maio 13, 2011

Não há ruptura na história da liturgia

Bento XVI passará à história como mais um papa que jamais abdicou de suas prerrogativas – e delas fez uso com grande sabedoria. Vejam, por exemplo, a Instrução Sobre a aplicação da Carta Apostólica Motu Proprio Summorum Pontificum, assinada pela Pontifícia Comissão Ecclesia Dei mas redigida sob supervisão do papa. Demonstrando espírito profundamente pastoral, o documento:

a) retoma a Carta Apostólica Motu Proprio – e também a Carta do Santo Padre aos Bispos que acompanha o “Motu Proprio” –, de maneira a não deixar dúvidas sobre o fato de que “não existe qualquer contradição entre uma edição e outra do Missale Romanum. Na história da Liturgia, há crescimento e progresso, mas nenhuma ruptura. Aquilo que para as gerações anteriores era sagrado, permanece sagrado e grande também para nós, e não pode ser de improviso totalmente proibido ou mesmo prejudicial”;

b) salienta o princípio segundo o qual “cada Igreja particular deve concordar com a Igreja universal, não só quanto à fé e aos sinais sacramentais, mas também quanto aos usos recebidos universalmente da ininterrupta tradição apostólica, os quais devem ser observados tanto para evitar os erros quanto para transmitir a integridade da fé, de sorte que a lei de oração da Igreja corresponda à lei da fé”;

c) garante claramente o direito dos fiéis à “Liturgia Romana segundo o Usus Antiquior, considerada como um tesouro precioso a ser conservado”, salientando que se trata de “uma faculdade concedida para o bem dos fiéis e que por conseguinte deve ser interpretada em sentido favorável aos fiéis, que são os seus principais destinatários”;

d) ressalta a autoridade episcopal, afirmando que “os bispos diocesanos, segundo o Código de Direito Canônico, devem vigiar em matéria litúrgica a fim de garantir o bem comum e para que tudo se faça dignamente, em paz e serenidade na própria Diocese, sempre de acordo com a mens do Romano Pontífice”; e

e) a fim de que prevaleça sempre entre nós o verdadeiro espírito de amor e fraternidade – e não haja espaço para comportamentos cismáticos ou rebeldes –, “os fiéis que pedem a celebração da forma extraordinária não devem apoiar nem pertencer a grupos que se manifestam contrários à validade ou à legitimidade da Santa Missa ou dos Sacramentos celebrados na forma ordinária, nem ser contrários ao Romano Pontífice como Pastor Supremo da Igreja universal”.

Aliás, não devemos esquecer o que diz o nosso Catecismo, em seu parágrafo 1124: “A fé da Igreja é anterior à fé do fiel, que é convidado a aderir a ela. Quando a Igreja celebra os sacramentos, confessa a fé recebida dos apóstolos. [...] A liturgia é um elemento constitutivo da santa e viva Tradição”.  Não há dúvida de que as palavras de São Paulo na 1ª Carta aos Coríntios – “Eu vos transmiti primeiramente o que eu mesmo havia recebido” – ecoam, claramente, nesta nova instrução.

Nota (em 14.05.2011): O L'Osservatore Romano de hoje, no artigo “Il significato dell'istruzione ‘Universae Ecclesiae’”, assinado por Monsenhor Guido Pozzo, secretário da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, afirma: Ora, le due forme ordinaria e extraordinaria della liturgia romana, sono un esempio di reciproco incremento e arricchimento. Chi pensa e agisce al contrario, intacca l’unità del rito romano che va tenacemente salvaguardata, non svolge autentica attività pastorale o corretto rinnovamento liturgico, ma priva piuttosto i fedeli del loro patrimonio e della loro eredità a cui hanno diritto.

maio 11, 2011

“Meu nome é Lázaro”

Ontem, depois de ler um texto de G. K. Chesterton, uma pergunta passou a me importunar: por que, afinal, voltei à Igreja Católica? De seminarista na juventude a agnóstico, depois ateu, niilista convicto, o que me fez, aos 51 anos, mudar? Há tempos sentia-me, como Ezequiel, caminhando por um vale repleto de ossos secos, mas sem que Deus me falasse. Sob a aparência de uma vida normal, a insatisfação se agitava – e havia uma angústia renitente, pronta a despertar comigo todas as manhãs. Talvez tenha sido ela o instrumento que me trouxe, de reflexão em reflexão, até o estranho sonho que, há alguns meses, desencadeou a mudança. Quanto a ele, não o contarei por dois motivos: por discrição e porque, como disse Edith Stein, certamente inspirada num sermão de São Bernardo de Claraval, “secretum meum mihi” – “meu segredo é só meu”. Quem precisa saber os detalhes já os sabe, a começar Dele, que inspirou a viagem onírica e me permitiu, por Sua graça, colocar-me novamente na Sua presença. Foram anos de dúvidas e questionamentos até a metanoia gerada naquela estranha noite e na manhã seguinte, quando, com a ajuda de uma amiga, decifrei o sentido de tudo – do sonho, da minha vida e do vazio que eu alimentara anos seguidos. Mas agora, não. Não mais. Chega de procurar nas pessoas, nos livros, na ciência e no meu infeliz hedonismo o que eles não podem oferecer por um só motivo: não O têm. “Inveni cor meum” – repito, todos os dias, com São Bernardo de Claraval: “Encontrei meu coração”. Ele estava lá, escondido no Amor que, desde sempre, pulsa por mim. Como escreveu Chesterton, aos 48 anos, logo após sua Primeira Comunhão:

The sages have a hundred maps to give
That trace their crawling cosmos like a tree,
They rattle reason out through many a sieve
That stores the sand and lets the gold go free:
And all these things are less than dust to me
Because my name is Lazarus and I live.

maio 10, 2011

Minhas críticas

Com a recente mudança do site do jornal Rascunho, todos os meus textos, publicados nos últimos quatro anos, estão, provisoriamente, indisponíveis na web. Por esse motivo, passarei a publicá-los, na versão integral, aqui no blog. Começo hoje, com Adolfo Caminha e seu Bom Crioulo:

Subliteratura e vingança

Rodrigo Gurgel

A obra do cearense Adolfo Caminha só confirma minhas conclusões, de que os frutos do naturalismo brasileiro – essa “planta exótica”, segundo o sugestivo enunciado de Lúcia Miguel-Pereira – são, em sua maior parte, excêntricos quanto aos temas e medíocres no que se refere à forma. No caso específico de Caminha, contudo, há um desonroso complemento: seus principais livros, A Normalista e Bom Crioulo, nasceram, principalmente, do rancor.

Órfão de mãe aos dez anos, Caminha, doente depois de sofrer as agruras de uma terrível seca, é enviado a Fortaleza pelo pai. Dali, parte para o Rio de Janeiro, onde um tio o inscreve na Escola Naval. Republicano servindo na Marinha, a mais monarquista das instituições militares, o escritor não se adapta à Corte e solicita o retorno ao Ceará. Aos 22 anos, apaixona-se pela esposa de um alferes; esta, para escândalo dos fortalezenses, abandona o marido e passa a viver com Caminha. As pressões obrigam-no a abandonar sua carreira nas forças armadas e, apesar do novo emprego – de insignificante escriturário na Tesouraria da Fazenda –, a se transferir, em 1893, para o Rio de Janeiro, quando publica A Normalista, livro no qual pretendeu ajustar contas com a sociedade que praticamente o expulsara de Fortaleza. Dois anos mais tarde, surge Bom Crioulo – e desta vez a vingança terá como alvo a Marinha.  

Certos críticos modernos pretendem minimizar essa característica – a do romance enquanto desforra – e, também, isentar Caminha de suas responsabilidades, colocando nos ombros das “instituições conservadoras” a culpa pelo destino do escritor. Esquecem-se, no entanto, de que, em 1884, quando ele discursa na Escola Naval, diante do próprio imperador, e critica a monarquia, isso não o impede de ser promovido a guarda-marinha (1885) e segundo-tenente (1888). Na verdade, livrar Adolfo Caminha de culpa é uma solução deveras fácil para quem preferiu agir como se atos não produzissem consequências. O arroubo imaturo cobrou seu preço – e o autor, considerando-se perseguido e injustiçado, decidiu revidar com a arma que tinha à mão.

Ressentimento

A escritora e editora Louise DeSalvo estudou, em Concebido com maldade, alguns casos semelhantes ao de Caminha, de autores que escreveram movidos pelo desejo de vingança. Ainda que suas reflexões sejam superficiais e discutíveis, o livro permite a abertura de um debate sobre os motivos éticos da produção literária. DeSalvo enaltece as obras que nascem do ressentimento, legitimando seu raciocínio por meio de um freudismo superficial, muito disseminado nos estudos acadêmicos, ou servindo-se de citações genéricas, exemplos daquele beletrismo que serve para justificar qualquer coisa. Por exemplo, a retórica da frase “Nenhuma motivação é demasiado vil para a arte”, de John Gardner (a pesquisadora certamente se refere ao romancista e crítico norte-americano e não ao escritor inglês), esconde um juízo que pretende abarcar todos os comportamentos, inclusive os mais levianos. Ora, se nada é “demasiado vil para a arte”, o homicídio praticado pelo escritor cujo objetivo último é apenas descrever com perfeição um assassinato seria uma motivação aceitável?

A escritora Anaïs Nin também se mostra condescendente, o que, para quem conhece sua biografia, não é nenhuma surpresa:

O escritor é o duelista que jamais luta na hora marcada, que guarda um insulto como qualquer outro objeto curioso, um item de colecionador, despeja-o mais tarde sobre sua mesa e empenha-se verbalmente num duelo com ele. Algumas pessoas chamam isso de fraqueza. Eu chamo de adiamento... Pois ele preserva, coleciona o que depois vai explodir em sua obra.

