quarenta anos –,
conta que o escritor produzia os capítulos do Memórias de forma despretensiosa, enquanto os amigos discutiam
política ou literatura, cantavam e tocavam violão: “[...] esticado numa
marquesa, com preguiça de mudar a horizontal atitude, punha o chapéu alto sobre
o ventre e em cima dele ia enchendo a lápis as suas tiras de papel, indiferente
às risadas dos companheiros, sem dar grande importância ao seu trabalho, que
nem era assinado [...]”. Comportamento, aliás, que corrobora o testemunho de um
amigo do escritor, Francisco Otaviano, segundo o qual Manuel Antônio de Almeida
“adivinhava com alguns momentos de atenção tudo o que não estudara e escrevia
sobre assuntos examinados de relance, como se de longo espaço os tivesse
aprofundado”.
Compadrio
e perversões
Surge dessa genial naturalidade o livro escrito
por um jovem de 21 anos, obra que, romântica ou não, precursora ou não do
realismo, influenciada ou não pela literatura picaresca, narra, por meio de uma
voz indulgente e jocosa, o cotidiano de pessoas comuns. O narrador do Memórias flagra os personagens em meio à
vida que condena todos, de uma forma ou de outra, ao anonimato, a pequenas e
múltiplas mesquinharias – a maior parte das vezes, jamais reveladas – e a
insignificantes gestos de heroísmo. Ele se coloca, assim, entre dois outros
escritores que, opondo-se ao turbilhão de pieguice do romantismo brasileiro,
conseguiram rir: Álvares de Azevedo – infelizmente em raras oportunidades, como
no poema “É ela! É ela! É ela! É ela!” – e Martins Pena.
A verdade simples, banal, das relações humanas
nasce, a cada página do Memórias,
despojada de idealismo ou angústia, e somos levados, desde a primeira linha –
“Era no tempo do rei” – a um microcosmo cujo retrato não tem compromisso algum
com a crônica histórica ou com a descrição fidedigna dos costumes da época de
d. João VI, mundo no qual o que está em jogo é a sobrevivência diária de homens
e mulheres que não se perguntam, sombrios, por qual motivo foram jogados na
face da Terra ou qual o sentido de suas existências, mas cumprem seu fado
usando os meios que têm à mão, não importando se desagregam lares, ferem
interesses de outrem ou maculam princípios éticos e religiosos.
Assim, não há um só personagem – favorável ou contrário
ao protagonista – que não tenha defeitos ou esconda alguma segunda intenção: Leonardo-Pataca
(pai do protagonista homônimo) é um mulherengo carente; a mãe de Leonardo (filho
de Leonardo-Pataca), uma adúltera; o padrinho, barbeiro que acolhe o menino
quando os pais se separam, enganador e ladrão de heranças. A própria comadre,
madrinha do menino, sua fiel protetora, quando surge a oportunidade não hesita
em mentir para defender os interesses do afilhado e, insinuante, arranja o
casamento de Leonardo-Pataca com sua sobrinha. O padre que ocupa o cargo de mestre-de-cerimônias
da Sé, exemplo de moralidade, é amante de uma cigana. E até mesmo o major
Vidigal, símbolo irrepreensível da ordem e da lei, acaba vencido por seu
calcanhar de Aquiles. O único que vive acima desse gregarismo marcado pelo
compadrio e por pequenas perversões – mas sempre usufruindo dele – é Leonardo,
que está longe de se mostrar “esvaziado de lastro psicológico”, como afirma
Antonio Candido, mas, ao contrário, demonstra o perfil típico de quem é criado,
longe dos pais, por um adulto que lhe faz todas as vontades e só o elogia,
encontrando méritos nos seus piores comportamentos: será uma eterna criança,
acostumada a deixar as decisões a cargo dos que direcionam sua vida; um
sonhador que nada faz de útil, vivendo às expensas dos outros, incapaz de lutar
pelo que deseja, mesmo quando se trata de uma paixão.
