abril 13, 2012

É pouco, CNBB, muito pouco

Não basta uma Nota Oficial – tímida, burocrática e meramente protocolar –, senhores bispos. Não basta uma Nota Oficial que ninguém lê. Queremos ouvi-los clamando nos altares, denunciando em alta e indignada voz nas praças públicas, nos jornais, nas rádios, na Internet. Queremos ver, ouvir e participar da indignação dos senhores e de toda a Igreja. Queremos nos sentir verdadeiramente amparados e defendidos por nossos pastores. Queremos vê-los e ouvi-los agindo, à luz do dia, segundo a exortação de São Paulo: “Não vos conformeis com este mundo” (Rm 12, 2). Façam mais pela verdade, senhores bispos! Façam mais pela vida! 

abril 05, 2012

A homilia que será lembrada para sempre


Na história da Igreja Católica, poucas vezes um papa investiu, em suas homilias, contra um problema específico – e de forma clara, objetiva, sem usar recursos metafóricos. O Beato João Paulo II inaugurou, no século XX, o uso desse discurso direto, chegando a, em algumas oportunidades, admoestar publicamente os que se encontravam no caminho do erro.

Hoje, durante a Santa Missa Crismal, Bento XVI, movido pelo Espírito Santo, pleno de lucidez teológica e amor paternal, respondeu não só ao “Chamado à desobediência” dos padres austríacos, mas também àqueles que, pertencentes à Igreja Universal, semeiam a cizânia, a confusão entre os fieis, difundindo uma teologia “mais voluntariosa que iluminada, inteiramente dedicada à árdua e improvável tarefa de salvar, através de suas próprias categorias, a Jesus Cristo e Sua Palavra”, como bem afirmou, com evidente ironia, Dom Francesco Moraglia, o novo Patriarca de Veneza.

Chamando o clero à obediência, ao abandono do secularismo e do comportamento laxista – aliás, tão comum entre padres e bispos brasileiros –, Bento XVI foi claro: “[...] A configuração a Cristo é o pressuposto e a base de toda a renovação. [...] Os Santos indicam-nos como funciona a renovação e como podemos servi-la. E fazem-nos compreender também que Deus não olha para os grandes números nem para os êxitos exteriores, mas consegue as suas vitórias sob o sinal humilde do grão de mostarda”. De fato, como dizia o Beato Cardeal John Henry Newman, “a crítica à Igreja sem disposição de obedecer resulta necessariamente estéril”.

Mais que uma crítica clara aos que desejam revolucionar a Igreja e lutam abertamente contra a Santa Tradição e o Magistério, as palavras de Bento XVI são um apelo a que toda a hierarquia eclesial retome o “zelo das almas”: “Não se faça a minha vontade, mas a tua: esta é a palavra que revela o Filho, a sua humildade e conjuntamente a sua divindade, e nos indica a estrada”.

Abaixo, segue o texto integral da homilia:

Amados irmãos e irmãs!

Nesta Santa Missa, o nosso pensamento volta àquela hora em que o Bispo, através da imposição das mãos e da oração consacratória, nos integrou no sacerdócio de Jesus Cristo, para sermos «consagrados na verdade» (Jo 17, 19), como Jesus pediu ao Pai na sua Oração Sacerdotal. Ele mesmo é a Verdade. Consagrou-nos, isto é, entregou-nos para sempre a Deus, a fim de que, a partir de Deus e em vista d’Ele, pudéssemos servir os homens. Mas somos também consagrados na realidade da nossa vida? Somos homens que atuam a partir de Deus e em comunhão com Jesus Cristo? Com esta pergunta, o Senhor está diante de nós, e nós diante d’Ele. «Quereis viver mais intimamente unidos a Cristo e configurar-vos com Ele, renunciando a vós mesmos e permanecendo fiéis aos compromissos que, por amor de Cristo e da sua Igreja, aceitastes alegremente no dia da vossa Ordenação Sacerdotal?» Tal é a pergunta que, depois desta homilia, será dirigida singularmente a cada um de vós e a mim mesmo. Nela, são pedidas sobretudo duas coisas: uma união íntima, mais ainda, uma configuração a Cristo e, condição necessária para isso mesmo, uma superação de nós mesmos, uma renúncia àquilo que é exclusivamente nosso, à tão falada autorrealização. É-nos pedido que não reivindique a minha vida para mim mesmo, mas a coloque à disposição de outrem: de Cristo. Que não pergunte: Que ganho eu com isso? Mas sim: Que posso eu doar a Ele e, por Ele, aos outros? Ou mais concretamente ainda: Como se deve realizar esta configuração a Cristo, que não domina mas serve, não toma mas dá. Como se deve realizar na situação tantas vezes dramática da Igreja de hoje? Recentemente, num país europeu, um grupo de sacerdotes publicou um apelo à desobediência, referindo ao mesmo tempo também exemplos concretos de como exprimir esta desobediência, que deveria ignorar até mesmo decisões definitivas do Magistério, como, por exemplo, na questão relativa à Ordenação das mulheres, a propósito da qual o beato Papa João Paulo II declarou de maneira irrevogável que a Igreja não recebeu, da parte do Senhor, qualquer autorização para o fazer. Será a desobediência um caminho para renovar a Igreja? Queremos dar crédito aos autores deste apelo quando dizem que é a solicitude pela Igreja que os move, quando afirmam estar convencidos de que se deve enfrentar a lentidão das Instituições com meios drásticos para abrir novos caminhos, para colocar a Igreja à altura dos tempos de hoje. Mas será verdadeiramente um caminho a desobediência? Nela pode-se intuir algo daquela configuração a Cristo que é o pressuposto para toda a verdadeira renovação, ou, pelo contrário, não é apenas um impulso desesperado de fazer qualquer coisa, de transformar a Igreja segundo os nossos desejos e as nossas ideias?

Mas o problema não é assim tão simples. Porventura Cristo não corrigiu as tradições humanas que ameaçavam sufocar a palavra e a vontade de Deus? É verdade que o fez, mas para despertar novamente a obediência à verdadeira vontade de Deus, à sua palavra sempre válida. O que Ele tinha a peito era precisamente a verdadeira obediência, contra o arbítrio do homem. E não esqueçamos que Ele era o Filho, com a singular autoridade e responsabilidade de desvendar a autêntica vontade de Deus, para deste modo abrir a estrada da palavra de Deus rumo ao mundo dos gentios. E, por fim, Ele concretizou o seu mandato através da sua própria obediência e humildade até à Cruz, tornando assim credível a sua missão. Não se faça a minha vontade, mas a tua: esta é a palavra que revela o Filho, a sua humildade e conjuntamente a sua divindade, e nos indica a estrada.

Deixemo-nos interpelar por mais uma questão: Não será que, com tais considerações, o que na realidade se defende é o imobilismo, a rigidez da tradição? Não! Quem observa a história do período pós-conciliar pode reconhecer a dinâmica da verdadeira renovação, que frequentemente assumiu formas inesperadas em movimentos cheios de vida e que tornam quase palpável a vivacidade inexaurível da santa Igreja, a presença e a ação eficaz do Espírito Santo. E se olharmos para as pessoas de quem dimanaram, e dimanam, estes rios pujantes de vida, vemos também que, para uma nova fecundidade, se requer o transbordar da alegria da fé, a radicalidade da obediência, a dinâmica da esperança e a força do amor.

Queridos amigos, daqui se vê claramente que a configuração a Cristo é o pressuposto e a base de toda a renovação. Mas talvez a figura de Cristo nos apareça por vezes demasiado alta e grande para podermos ousar tomar as suas medidas. O Senhor sabe-o. Por isso providenciou «traduções» em ordens de grandeza mais acessíveis e próximas de nós. Precisamente por este motivo, São Paulo resolutamente diz às suas comunidades: Imitai-me, mas eu pertenço a Cristo. Ele era para os seus fiéis uma «tradução» do estilo de vida de Cristo, que eles podiam ver e à qual podiam aderir. A partir de Paulo e ao longo de toda a história, existiram continuamente tais «traduções» do caminho de Jesus em figuras históricas vivas. Nós, sacerdotes, podemos pensar numa série imensa de sacerdotes santos que vão à nossa frente para nos apontar a estrada, a começar por Policarpo de Esmirna e Inácio de Antioquia, passando por grandes Pastores como Ambrósio, Agostinho e Gregório Magno, depois Inácio de Loiola, Carlos Borromeu, João Maria Vianney, até chegar aos sacerdotes mártires do século XX e, finalmente, ao Papa João Paulo II, que, na acção e no sofrimento, nos serviu de exemplo na configuração a Cristo, como «dom e mistério». Os Santos indicam-nos como funciona a renovação e como podemos servi-la. E fazem-nos compreender também que Deus não olha para os grandes números nem para os êxitos exteriores, mas consegue as suas vitórias sob o sinal humilde do grão de mostarda.

Queridos amigos, queria ainda, brevemente, acenar a duas palavras-chave da renovação das promessas sacerdotais, que deveriam induzir-nos a refletir nesta hora da Igreja e da nossa vida pessoal. Em primeiro lugar, é-nos recordado o facto de sermos – como se exprime Paulo - «dispensadores dos mistérios de Deus» (1 Cor 4, 1) e que nos incumbe o ministério de ensinar, o (munus docendi), que constitui precisamente uma parte desta distribuição dos mistérios de Deus, onde Ele nos mostra o seu rosto e o seu coração, para Se dar a Si mesmo. No encontro dos Cardeais por ocasião do recente Consistório, diversos Pastores, baseando-se na sua experiência, falaram dum analfabetismo religioso que cresce no meio desta nossa sociedade tão inteligente. Os elementos fundamentais da fé, que no passado toda e qualquer criança sabia, são cada vez menos conhecidos. Mas, para se poder viver e amar a nossa fé, para se poder amar a Deus e, consequentemente, tornar-se capaz de O ouvir corretamente, devemos saber aquilo que Deus nos disse; a nossa razão e o nosso coração devem ser tocados pela sua palavra. O Ano da Fé, a comemoração da abertura do Concílio Vaticano II há 50 anos, deve ser uma ocasião para anunciarmos a mensagem da fé com novo zelo e nova alegria. Esta mensagem, na sua forma fundamental e primária, encontramo-la naturalmente na Sagrada Escritura, que não leremos nem meditaremos jamais suficientemente. Nisto, porém, todos sentimos necessidade de um auxílio para a transmitir rectamente no presente, de modo que toque verdadeiramente o nosso coração. Este auxílio encontramo-lo, em primeiro lugar, na palavra da Igreja docente: os textos do Concílio Vaticano II e o Catecismo da Igreja Católica são os instrumentos essenciais que nos indicam, de maneira autêntica, aquilo que a Igreja acredita a partir da Palavra de Deus. E naturalmente faz parte de tal auxílio todo o tesouro dos documentos que o Papa João Paulo II nos deu e que está ainda longe de ser cabalmente explorado.