De minha parte, não considero tal atitude “fraqueza” ou “adiamento”, mas apenas covardia. E os gestos que nascem da pusilanimidade, não só no que se refere à arte, costumam ser desprezíveis.

Se, como afirma DeSalvo, “a obra de arte substitui uma inadequação” e é somente um “meio infantil, regressivo e escapista de lidar com um fracasso”, então os gênios da literatura são, necessariamente, monstros morais ou, numa hipótese mais amena, adultos que não amadureceram. Tais generalizações servem ao intuito da autora, com certeza, mas fecham os olhos à complexidade não só dos escritores, mas de todos os seres humanos. Como classificar, por exemplo, Tolstoi, a quem Isaiah Berlin – em seu magnífico ensaio “O porco-espinho e a raposa” – se refere como “o mais trágico entre os grandes escritores”, que se debateu, por toda a vida, entre “o orgulho e o ódio por si mesmo, onisciente e duvidando de tudo, frio e violentamente apaixonado, desdenhoso e pronto a se humilhar, atormentado e desapegado, rodeado por uma família que o adorava, por seguidores dedicados, pela admiração de todo o mundo civilizado e, ainda assim, quase totalmente isolado”?

Outro exemplo de DeSalvo, Henry Miller dizia que sua escrita talvez parecesse “monstruosa (para alguns) pois era uma violação, porém eu me tornei um indivíduo mais humano depois dela. Eu retirava o veneno do meu sistema sanguíneo”. Não sabemos o que significou para ele tornar-se “mais humano” – e desconhecemos se sua afirmação é sincera –, mas escrever movido por um desejo maléfico e distribuir o seu “veneno” a milhares de leitores é, no mínimo, uma forma discutível de purificar a própria consciência. De qualquer forma, se Caminha teve oportunidade semelhante, pôde desfrutar dela por pouco tempo, pois morreu dois anos depois de publicar Bom Crioulo. Suas tentativas patológicas de retaliação, contudo, ficaram. Em A Normalista, segundo Alfredo Bosi, “o ressentimento do autor, apoucado pela vida de amanuense no meio hostil de Fortaleza, leva-o a nivelar todas as personagens no sentido das pequenas vilezas que a hipocrisia do meio se esforça em vão por encobrir”. Como veremos, não será diferente no caso de Bom Crioulo.

Linguagem

Se fosse possível sintetizar, numa única expressão, esse livro que parcela da crítica endeusa pelo fato de ser o primeiro “romance homossexual” da literatura brasileira, eu diria que se trata de uma cascata de adjetivos e lugares-comuns. Há adjetivos às pencas. Nem José de Alencar conseguiu usar tantos. O leitor abre o Capítulo I e lá encontra esta fórmula de gosto duvidoso: “[...] o silêncio infinito das esferas obumbradas pela chuva de ouro do dia”. O protagonista, marujo a quem se apelidou de Bom Crioulo, é

um latagão de negro, muito alto e corpulento, figura colossal de cafre, desafiando, com um formidável sistema de músculos, a morbidez patológica de toda uma geração decadente e enervada.

Tal maçante retórica irá perseguir o leitor até a última linha desse conto à força estendido. E virá acompanhada de “horizontes cor-de-rosa”, “coragem espartana”, o espírito que se debate “como um pássaro agonizante”, o “azul inconsútil” do céu, a ventania que tem “a força extraordinária de titãs”, “desejos de touro”, “frenesi de gozo”, o céu “alto e imenso na eterna glória da luz”, o “silêncio infinito da noite clara”, o som da viola que “embriaga a alma” e mais quantos lugares-comuns se possa desejar.

O exagero das descrições é evidente desde a primeira linha. O ódio não permitiu ao escritor filtrar um pouco os seus ímpetos qualificativos. A corveta que servirá de palco à cena inicial do livro é “velha e gloriosa”, tem o “casco negro” e as “velas encardidas de mofo”, assemelha-se à “sombra fantástica de um barco aventureiro”, mas não passa de uma “velha carcaça flutuante”, “esquife agourento [...] quase lúgubre na sua marcha vagarosa” – “um grande morcego apocalíptico de asas abertas sobre o imenso mar”. E estes são apenas trechos selecionados dos três breves parágrafos que abrem o Capítulo I... Logo, logo veremos o vento “açoitando os cabos, fustigando a superfície da água” e, pasmem, “gemendo tristemente salmodias de violoncelo fantástico”.

Apaixonado por Aleixo, um grumete de 15 anos, Bom Crioulo sofre o “forte desejo de macho torturado pela carnalidade grega”, seja lá o que isso for. Sempre a acompanhar o casal de namorados, lá está, “no alto do grande hemisfério que a luz do meio-dia incendiava”, nada mais que “o azul, sempre o azul claro, o azul imaculado, o azul transparente e doce, infinito e misterioso”. E à noite, é claro, não falta a lua, eterna protetora dos apaixonados, que necessariamente surge, primeiro, “cor de fogo”, para depois se tornar “fria e opalescente, misto de névoa e luz, alma da solidão”, “derramando sobre o mar essa luz meiga, essa luz ideal que penetra o coração do marinheiro” e atormenta os leitores que conservaram um mínimo de bom senso.

Bom Crioulo não se excita, apenas, mas sente “uma febre extraordinária de erotismo, um delírio invencível de gozo pederasta” – por um momento, o leitor tem a clara impressão de que ele se jogará pela amurada. Já em terra, no aconchego de uma “triste e desolada baiuca da Rua da Misericórdia”, o negro venera as “formas roliças de calipígio” do seu amante. Os dois vivem numa suja água-furtada, “espécie de sótão roído pelo cupim e tresandando a ácido fênico”, mas que apresenta “sombra voluptuosa”, “penumbra acariciadora” e, graças aos rabiscos do escritor, se transforma num “ignorado e impudico santuário de paixões inconfessáveis”. E se não estamos satisfeitos com o palavrório, ainda podemos saber que Aleixo é um “belo modelo de efebo que a Grécia de Vênus talvez imortalizasse em estrofes de ouro límpido e estátuas duma escultura sensual e pujante”. Convenhamos, nem o pior dos românticos produziria uma frase tão afetada.

Mas vamos em frente. Bom Crioulo, levado ao hospital da Marinha depois de receber chibatadas – punição habitual à época –, chega aos estertores da saudade:

Um desespero surdo, um desespero incrível, aumentado por acidentes patológicos, fomentado por uma espécie de lepra contagiosa que brotara, rápido, em seu corpo, onde sangravam ainda, obstinadamente, lívidas marcas de castigo – um desespero fantástico enchia o coração amargurado de Bom Crioulo.

Como vemos, o hiperbolismo causa efeito oposto àquele que o autor busca. Depois de algumas páginas abarrotadas de adjetivos que pretendem, repetidamente, construir a mesma ênfase expressiva, o recurso começa a produzir incredibilidade e, logo depois, aversão. No caso acima, não basta que o “desespero” seja “surdo” e “incrível” – ele também precisa ser “fantástico”, além de vir acompanhado de indescritíveis “acidentes patológicos” e de “uma espécie de lepra contagiosa”. Não é só a cena que desmorona diante do olhar saturado do leitor, mas a própria verossimilhança da história fica comprometida, principalmente quando sabemos que, poucos parágrafos à frente, o personagem – que há dias sangra no seu leito – agirá como um super-herói: saltará janela e muros, fugirá da ilha em que o hospital está instalado e, chegando ao continente, caminhará longos quarteirões em busca de sua paixão.

Ao dedicar-se com tal empenho à sua vingança, Adolfo Caminha seguiu os passos de Aluísio Azevedo, e aprendeu com seu mestre a importância de coalhar o texto de imagens mórbidas. Assim, lá estão os “ímpetos vorazes de novilho solto” – ou, se preferirem, o “grande ímpeto selvagem de novilho insaciável” –, as “incongruências de macho em cio”, as “nostalgias de libertino fogoso”, a mulher masculinizada, de “pernas gordas e penugentas”, que se transforma numa “vaca do campo extraordinariamente excitada” e, “segurando os seios moles”, traz “um estranho fulgor no olhar de basilisco”. Tudo se animaliza, tudo se degrada, a fim de corroborar, à força, as teorias deterministas. Do “bodum africano”, passando pelo “hermafroditismo agudo”, chega-se às “sucções violentas”. E quando Bom Crioulo, fugido do hospital, percorre as ruas em busca de Aleixo, “pairava um cheiro forte de urina, assim como uma emanação agressiva de mictório público, envenenando a atmosfera, intoxicando a respiração”. É pena que, no final, quando o negro salta de navalha em punho sobre o amante, apresente, além do ciúme, o raríssimo sintoma de “estrabismo nervoso de alucinado”... Esse problema não poderia tê-lo impedido de acertar o alvo?

Toda a conhecida ladainha biologista do naturalismo polui a obra: como vimos, Bom Crioulo é o melhor contraponto à suposta “morbidez patológica de toda uma geração decadente e enervada”; certo personagem traz “no rosto imberbe de adolescente [...] uma precoce morbidez sintomática”; o grumete tem uma “vontade ingênita de ceder aos caprichos do negro”; a natureza não só “impõe castigos”, mas “pode mais que a vontade humana”. Não estamos diante de afetos passíveis de serem controlados pela razão ou, ao menos, capazes de provocar dúvidas de ordem existencial ou moral, mas de uma “obsessão doentia” que “redobra com uma força prodigiosa”, “acorda zelos que pareciam estagnados” e “comove fibras que já tinham perdido antigas energias”. A luta de Bom Crioulo contra os seus instintos, anunciada com fanfarras no Capítulo III, não dura poucos parágrafos, de maneira que a homossexualidade se apresenta como um “ideal genésico” cuja força obriga o “selvagem de Zanzibar” a “cair em êxtase [...] diante de um ídolo sagrado pelo fetichismo africano”.  