Império
feminino
Sempre considerei incrível que, apesar de suas
dificuldades financeiras, Manuel Antônio de Almeida tenha conseguido escrever um
romance tão leve, descomprometido com a estética de seu tempo, empenhado na
tarefa de apenas contar uma boa e divertida história. A vivacidade desse livro não
é obscurecida nem mesmo pela presença do vocabulário, de forte influência
portuguesa; e essa característica se contrapõe a outro aspecto do romantismo,
pois demonstra o quanto não era essencial a luta de alguns, principalmente de
Alencar, para dar vida a uma linguagem verdadeiramente brasileira.
O romance, inclusive, diverge da própria
organização social do país, supostamente patriarcal, ao colocar as mulheres no
papel de protagonistas. Manuel Antônio de Almeida cria um império feminino,
verdadeiro matriarcado, onde os personagens masculinos sempre se submetem –
além de raramente tomarem alguma importante iniciativa. Elas não se assemelham
às heroínas de Alencar, não almejam pureza, santidade ou o êxtase de um grande amor,
mas sabem unir sedução, doçura maternal, tirocínio e desembaraço para os
arranjos que podem beneficiar a si mesmas ou aos seus queridos. Sim, têm
defeitos – “Espiar a vida alheia, inquirir dos escravos o que se passava no
interior das casas, era naquele tempo cousa tão comum e enraizada nos costumes,
que ainda hoje, depois de passados tantos anos, restam grandes vestígios desse
belo hábito”, ironiza o narrador –, mas se impõem, unidas, certas do que
desejam, sem jamais titubear, para proteger seus escolhidos. Até mesmo a
tímida, feia e desengonçada Luizinha confirma o protagonismo das mulheres, pois,
logo após a morte do marido, é quem se antecipa no jogo de sedução, a fim de casar
com Leonardo.
Mas não estamos diante de uma cartilha que faz a
apologia do feminismo. Não. Isso seria diminuir um romance cuja pièce de résistance é a ironia. No
entanto, por razões desconhecidas – o autor pretendeu agradar ao público leitor
da época, formado principalmente por mulheres, ou manifestou uma influência da
infância, quando vivia protegido por sua mãe e pelas irmãs? –, são as mulheres
que movem a trama e lutam para girar a roda da fortuna. A importância delas
avulta inclusive nas personagens secundárias: a mulata Vidinha, com seu sorriso
capaz de derrotar qualquer oponente, e seu bordão, “qual”, repetido sempre com
extrema graça, e a vizinha do barbeiro, trocista e zombeteira, persistem na
imaginação dos leitores.
Críticas e
influência
É estranho que tal romance tenha recebido
críticas nem sempre positivas. José Veríssimo fala em “trivialidade do assunto,
pobreza do enredo e banalidade dos personagens”, chamando atenção para o
“estilo incorreto, descosido e solto, de uma simplicidade que é trivial, de um
caráter sem feição, nem relevo”. E, entre os modernistas, Mário de Andrade,
apesar de considerar Manuel Antônio de Almeida um “vigoroso estilista”, achava
“incontestável que o autor das Memórias
se exprimia numa linguagem gramaticalmente desleixada”. Mário, aliás, não consegue
rir livremente enquanto lê o romance. Na introdução que escreveu para a edição
de 1941, põe-se a denunciar o “achincalhe das classes desprotegidas, mais
cômodas de ridicularizar por menos capazes de reação”. Logo a seguir, volta à
carga: “Se exclui e se diverte caçoando, sem a menor intenção moral, sem a
menor lembrança de valorizar as classes ínfimas. Pelo contrário,
aristocraticamente as despreza pelo ridículo, lhes carregando acerbamente na
invenção, os lados infelizes ou vis”. E, no penúltimo parágrafo, solta mais impropérios:
“Das suas angústias materiais, da infância pobre, o artista não guardou nenhuma
piedade pela pobreza, nenhuma compreensão carinhosa do sofrimento baixo e dos
humildes. Bandeou-se com armas e bagagens para a aristocracia do espírito e,
como um São Pedro não arrependido, nega e esquece. Goza. Caçoa. Ri”.
Certamente, o autor de Macunaíma se
refestelaria nos dias de hoje, quando certa subliteratura politicamente
correta, de contestável valor, é guindada ao lugar de honra no pódio construído
pela crítica literária de esquerda.