Todo o nosso anúncio se deve confrontar com esta palavra de Jesus Cristo: «A minha doutrina não é minha» (Jo 7, 16). Não anunciamos teorias nem opiniões privadas, mas a fé da Igreja da qual somos servidores. Isto, porém, não deve naturalmente significar que eu não sustente esta doutrina com todo o meu ser e não esteja firmemente ancorado nela. Neste contexto, sempre me vem à mente o seguinte texto de Santo Agostinho: Que há de mais meu do que eu próprio? E no entanto que há de menos meu do que o sou eu mesmo? Não me pertenço a mim próprio e torno-me eu mesmo precisamente pelo facto de me ultrapassar a mim próprio e é através da superação de mim próprio que consigo inserir-me em Cristo e no seu Corpo que é a Igreja. Se não nos anunciamos a nós mesmos e se, intimamente, nos tornamos um só com Aquele que nos chamou para sermos seus mensageiros de tal modo que sejamos plasmados pela fé e a vivamos, então a nossa pregação será credível. Não faço publicidade de mim mesmo, mas dou-me a mim mesmo. Como sabemos, o Cura d’Ars não era um erudito, um intelectual. Mas, com o seu anúncio, tocou os corações das pessoas, porque ele mesmo fora tocado no coração.

A última palavra-chave, a que ainda queria aludir, designa-se zelo das almas (animarum zelus). É uma expressão fora de moda, que hoje já quase não se usa. Nalguns ambientes, o termo «alma» é até considerado como palavra proibida, porque – diz-se – exprimiria um dualismo entre corpo e alma, cometendo o erro de dividir o homem. Certamente o homem é uma unidade, destinada com corpo e alma à eternidade. Mas isso não pode significar que já não temos uma alma, um princípio constitutivo que garante a unidade do homem durante a sua vida e para além da sua morte terrena. E, enquanto sacerdotes, preocupamo-nos naturalmente com o homem inteiro, incluindo precisamente as suas necessidades físicas: com os famintos, os doentes, os sem-abrigo; contudo, não nos preocupamos apenas com o corpo, mas também com as necessidades da alma do homem: com as pessoas que sofrem devido à violação do direito ou por um amor desfeito; com as pessoas que, relativamente à verdade, se encontram na escuridão; que sofrem por falta de verdade e de amor. Preocupamo-nos com a salvação dos homens em corpo e alma. E, enquanto sacerdotes de Jesus Cristo, fazemo-lo com zelo. As pessoas não devem jamais ter a sensação de que o nosso horário de trabalho cumprimo-lo conscienciosamente, mas antes e depois pertencemo-nos apenas a nós mesmos. Um sacerdote nunca se pertence a si mesmo. As pessoas devem notar o nosso zelo, através do qual testemunhamos de modo credível o Evangelho de Jesus Cristo. Peçamos ao Senhor que nos encha com a alegria da sua mensagem, a fim de podermos servir, com jubiloso zelo, a sua verdade e o seu amor. Amém.

abril 04, 2012

Memória e lágrimas: “Os desaparecidos – a procura de 6 em 6 milhões de vítimas do Holocausto”, de Daniel Mendelsohn


No Canto I da Eneida, o protagonista, Eneias, se depara, em certo templo de Cartago, com um mural que retrata a Guerra de Troia, de que fora um dos poucos sobreviventes. E, chorando, lastima: Sunt lacrimae rerum, et mentem mortalia tangunt (“Há lágrimas nas coisas, e os sofrimentos tocam nossa alma”). Para Daniel Mendelsohn, autor de Os desaparecidos – a procura de 6 em 6 milhões de vítimas do Holocausto, a primeira parte desse verso se transforma, à medida que o escritor avança em sua busca, numa “espécie de legenda para distâncias comoventemente insuperáveis criadas pelo tempo”. No caso de Eneias, o adorno do templo cartaginês representou a revivescência de um fato terrível. No que se refere a Mendelsohn, o autor testemunha emoção semelhante à do troiano quando apresenta, a uma de suas entrevistadas, fotografias dos familiares mortos no Holocausto: para ele, imagens de parentes quase desconhecidos, dos quais tentava se aproximar décadas depois de terem sido assassinados; mas à idosa sentada a seu lado, que convivera vários anos com aquelas pessoas e participara dos acontecimentos brutais que as condenaram à morte, as fotos tinham um significado pungente. “Eles estiveram lá e nós, não”, conclui Mendelsohn, e assevera: “Há lágrimas nas coisas; mas todos nós choramos por razões diferentes”.

De fato, a ampla, exaustiva investigação de Os desaparecidos é uma pugna detetivesca, às vezes angustiosa, às vezes consoladora, mas sempre lacunar, marcada pela distância não só temporal, não apenas física, mas também psicológica. Em vão Mendelsohn tentará preencher o vácuo que o separa dos familiares mortos sob o nazismo, pois, apesar de todas as suas inúmeras descobertas, ele guarda uma torturante certeza:

[...] quanto mais eu conversava com as pessoas, mais estava ciente de quanto simplesmente não pode ser conhecido, em parte porque a coisa [...] jamais foi testemunhada e, portanto, é agora incognoscível, e em parte porque a própria memória daquelas coisas que foram testemunhadas pode pregar peças, pode omitir o que é doloroso demais, ou ser enfeitada de modo a se adequar a um padrão do qual gostamos.

Sim, nenhum esforço, nenhum empenho poderá preencher as fissuras que nascem desta certeza: “Eles estiveram lá e nós, não”. Ou, como diz padre António Vieira, “os discursos de quem não viu, são discursos; os discursos de quem viu, são profecias”.

Mas, de que forma nasce Os desaparecidos? O que move seu autor na direção do passado, em busca da vida e da morte de seis parentes – o tio-avô materno, sua esposa e as quatro filhas – perdidos entre seis milhões de vítimas?

Tudo começa por uma leve semelhança e as reações que ela provoca. Quando menino, Mendelsohn tem alguns traços – certo arco desenhado pela sobrancelha e a linha do queixo – de Shmiel Jäger, o tio-avô. E sempre que os parentes veem a criança, a emoção, incontrolável, aflora. Com o tempo, às perguntas sobre o motivo das lágrimas acrescenta-se a personalidade do garoto que criva o avô materno – homem refinado, religioso, que “transpira europeidade” – de perguntas e não se cansa de ouvi-lo contar histórias familiares, dentre as quais, a dos seis mortos é a única que permanece incompleta. Somem-se a tais elementos o adolescente que ama o estudo, a busca da verdade, a incansável classificação de informações, e o adulto apaixonado pela literatura clássica – e teremos o quadro propício à investigação serena, lúcida, que Mendelsohn empreende, emocionando-se diante de cada nova descoberta, sem desistir mesmo quando sofre decepções. Uma pesquisa que procura saber, minuciosamente, não apenas como seis pessoas morreram, mas também como viveram e... como viveram seus últimos momentos.

Daniel Mendelsohn cria, assim, uma impressionante teia de memórias, na qual se entrecruzam o epistolário familiar, genealogias, testemunhos de sobreviventes, viagens transoceânicas, história do antissemitismo, exegese bíblica e poucos mas surpreendentes sincronismos.

Consciência do efêmero

A estrutura do livro obedece a um permanente diálogo entre as descobertas do autor e seus pensamentos sobre duas diferentes interpretações da Torá: a do rabino francês Shlomo ben Itz’hak, mais conhecido como Rashi, nascido em Troyes, em 1040, e a do rabi Richard Elliot Friedman, mais recente, que busca ligar o texto antigo à vida contemporânea. Os comentários desses estudiosos iluminam as idas e vindas de Mendelsohn, que recupera várias das loucuras cometidas em nome do antissemitismo – das vinganças ocasionais aos assassinatos sistemáticos das aktionen nazistas, passando por diferentes perseguições de ordem econômica –, parte da história da Galícia, figuras marcantes do pensamento judaico e o somatório de detalhes que compõem a existência dos heróis anônimos que, vivendo na cidadezinha polonesa onde seu tio-avô residia – Bolechow (hoje Bolekhiv, na Ucrânia) –, conseguiram sobreviver.

Mendelsohn constrói lentamente sua narrativa, apoiando-se nesses fragmentos de memórias sofridas, das quais, muitas vezes, avulta a pior das dores, a psíquica. Enquanto descortina a verdade sobre seus familiares, também acorda para suas lembranças da infância – quando se sentia decepcionado com seu povo, que lhe parecia, ele confessa, “um povo de perdedores” – e da adolescência, quando compreende o que é ser judeu e de como estava ligado a uma intrincada e milenar trama de relações.  

Sessenta anos depois do Holocausto e duas décadas após o suicídio de seu avô, que já não suportava a tortura do câncer, Mendelsohn aprenderá que o trivial pode se transformar, com a passagem do tempo, em algo merecedor de ser preservado. Cada nova revelação ampliará sua angústia, fazendo-o tomar consciência de como “é fácil para alguém se perder, permanecer desconhecido para sempre”. Durante os longos meses em que procura dar vida aos que morreram, experimentará a decepção de não poder modificar o passado – e também, durante raros e gratificantes momentos, a proximidade com os mortos, até acordar para a verdade das palavras do irmão que o acompanha na maioria das viagens: “o Holocausto não foi algo que simplesmente aconteceu, mas é um evento que ainda está acontecendo”.

Duplo investigador

Contudo, se há uma característica central nessa busca que se defronta ora com testemunhos contraditórios, ora com relatos que desmentem, inclusive, parte das histórias que o próprio avô de Mendelsohn contava, ela tem um nome: fragilidade. Mas, terrível ironia, é exatamente essa fragilidade, nascida da distância de que falávamos acima, que permite a existência do narrador, daquele que se propõe contar a história.

Dentre outros méritos, o narrador de Os desaparecidos não hesita em expor até mesmo divisões familiares, velhos ressentimentos. Não o faz para obedecer a alguma doentia compulsão, mas porque – movido, aparentemente, pela sinceridade – estabelece analogias entre o passado de seus ancestrais, próximos e distantes, e as descobertas que realiza no presente, utilizando-as como parte de seu método investigativo. Acompanhamos, assim, um duplo pesquisador: o que interroga suas testemunhas e o que se questiona sobre de que maneira as respostas obtidas não só o aproximam ou afastam da verdade, mas também lhe franqueiam as portas do autoconhecimento e das raízes do judaísmo.