Composição

Mas os defeitos de Bom Crioulo não se restringem à linguagem. O livro é composto sobre esquematismos e obviedades. Logo no início, à calmaria enfrentada pela corveta corresponde, evidentemente, a preguiça dos marujos. O oficial que preza a obediência da marujada precisa ser um disciplinador arrogante. Agostinho, um guardião também responsável por aplicar as chibatadas, não pode desaprovar o que é obrigado a fazer por ordens superiores, mas deve, necessariamente, ter a personalidade de um sádico. O feliz casal de homossexuais carece de um antagonista – e, claro, nada melhor do que o elemento feminino, a portuguesa Carolina, para assumir o posto, formando o trio de personagens a partir do qual se construirá a trama corriqueira: encontro – sedução – posse do objeto amoroso – separação momentânea – sedução do antagonista – ciúme descontrolado – tragédia/morte.

A história é tão previsível, que se cortássemos, além dos trechos de retórica vazia, as digressões que só reiteram as qualidades físicas dos marinheiros enamorados e seus repetitivos sentimentos, recíprocos ou não, o livro poderia perder dois terços de gordura e se transformar num conto de vinte ou trinta páginas.

Há também sérios problemas de passagem do tempo. Em menos de um mês, enquanto Bom Crioulo se encontra no hospital, Aleixo se torna “gordo, forte, sadio [...], músculos desenvolvidos como os de um acrobata [...], expressão admirável de robustez física” – e a única razão apresentada para essa mudança são os cuidados de Carolina. Antes, sem que se cumpra sequer um ano de convivência, Bom Crioulo consegue ver “crescer a seu lado Aleixo, assistindo-lhe o desenvolvimento prematuro de certos órgãos, o desabrochar da segunda idade”. Próximo do fim do livro, passadas as poucas semanas em que permaneceu no hospital, o protagonista já não sabe ao certo onde é a residência de Carolina, lugar no qual vivia muito antes de conhecer Aleixo – e age como se sua última noite ali tivesse ocorrido há décadas. Finalmente, parado defronte à casa, conversa com o funcionário da padaria e este lhe diz que o grumete e a portuguesa acordam tarde; o dia mal amanheceu, mas, surpresa!, Aleixo sai para a rua.

A vertigem do Mal

Enquanto relia Bom Crioulo, lembrei-me do ensaio – elogioso e demoníaco – de Georges Bataille sobre Jules Michelet e seu La sorcière (A feiticeira). Do princípio ao fim, Caminha parece guiado pela mesma paixão que, segundo Bataille, comandava Michelet: “a vertigem do Mal”. Entregue ao seu desejo de vingança, enquanto escrevia Adolfo Caminha talvez repetisse o gesto de Michelet: “No decurso do seu trabalho, acontecia faltar-lhe a inspiração: descia então de sua casa, dirigia-se a um mictório cujo cheiro era sufocante. Aspirava profundamente e, tendo-se assim ‘aproximado, o mais perto que podia, do objeto do seu horror’, voltava ao trabalho”.
 
Encontrar quem elogie tal subliteratura é uma evidência de quanto a nossa episteme se encontra deteriorada, submetida à mais ordinária doxa. Realmente, parcela da crítica literária abdicou do seu papel, preferindo destruir a autonomia da literatura e sujeitar a arte à deplorável ditadura do politicamente correto. Harold Bloom está certo quando diz que todos os padrões estéticos e a maioria dos padrões intelectuais estão sendo abandonados em nome de uma falsa e forçada harmonia social. E, completo, com um agravante: mente-se descaradamente aos jovens, levando-os a valorizar uma ficção medíocre. Tal obsessão significa, na prática, a renúncia à autonomia de pensamento – um desatino frente ao qual muitos se mostram indefesos.

maio 09, 2011

“A tradição é uma realidade viva”

Na audiência que concedeu aos membros do Instituto Litúrgico Santo Anselmo, no último dia 6 de maio, Bento XVI mostrou, novamente, equilíbrio, sabedoria e prudência. Para o papa, “a liturgia da Igreja vai mais além da própria ‘reforma conciliar’ (Constituição Sacrosanctum Concilium, 1), cujo objetivo, de fato, não era principalmente o de mudar os ritos e os gestos, mas sim renovar as mentalidades e colocar no centro da vida cristã e da pastoral a celebração do Mistério Pascal de Cristo. Infelizmente, talvez por nossa causa, Pastores e expertos, a Liturgia foi tomada mais como um objeto a ser reformado do que como um sujeito capaz de renovar a vida cristã”.

E Bento XVI acrescenta: “[...] A Liturgia, testemunho privilegiado da Tradição vivente da Igreja, fiel ao seu dever original de revelar e fazer presente no hodie [hoje] das vicissitudes humanas a opus Redemptionis [obra da Redenção], vive de uma relação correta e constante entre sã traditio [tradição] e legitima progressio [progresso legítimo], lucidamente explicitada pela Constituição conciliar no parágrafo 23. Com os dois termos, os Padres conciliares quiseram registrar seu programa de reforma, em equilíbrio com a grande tradição litúrgica do passado e do futuro. Não poucas vezes se contrapõe de maneira desonesta tradição e progresso. Na realidade, os dois conceitos se integram: a tradição é uma realidade viva, que por esse motivo inclui em si mesma o princípio do desenvolvimento, do progresso. É como dizer que o rio da tradição carrega em si também a sua fonte e tende à sua foz”.

Coerente com as ideias que expressa desde o início de seu pontificado, Bento XVI repete, dessa forma, o raciocínio explicitado no inesquecível discurso de 22 de dezembro de 2005: “[...] Por que a recepção do Concílio, em grandes partes da Igreja, até agora teve lugar de modo tão difícil? Pois bem, tudo depende da justa interpretação do Concílio ou como diríamos hoje da sua correta hermenêutica, da justa chave de leitura e de aplicação. Os problemas da recepção derivaram do fato de que duas hermenêuticas contrárias se embateram e disputaram entre si. Uma causou confusão; a outra, silenciosamente, mas de modo cada vez mais visível, produziu e produz frutos. Por um lado, existe uma interpretação que gostaria de definir como a ‘hermenêutica da descontinuidade e da ruptura’; não raro, ela pôde valer-se da simpatia dos mass media e também de uma parte da teologia moderna. Por outro lado, há a ‘hermenêutica da reforma’, da renovação na continuidade do único sujeito-Igreja, que o Senhor nos concedeu; é um sujeito que cresce no tempo e se desenvolve, permanecendo porém sempre o mesmo, único sujeito do Povo de Deus a caminho. A hermenêutica da descontinuidade corre o risco de terminar numa ruptura entre a Igreja pré-conciliar e a Igreja pós-conciliar. Ela afirma que os textos do Concílio como tais ainda não seriam a verdadeira expressão do espírito do Concílio”.
 
De fato, é como se ouvíssemos, por trás dos discursos papais, as palavras de São Paulo a Timóteo: “Toma por modelo os ensinamentos salutares que recebeste de mim sobre a fé e o amor a Jesus Cristo. Guarda o precioso depósito, pela virtude do Espírito Santo que habita em nós”.

maio 08, 2011

“Não ceder jamais às recorrentes tentações da cultura hedonística”

O alerta do papa Bento XVI, em sua homilia de hoje, no Parque de São Giuliano, em Veneza, serve perfeitamente para nós, católicos brasileiros:

Também uma nação tradicionalmente católica pode experimentar, num sentido negativo, ou assimilar, quase de maneira inconsciente, os contragolpes da cultura que termina por introduzir uma maneira de pensar em que a mensagem evangélica é abertamente rechaçada ou obstaculizada de forma sub-reptícia. Sei quanto tem sido e quanto continua a ser grande o vosso compromisso em defender os valores perenes da fé cristã. Encorajo-vos a não ceder jamais às recorrentes tentações da cultura hedonística e aos chamados do consumismo materialista. Acolham a invitação do apóstolo Pedro, presente na segunda leitura de hoje, de se comportar “com temor durante o tempo da vossa peregrinação” (1 Pe 1,17): invitação que se concretiza em uma vida vivida intensamente nos caminhos do nosso mundo, conscientes da meta a ser alcançada: a unidade com Deus, em Cristo crucificado e ressuscitado.

maio 06, 2011

Objeção de consciência e extremismo laicista

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), de reconhecer as uniões estáveis de homossexuais, impõe a nós, católicos, o dever de manifestarmos nossa objeção de consciência. Estamos impedidos – moral, religiosa, filosófica e politicamente – de reconhecer a validade dessa decisão e, também, de cumprir qualquer obrigação legal a ela relacionada. Como afirmava o cardeal Alfonso López Trujillo, durante anos presidente do Pontifício Conselho para a Família, “não se podem impor coisas iníquas aos povos. E mais, precisamente porque são iníquas, a Igreja chama com urgência à liberdade de consciência e ao dever de opor-se”.