Serão Eugênio Gomes, no ensaio conciso e
perfeito de Aspectos do romance
brasileiro, e Antonio Candido, no seu “Dialética da malandragem” – do qual
deve ser descontado certo esquematismo sociológico –, aqueles que demonstrarão
compreender a índole do romance e seu papel central em nossa literatura,
inclusive como antecipador da obra machadiana.
A propósito, a influência de Manuel Antônio de
Almeida sobre Machado é tema que pede aprofundados estudos. Mário de Andrade
escreve de forma injusta ao afirmar existir “algo do estilo espiritual de
Machado de Assis” no autor do Memórias,
pois a verdade deveria ser dita na ordem inversa: o autor de Dom Casmurro, além de protegido por
Manuel Antônio de Almeida na Tipografia Nacional, onde era considerado um
preguiçoso, herdou de seu protetor não só a sutileza da frase, mas a habilidade
para construir um narrador irônico, que apresenta os homens sem julgá-los e se dirige
ao leitor como se este fosse seu cúmplice. Ascendência inevitável, convenhamos,
inclusive porque Machado revisou o Memórias,
a fim de preparar o livro para a edição de 1862/1863.
Estamos, portanto, diante de um romance cujas
influências são maiores do que se imagina – e ainda pobremente detectadas na
literatura nacional, já que os influenciados, repetindo o que o próprio Machado
fez, mostram-se lacônicos quando se trata de tecer elogios a Manuel Antônio de
Almeida.
Ironia e
galhofa
No que se refere à ironia, ela está presente do
começo ao fim do livro, sugerindo ou implicando conclusões diferentes daquelas
que o narrador parece exprimir: o contexto e as contradições dos termos
despertam dúvida ou riso, construindo uma narrativa que alguns críticos,
erroneamente, supuseram “moralizante”. Na verdade, o narrador não julga, mas,
ao discordar de um costume ou de certo comportamento, apenas expressa, de
maneira paternal ou jocosa, a sua censura – escarnecendo, jamais sentenciando. É
o que ocorre no capítulo da procissão dos ourives, sobre a qual o narrador
aponta modismos e desvirtuamentos, mas também descreve os diferentes aspectos do
cortejo religioso, incluindo o encanto e a graciosidade do rancho das baianas –
sob seu ponto de vista, manifestação completamente fora de lugar. Ou, em outro
trecho, ao depreciar a moda da mantilha, transformada em mau gosto: “Este uso
da mantilha era um arremedo do uso espanhol; porém a mantilha espanhola, temos
ouvido dizer, é uma cousa poética que reveste as mulheres de um certo mistério,
e que lhes realça a beleza; as mantilhas das nossas mulheres, não; era a coisa
mais prosaica que se pode imaginar, especialmente quando as que as traziam eram
baixas e gordas como a comadre. A mais brilhante festa religiosa [...] tomava
um aspecto lúgubre logo que a igreja se enchia daqueles vultos negros, que se
uniam uns aos outros, que se inclinavam cochichando a cada momento”. Conclusões
mais próximas da galhofa do que de uma pretensa moralização.
Nesse romance, cujas histórias se repetem, todos
os dias, em qualquer bairro de classe média baixa, há espaço também para a
crítica politicamente incorreta, por exemplo, quando o narrador passa a falar
mal daqueles que, hoje, poderiam ser considerados mais uma das minorias ditas
indefesas: “A poesia de seus costumes [dos ciganos] e de suas crenças, de que
muito se fala, deixaram-na da outra banda do oceano; para cá só trouxeram maus
hábitos, esperteza e velhacaria [...]”. E não há traço de ufanismo em Manuel
Antônio de Almeida: nenhuma virgem – índia, negra, mulata ou branca – tem
“lábios de mel”, e os sabiás, se deles tivesse falado, gorjeariam como qualquer
outro pássaro, em qualquer lugar do mundo, às vezes incomodando com seu chilreio
repetitivo.