Dotado de bom humor, destituído de qualquer ingenuidade, Mendelsohn está certo de que todo conhecimento traz, em seu bojo, alguma dor – e que se há orgulho na acumulação do saber, há também a possibilidade de conhecer certas coisas tarde demais para que nos façam algum bem. Dessa forma, ele nunca deixa de se perguntar se deve ou não prosseguir.

Inspirando-se na técnica narrativa do avô, plena de digressões, técnica reencontrada, anos mais tarde, em Homero, Heródoto, Proust e Sebald, esse narrador detalhista mostra-se capaz de analisar inclusive sutilezas linguísticas, com o objetivo de esclarecer, por exemplo, o sentido de uma palavra em iídiche – e assim iluminar sua história e a de seu povo.

Mas, insisto, trata-se, acima de tudo, de uma voz consciente de que seu olhar e suas conclusões sobre o testemunho dos que viveram o Holocausto é, somente, uma frágil aproximação da verdade.

O homem que vê e se vê

Homenagem aos que se recusam a esquecer, preito à memória, a cada página de Os desaparecidos ressoa a exclamação: lembrem dos judeus de Bolechow, daqueles milhares que foram humilhados gratuitamente e morreram sob a iniquidade. Ao final, deles restaram apenas 48, dispersos sobre a terra. E lembrem-se também daqueles seis, emudecidos pelo ódio.

Mais de três séculos antes de Os desaparecidos ser publicado, no ano de 1674, em Roma, pronunciando, perante a rainha Cristina da Suécia, o panegírico “Lágrimas de Heráclito”, António Vieira comentava o verso de Virgílio que Mendelsohn escolheu como epígrafe:

Não residem as lágrimas só nos olhos, que veem os objetos, mas nos mesmos objetos, que são vistos; ali está a fonte, aqui está o rio; ali nascem as lágrimas, aqui correm; e se as mesmas coisas que não veem, choram, quanto mais razão tem o homem que vê e se vê?.


Quando chegamos às páginas finais de Os desaparecidos, descobrimos – ou lembramos – quão extensa é a dor que impregna a vida – ainda que tal verdade seja perceptível apenas ao “homem que vê e se vê” –, pois o relato de Daniel Mendelsohn nos fornece inúmeras, desoladoras razões para distinguir as lágrimas das coisas, chorar com elas – e também por nós.

abril 03, 2012

Puro pedantismo

No Rascunho deste mês, minha análise do romance Canaã, de Graça Aranha: “Jamais entendi por qual motivo afirma-se que Canaã é um romance nacionalista — e, consequentemente, teria sido uma das obras que anteciparam as ideias da Semana de 22. A bem da verdade, se há exaltação dos valores nacionais nesse livro, estão descritos às avessas — ou foram encontrados por algum crítico fantasioso. [...] A cada página, reaparece o fel do naturalismo, pretensamente científico, de Aluísio Azevedo. Eco da escola evolucionista e do germanismo de Tobias Barreto, de quem Graça Aranha foi discípulo, Canaã também apresenta respingos da lama frenologista e preconceituosa de Mestiçagem, degenerescência e crime, de Nina Rodrigues”.

abril 02, 2012

Ao ego de Leonardo Boff, sem retoques

Alguém, por favor, avise a Leonardo Boff que ninguém está aguardando por ele na Igreja Católica; que não somos agradecidos a ele – e a outros teólogos da libertação – pela cizânia que semearam entre nós (e continuam tentando semear); que desejamos que ele continue vendendo bem os seus livros de teologia New Age, publicados por uma editora supostamente fransciscana, pois o que seria do mercado editorial se não existisse subliteratura?; e que a Igreja, Bento XVI e nós, católicos fieis a Roma, dormimos todas as noites sem dar a mínima para o que ele pensa, deixou de pensar ou falou aos esquerdistas empregados no Estadão.

abril 01, 2012

Pantomimas no Domingo de Ramos (ou, se preferirem: Para onde vai a Igreja no Brasil?)

Hoje, porta de entrada para a Semana Santa, fui brindado com altas doses de populismo durante a missa. Não, não bastaram os cânticos semelhantes a marchinhas de Carnaval, em alto volume, com os fiéis, empolgados, quase sambando na procissão. O bom padre, aparentemente certo de estar fazendo o melhor, primeiro dispensou-se de pronunciar a homilia, pois, segundo ele, “nada pode substituir o que que cada um sente em seu coração”. Antes do ofertório, contudo, foi enfático ao falar sobre a importância da coleta para a Campanha da Fraternidade – e insistiu que fôssemos “generosos”. No Pai Nosso, inventou um teatrinho alegre, exigindo que todos erguessem a mão direita para o alto – a fim de “segurar na mão de Jesus” – e com a esquerda apertassem com força o ombro do irmão que estivesse ao lado, pois precisamos “demonstrar como somos verdadeiramente unidos” (para minha sorte, a pessoa que estava a meu lado era uma frágil octogenária...). Antes da comunhão, disse que queria ver “todos sorrindo, todos com alegria”, pois ele e os ministros não estavam “dando veneno” às pessoas. E insistiu que devemos sempre recusar a comunhão quando o “padre ou ministro não sorri”. Ainda insatisfeito, recusou-se a dar a bênção final, alegando que, “depois de tantos anos de sacerdócio”, seu “estoque de bênçãos tinha se esgotado” – pelo visto, ele realmente acredita que a bênção é obra pessoal sua, e não fruto da Graça de Deus, da qual ele serve, apenas, como intermediário. E, respondendo ao apelo do padre, a assembleia novamente se transformou num rancho de Carnaval. Parti, então, para casa, em busca do silêncio do meu lar e da homilia de Bento XVI, deixando um padre realizado, certo de ter feito o melhor, não sem antes que ele, sorrindo, feliz, perguntasse a todos, de maneira a finalizar dignamente a celebração: “Até que a missa não demorou muito, né, pessoal?!”. Foram suas últimas e santas palavras.

março 23, 2012

Diálogo com Joseph Pearce

Um dos grandes críticos literários da atualidade, infelizmente desconhecido no Brasil, nesta longa entrevista Joseph Pearce fala sobre Shakespeare, Chesterton, C. S. Lewis, John Henry Cardeal Newman, J. R. R. Tolkien e vários outros assuntos. A entrevista, em espanhol, pode ser lida, na íntegra, aqui. Imperdível.

março 10, 2012

O meu verdadeiro destino


“A Graça é o acontecimento perante o qual o homem entende o seu destino, o seu verdadeiro destino.”

Flannery O’Connor

(Agradeço ao amigo Karleno Márcio Bocarro, que publicou a frase da escritora Flannery O’Connor em seu perfil, no Facebook.)

março 07, 2012

“Jana e Joel”, de Xavier Marques

Na edição deste mês do Rascunho, minha análise da novela Jana e Joel, de Xavier Marques: “Longe de ser obra-prima, Jana e Joel revela, em seu perfil agradavelmente anacrônico, um dos caminhos possíveis à nossa literatura, projeto repudiado pelos modernistas mas ainda aberto à inventividade dos que se dispuserem a escrever boas histórias, sem a obrigação de fazer, a cada parágrafo, malabarismos verbais”.

março 01, 2012

Hoje, primeira aula do curso “Bases da criação literária”


1. Introdução:
O que é criação literária. Diferentes processos criativos. A teoria literária: independência e relação com a cultura.

2. O real:
A realidade e a categoria da experiência. A “província da arte”, segundo Henry James. O “eu” e a “circunstância” de Ortega y Gasset.


– Inscrições abertas: Cedet Online.

fevereiro 27, 2012

Curso “Bases da criação literária”

Aula inaugural: dia 1º de março, quinta-feira, às 20h30, via Internet (Cedet.Online). Inscrições abertas.

fevereiro 13, 2012

Romper a escuridão, a dúvida e a loucura

Nos próximos dias 1, 8, 15 e 22 de março (quintas-feiras), das 20h30 às 21h30, ministrarei, on-line, o curso “Bases da criação literária”. Durante quatro aulas, vamos dar os primeiros passos para romper a escuridão, a dúvida e a loucura de que falava Henry James: “Trabalhamos na escuridão – fazemos o que podemos – damos o que temos. Nossa dúvida é nossa paixão, e nossa paixão é nossa tarefa. O resto é a loucura da arte”. A síntese do curso e outras informações podem ser encontradas na página do Cedet Online, que transmitirá as aulas.

fevereiro 11, 2012

O homem medíocre e seus escritores prediletos

“Ao medíocre agradam-lhe os escritores que não dizem nem sim nem não sobre nenhum tema, que nada afirmam e que tratam com respeito todas as opiniões contraditórias. Toda afirmação lhe parece insolente, pois exclui a proposição contrária. Mas se alguém é um pouco amigo e um pouco inimigo de todas as coisas, o medíocre o considerará sábio e reservado, admirará sua delicadeza de pensamento e elogiará o talento das transições e dos matizes.

Para escapar da censura de intolerante, feita pelo medíocre a todos os que pensam solidamente, seria necessário se refugiar na dúvida absoluta; e, ainda nesse caso, seria preciso não chamar a dúvida pelo seu nome. É necessário formulá-la em termos de opinião modesta, que preserva os direitos da opinião oposta, tomar ares de dizer alguma coisa e não dizer nada. É preciso acrescentar a cada frase uma perífrase açucarada: ‘parece que’, ‘ousaria dizer que’, ‘se é permitido expressar-se assim’.” – Ernest Hello

fevereiro 08, 2012

– Professor, o que é subliteratura?


“La sub-literatura es el conjunto de libros estimables que cada nueva generación lee con deleite, pero que nadie puede releer.” – Nicolás Gómez Dávila (Escolios a un texto implícito)

fevereiro 07, 2012

Murilo Rubião e suas respostas à vida agonizante


          A reduzida obra de Murilo Rubião pode ser qualificada como extemporânea, se a analisamos no âmbito estrito da literatura brasileira. Contudo, quando observados sob um ângulo mais abrangente, o da produção literária latino-americana, os contos do escritor mineiro passam a dialogar com o realismo mágico de, por exemplo, Borges e Cortázar.