A posição do Magistério é clara: “Homens e mulheres com tendências homossexuais devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Deve evitar-se, para com eles, qualquer atitude de injusta discriminação”. Contudo, “o respeito para com as pessoas homossexuais não pode levar, de modo nenhum, à aprovação do comportamento homossexual ou ao reconhecimento legal das uniões homossexuais”. E acrescenta: “O bem comum exige que as leis reconheçam, favoreçam e protejam a união matrimonial como base da família, célula primária da sociedade. Reconhecer legalmente as uniões homossexuais ou equipará-las ao matrimônio, significaria não só aprovar um comportamento errado, com a consequência de convertê-lo num modelo para a sociedade atual, mas também ofuscar valores fundamentais que fazem parte do patrimônio comum da humanidade”, pois “nas uniões homossexuais estão totalmente ausentes os elementos biológicos e antropológicos do matrimônio e da família, que poderiam dar um fundamento racional ao reconhecimento legal dessas uniões. Estas não se encontram em condição de garantir de modo adequado a procriação e a sobrevivência da espécie humana”.

A decisão do STF, no entanto, criará novos problemas. No que se refere à adoção de filhos, por exemplo, “a falta da bipolaridade sexual cria obstáculos ao desenvolvimento normal das crianças eventualmente inseridas no interior dessas uniões. Falta-lhes, de fato, a experiência da maternidade ou paternidade. Inserir crianças nas uniões homossexuais através da adoção significa, na realidade, praticar a violência sobre essas crianças, no sentido de que se aproveita do seu estado de fraqueza para introduzi-las em ambientes que não favorecem o seu pleno desenvolvimento humano”.

Para aqueles que desejarem se aprofundar no tema da adoção, recomendo as entrevistas com Dale O’Leary, escritora e pesquisadora da Associação Médica Católica dos Estados Unidos, e Claudia Navarini, professora da Faculdade de Bioética do Ateneu Pontifício Regina Apostolorum. E também o ensaio Intergenerational Sexual Contact: A Continuum Model of Participants and Experiences”, de Joan A. Nelson. (Ver nota logo abaixo.)

Extremismo laicista

Na verdade, o resultado da votação do Supremo, composto de juízes nomeados por governos mais ou menos esquerdistas, faz parte de um “movimento cultural e ideológico que busca instalar na agenda pública projetos que desnaturalizam as instituições”, como afirma Ignacio Arsuaga Rato, líder da ONG católica HazteOir. Assim, repete-se no Brasil o que acontece na Argentina e na Espanha: a internacional socialista pretende “instalar o relativismo numa ampla vertente de formas; acusar de violentos e extremistas todos aqueles que defendem valores cristãos; e impor uma nova ordem social”, em que nem mesmo restrições à liberdade de culto podem ser desconsideradas.

É o que nos espera – e contra o que devemos lutar: a imposição de um discurso único, totalitário, que vê nossas tradições culturais e nossos valores religiosos como males que precisam ser exterminados.

Nota: Recomendo também este ótimo artigo de monsenhor Ignacio Barreiro Carámbula: “¿Por qué la adopción homosexual no es un derecho?”. 

maio 04, 2011

Sofrimento imerecido, alegria e beleza

Bento XVI iniciou hoje uma nova série de catequeses. Como faz todas as semanas, o pontífice se dirigiu aos fiéis reunidos na Praça de São Pedro, desta vez para falar sobre a oração.

Para os que conhecem a obra do cardeal Ratzinger – infelizmente pouco divulgada em nosso país, ainda hoje influenciado por uma teologia esquerdizante e contrária à tradição católica –, bem como suas falas nas audiências das quartas-feiras, nestes seis anos de papado, quando tratou, entre outros temas, das principais figuras da Patrística e dos grandes teólogos da Idade Média, não há nenhuma surpresa: ele consegue reunir erudição, clareza e rara capacidade de síntese.

Hoje, para se pronunciar sobre um dos temas mais caros à cristandade, Bento XVI começa falando sobre as antigas culturas pagãs – e parte da súplica de um egípcio cego para encontrar o princípio e núcleo de toda oração: “Que eu veja!”. Passa pela Mesopotâmia, chega à Grécia platônica, cita Eurípides e sua As troianas, recorda Marco Aurélio e alcança Proclo de Constantinopla (não o discípulo de São João Crisóstomo, mas o chefe da escola neoplatônica de Atenas, comentarista de Os elementos, de Euclides, e chamado de escolástico do helenismo).

“A vida humana é uma mescla de bem e mal, de sofrimento imerecido e de alegria e beleza, que de forma espontânea e irresistível nos impulsiona a pedir a Deus a luz e a força interiores que nos socorram na terra e abram uma esperança que ultrapasse os limites da morte”, diz Bento XVI.

Próximo de concluir a audiência, ressaltando como o homem, em diferentes épocas e culturas, sempre dá testemunho de sua dimensão religiosa – pois “não pode prescindir de perguntar-se sobre qual é o sentido da sua existência, que permanece obscuro e desconfortante se não se colocar em relação com o mistério de Deus e do seu projeto sobre o mundo” –, Bento XVI nos recorda, em breves linhas, o mistério da Revelação.

Mas esta primeira aula é apenas um sopro do que nos aguarda nas próximas semanas, quando ele discorrerá sobre as formas de encontro com Aquele que, ao manifestar-se a Elias, no Horeb, foi antecedido por grande e impetuoso furacão, capaz de fender montanhas e quebrar rochedos, por um terremoto, pelo fogo – até finalmente se apresentar como o murmúrio de uma brisa suave, diante da qual o profeta cobre seu rosto (1 Reis 19).

maio 02, 2011

“Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei!”

Sero te amavi, pulchritudo tam antiqua et tam nova, sero te amavi! Et ecce intus eras et ego foris et ibi te quaerebam et in ista formosa, quae fecisti, deformis irruebam. Mecum eras, et tecum non eram. Ea me tenebant longe a te, quae si in te non essent, non essent. Vocasti et clamasti et rupisti surdidatem meam, coruscasti, splenduisti et fugasti caecitatem meam; fragrasti, et duxi spiritum et anhelo tibi, gustavi, et esurio et sitio, tetigisti me, et exarsi in pacem tuam.

Sanctus Augustinus, Confessiones (X, 27. 38)

[Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Estavas dentro e eu fora te procurava. Precipitava-me eu disforme, sobre as coisas formosas que fizeste. Estavas comigo, contigo eu não estava. As criaturas retinham-me longe de ti, aquelas que não existiriam se não estivessem em ti. Chamaste e gritaste e rompeste a minha surdez. Cintilaste, resplandeceste e afugentaste minha cegueira. Exalaste perfume, aspirei-o e anseio por ti. Provei, tenho fome e tenho sede. Tocaste-me e abrasei-me no desejo de tua paz.]

abril 30, 2011

Subliteratura e vingança

Este mês, no jornal Rascunho, analiso o romance Bom Crioulo, de Adolfo Caminha. E minha conclusão é muito simples: encontrar quem elogie tal subliteratura é uma evidência de quanto a nossa episteme se encontra deteriorada, submetida à mais ordinária doxa.

março 27, 2011

Átrio dos Gentios: “promover a fraternidade para além das convicções, mas sem negar as diferenças”

A iniciativa do papa Bento XVI, de criar um novo Átrio dos Gentios – originalmente, o espaço, no Templo de Jerusalém, que não estava reservado exclusivamente aos judeus, mas ao qual poderia ir qualquer pessoa, independente de nacionalidade, cultura ou religião –, tornou-se realidade nos últimos dias 24 e 25 de março, em Paris.

Na verdade, pelo menos desde setembro de 2008 Bento XVI demonstra sua preocupação em promover o diálogo entre crentes e não crentes. Em sua viagem a Paris, em seu famoso discurso no Collège des Bernardins, ele já afirmara que “uma cultura meramente positivista que relegasse para o âmbito subjetivo, como não científica, a pergunta acerca de Deus, seria a capitulação da razão, a renúncia às suas possibilidades mais elevadas e, portanto, o descalabro do humanismo, cujas consequências não deixariam de ser graves”.

E voltou ao tema, de maneira mais assertiva, em dezembro de 2009, durante a apresentação de votos de Natal à Cúria Romana, quando disse: “Penso que a Igreja deveria também hoje abrir uma espécie de ‘átrio dos gentios’, onde os homens pudessem de qualquer modo agarrar-se a Deus, sem O conhecer e antes de terem encontrado o acesso ao seu mistério, a cujo serviço está a vida interna da Igreja. Ao diálogo com as religiões deve acrescentar-se hoje sobretudo o diálogo com aquelas pessoas para quem a religião é uma realidade estranha, para quem Deus é desconhecido, e contudo a sua vontade não é permanecer simplesmente sem Deus, mas aproximar-se d’Ele pelo menos como Desconhecido”.

Atendendo ao desejo do papa, o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, criou essa nova instituição permanente do Vaticano, o Átrio dos Gentios, destinada a promover intercâmbios e encontros entre crentes, agnósticos e ateus. Foi o que teve início em Paris – na Universidade de Sorbonne, no Instituto da França e na sede da Unesco.

Fechando o primeiro momento desse diálogo mais que necessário, realizou-se, na noite de 25 de março, uma festa no átrio da Catedral de Notre-Dame. Na oportunidade, a catedral foi aberta e todos foram convidados a participar de uma vigília de oração e meditação. Pouco antes, no telão que dominava a praça, apresentou-se a mensagem de Bento XVI, da qual coloco, a seguir, alguns dos trechos mais significativos:

A questão de Deus não é um perigo para a sociedade, não põe em perigo a vida humana. A questão de Deus não deve estar ausente das grandes interrogações do nosso tempo.

Queridos amigos, deveis construir pontes entre vós. Aproveitai a oportunidade que se apresenta para descobrir no mais profundo de vossas consciências, através de uma reflexão sólida e ordenada, os caminhos de um diálogo precursor e fecundo. Tendes muito que dizer uns aos outros. Não fecheis vossas consciências aos desafios e problemas que existem diante de vós.