Plasticidade
A descrição da casa de um fidalgo, na qual o pó
cobre da rótula à palma benta esquecida a um canto, e do próprio morador, “de
cara um pouco ingrata”, que se apresenta ao visitante “de tamancos, sem meias,
em mangas de camisa, com um capote de lã xadrez sobre os ombros, caixa de rapé
e lenço encarnado na mão”, ou os pormenores utilizados para nos apresentar a
sala de aula em que Leonardo estudará – “mobiliada por quatro ou cinco longos
bancos de pinho sujos já pelo uso, uma mesa pequena que pertencia ao mestre, e
outra maior onde escreviam os discípulos, toda cheia de pequenos buracos para
os tinteiros; nas paredes e no teto haviam penduradas uma porção enorme de
gaiolas de todos os tamanhos e feitios, dentro das quais pulavam e cantavam
passarinhos de diversas qualidades” – são alguns dos inúmeros trechos que
extrapolam o simples realismo ou a crônica de costumes, passagens talvez
inspiradas nos relatos de Antônio César Ramos – funcionário do Correio Mercantil, chegara à patente de
sargento nas milícias de d. João VI – ao escritor, mas que, certamente, foram transfigurados
por acréscimos e distorções.
Se a força imaginativa desse jovem autor cria
cenas de inusitada plasticidade, seus personagens parecem respirar, não devido
ao exagero de características, mas à escolha perfeita do que merece ser
ressaltado: “Era a comadre uma mulher baixa, excessivamente gorda, bonanchona
ingênua ou tola até certo ponto, e finória até outro; vivia do ofício de
parteira, que adotara por curiosidade, e benzia de quebranto; todos a conheciam
por muito beata e pela mais desabrida papa-missas da cidade. Era a folhinha
mais exata de todas as festas religiosas que se faziam”. Descrições nas quais a
psicologia nunca é menosprezada, como no trecho a seguir, quando o narrador
justifica a atitude tolerante do barbeiro em relação às estripulias de
Leonardo: “Era isto natural em um homem de uma vida como a sua; tinha já 50 e
tantos anos, nunca tinha tido afeições; passara sempre só, isolado; era
verdadeiro partidário do mais decidido celibato. Assim à primeira afeição que
fora levado a contrair sua alma expandiu-se toda inteira, e seu amor pelo
pequeno subiu ao grau de rematada cegueira”.
Falsificação
e verdade
Perguntei-me, enquanto relia o Memórias, quais seriam os defeitos da
obra. E encontrei-os, acreditem: no final do Capítulo IX do Tomo II, vemos as
dificuldades de um narrador onisciente que, apesar de reter em suas mãos todas
as informações – o que não é, de fato, um problema –, parece ter medo de se
alongar, por falta de tempo ou espaço, sentindo-se premido a unir os fios
soltos do enredo mediante considerações genéricas, inconvincentes. Situação
repetida no Capítulo XIII do mesmo tomo, no qual o narrador resume os fatos, dando
ao texto um tom superficial, esquemático. Em outros raros momentos, abusa-se de
uma solução redentora: no Capítulo X do Tomo II, transcorrem semanas antes que descubram
onde Leonardo está, pois abandonou a casa paterna depois de brigar com sua
jovem madrasta; mas quando o protagonista se vê acossado por rivais, surge no
instante propício, inesperadamente, sua principal defensora, a comadre.
Tais senões, entretanto, são tragados pela
absoluta maioria de ótimas cenas. Vejam o Capítulo I do Tomo II, no qual
acompanhamos as minúcias de um parto, da preocupação e ansiedade do pai às
orações, práticas e mezinhas da boa parteira – e não se trata, aqui, apenas de
perfeição da escrita, mas do raro poder de revelar humanidade. Ou, ainda, a
descrição dos estados de ânimo do protagonista ao se apaixonar por Luizinha: seu
desconforto por desejar reciprocidade imediata, mas só receber, a princípio,
falta de jeito e timidez. E sua insegura declaração de amor (Capítulo XXIII,
Tomo I), enquanto Luizinha apenas gesticula ou enrubesce, “página que antecipa
Machado de Assis em suas melhores realizações de caráter psicológico” – segundo
a correta afirmação de Eugênio Gomes –, exemplo vivíssimo de um autor que
domina a técnica do diálogo, transmitindo, por meio das reticências, dos
silêncios e da brevidade das falas, a carga dramática adequada.
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