Alguns preferem utilizar a expressão “realismo fantástico” para designar esse subgênero que foi renovado durante o famoso boom da literatura latino-americana de língua hispânica e alcançou importância medular na literatura mundial, mas o qualificativo “mágico” reflete melhor essa ficção aparentemente realista, na qual fantasia e realidade confundem-se a ponto de ser impossível, algumas vezes, discerni-las com precisão. Os elementos extraordinários ou maravilhosos encontram-se inseridos na normalidade, nunca obscurecidos pelo corriqueiro, mas despontando aqui e ali, de maneira a provocar guinadas no enredo, extasiar ou confundir o leitor, ou simplesmente inocular desconsolo, espanto, estranheza. Trata-se de uma literatura que privilegia o insólito, mas sem ferir a congruência interna das narrativas, criando, sob a aparência de absoluta naturalidade, uma verossimilhança cuja lógica está fundada no irreal, mas não necessariamente no fantasmagórico ou no terror.

Em sua tentativa de rastrear as origens do realismo mágico, o filósofo mexicano Ramón Xirau, no ensaio “Crisis del realismo” (América Latina en su literatura), procura “os diversos sintomas e diversos caminhos de uma busca literária que não se conforma com um realismo relativo aos fatos”, e os encontra nas primeiras narrativas da literatura espanhola, como o Cantar del Mío Cid: “[...] Nesta literatura real e de vulto, às vezes exposta brutalmente, sem paliativos, está muitas vezes presente uma maneira de violentar a realidade e transcendê-la. El Cid é real e concreto; não esqueçamos que ganha sua última batalha, já herói mítico, depois de morto”.

Com certeza, não são essas as raízes do realismo mágico de Rubião, mas talvez remontem àquela primeira narrativa da descoberta, quando, sob o olhar de Pero Vaz de Caminha, os índios tornam-se “tão limpos e tão gordos e tão fremosos que não pode ser mais!”, sem esquecer das descrições sobre o Éden enfim reencontrado, que conformam um relato nitidamente onírico, no qual já se anunciava, segundo a observação de Luciana Stegagno Picchio (História da literatura brasileira), “o mito sempre colimado [...] do eldorado edênico, ‘visão do paraíso’, na feliz expressão de Sérgio Buarque de Holanda [...]”.

Decepções irremediáveis

No entanto, se de fato forem essas as raízes do realismo mágico brasileiro, Murilo Rubião utiliza tal herança de maneira felizmente adversa, destruindo qualquer possibilidade de esperança, subvertendo o ideal do paraíso à crua realidade, na qual o tédio, a amargura, o amor irrealizado, o desespero irremediável e as buscas decepcionantes são intensificados pelo elemento de delírio que, ao invés de oferecer uma possibilidade de escape ou de superação metafísica, massacra ainda mais os personagens aflitos, quase sempre medíocres, escravizados às suas familiazinhas pequeno-burguesas – ou tentando inutilmente fugir delas – e ao cotidiano mesquinho.

         Em “A casa do girassol vermelho”, por exemplo, no livro de mesmo título, a narrativa começa sob um clima de alegria sensual. O êxtase físico marca as páginas iniciais com ânimos inflamados pelo sentimento de libertação. “[...] Naquela manhã quente, queimada por um sol violento, a Casa do Girassol Vermelho, com os seus imensos jardins, longe da cidade e do mundo, respirava uma alegria desvairada”, diz o narrador. Pouco a pouco, a sombra do velho Simeão, “porco imundo” e “puritano hipócrita”, pai adotivo de todos os personagens, falecido subitamente, retorna ao convívio dos filhos, pois suas agressões são inesquecíveis. Então, a atmosfera de entusiasmo se arrefece, não só por causa das lembranças opressivas, mas também pela morte de um dos irmãos, o desbocado Xixiu, que submerge nas águas da represa. A partir desse ponto, é como se o velho Simeão jamais tivesse morrido. “Olhavam-me mudos”, diz o narrador, “os rostos sem esperança. [...] Tudo se quebrara.” Eles viviam “o último dia”, sem nada que pudesse amenizar a existência, contaminados pela morte e pelas dores que toda a euforia inicial não conseguira abrandar. Assim, sem qualquer explicação, os personagens se entregam a um fado de silencioso desespero, enquanto o narrador vê nascer, no ventre de uma das irmãs, “as primeiras pétalas de um minúsculo girassol vermelho”.

A mesma irrecuperabilidade encontra-se em “O lodo” (in O pirotécnico Zacarias). Os desencontros marcam, desde o começo, a relação entre Galateu e o psicanalista Pink da Silva e Glória, a quem o primeiro procura, motivado por “uma depressão ocasional”. O diagnóstico surge antes mesmo do término da primeira consulta: “[...] Repreensivo, assegurou que o paciente carregava dentro de si imenso lodaçal”. Sem nada entender, o paciente se recusa a continuar o tratamento. Perseguido por Pink, que insiste em curá-lo, Galateu se debate em um delírio crescente e angustiante. Depois de ter um pesadelo – “uma faca penetrava-lhe a carne, escarafunchava os tecidos, à procura de um segredo. Sua irmã Epsila e o analista, debruçados sobre seu corpo, acompanhavam atentos os movimentos irregulares da lâmina” –, ele acorda e, ao se olhar no espelho, vê que, no lugar do mamilo esquerdo, “despontara uma ferida sangrenta, aberta em pétalas escarlates”. O pesadelo deixara sua marca. O espanto, contudo, é superado. Passados dois meses de aparente tranqüilidade, a intuição de que voltaria a ser perseguido pelo médico faz a ferida reabrir. E, realmente, tudo recomeça. Sob intensa pressão, Galateu não resiste e adoece. Inesperadamente, a irmã surge para cuidar dele, acompanhada do filho “retardado mental”. A partir desse ponto, tudo se precipita e o horror se instala, até chegarmos ao final, quando a cena do pesadelo se concretiza, com Pink e Epsila debruçando-se “sobre o corpo moribundo”.

Desde os primeiros parágrafos, uma culpa apenas presumível se introduz no relato, como se o animal libertado durante a primeira sessão de análise não pudesse mais ser contido. Finalmente, a culpa explode a carne, mas só depois se revela na confirmação do incesto entre os irmãos, levando a uma sucessão de acontecimentos que acabam por condenar Galateu. Quando não há mais espaço para qualquer atitude lúcida, quando tudo é invadido pela incoerência, resta apenas a ferida aberta ao sadismo dos algozes.

Essa narrativa atroz não pretende, no entanto, comunicar qualquer moral. Não se trata de uma parábola nos moldes bíblicos e tampouco de uma alegoria. Mais do que a pretensão de transmitir valores sob uma forma figurada, o conto objetiva criar um microcosmo terrível, sufocante, no qual o narrador fornece apenas os elementos essenciais para manter a lógica do enredo. A história fecha-se em si mesma de tal maneira, que o desvendamento de alguns supostos símbolos seria um exercício fútil.

Sarcasmo e zombaria

Mas Rubião tem momentos de bom humor. No conto “O ex-mágico da Taberna Minhota” (in O pirotécnico Zacarias), apesar do desconsolo que acompanha toda a narrativa, o mágico – suspenso em uma existência sem passado e desejando um fim impossível, enfastiado de viver – decide tornar-se um burocrata, pois “ouvira de um homem triste que ser funcionário público era suicidar-se aos poucos”. Meses depois, quando volta a precisar de seus dotes de ilusionista, descobre que “a faculdade de fazer mágicas [...] fora anulada pela burocracia”. Uma evidente crítica mordaz, na qual o serviço público aniquila inclusive o que é fabuloso ou incomum.

Em “Ofélia, meu cachimbo e o mar”, presente na mesma coletânea de “O ex-mágico da Taberna Minhota”, a irrisão reaparece. O narrador nos conduz por memórias tortuosas, marcadas de evidente melancolia, nascida, por sua vez, de uma história de insucessos que atestam a inevitável – e insuperável – distância entre os desejos e a realidade. Durante suas recordações, o narrador reserva à memória do pai dois comentários sarcásticos. O primeiro, de que a última viagem paterna por pouco não havia sido marítima, pois ele “morreu engasgado com uma espinha de peixe”. A seguir – dando seqüência ao relato dos eventos marítimos que distinguem a história da família, apesar de ter nascido em “um vilarejo de Minas, agoniado nas fraldas da Mantiqueira” –, surge a segunda revelação, uma importante referência à higiene do genitor: o pai jamais externara “o desejo de ser navegador, nem tampouco abusou dos banhos”. Ao final, vencida uma série de contradições, tudo se revela falso, incluindo a companheira que o escuta, sua adorável Ofélia, e o leitor percebe, penhorado, que caiu em uma esparrela.

O mesmo tipo de escárnio é encontrado em “Memórias do contabilista Pedro Inácio” (in A casa do girassol vermelho), a começar de uma das epígrafes, retirada de Machado de Assis: “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”. A um passo do final da narrativa, o contabilista descobre que, além de todas as suas memórias serem infundadas, ele é filho de uma prostituta. O que abala seu ânimo, entretanto, é pensar em todos os gastos que teve nos estudos genealógicos sobre sua falsa família e, igualmente grave, o fato de que jamais saberá a origem de sua calvície. Mais uma vez, o narrador/personagem encontra-se suspenso em uma situação dúbia e inexplicável, da qual ele se salva, neste caso, graças à sua ilimitada e incontrolável fixação nos cálculos das despesas e dos ganhos que se escondem na realidade. O insólito, distante do sobrenatural, transmuta-se em fatos rotineiros, plenos de banalidade.

Narrador onisciente

“O ex-mágico da Taberna Minhota”, “Ofélia, meu cachimbo e o mar” e “Memórias do contabilista Pedro Inácio” fazem parte de um conjunto formado por doze contos narrados em primeira pessoa, dentre os 22 que compõem os dois volumes lançados, até março de 2007, pela Editora Companhia das Letras. É a característica de Rubião que, depois dos temas extraordinários, mais ressalta. Trata-se de um narrador que se dirige aos leitores às vezes com intimidade, oferecendo descrições eivadas de suposta sabedoria, anunciada pelas epígrafes da Bíblia que abrem todos os contos, mas que acaba sempre por se dissipar, substituída pelo desvario ou pelo erro.

A fórmula se repete tanto, que chega a contrariar. Assim, em um primeiro momento, o tom confessional surge como uma desagradável fragilidade, a chamar a atenção do leitor, insistentemente, para o ato de narrar, como se desejasse lembrar-nos que o texto é apenas ficção. Mais tarde, em uma segunda leitura, ao reencontrarmos o narrador que não só testemunha, mas protagoniza vários relatos, percebemos que esse foco narrativo, necessariamente limitado, é a ferramenta justa, em muitos casos, à construção do universo mágico do autor, no qual o realismo comum se desintegra sob a autoridade onisciente da voz que tudo vê e tudo sabe.