Estou profundamente convencido de que o encontro entre a realidade da fé e da razão permite que o ser humano encontre a si mesmo. Mas muito frequentemente a razão se dobra à pressão dos interesses e à atração do vantajoso, obrigada a reconhecer isso como um critério último. A busca da verdade não é fácil. E se cada um está chamado a decidir-se com valentia pela verdade é porque não há atalhos para a felicidade e a beleza da vida plena. Jesus o disse no Evangelho: “A verdade os fará livres”.
 
As religiões não podem ter medo de uma laicidade justa, de uma laicidade aberta, que permita a cada um e a cada uma viver o que crê, de acordo com sua consciência. [...] Crentes e não crentes têm de sentir livres para ser o que são, iguais em seus direitos de viver sua vida pessoal e comunitária com fidelidade às suas convicções, e tem de ser irmãos entre si. Um motivo fundamental deste Átrio dos Gentios é promover essa fraternidade para além das convicções, mas sem negar as diferenças. E, ainda mais profundamente, reconhecendo que só Deus, em Cristo, liberta interiormente e nos permite reencontrar-nos na verdade como irmãos.

março 24, 2011

“Uma democracia pura não é outra coisa senão um populacho”

Há poucos dias, em Sibila, publiquei minha análise do Viagem aos Estados Unidos, de Alexis de Tocqueville. Vejam um trecho:

Na cidade de Baltimore, encontra-se com Charles Carroll, último sobrevivente dos signatários da Declaração da Independência, que lhe diz, sem meias palavras: “A mere democracy is but a mob” (“Uma democracia pura não é outra coisa senão um populacho”). Se, a princípio, Tocqueville mantém-se dúbio diante dessa afirmativa, ela certamente o instigou, contribuindo para as geniais conclusões de A democracia na América, entre elas, a de que governos centralizadores e democracias radicais, que oprimem as minorias discordantes, causam o mesmo tipo de mal:
 
Não há [...] na terra autoridade tão respeitável por si mesma nem revestida de um direito tão sagrado que eu desejasse deixar agir sem controle e dominar sem obstáculos. Quando, portanto, vejo dar o direito e a faculdade de fazer tudo a uma potência qualquer, quer se chame povo ou rei, democracia ou aristocracia, quer se exerça numa monarquia, quer numa república, então digo: aí está o germe da tirania, e procuro ir viver sob outras leis.

março 23, 2011

março 22, 2011

A acédia, tristeza da alma

Monseñor Juan del Río Martín*

Sentirse triste es un estado de ánimo que se da con frecuencia y que comporta un malestar psicológico que en ocasiones no se sabe como describirlo. Sin embargo, estar apenado en un determinado momento no es suficiente para afirmar que se padece depresión. Hay una tristeza llamada normal, que es la situación de abatimiento o desánimo como consecuencia de unos acontecimientos o situaciones personales difíciles. Hay también lo que pudiéramos denominar una tristeza buena, que es aquella provocada por el arrepentimiento de nuestros pecados y que nos lleva a reparar el mal y a tener más confianza en Dios. En cambio, la tristeza mala es aquel estado del alma, lo que los antiguos monjes conocían bajo el nombre de acedía, que se caracteriza por el sufrimiento de estar en el mundo, junto a un desinterés total por la vida. Este tipo de tristeza viene más bien ocasionado por la incertidumbre interior y la ausencia de propia realización; acerca de ella decía Casiano:

“La tristeza es áspera, impaciente, dura, llena de amargor y disgusto, y le caracteriza también una especie de penosa desesperación. Cuando se apodera de un alma, la priva y aparta de cualquier trabajo y dolor saludable” (Instituciones, 9).

La acedia es la gran tentación para el solitario eremita y para el solitario moderno del asfalto y del estrés del ejecutivo. El hombre se siente traspasado hasta el límite. El alma se embrolla y el corazón se endurece. Todo se pone en cuestión y se llega a comportamientos infantiles que son impensables. San Gregorio Magno enumera las consecuencia de la acedia como: “la desesperación, desaliento, mal humor, amargura, indiferencia, somnolencia, aburrimiento, evasión de sí mismo, hastío, curiosidad, dispersión en murmuraciones, intranquilidad del espíritu y del cuerpo, inestabilidad, precipitación y versatilidad” (Anselm Grüm Nuestras propias sombras. Tentaciones. Complejos. Limitaciones, 3, p. 68).

Por ello, en el mundo moderno existe un vínculo entre depresión y acedía, cuya curación no se consigue sólo por medio de la medicina, sino que hay que tener presentes los elementos espirituales de la persona. Para superar esta tristeza del alma, el venerable Juan Pablo II proponía que “la clave para ayudar a una persona con depresión es el amor y la oración. Las personas que cuidan de los enfermos deprimidos deben ayudar a recuperar la propia estima, la confianza en sus capacidades, el interés por el futuro, las ganas de vivir..., hacerles percibir la ternura de Dios... En el camino espiritual son de gran ayuda la lectura y la meditación de los salmos, el rezo del Rosario, la participación en la Eucaristía, fuente de paz interior” (Juan Pablo II, XVIII Conferencia Internacional sobre la Depresión).

¿De dónde nace esta tristeza existencial? De aquellas ideas dominantes que conllevan al desánimo o lo fomentan. Son aquellas que están en la cultura nihilista que domina la sociedad y que tiene en muchos casos sus altavoces en los Medios de Comunicación Social. Podemos enunciar algunas: menospreciar el trabajo como realización de la persona, desnaturalización de los lazos entre los hombres, ver al otro como un infierno, la visión psico-analítica freudiana que reduce al hombre a sus pulsiones, la misma desestabilización de la familia, las estructuras de pecado, que no tienen otra consecuencia que la desestructuración de la persona humana y abren verdaderos focos de depresión, desviando finalmente al hombre de su camino hacia Dios.

El antídoto de la acedía es la alegría; no es propio del cristiano estar triste, ya que así es muy difícil progresar en la vida espiritual y, por lo tanto, en el amor a Dios y a los hermanos. La tristeza predispone al mal porque es “como la polilla al vestido y la carcoma a la madera, así la tristeza daña el corazón del hombre” (Prov 25,20); hay, pues, que luchar contra ese estado del alma: “Anímate, pues, y alegra tu corazón, y echa lejos de ti la congoja; porque a muchos mató la tristeza. Y no hay utilidad en ella” (Ecl. 30,24-25). Además, por una razón muy sencilla que nos dice el poeta converso a la fe católica Paul Claudel: “La alegría es la primera y la última palabra del Evangelio”.

*Monseñor Juan del Río Martín es el arzobispo castrense de España

Fonte: Zenit

março 18, 2011

O melhor de Inglês de Sousa

Este mês, no Rascunho, escrevo sobre o paraense Inglês de Sousa e sua coletânea Contos amazônicos:

Para nossa felicidade, esses contos, publicados três anos depois de O cortiço, não apresentam, no geral, a preocupação ou a necessidade de provar teses sociológicas com base na biologia, denunciar vícios supostamente hereditários ou condenar a humanidade ao fado da corrupção moral, as chamadas “superstições do naturalismo”, segundo Sérgio Buarque de Holanda (no clássico ensaio Inglês de Sousa: o missionário), que agradavam sobremaneira a Aluísio Azevedo.

março 07, 2011

Aforismos: entre a literatura e a filosofia

Um trecho de meu artigo “Centelhas de verdade”, na edição de fevereiro do Rascunho:

Pleno de agudeza e concisão, no centro do aforismo pulsa uma força que pretende depurar a existência sem necessitar de argumentações. E quanto mais elaborada a frase por meio da qual o pensamento se expressa, mais o aforismo denuncia a banalização da linguagem.

março 06, 2011

Teologia vulgar e subliteratura

As licenças poéticas do autor não conformam apenas um desvio, um afastamento da verdade. Não. Há certa teologia vulgar e sensacionalista do começo ao fim da crônica: uma aula de falsificação. Apelativo e banal, o texto pretende ser poesia – mas não passa de subliteratura. É Frei Betto, hoje, na Folha de S. Paulo:

Meu Carnaval é pura orgia. Porque me recolho na alcova da plena nudez e convoco o trio: o Pai, que é mais Mãe, o Filho e o Espírito Santo. Ébrios de amor, atravessamos as madrugadas em uma despudorada esbórnia espiritual. [...]

Meu Carnaval não tem a elegância das comissões de frente, a majestática apoteose dos carros alegóricos, o esplendor dos concursos em que desfilam imperadores e ninfas. É uma festa na qual o espírito se despe de toda fantasia e se exibe às verdades mais atrozes.

Nele, cubro-me de paetês e de lantejoulas para aliviar o dom inefável de me saber morada divina. [...]

Meu Carnaval se estende por toda a vida, até culminar na apoteose que faz do radicalmente humano sua divina plenitude.

Meu Carnaval é acreditar que o reinado de Momo é prenúncio do futuro que nos aguarda [...].

março 02, 2011

março 01, 2011

Crítica ao catolicismo “à la carte”

Sábias palavras, as do arcebispo Adriano Bernardini, núncio apostólico na Argentina:

[...] o Papa Bento, precisamente por sua fidelidade à “Verdade”, faz uma coisa que escapou à atenção de muitos comentaristas: traz de novo, integralmente, o credo na fórmula do Concílio de Constantinopla, isto é, na versão normalmente contida na Missa. A mensagem é clara: recomecemos a partir da doutrina, dos conteúdos fundamentais da nossa fé. “Sim, porque – escreve o teólogo e pontífice Ratzinger – o primeiro anúncio missionário da Igreja hoje é posto em perigo por teorias de tipo relativista, que pretendem justificar o pluralismo religioso, não só ‘de facto’, mas também ‘de jure’”.

A consequência desse relativismo, explica o futuro Bento XVI, é que sejam consideradas superadas uma série de verdades, como por exemplo: o caráter definitivo e completo da revelação de Cristo; a natureza da fé teologal cristã com relação à crença nas outras religiões; a unicidade e a universalidade salvífica no mistério de Cristo; a mediação salvífica universal da Igreja; a subsistência na Igreja Católica da única Igreja de Cristo.

A íntegra da homília pode ser lida aqui.

fevereiro 25, 2011

Os que nos atormentam em nome do nosso próprio bem

De todas as tiranias, aquela exercida sinceramente em prol do bem de suas vítimas talvez seja a mais opressiva. É melhor viver sob exploradores ladrões do que sob a onipotência moral dos intrometidos. A crueldade dos exploradores às vezes adormece, sua cobiça pode ser saciada em algum momento; mas aqueles que nos atormentam em nome do nosso próprio bem nos atormentarão para sempre, porque eles o fazem com a aprovação das suas próprias consciências. - C. S. Lewis

fevereiro 19, 2011

Sociologia marxista

Como definir um teólogo católico que, numa longa entrevista, sabe citar Erich Fromm, mas não faz uma única citação dos Evangelhos? Qual o seu método? Qual a sua verdadeira intenção? Por que não há espaço, no seu raciocínio, para a transcendência? Por que a sua eclesiologia se resume à pobre análise da Igreja enquanto organização social e política? Que teologia é essa, que desconhece a Revelação e não medita à luz da Palavra de Deus? Ah, os nossos adoráveis teólogos marxistas e suas ideias mirabolantes... É incrível como só aceitam a Igreja que existe dentro de suas cabeças ideologizadas... Eles se autodenominam teólogos, mas são apenas sociólogos.

fevereiro 17, 2011

O preço do naturalismo

No Rascunho deste mês, minha análise do romance O cortiço, de Aluísio Azevedo.

fevereiro 14, 2011

A esperança “imperecível”

O homem contemporâneo é prisioneiro de uma falsa esperança. Vejo-o caminhando por um dos nossos enlouquecidos centros urbanos, refém daquela beleza passageira que Baudelaire captou no soneto “A une passante”: tentando se apegar à “doçura que envolve” e ao “prazer que assassina” (na tradução de Ivan Junqueira), vê esse estímulo sensual desfazer-se como uma miragem; ao fulgor sucede-se imediatamente a noite, restando-lhe o vazio diante do que percebe escapar em meio ao “frenético alarido”. Restam-lhe três amarguradas exclamações – “Longe daqui! tarde demais! nunca talvez!” (na tradução de Guilherme de Almeida) – e a destruição final, marcada por um futuro do pretérito que revela a impossibilidade a que ele está submetido: “não sei que fim levaste,/ Tu que eu teria amado”.

Esse amor condicional e incerto é a base da esperança do neopaganismo contemporâneo, cujos deuses não possuem templos e sequer representam forças da natureza, mas definham e renascem na fugacidade e no imediatismo que Walter Benjamin comemorou ao exaltar o flâneur.

Na verdade, o limite da esperança humana foi rebaixado. Os desejos que explodem, de instante a instante, solicitando uma satisfação tão imediata quanto impossível, revelam um desespero edulcorado pela promessa do consumo e pelo entretenimento. Um desespero sem fim, que obriga o homem a esgotar-se, física e emocionalmente, saltando de uma expectativa a outra, apegando-se às suas insignificantes esperanças, sem descanso, impedido de repousar sobre os frutos da sua própria experiência ou de suas raras fruições, movido por uma insatisfação realimentada constantemente. A realidade é sempre um “poderia ter sido” – um “tu” que ele “teria amado”.

Mas não para todos. A esperança que “atrai o futuro para dentro do presente” é algo concretamente possível, nos diz Bento XVI em sua encíclica Spe Salvi, cuja síntese, em minha opinião, encontra-se no trecho da Carta de São Paulo aos Hebreus: “A fé é uma posse antecipada do que se espera [...]” (11,1), pois, como lembra o pontífice, “fé é substância da esperança”.

Partindo da esperança desconhecida – que impele o homem e que se torna “causa de todas as ansiedades como também de todos os ímpetos positivos ou destruidores para o mundo autêntico e o homem verdadeiro” –, o papa analisa o mundo que deixou de aspirar pelo eterno. Bento XVI recorda as bases filosóficas que levaram o homem a tornar-se prisioneiro da esperança restrita ao progresso da ciência e às infrutíferas tentativas de alcançar uma suposta liberdade perfeita – e demonstra as consequências éticas dessa escolha, todas insatisfatórias, como o século XX e o tempo presente cansam de nos dizer. Mas as palavras do pontífice não se prendem a certo escapismo. Ele sabe o quanto é “necessário um contínuo esforço de melhoria do mundo” – mas sabe também que “o mundo melhor de amanhã não pode ser o conteúdo próprio e suficiente da nossa esperança”. Respondendo especificamente a Adorno e Horkheimer, depois de ter demonstrado a “ambiguidade do progresso”, o papa afirma: “Um mundo que deve criar a justiça por sua conta é um mundo sem esperança”.

Spe Salvi também é um convite ao cristianismo moderno, “que deve aprender de novo a compreender-se a si mesmo a partir das próprias raízes”. E Bento XVI demonstra, didaticamente, o que isso significa, salientando os “‘lugares’ de aprendizagem e de exercício da esperança”: a oração; o agir e o sofrer; e a fé no Juízo final, pois “se diante do sofrimento deste mundo o protesto contra Deus é compreensível, a pretensão de a humanidade poder e dever fazer aquilo que nenhum Deus faz, nem é capaz de fazer, é presunçosa e intrinsecamente não verdadeira”.

“É o Evangelho que me assusta”, diz Santo Agostinho com sua surpreendente franqueza, citado por Bento XVI. A verdade, de fato, sempre nos sobressalta. Mas que outra resposta pode ser oferecida à “ditadura do relativismo”, a não ser a fé que traz, em si mesma, a “segurança das coisas esperadas”? Tem razão o salmista que canta: “A minh’alma espera no Senhor / mais que o vigia pela aurora” [Sl 130 (129)]. Somos esse vigia que, por antecipação, experimenta o inexorável nascer do Sol. Apesar de aguardarmos numa “selva de liberdades autodestruidoras e arbitrárias”, num mundo cada vez mais anticristão, Bento XVI nos convida a, longe da fugacidade e do imediatismo, vivermos como Agostinho viveu: para Cristo, deixando-nos “envolver no seu ‘ser para’”, atados à esperança “imperecível”.

janeiro 28, 2011

Roger Scruton

O blog Dextra tem traduzido alguns ótimos artigos do escritor e filósofo Roger Scruton, infelizmente pouco conhecido no Brasil, dando continuidade ao trabalho iniciado pela revista Dicta & Contradicta. Abaixo, coloco links para os artigos do Dextra:

- "A tevê nunva vai envenenar a cabeça dos meus filhos"
- "O 'direito' dos gays é uma injustiça com as crianças"
- "Adeus aos juízos - a infantilização relativista do ensino superior no Ocidente"
- "Soletrando o inefável"
- "Sentimentalismo totalitário"

Boa leitura!

janeiro 22, 2011

Como o governo pauta a literatura

Como vocês sabem, fui entrevistado, pela Revista Educação, sobre a recente tentativa de censura ao livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato. A matéria, escrita pelo jornalista Sérgio Rizzo, merece leitura atenta.

Mas agora que a revista está nas bancas e na web há vários dias, quero partilhar com os leitores a íntegra de minhas respostas. Elas abordam vários aspectos do problema, inclusive a censura governamental – tácita, é verdade – que já ocorre. Vejam:

Revista Educação: – Como você analisa o “imbróglio Lobato”? Ou: o que ele tem a nos dizer de mais importante sobre o Brasil hoje? Qual o problema central revelado pelo episódio?

– O “imbróglio Lobato” nasce de certo problema básico: um Estado paternalista, que se acredita tutor dos cidadãos, que trata os cidadãos não como indivíduos capazes de exercer seus direitos e deveres, em termos civis e políticos, mas como filhos imaturos, crianças incapazes de discernir, de escolher entre o bem e o mal. Um comportamento, aliás, contraditório, pois esse mesmo Estado, quando se trata de cobrar altos impostos, e de sucessivamente aumentar a carga de tributos, sabe tratar os cidadãos como se estes fossem adultos responsáveis.

Um Estado desse tipo gera governos que se veem como “pais” ou “mães” dos cidadãos, o que não deixa de ser uma infantilização da cidadania e da vida política em geral. Quando tal Estado incorpora na sua burocracia, nos seus órgãos de decisão, intelectuais e educadores que, além de compactuarem com esse paternalismo, atribuem a si mesmos o papel de supostos moralizadores ou higienistas da cultura, e portanto da literatura, acontecem fenômenos como o da tentativa de expurgar Lobato.

Não entrarei aqui no mérito das teorias e movimentos que defendem a racialização do país, pois isso nos levaria a uma outra discussão, mas é evidente que essas questões – chamadas de “politicamente corretas” – permeiam o “imbróglio Lobato” e são reforçadas pelo avanço de um movimento difuso que pretende, utilizando discursos ufanistas e demagógicos, salvar o Brasil de sua própria história, instaurar uma época de justiça social nunca antes conhecida, eliminar tudo o que, segundo uma visão parcial e partidária, signifique atraso, ignorância e injustiça.