        Murilo Rubião nos deixou apenas 33 histórias, reescritas incansavelmente. A figura desse funcionário público, com seu bigode bem aparado e sua calva, limando anos seguidos as frases que dão vida ao seu mundo fantasioso, é também ela uma personagem mágica, pois esconde dentro de si o bufão e o burocrata entediado, o confidente de um coelhinho chamado Teleco e Godofredo, caminhando em círculos, de uma mulher a outra, somente para reencontrar a mesma figura, a mesma insatisfação. Ou um morto-vivo como o pirotécnico Zacarias, a perguntar-se, sem encontrar resposta, “que acontecimentos o destino reservará a um morto se os vivos respiram uma vida agonizante?”.

janeiro 31, 2012

A adúltera e a contradição


Gustave Flaubert escreveu Madame Bovary entre 1851 e 1856. Na verdade, “escrever”, neste caso, é um eufemismo. O verbo não dá conta de todos os estados emocionais experimentados durante a execução do projeto e, muito menos, do confronto ocorrido – não só naqueles anos – entre o escritor e as palavras. Mas podemos acompanhar os altos e baixos da relação autor–obra lendo a correspondência de Flaubert, da qual uma  pequena parte foi traduzida no Brasil.

No início de novembro de 1851, ele escreve à amante, Louise Colet: “[...] Avanço penosamente no meu livro. Eu gasto bastante papel. Quantas rasuras! A frase demora a vir. Que diabo de estilo escolhi! Que desgraça os temas simples!”. E conclui: “Eis-me comprometido por um ano pelo menos”. Poucas semanas mais tarde, em fevereiro de 1852, percebe que previu mal o futuro: “[...] Isso está tomando proporções formidáveis em termos de tempo. Com certeza, eu ainda não terei terminado até o início do próximo inverno”. E as dificuldades persistem: “Não escrevo mais que cinco ou seis páginas por semana”.

Mal abril começou, ele está desesperado:

Estou mais cansado do que se empurrasse montanhas. Há momentos em que tenho vontade de chorar. É preciso uma vontade sobre-humana para escrever e eu sou apenas um homem. [...] Você sabe quantas páginas eu vou completar dentro de oito dias desde que voltei daí? Vinte. Vinte páginas em um mês e trabalhando pelo menos sete horas por dia; e qual o fim de tudo isto? O resultado? Amarguras, humilhações internas, nada em que se amparar a não ser a ferocidade    de uma fantasia indomável.

Ainda escrevendo a Louise, sua privilegiada interlocutora, a 24 de abril ele experimenta sentimentos contraditórios:

Eu completei [...] vinte e cinco páginas (vinte e cinco páginas em seis semanas). Foram duras de conseguir. [...] Eu as trabalhei tanto, recopiei, mudei, remanejei, que no momento não vejo mais nada. [...] Levo uma vida áspera, deserta de qualquer alegria exterior e onde não tenho nada em que me apoiar a não ser uma espécie de raiva permanente, que às vezes chora de impotência, mas que é contínua. Eu gosto do meu trabalho com um amor frenético e pervertido, como um asceta do cilício que lhe arranha o ventre. Às vezes, quando eu me encontro vazio, quando a expressão se furta, quando, depois de ter garatujado longas páginas, descubro que não fiz nem uma frase, caio no meu divã e fico ali paralisado num pântano interior de tédio.

Eu me odeio e me acuso por essa demência de orgulho que me faz arquejar atrás da quimera. Um quarto de hora depois, tudo mudou; meu coração bate de alegria. Na última quarta-feira, eu fui obrigado a me levantar para apanhar meu lenço de bolso; é que as lágrimas corriam sobre o meu rosto. Eu me enterneci escrevendo, eu gozava, deliciosamente, da emoção de minha idéia e da frase que a revelava e da satisfação de tê-la encontrado.

Até o início de junho de 1856, as cartas oscilarão do júbilo ao cansaço, do desespero ao encontro repentino de forças para perseverar, da repugnância ao prazer de conseguir a palavra correta para o que ele deseja dizer.

“Passo várias horas a procurar uma palavra”, afirma em maio de 1852. No dia 23 do mesmo mês, sente-se “estéril como uma pedra”. Mas em 18 de julho, comemora: “Quinta à noite, às duas horas da manhã, eu me deitei tão animado com meu trabalho que às três me levantei e trabalhei até o meio-dia. [...] Eu ainda sinto o gosto dessas trinta e seis horas olímpicas e fiquei contente, como na felicidade”. Entretanto, passados quatro dias, se diz pronto a “recopiar, corrigir e rasurar toda a primeira parte”, concluindo: “Que coisa desgraçada é a prosa! Não termina nunca; tem-se que refazer sempre”. E logo depois, a 27 de julho, a constatação lapidar: “Ao escrever esse livro, eu sou como um homem que tocasse piano com bolas de chumbo sobre cada falange”.

No dia 26 de outubro, afirma ter “vinte e sete páginas (quase prontas) que são o trabalho de dois grandes meses”. Em janeiro de 1853, diz ter conseguido 65 páginas em cinco meses. Em abril, contando a partir de janeiro, alcança a marca de 39 páginas. E em meio à “fadiga” e à “fetidez do tema”, que se alastram por todo o abril, ele lamenta: “Há três semanas que estou a escrever dez páginas! Passo dias inteiros a mudar palavras repetidas, a evitar assonâncias! E quando trabalho bem, estou menos adiantado no fim do dia do que no começo”.

Quando chega outubro, ele detesta o livro e a si mesmo:

Este livro, no ponto em que estou, me tortura de tal modo (e se eu achasse uma palavra mais forte, eu a empregaria) que eu fico às vezes doente fisicamente. Há três semanas que tenho com frequência dores de fazer desmaiar. De outras vezes, são opressões, ou melhor, vontade de vomitar na mesa. Tudo me desgosta. Acho que hoje me teria enforcado com delícia, se o orgulho não me tivesse impedido. É certo que às vezes sou tentado a mandar tudo se foder, e a Bovary em primeiro lugar. Que santa idéia maldita eu tive em apanhar um tema semelhante! Ah! eu bem os conheci, os pavores da Arte!

No entanto, pouco antes do Natal, a 23 de dezembro, às duas da madrugada, Flaubert, apesar de “fatigado com a lentidão” e de temer “o despertar, as desilusões das páginas recopiadas”, é um homem seduzido pela escrita:

[...] Bem ou mal, é uma coisa deliciosa escrever, não ser mais para si mesmo, mas circular em toda a criação de que se fala. Hoje, por exemplo, homem e mulher tudo junto, um e outro amante ao mesmo tempo, eu passeei a cavalo, numa floresta, por uma tarde de outono, sob folhas amarelas, e eu era os cavalos, as folhas, o vento, as palavras que eles diziam e o sol vermelho que fazia entrecerrar as pálpebras afogadas de amor. É orgulho ou piedade, é o extravasamento néscio de uma auto-satisfação exagerada? ou então um vago e nobre instinto de religião? Mas quando eu rumino, depois de tê-las sentido, estas alegrias, vejo-me tentado a fazer uma oração de agradecimento ao bom Deus, se eu soubesse que ele me ouviria. Que ele seja bendito por não me ter feito nascer negociante de algodão, escritor de vaudeville, homem espirituoso etc!

Mais tarde, em 18 de abril de 1854, ele reclamará novamente: “Quando é que virá o dia bem-aventurado em que escreverei a palavra fim? Em setembro, vão fazer três anos que estou neste livro. É muito, três anos passados sobre a mesma idéia, a escrever com o mesmo estilo [...], a viver sempre com os mesmos personagens, no mesmo meio, com os flancos de encontro à mesma ilusão”.

No ano seguinte, 1855, em maio, escrevendo ao amigo Louis Bouilhet, diz temer que o fim do romance pareça “acanhado, pelo menos como dimensão material”. Quando setembro está prestes a terminar, trabalha “mediocremente e sem gosto ou talvez com desgosto” e se diz “verdadeiramente cansado”. Finalmente, a 1º de junho de 1856, revela a Bouilhet ter enviado o manuscrito ao editor – mas só depois de suprimir “cerca de trinta páginas, sem contar nisso aí muitas linhas subtraídas”, além de detalhar vários outros cortes.

Método e paixão

Se há várias maneiras de narrar uma história, há um número quase infinito de se escrever uma biografia. Esse período de 1851 a 1856 poderia ser visto sob diversos prismas, mas prefiro pensar nesses anos torturados como uma seqüência de meses centrais na carreira do escritor, não apenas por terem resultado em Madame Bovary, mas principalmente pelas centenas de páginas jogadas no lixo, pelo número inexprimível de palavras rasuradas e frases refeitas, pelas horas de angústia e pelo gozo, ainda que efêmero, de chegar a um resultado – uma infatigável luta com as palavras.

Flaubert não estabeleceu apenas um método de trabalho. Sim, ele sabia que “todo talento de escrever não consiste senão na escolha das palavras. É a precisão que faz a força” – diz a Louise Colet, a 22 de julho de 1852. Mas não se tratou somente de disciplina. Flaubert tinha consciência das correntes que o prendiam, maiores que os seus próprios limites. Sabia que a expressão humana é claudicante, falha, imperfeita; que há um abismo separando a idéia e o discurso, a emoção e a palavra. O narrador de Madame Bovary conclui em certo trecho que “a palavra humana é como um caldeirão rachado, no qual batemos melodias próprias para fazer dançar os ursos, quando desejaríamos enternecer as estrelas”. Ter a clara consciência da imperfeição, da rudeza dos meios humanos, do idioma, e ainda assim persistir, demanda mais que obediência a um método: exige obsessão, exige viver em um mórbido estado de vigilância e pesquisa, cuja primeira conseqüência é a solidão, e, logo a seguir, a visão terrível de seus semelhantes como uma horda de estúpidos e insensíveis. De fato, em 22 de abril de 1853, ele escreve: “O único meio de viver em paz é colocar-se, de um salto, acima da humanidade inteira e não ter nada em comum com ela, a não ser pelo olhar”. Se Flaubert agiu corretamente ao se transformar em um tipo especial de misantropo, isso podemos discutir em outro momento. O que interessa neste texto é que, pensando dessa forma e agindo como agiu, exatamente por esses motivos, deu vida a Emma Bovary.