Ora, nós já conhecemos experiências semelhantes, em maior ou menor grau, aqui e em outras nações; e o resultado é sempre o mesmo: quando governos se autoinstituem como “pais”, “mães” ou revisores da história, donos da verdade absoluta, há sempre uma semente de autoritarismo escondida nesse comportamento. E é ela que deflagra todas as formas – veladas ou não – de censura.

No caso específico de Monteiro Lobato, o comportamento do Conselho Nacional de Educação (CNE) é esquizofrênico – e toda forma de censura é, no fundo, pura esquizofrenia, pois sempre revela um delírio persecutório: você pinça do livro duas ou três expressões, retira-as do contexto, não só do contexto do próprio livro, mas do conjunto da obra do escritor e da época em que ele viveu, e transforma um autor genial, um homem que representou a vanguarda da indústria editorial brasileira, num racista contumaz. É de uma simplificação monstruosa.

Ainda bem que parcela da sociedade reagiu contra esse verdadeiro absurdo e impediu o pior, mas a solução que parece se desenhar no horizonte também não me agrada: a tal “nota explicativa” que se projeta colocar no livro, nota que pretende esclarecer os leitores sobre a presença de supostos preconceitos no texto, não é apenas uma censura velada, mas, pior, é o primeiro passo de um processo de tutela da criação literária.

Revista Educação: – Acredita que possa haver uma escalada de episódios semelhantes com base no raciocínio “politicamente correto” e na pressão de grupos contra obras que, na avaliação deles, “cometam” representações preconceituosas?

– Se a tal “nota explicativa” for aprovada, será um perigoso precedente, a partir do qual todo autor que não escrever de acordo com o que o CNE considera certo, justo e “politicamente correto” ou não será adotado nas escolas ou receberá uma reprimenda pública ou, no mínimo, uma “nota explicativa”, na qual serão listados seus supostos defeitos. Estaremos, assim, de volta aos autos de fé medievais ou a um passo da criação de um nihil obstat do CNE, por meio do qual o governo certificará que, aprovado pelos censores do Estado, o livro nada contém que seja contrário à fé, à moral e aos bons costumes.

Isso não é só patrulhamento cultural; é, principalmente, amordaçar a literatura. É como se o CNE dissesse: ou vocês escrevem o que nós queremos, o que nós achamos certo, ou vocês não serão distribuídos nas escolas. Um gesto desse tipo, num governo que, só em 2010, comprou 135 milhões de livros para serem distribuídos nas escolas, é mais que despótico, pois interfere em toda a produção editorial do país, coíbe editores, impõe controles rígidos sobre a produção literária e, claro, amordaça os escritores.

E tal precedente pode, sim, referendar ou autorizar o comportamento censório de segmentos da sociedade que, por qualquer motivo, se considerem desprestigiados ou perseguidos por este ou aquele livro, por este ou aquele autor. Ou seja, é a institucionalização da esquizofrenia, da censura e da perseguição política. Aliás, já vemos isso no exterior: esta semana, por exemplo, o escritor V. S. Naipaul, Prêmio Nobel de 2001, que é um crítico severo do Islã, foi obrigado a, depois de intensa crítica dos escritores islamitas, declinar do convite para comparecer ao Parlamento Europeu dos Escritores, em Istambul.

Voltando ao Brasil, a decisão do CNE pode servir como pretexto para comportamentos semelhantes – que pretendam silenciar ou condenar ao ostracismo escritores que não pensem de acordo com as normas governamentais – ou, igualmente pernicioso, pode dar início a uma onda de “notas explicativas”. Que nota o CNE mandaria publicar, por exemplo, em O primo Basílio, de Eça de Queirós? Poderia ser algo assim: “Alertamos alunos e professores de que esta obra destila um moralismo retrógrado, pois pune com a morte a mulher que tentou, por meio do adultério, se libertar do jugo de um casamento opressor e machista”. E no que se refere ao Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis? O CNE poderia escrever a seguinte nota: “Recomendamos aos professores e alunos que, durante a leitura, pulem o Capítulo LXVIII, intitulado ‘O vergalho’, pois o trecho referenda a prática do escravismo e, pior, defende a tese de que os seres humanos estão fadados a repetir nos seus semelhantes as injustiças de que foram vítimas”.

Os exemplos, claro, são risíveis, exatamente para mostrar o ridículo, o grotesco, o absurdo que existe em toda e qualquer forma de censura, de amordaçamento e de ato restritivo da livre expressão.

janeiro 20, 2011

Excluir Lobato das escolas?

Fico aqui matutando: os que alardeiam a exclusão de Monteiro Lobato das escolas defenderiam a censura praticada em nosso país durante os governos militares? Depois de ler e escutar os argumentos pífios dos que pregam a lei da mordaça, tenho a resposta: o problema aqui é de egolatria. Os esquerdistas se acreditam melhores que todos, inclusive quando censuram. A mordaça dos militares era repressiva, mas a dos esquerdistas é, digamos, pedagógica, didática! Quase uma bênção...

janeiro 15, 2011

Sob vigilância

Fui entrevistado pelo jornalista Sérgio Rizzo para matéria, publicada no último número da Revista Educação, sobre a recente tentativa de censura ao livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato. Este é um dos trechos:

As ações estabelecidas pela Câmara de Educação Básica (CEB) nascem de "certo problema básico", de acordo com Gurgel: um "Estado paternalista, que se acredita tutor dos cidadãos, que os trata não como indivíduos capazes de exercer seus direitos e deveres, em termos civis e políticos, mas como filhos imaturos, crianças incapazes de discernir, de escolher entre o bem e o mal". O comportamento seria "contraditório", pois "esse mesmo Estado, quando cobra altos impostos, e sucessivamente aumenta a carga de tributos", encara os cidadãos como "adultos responsáveis".

janeiro 13, 2011

Épico às avessas

Publiquei, no último Rascunho de 2010, minha análise sobre A retirada da Laguna, do visconde de Taunay. Leiam um trecho:

[...] é surpreendente que Taunay, apesar de jovem e fiel às tradições de sua família, merecedora da amizade pessoal de Pedro II, não tenha se vergado ao patriotismo cego ou à exaltação de uma campanha na qual os principais personagens são os pântanos, as doenças, a estafa e a escassez de víveres. Ao preferir nos deixar um relato intenso sobre os limites físicos e éticos do homem posto à prova em situações extremas, e sobre a perturbadora forma de loucura que se repete em todas as guerras, tomou uma decisão digna de ser celebrada.

dezembro 30, 2010

Gerard Manley Hopkins

Deixo aqui, aos amigos e leitores, este poema de G. M. Hopkins como presente inspirador para o ano que se inicia. Feliz 2011!

The Lantern out of Doors

Sometimes a lantern moves along the night,
That interests our eyes. And who goes there?
I think; where from and bound, I wonder, where,
With, all down darkness wide, his wading light?

Men go by me whom either beauty bright 
In mould or mind or what not else makes rare:
They rain against our much-thick and marsh air
Rich beams, till death or distance buys them quite.

Death or distance soon consumes them: wind
What most I may eye after, be in at the end 
I cannot, and out of sight is out of mind.

Christ minds: Christ’s interest, what to avow or amend
There, éyes them, heart wánts, care haúnts, foot fóllows kínd,
Their ránsom, théir rescue, ánd first, fást, last friénd.

(1877)

Lanterna externa

Uma lanterna move-se na noite escura,
Que às vezes nos apraz olhar. Quem anda
Ali? – medito. De onde, para onde o manda
Dentro da escuridão essa luz insegura?

Homens passam por mim, cuja beleza pura
Em molde ou mente ou mais um dom maior demanda.
Chovem em nosso ar pesado a sua branda
Luz, até que distância ou morte os desfigura.

Morte ou distância vêm. Por mais que para vê-los
Volteie a vista, é em vão: eu perco o que persigo.
Longe do meu olhar, longe dos meus desvelos.

Cristo vela. E o olhar de Cristo, em paz ou em perigo,
Os vê, coração quer, amor provê, pé ante pé, com suaves zelos:
Resgate e redenção, primeiro, íntimo e último amigo.

(Tradução de Augusto de Campos)

dezembro 20, 2010

A gruta de Belém

“O coração de Belém é uma caverna; o santuário recoberto que é o cenário tradicional da Natividade. Nove em dez destas tradições são verdadeiras, e totalmente ratificadas pela verdade sobre o ambiente rural; pois é para estes estábulos subterrâneos que as pessoas têm levado seus rebanhos, e eles são, de longe, os locais de refúgio mais plausíveis para tantos grupos sem lar. É curioso considerar quantas variadas e inumeráveis versões da história de Belém têm sido transformadas em pinturas. Homem algum que compreenda a Cristandade irá se queixar que são todas elas diferentes entre si e todas diferentes da verdade, ou, ainda, dos fatos. O ponto central da história é que se passou em um espaço humano particular; uma ensolarada colunata na Itália ou uma casa de campo coberta de neve em Sussex. É ainda mais curioso que alguns artistas modernos tenham se aproveitado apenas da verdade topográfica; e que todavia não tenham compreendido muito dessa verdade sobre o escuro e sagrado local subterrâneo. Parece estranho que não tenham enfatizado o único caso em que o realismo verdadeiramente se aproxima da realidade. Há alguma coisa que supera as expressões da imaginação na ideia de fugitivos sagrados sendo descidos para baixo do solo; como se a terra os tivesse engolfado; a glória de Deus como ouro enterrado no chão. Talvez a imagem seja profunda demais para a arte, mesmo se ocupando em uma outra dimensão. Pois deve ser difícil para qualquer arte transmitir simultaneamente o segredo divino da caverna e a procissão dos soberanos misteriosos, a pisar a planície rochosa e a abalar o topo das cavernas.”