Em seu ensaio sobre Flaubert, Henry James chama nossa atenção para a personalidade de Emma: “[...] Ela mergulha cada vez mais fundo em duplicidade, dívidas, desespero, e encontra um fim trágico [...]. E faz tudo isso enquanto permanece absorvida pela visão e pela intenção românticas, e permanece absorvida pela visão e pela intenção românticas enquanto rola na lama”. Ora, a febre de Emma reflete a febre de seu criador. Flaubert não escreve apenas, mas se espoja nos rascunhos da obra, cego a tudo que não seja o romance, reclamando do que o obriga a interromper seu trabalho e procrastinando o mais que pode os encontros com Louise Colet, dedicado exclusiva e apaixonadamente à literatura, escrevendo e devorando Rabelais, Cervantes e Montaigne – a vida que ele chamou de uma “orgia perpétua”.

Fetichismo

Mas para se viver em uma “orgia perpétua” faz-se necessário desejar não somente o clímax do prazer – esse gozo que se aproxima do estertor. Alguns amantes imaginam que a volúpia é feita também do amor aos detalhes; às vezes, do apego fetichista a este ou àquele pormenor. E Flaubert demonstra ser esse tipo doentio de amante. Uma cena, para ele, requer a evocação de tantas minúcias, que chegamos a nos perguntar se, de fato, tudo é imprescindível. Mas tudo é imprescindível. Um editor malevolente poderia suprimir algumas frases – e Madame Bovary continuaria genial –; perderíamos, entretanto, uma série de elementos que, combinados, não só forjam verossimilhança, mas seduzem, modelam o mundo do qual nos aproximamos como animais curiosos, sedentos de uma realidade que não seja a nossa.

Quando Charles Bovary visita pela primeira vez a propriedade dos Bertaux, onde Emma vive com o pai, a quinta se revela para o leitor em meio à sonolência do médico. Amanhece, e não bastasse o vapor úmido que se eleva de uma grande estrumeira, “sob o telheiro havia duas grandes carroças e quatro charruas com seus chicotes, seus cabrestos, sua equipagem completa, entre os quais as peles de carneiro pintadas de azul sujavam-se com o pó fino que caía dos celeiros”. Ao penetrar na casa, Bovary vê o almoço dos criados fervendo ao redor do fogo, as roupas úmidas secando na lareira, e “a pá, as pinças e os foles, todos de proporções colossais”, que “brilhavam como aço polido”, e a “abundante bateria de cozinha onde se refletiam de forma desigual a chama clara do fogão juntamente com os primeiros raios de sol que entravam pelas vidraças”. É a exaltação do detalhe. Mas não há um único elemento que, ao ser retirado, dele possamos dizer: – Realmente, era desnecessário.

Nas seguidas visitas que Bovary faz aos Bertaux, Emma, ao se despedir,

sempre o acompanhava até o primeiro degrau da escada externa. Enquanto não traziam seu cavalo, ela permanecia ali. Já se haviam despedido, não se falavam mais; o ar livre a rodeava, levantando em desordem os pequenos e loucos cabelos de sua nuca ou sacudindo em seus quadris os cordões do avental que se enroscavam como bandeirolas. Uma vez, num dia de degelo, a casca das árvores ressumava no pátio, a neve fundia nos telhados das construções. Ela estava na soleira da porta; foi procurar a sombrinha, abriu-a. A sombrinha de seda furta-cor que o sol atravessava iluminava com reflexos móveis a pele branca do seu rosto. Embaixo, ela sorria no calor tépido e ouviam-se as gotas d’água, uma a uma, que caíam sobre o chamalote esticado.

O jogo de luzes, a brisa e a leve tensão da despedida, ampliada pelo silêncio de Emma e Charles. E as gotas d’água a entrecortar o silêncio, propagando ainda mais a tensão – Flaubert interliga os elementos, e semeia no leitor o desejo de estender a mão para conceder à cena o tato, o sentido que falta.

Algum tempo depois do casamento, os Bovary são convidados ao castelo do marquês de Andervilliers. Emma penetra em uma galeria na qual se sucedem, “sobre a madeira escura do lambri”, as pinturas que retratam os antepassados da família. Ela tenta, em vão, captar todas as imagens, sorver cada detalhe, mas é impossível:

Depois, mal se distinguiam os que vinham em seguida, pois a luz das lâmpadas, caindo sobre o tapete verde do bilhar, deixava flutuar uma certa sombra na sala. Escurecendo as telas horizontais, quebrava-se contra elas em finas arestas seguindo as fendas do verniz; e, de todos aqueles quadrados negros debruados de ouro saíam, cá e lá, uma porção mais clara de pintura, uma fronte pálida, dois olhos que fixavam o observador, perucas que caíam sobre os ombros empoeirados dos trajes vermelhos, ou então a fivela de uma jarreteira no alto de uma panturrilha roliça.

A miríade de pormenores, a volúpia por descrever, por chafurdar num oceano de cores, formas e perfumes, se repetirá sempre. Flaubert agoniza para dar conta de toda a realidade, e parece, a cada novo parágrafo, próximo do paroxismo ou do êxtase, o que configura uma sobrecarga emocional permanente. Quando Emma retorna do castelo, sofrendo pelo fato de abandonar aquele mundo ideal, fecha “piedosamente na cômoda seu belo vestido e até seus sapatos de cetim [...]”. Mas não só. Falta algo à frase. E então Flaubert nos oferece o complemento preciso: “[...], cuja sola amarelara-se com a cera deslizante do assoalho”. A busca do pormenor exato faz com que Flaubert escreva a um passo do esgotamento; mas ele se dispõe a pagar o preço, a fim de que nada escape ao leitor.

Amor e ódio

Esse extremo cuidado com os detalhes nos fornece indícios da personalidade de Emma desde as primeiras páginas do romance. Em uma das visitas de Bovary à quinta dos Bertaux, o futuro casal bebe licor. Depois de servir a si mesma uma dose pequena, Emma leva o copinho à boca: “Como estava quase vazio, ela inclinava-se para trás, para beber; e com a cabeça deitada, avançando os lábios, com o pescoço retesado, ria por nada sentir, enquanto, passando a ponta da língua entre os dentes finos, lambia aos poucos o fundo do copo”. A adúltera já não está toda nesses gestos? Sua luxúria não freme na ponta dessa língua serpeante?

Flaubert descreve bem inclusive quando recusa pormenores ao leitor. Depois de reencontrar Léon Dupuis em Rouen, Emma iniciará seu segundo caso de adultério, agora com o jovem escrevente, que conhecera em Yonville. Quando saem da catedral e se fecham na carruagem que passa a trafegar por toda a cidade, nada mais sabemos. O escritor não precisa dizer o que ocorre por trás das cortinas – e também não precisamos ter, sob os olhos, um mapa de Rouen, a fim de acompanhar a sucessão de ruas. O infindável e tortuoso percurso alimenta num crescendo a nossa desconfiança e, ao mesmo tempo, explica tudo. À nossa imaginação bastam a mão nua que passa sob as cortinas e joga fora a carta de despedida que Emma havia escrito a Léon, agora transformada em pedacinhos de papel; e depois de horas fechados ali, a mulher que desce sozinha, “caminhando com o véu abaixado e sem virar a cabeça”. Minutos mais tarde, sabendo que o marido a aguarda em Yonville, o narrador arremata nossa certeza, dizendo que Emma sente “no coração aquela covarde docilidade que é, para muitas mulheres, ao mesmo tempo como o castigo e o preço do adultério”.

O escritor nos faz amar e odiar Emma Bovary. Poucos homens não se encantariam ao ver a clara nudez dessa mulher contrastando com o carmim das cortinas de má qualidade e, a melhor parte, depois que não existem mais segredos, ela, tão experiente em dissimular e trair, agindo como uma menina envergonhada:

A cama era uma cama de casal de acaju em forma de barca. As cortinas de levantina vermelha que desciam do teto fechavam-se baixo demais, perto da cabeceira que se alargava; e nada havia no mundo de mais bonito do que sua cabeça morena e sua pele branca destacando-se sobre aquela cor púrpura quando, com um gesto de pudor, ela fechava os dois braços nus, escondendo o rosto nas mãos.

Nossa imaginação despreza as cenas chulas e o vocabulário mortalmente cru ao nos depararmos com uma descrição que oferece, melhor que as palavras grosseiras, o frenesi da entrega:  

Despia-se brutalmente, arrancando o fino cordão do seu corpete que lhe sibilava ao redor das ancas como o escorregar de uma cobra. Ia na ponta dos pés nus ver ainda uma vez se a porta estava fechada; depois, com um único gesto, deixava cair, juntas, todas as suas roupas; – e, pálida, sem falar, séria, abatia-se contra seu peito, com um longo estremecimento.

Mas ela se entrega apenas quando ama. Chantageada, oprimida pela cobrança das dívidas e das promissórias, pelo processo e pela penhora dos bens, pode insinuar a Léon que ele deveria roubar para ajudá-la, mas não aceita ser seduzida pelo notário de Yonville. Revolta-se, tenta persuadir Rodolphe, o primeiro amante, a lhe dar dinheiro, e quando percebe que está perdida, manipula ainda uma última vez. Demonstrando a argúcia e a agilidade de reflexos que a tornam exuberante, manipula para poder se matar. E a mesma avidez daquela língua que buscava o fundo do copo de licor, reencontramos na mão que, arrancando a rolha do pote de veneno, mergulha para retornar cheia do pó branco que Emma se põe a comer sofregamente.

A dor das mulheres

Numa carta de setembro de 1852, Flaubert escreve a Louise Colet sobre a dor das mulheres, de como se aproximou delas e as observou para escrever seu romance: “Eu conheci suas dores, pobres almas obscuras, úmidas de melancolia guardada, como estes pátios fundos das casas de província, cujos muros estão cheios de musgo”. Pergunto-me o quanto esta afirmativa é sincera. Quem escreve não é o homem que pretendia viver acima da humanidade, sem nada ter em comum com ela, “a não ser pelo olhar”? A contradição do escritor revela mais que a mera simpatia pelo drama alheio. O intenso desejo de perfeição, a busca febril dos detalhes e das palavras precisas – essas forças certamente dominam Flaubert. Mas no íntimo desse homem há lugar para a solidariedade que o aproxima de seus semelhantes. Caso não fosse assim, não teria criado uma personagem tão múltipla, em relação à qual não só ele, mas todos nós, com maior ou menor exatidão, podemos dizer: Madame Bovary c’est moi.  

janeiro 28, 2012

Oração


Infalível Criador, que dos tesouros da Vossa sabedoria tirastes as hierarquias dos anjos, colocando-as com ordem admirável no céu e distribuístes o universo com maravilhosa harmonia; Vós que sois a verdadeira fonte da luz e o princípio supremo da sabedoria, difundi sobre as trevas da minha mente o raio do esplendor, removendo as duplas trevas nas quais nasci: o pecado e a ignorância.

Vós que tornastes fecunda a língua das crianças, tornai erudita a minha língua e espalhai sobre os meus lábios a vossa bênção. Concede-me o rigor para entender, a capacidade de reter, a sutileza de relevar, a facilidade de aprender, a graça abundante de falar e de escrever. Ensina-me a começar, rege-me a continuar e perseverar até o término. Vós que sois verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.

São Tomás de Aquino

janeiro 26, 2012

Aos ludibriadores e falsos profetas que pregam o “discernimento”


“Ó Verdade, em toda a parte estás à disposição de todos os que te consultam, e respondes ao mesmo tempo a todos os que te consultam, ainda que sobre coisas diversas. Tu respondes claramente, mas nem todos te ouvem claramente. Todos te consultam sobre o que querem, mas nem sempre ouvem o que querem. O melhor dos teus servos é aquele que não concentra mais a sua atenção em ouvir de ti aquilo que ele próprio quer, mas antes em querer aquilo que de ti ouvir.”

 Santo Agostinho, Confissões, Livro X

janeiro 24, 2012

Perscrutadores da verdade

“O homem não pode se contentar com uma simples e tolerante troca de céticas opiniões e experiências de vida: todos somos perscrutadores da verdade e compartilhamos este profundo anseio, sobretudo neste nosso tempo em que, ‘quando as pessoas trocam informações, estão já a partilhar-se a si mesmas, a sua visão do mundo, as suas esperanças, os seus ideais’ (Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2011).”

– É o que nos diz, com sabedoria, Bento XVI em sua mensagem para o 46º Dia Mundial das Comunicações Sociais.

janeiro 21, 2012

“Humility is endless”


The only wisdom we can hope to acquire
Is the wisdom of humility: humility is endless.


A única sabedoria a que podemos aspirar
É a sabedoria da humildade: a humildade é infinita.

T. S. Eliot
(“East Coker”, Four Quartets)
– Tradução de Ivan Junqueira

janeiro 08, 2012

Poema para a Solenidade da Epifania do Senhor

Obreiros somos – mestre, aprendizes, serventes –
e te construímos, ó grande nave altaneira.
Às vezes chega a nós um peregrino silente;
ei-lo que como um clarão cruza as nossas cem mentes
e trêmulo nos traz alguma nova maneira.

Galgamos andaimes que ao nosso passo estremecem;
maciços os martelos que nossas mãos sustêm;
isso até aflorar-nos a fronte uma hora que se
irisa e fulge como se de tudo soubesse:
como o vento vem do mar, é de ti que ela vem.

Ouve-se então um malhar de martelos inúmeros
que, golpe após golpe, pelas montanhas se expande.
Só te deixamos quando a noite cai e no escuro
podemos já ver-te os vagos contornos futuros.

Deus, como tu és grande.


Rainer Maria Rilke
(tradução de José Paulo Paes)

outubro 24, 2011

Manuel Antônio de Almeida: talento para recriar a vida

Há uma qualidade indiscutível em Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida: passado mais de um século e meio da sua publicação – de 1852 a 1853, na forma de um folhetim semanal anônimo, no suplemento “Pacotilha” do jornal Correio Mercantil –, o romance não se dobra às classificações da crítica. E a qualidade só aumenta quando lembramos que a obra nasce em pleno romantismo, três anos antes de surgir, também no formato de folhetim, O guarani, de Alencar; e cresce ainda mais pelo fato de a narrativa ser uma contraposição – ao que parece, irrefletida, espontânea – à grandiloquência, à retórica e ao sentimentalismo exacerbado dos românticos.

Aliás, no que se refere à espontaneidade, a obra de Manuel Antônio de Almeida apresenta aos escritores a chance de refletirem sobre o ofício da escrita, pois nosso autor sempre falhou – vejam seus poemas, absolutamente medíocres – quando pretendeu ser literato. Alguns de seus trabalhos são, portanto, um convite à reflexão sobre a fronteira que separa a literariedade do texto artificial, o metaforismo do jogo de palavras vazio, a literatura dos malabarismos verbais, a arte do vanguardismo oco, o que efetivamente permanecerá do que é apenas moda aprovada por uma minoria de supostos mandarins da crítica – que também acabam, com o tempo, esquecidos.

Marques Rebelo, autor de um ótimo livro sobre Manuel Antônio de Almeida – esgotado, infelizmente, há mais de quarenta anos –, conta que o escritor produzia os capítulos do Memórias de forma despretensiosa, enquanto os amigos discutiam política ou literatura, cantavam e tocavam violão: “[...] esticado numa marquesa, com preguiça de mudar a horizontal atitude, punha o chapéu alto sobre o ventre e em cima dele ia enchendo a lápis as suas tiras de papel, indiferente às risadas dos companheiros, sem dar grande importância ao seu trabalho, que nem era assinado [...]”. Comportamento, aliás, que corrobora o testemunho de um amigo do escritor, Francisco Otaviano, segundo o qual Manuel Antônio de Almeida “adivinhava com alguns momentos de atenção tudo o que não estudara e escrevia sobre assuntos examinados de relance, como se de longo espaço os tivesse aprofundado”.

Compadrio e perversões

Surge dessa genial naturalidade o livro escrito por um jovem de 21 anos, obra que, romântica ou não, precursora ou não do realismo, influenciada ou não pela literatura picaresca, narra, por meio de uma voz indulgente e jocosa, o cotidiano de pessoas comuns. O narrador do Memórias flagra os personagens em meio à vida que condena todos, de uma forma ou de outra, ao anonimato, a pequenas e múltiplas mesquinharias – a maior parte das vezes, jamais reveladas – e a insignificantes gestos de heroísmo. Ele se coloca, assim, entre dois outros escritores que, opondo-se ao turbilhão de pieguice do romantismo brasileiro, conseguiram rir: Álvares de Azevedo – infelizmente em raras oportunidades, como no poema “É ela! É ela! É ela! É ela!” – e Martins Pena.

A verdade simples, banal, das relações humanas nasce, a cada página do Memórias, despojada de idealismo ou angústia, e somos levados, desde a primeira linha – “Era no tempo do rei” – a um microcosmo cujo retrato não tem compromisso algum com a crônica histórica ou com a descrição fidedigna dos costumes da época de d. João VI, mundo no qual o que está em jogo é a sobrevivência diária de homens e mulheres que não se perguntam, sombrios, por qual motivo foram jogados na face da Terra ou qual o sentido de suas existências, mas cumprem seu fado usando os meios que têm à mão, não importando se desagregam lares, ferem interesses de outrem ou maculam princípios éticos e religiosos.

Assim, não há um só personagem – favorável ou contrário ao protagonista – que não tenha defeitos ou esconda alguma segunda intenção: Leonardo-Pataca (pai do protagonista homônimo) é um mulherengo carente; a mãe de Leonardo (filho de Leonardo-Pataca), uma adúltera; o padrinho, barbeiro que acolhe o menino quando os pais se separam, enganador e ladrão de heranças. A própria comadre, madrinha do menino, sua fiel protetora, quando surge a oportunidade não hesita em mentir para defender os interesses do afilhado e, insinuante, arranja o casamento de Leonardo-Pataca com sua sobrinha. O padre que ocupa o cargo de mestre-de-cerimônias da Sé, exemplo de moralidade, é amante de uma cigana. E até mesmo o major Vidigal, símbolo irrepreensível da ordem e da lei, acaba vencido por seu calcanhar de Aquiles. O único que vive acima desse gregarismo marcado pelo compadrio e por pequenas perversões – mas sempre usufruindo dele – é Leonardo, que está longe de se mostrar “esvaziado de lastro psicológico”, como afirma Antonio Candido, mas, ao contrário, demonstra o perfil típico de quem é criado, longe dos pais, por um adulto que lhe faz todas as vontades e só o elogia, encontrando méritos nos seus piores comportamentos: será uma eterna criança, acostumada a deixar as decisões a cargo dos que direcionam sua vida; um sonhador que nada faz de útil, vivendo às expensas dos outros, incapaz de lutar pelo que deseja, mesmo quando se trata de uma paixão.

Império feminino

Sempre considerei incrível que, apesar de suas dificuldades financeiras, Manuel Antônio de Almeida tenha conseguido escrever um romance tão leve, descomprometido com a estética de seu tempo, empenhado na tarefa de apenas contar uma boa e divertida história. A vivacidade desse livro não é obscurecida nem mesmo pela presença do vocabulário, de forte influência portuguesa; e essa característica se contrapõe a outro aspecto do romantismo, pois demonstra o quanto não era essencial a luta de alguns, principalmente de Alencar, para dar vida a uma linguagem verdadeiramente brasileira.

O romance, inclusive, diverge da própria organização social do país, supostamente patriarcal, ao colocar as mulheres no papel de protagonistas. Manuel Antônio de Almeida cria um império feminino, verdadeiro matriarcado, onde os personagens masculinos sempre se submetem – além de raramente tomarem alguma importante iniciativa. Elas não se assemelham às heroínas de Alencar, não almejam pureza, santidade ou o êxtase de um grande amor, mas sabem unir sedução, doçura maternal, tirocínio e desembaraço para os arranjos que podem beneficiar a si mesmas ou aos seus queridos. Sim, têm defeitos – “Espiar a vida alheia, inquirir dos escravos o que se passava no interior das casas, era naquele tempo cousa tão comum e enraizada nos costumes, que ainda hoje, depois de passados tantos anos, restam grandes vestígios desse belo hábito”, ironiza o narrador –, mas se impõem, unidas, certas do que desejam, sem jamais titubear, para proteger seus escolhidos. Até mesmo a tímida, feia e desengonçada Luizinha confirma o protagonismo das mulheres, pois, logo após a morte do marido, é quem se antecipa no jogo de sedução, a fim de casar com Leonardo.

Mas não estamos diante de uma cartilha que faz a apologia do feminismo. Não. Isso seria diminuir um romance cuja pièce de résistance é a ironia. No entanto, por razões desconhecidas – o autor pretendeu agradar ao público leitor da época, formado principalmente por mulheres, ou manifestou uma influência da infância, quando vivia protegido por sua mãe e pelas irmãs? –, são as mulheres que movem a trama e lutam para girar a roda da fortuna. A importância delas avulta inclusive nas personagens secundárias: a mulata Vidinha, com seu sorriso capaz de derrotar qualquer oponente, e seu bordão, “qual”, repetido sempre com extrema graça, e a vizinha do barbeiro, trocista e zombeteira, persistem na imaginação dos leitores.

Críticas e influência

É estranho que tal romance tenha recebido críticas nem sempre positivas. José Veríssimo fala em “trivialidade do assunto, pobreza do enredo e banalidade dos personagens”, chamando atenção para o “estilo incorreto, descosido e solto, de uma simplicidade que é trivial, de um caráter sem feição, nem relevo”. E, entre os modernistas, Mário de Andrade, apesar de considerar Manuel Antônio de Almeida um “vigoroso estilista”, achava “incontestável que o autor das Memórias se exprimia numa linguagem gramaticalmente desleixada”. Mário, aliás, não consegue rir livremente enquanto lê o romance. Na introdução que escreveu para a edição de 1941, põe-se a denunciar o “achincalhe das classes desprotegidas, mais cômodas de ridicularizar por menos capazes de reação”. Logo a seguir, volta à carga: “Se exclui e se diverte caçoando, sem a menor intenção moral, sem a menor lembrança de valorizar as classes ínfimas. Pelo contrário, aristocraticamente as despreza pelo ridículo, lhes carregando acerbamente na invenção, os lados infelizes ou vis”. E, no penúltimo parágrafo, solta mais impropérios: “Das suas angústias materiais, da infância pobre, o artista não guardou nenhuma piedade pela pobreza, nenhuma compreensão carinhosa do sofrimento baixo e dos humildes. Bandeou-se com armas e bagagens para a aristocracia do espírito e, como um São Pedro não arrependido, nega e esquece. Goza. Caçoa. Ri”. Certamente, o autor de Macunaíma se refestelaria nos dias de hoje, quando certa subliteratura politicamente correta, de contestável valor, é guindada ao lugar de honra no pódio construído pela crítica literária de esquerda.

Serão Eugênio Gomes, no ensaio conciso e perfeito de Aspectos do romance brasileiro, e Antonio Candido, no seu “Dialética da malandragem” – do qual deve ser descontado certo esquematismo sociológico –, aqueles que demonstrarão compreender a índole do romance e seu papel central em nossa literatura, inclusive como antecipador da obra machadiana.

A propósito, a influência de Manuel Antônio de Almeida sobre Machado é tema que pede aprofundados estudos. Mário de Andrade escreve de forma injusta ao afirmar existir “algo do estilo espiritual de Machado de Assis” no autor do Memórias, pois a verdade deveria ser dita na ordem inversa: o autor de Dom Casmurro, além de protegido por Manuel Antônio de Almeida na Tipografia Nacional, onde era considerado um preguiçoso, herdou de seu protetor não só a sutileza da frase, mas a habilidade para construir um narrador irônico, que apresenta os homens sem julgá-los e se dirige ao leitor como se este fosse seu cúmplice. Ascendência inevitável, convenhamos, inclusive porque Machado revisou o Memórias, a fim de preparar o livro para a edição de 1862/1863.

Estamos, portanto, diante de um romance cujas influências são maiores do que se imagina – e ainda pobremente detectadas na literatura nacional, já que os influenciados, repetindo o que o próprio Machado fez, mostram-se lacônicos quando se trata de tecer elogios a Manuel Antônio de Almeida.

Ironia e galhofa

No que se refere à ironia, ela está presente do começo ao fim do livro, sugerindo ou implicando conclusões diferentes daquelas que o narrador parece exprimir: o contexto e as contradições dos termos despertam dúvida ou riso, construindo uma narrativa que alguns críticos, erroneamente, supuseram “moralizante”. Na verdade, o narrador não julga, mas, ao discordar de um costume ou de certo comportamento, apenas expressa, de maneira paternal ou jocosa, a sua censura – escarnecendo, jamais sentenciando. É o que ocorre no capítulo da procissão dos ourives, sobre a qual o narrador aponta modismos e desvirtuamentos, mas também descreve os diferentes aspectos do cortejo religioso, incluindo o encanto e a graciosidade do rancho das baianas – sob seu ponto de vista, manifestação completamente fora de lugar. Ou, em outro trecho, ao depreciar a moda da mantilha, transformada em mau gosto: “Este uso da mantilha era um arremedo do uso espanhol; porém a mantilha espanhola, temos ouvido dizer, é uma cousa poética que reveste as mulheres de um certo mistério, e que lhes realça a beleza; as mantilhas das nossas mulheres, não; era a coisa mais prosaica que se pode imaginar, especialmente quando as que as traziam eram baixas e gordas como a comadre. A mais brilhante festa religiosa [...] tomava um aspecto lúgubre logo que a igreja se enchia daqueles vultos negros, que se uniam uns aos outros, que se inclinavam cochichando a cada momento”. Conclusões mais próximas da galhofa do que de uma pretensa moralização.

Nesse romance, cujas histórias se repetem, todos os dias, em qualquer bairro de classe média baixa, há espaço também para a crítica politicamente incorreta, por exemplo, quando o narrador passa a falar mal daqueles que, hoje, poderiam ser considerados mais uma das minorias ditas indefesas: “A poesia de seus costumes [dos ciganos] e de suas crenças, de que muito se fala, deixaram-na da outra banda do oceano; para cá só trouxeram maus hábitos, esperteza e velhacaria [...]”. E não há traço de ufanismo em Manuel Antônio de Almeida: nenhuma virgem – índia, negra, mulata ou branca – tem “lábios de mel”, e os sabiás, se deles tivesse falado, gorjeariam como qualquer outro pássaro, em qualquer lugar do mundo, às vezes incomodando com seu chilreio repetitivo.

Plasticidade

A descrição da casa de um fidalgo, na qual o pó cobre da rótula à palma benta esquecida a um canto, e do próprio morador, “de cara um pouco ingrata”, que se apresenta ao visitante “de tamancos, sem meias, em mangas de camisa, com um capote de lã xadrez sobre os ombros, caixa de rapé e lenço encarnado na mão”, ou os pormenores utilizados para nos apresentar a sala de aula em que Leonardo estudará – “mobiliada por quatro ou cinco longos bancos de pinho sujos já pelo uso, uma mesa pequena que pertencia ao mestre, e outra maior onde escreviam os discípulos, toda cheia de pequenos buracos para os tinteiros; nas paredes e no teto haviam penduradas uma porção enorme de gaiolas de todos os tamanhos e feitios, dentro das quais pulavam e cantavam passarinhos de diversas qualidades” – são alguns dos inúmeros trechos que extrapolam o simples realismo ou a crônica de costumes, passagens talvez inspiradas nos relatos de Antônio César Ramos – funcionário do Correio Mercantil, chegara à patente de sargento nas milícias de d. João VI – ao escritor, mas que, certamente, foram transfigurados por acréscimos e distorções.

Se a força imaginativa desse jovem autor cria cenas de inusitada plasticidade, seus personagens parecem respirar, não devido ao exagero de características, mas à escolha perfeita do que merece ser ressaltado: “Era a comadre uma mulher baixa, excessivamente gorda, bonanchona ingênua ou tola até certo ponto, e finória até outro; vivia do ofício de parteira, que adotara por curiosidade, e benzia de quebranto; todos a conheciam por muito beata e pela mais desabrida papa-missas da cidade. Era a folhinha mais exata de todas as festas religiosas que se faziam”. Descrições nas quais a psicologia nunca é menosprezada, como no trecho a seguir, quando o narrador justifica a atitude tolerante do barbeiro em relação às estripulias de Leonardo: “Era isto natural em um homem de uma vida como a sua; tinha já 50 e tantos anos, nunca tinha tido afeições; passara sempre só, isolado; era verdadeiro partidário do mais decidido celibato. Assim à primeira afeição que fora levado a contrair sua alma expandiu-se toda inteira, e seu amor pelo pequeno subiu ao grau de rematada cegueira”.

Falsificação e verdade

Perguntei-me, enquanto relia o Memórias, quais seriam os defeitos da obra. E encontrei-os, acreditem: no final do Capítulo IX do Tomo II, vemos as dificuldades de um narrador onisciente que, apesar de reter em suas mãos todas as informações – o que não é, de fato, um problema –, parece ter medo de se alongar, por falta de tempo ou espaço, sentindo-se premido a unir os fios soltos do enredo mediante considerações genéricas, inconvincentes. Situação repetida no Capítulo XIII do mesmo tomo, no qual o narrador resume os fatos, dando ao texto um tom superficial, esquemático. Em outros raros momentos, abusa-se de uma solução redentora: no Capítulo X do Tomo II, transcorrem semanas antes que descubram onde Leonardo está, pois abandonou a casa paterna depois de brigar com sua jovem madrasta; mas quando o protagonista se vê acossado por rivais, surge no instante propício, inesperadamente, sua principal defensora, a comadre.

Tais senões, entretanto, são tragados pela absoluta maioria de ótimas cenas. Vejam o Capítulo I do Tomo II, no qual acompanhamos as minúcias de um parto, da preocupação e ansiedade do pai às orações, práticas e mezinhas da boa parteira – e não se trata, aqui, apenas de perfeição da escrita, mas do raro poder de revelar humanidade. Ou, ainda, a descrição dos estados de ânimo do protagonista ao se apaixonar por Luizinha: seu desconforto por desejar reciprocidade imediata, mas só receber, a princípio, falta de jeito e timidez. E sua insegura declaração de amor (Capítulo XXIII, Tomo I), enquanto Luizinha apenas gesticula ou enrubesce, “página que antecipa Machado de Assis em suas melhores realizações de caráter psicológico” – segundo a correta afirmação de Eugênio Gomes –, exemplo vivíssimo de um autor que domina a técnica do diálogo, transmitindo, por meio das reticências, dos silêncios e da brevidade das falas, a carga dramática adequada.

Mesclemos todas essas qualidades à correta adjetivação – às vezes exagerada de maneira proposital, a fim de ridicularizar ou escarnecer –, à capacidade de síntese – uma “equação meirinhal pregada na esquina” (Capítulo I, Tomo I) concentra, em poucas e felizes palavras, tudo que foi descrito antes, com extrema ironia – e ao formidável poder narrativo – quem não consegue enxergar um meirinho depois de ler que “nos seus semblantes transluzia um certo ar de majestade forense. Seus olhares calculados e sagazes significavam chicana”? – e teremos um romance genial, em que a natureza humana está presente sem falsificações; ou exatamente graças a elas, pois foram imaginadas com tal nexo, com tal harmonia, que recriam na ficção a excelência de uma verdade imorredoura.