G. K. Chesterton (“Belém e as grandes cidades”, New Witness, 8 de dezembro de 1922, in O tempero da vida e outros ensaios, Editora Graphia)

dezembro 11, 2010

Defender a democracia liberal contra os fanáticos

Abaixo, coloco um dos melhores trechos do discurso de Vargas Llosa em Estocolmo. Poucos, escritores ou não, têm a coragem de, nos dias de hoje, proclamar em alta voz este repto contra o terrorismo islamita:

Como todas las épocas han tenido sus espantos, la nuestra es la de los fanáticos, la de los terroristas suicidas, antigua especie convencida de que matando se gana el paraíso, que la sangre de los inocentes lava las afrentas colectivas, corrige las injusticias e impone la verdad sobre las falsas creencias. Innumerables víctimas son inmoladas cada día en diversos lugares del mundo por quienes se sienten poseedores de verdades absolutas. Creíamos que, con el desplome de los imperios totalitarios, la convivencia, la paz, el pluralismo, los derechos humanos, se impondrían y el mundo dejaría atrás los holocaustos, genocidios, invasiones y guerras de exterminio. Nada de eso ha ocurrido. Nuevas formas de barbarie proliferan atizadas por el fanatismo y, con la multiplicación de armas de destrucción masiva, no se puede excluir que cualquier grupúsculo de enloquecidos redentores provoque un día un cataclismo nuclear. Hay que salirles al paso, enfrentarlos y derrotarlos. No son muchos, aunque el estruendo de sus crímenes retumbe por todo el planeta y nos abrumen de horror las pesadillas que provocan. No debemos dejarnos intimidar por quienes quisieran arrebatarnos la libertad que hemos ido conquistando en la larga hazaña de la civilización. Defendamos la democracia liberal, que, con todas sus limitaciones, sigue significando el pluralismo político, la convivencia, la tolerancia, los derechos humanos, el respeto a la crítica, la legalidad, las elecciones libres, la alternancia en el poder, todo aquello que nos ha ido sacando de la vida feral y acercándonos –aunque nunca llegaremos a alcanzarla– a la hermosa y perfecta vida que finge la literatura, aquella que sólo inventándola, escribiéndola y leyéndola podemos merecer. Enfrentándonos a los fanáticos homicidas defendemos nuestro derecho a soñar y a hacer nuestros sueños realidad.

Aqui, a íntegra do discurso de Vargas Llosa.

novembro 26, 2010

O riso da dobrez – e outro riso

Presente, passado remoto, futuro e passado próximo se alternam nos dois primeiros parágrafos do conto “A causa secreta”, de Machado de Assis, para introduzir o leitor na história que só pode ser contada, sem dissimulações, agora (conforme o presente a partir do qual o narrador fala) que os três personagens estão mortos. História de algum modo embaraçosa, portanto, e também complexa, pois exige que o narrador recue “à origem da situação”. Assim Machado fisga o leitor: jogando com o tempo, sugerindo a gravidade dos fatos que levaram à cena inicial do conto – “[...] os dedos de Maria Luísa parecem ainda trêmulos, ao passo que há no rosto de Garcia uma expressão de severidade” – e escondendo de nós o que sente o terceiro personagem, Fortunato, que, “na cadeira de balanço, olhava para o teto”.

A partir do terceiro parágrafo, será Fortunato o centro da narrativa. Mas quem é, realmente, o homem que Garcia, então estudante de medicina, vê, en passant, saindo da Santa Casa? Um médico? Um samaritano? Mais tarde saberá que se trata de um “capitalista, solteiro” – e conhecerá, lentamente, muito mais.

Quando reencontra o homem que, por algum motivo, o impressionou, está no teatro, teatrinho de periferia, à qual “só os mais intrépidos ousavam estender os passos”. O “dramalhão cosido a facadas” hipnotiza Fortunato – e sua exagerada atenção desperta a curiosidade de Garcia. Este segue o primeiro, vendo-o caminhar “cabisbaixo, parando às vezes, para dar uma bengalada em algum cão que dormia”.

Antes, porém, o narrador nos oferece um detalhe curioso: Fortunato abandona o teatro assim que o drama termina, indiferente à peça seguinte, uma farsa. As sutilezas de Machado, bem sabemos, nunca são ornamentos inúteis, e não é diferente neste caso, em que o fato de o personagem desprezar uma peça cômica, mas redobrar sua atenção nos “lances dolorosos” do drama, é a primeira, tênue característica de Fortunato, complementada, logo a seguir, pelos cães que ele deixa ganindo enquanto caminha.

No próximo encontro, surpreendente, Garcia descobrirá que esse homem pode não apenas salvar um estranho esfaqueado, mas também se desvelar à cabeceira do ferido, com “rara dedicação”. Há algo perturbador, contudo, pois a fácies de Fortunato não corresponde aos seus gestos: “Os olhos eram claros, cor de chumbo, moviam-se devagar, e tinham a expressão dura, seca e fria”. Para completar o quadro, ficamos sabendo que a vítima da agressão encontra apenas desdém quando, recuperada, vai agradecer ao seu salvador. E o leitor se pergunta: Por que, então, ele foi bom? Por que despreza com arrogância o agradecimento?

Anos depois, quando Garcia começa a se tornar íntimo desse enigmático personagem e passa a frequentar a casa que ele divide com a esposa, Maria Luísa, a lembrança da dedicação de Fortunato retorna, e o amigo o descreve com elogios à mulher atenta. Esta, que em relação ao marido tem “uns modos que transcendiam o respeito e confinavam na resignação e no temor”, ouve a história, primeiro “espantada”, depois “risonha e agradecida”. A reação do marido, contudo, é diversa. Fortunato complementa o relato de Garcia com a narração da visita do esfaqueado; e o faz de maneira incomum, rindo muito. E o narrador observa: “Não era o riso da dobrez. A dobrez é evasiva e oblíqua; o riso dele era jovial e franco”. Parece haver, realmente, uma terrível contradição nesse homem: na aparência caridoso, é capaz de zombar de quem ele próprio ajudou.

Esse é o centro da trama psicológica criada por Machado, para quem os homens ocultam, sempre, uma segunda intenção em cada gesto. A bondade de Fortunato, o leitor descobrirá, guarda um propósito detestável – o bem que ele pratica possui um só objetivo: satisfazer a sua perversão. À medida que o conto se desenrola e a personalidade desse curioso benfeitor ganha novos contornos, o leitor acordará para uma espécie sui generis de mal, sem jamais poder acusar Fortunato de ser mau. Machado nos oferece a oportunidade de refletir sobre as possíveis gradações da busca do prazer, “um vasto prazer, quieto e profundo”, no qual não há “nem raiva, nem ódio”, mas que, forjado no que parece ao leitor um antagonismo atroz, transforma o personagem numa “redução de Calígula”. Portanto, como se trata de Machado, talvez Fortunato seja, de alguma forma, mau...

Em uma de suas crônicas, “Antonieta Rudge”, Manuel Bandeira diz que o autor de Dom Casmurro tem “o gosto doentio de espiar o sofrimento alheio”. E completa: “A psicologia dura, derrotista, insultante de quase toda a obra. Sempre o móvel egoísta, e ainda que limpo, inconfessável. [...] Em suma eu achava, e ainda hoje acho, que Machado de Assis era um monstro. Um monstro que não fazia mal a ninguém, que nunca haveria de fazer mal a ninguém, mas não obstante um monstro”. Ora, quem sonda as filigranas dos homens está fadado a descobrir monstruosidades e santidades, mas isso não faz dele, necessariamente, um monstro ou um santo. O “gosto doentio” de Machado resume-se à investigação das zonas escuras do ser humano, nada mais. E se ele encontra máculas, também consegue ver, na mesma pessoa – neste caso, em Fortunato –, o devotamento amoroso.

Na verdade, nada é simples ou plano no Bruxo do Cosme Velho. Ele afastou de si as generalizações – e não se satisfez apenas com a busca do que Nabokov chamava de “o pormenor incongruente”, mas a forma por meio da qual expressou suas descobertas também fugiu a todos os estereótipos, pois é possível ouvir ao fundo, enquanto o leitor se revolta ou escandaliza, o seu riso algo diabólico, sempre instigante, que nunca julga, jamais condena.

novembro 18, 2010

O romance, uma espécie de abrigo temporário

“Sem uma arte que não se esquive diante de qualquer horror pessoal ou coletivo, ele [Proust] insiste, não podemos conhecer a nós mesmos nem aos outros. Apenas a arte penetra no que o orgulho, a paixão, a inteligência e o hábito edificam por toda parte – as realidades aparentes deste mundo. Existe uma outra realidade, e genuína, a qual perdemos de vista. Esta outra realidade está sempre nos enviando sinais, que, sem a arte, não podemos receber. Proust denomina estes sinais de nossas ‘impressões verdadeiras’. Sem a arte, as impressões verdadeiras, nossas intuições persistentes, ficarão escondidas para nós, e não nos restará mais nada senão uma ‘terminologia para fins práticos, a que falsamente chamamos vida’.

[...]

Ninguém que tenha gasto anos escrevendo romances pode ser indiferente a isso. O romance não pode ser comparado ao épico, nem aos monumentos do drama poético. Mas é o melhor que podemos fazer agora. É uma espécie de abrigo temporário, uma choupana onde o espírito vem buscar guarida. Um romance se equilibra entre algumas poucas impressões autênticas e a multidão de impressões falsas que mascaram aquilo a que chamamos vida. O romance nos diz que para cada ser humano há uma variedade de existências, que a existência isolada é ela mesma em parte ilusão, que essas várias existências significam alguma coisa, tendem a alguma coisa, preenchem alguma coisa; o romance nos promete sentido, harmonia, e até justiça. O que Conrad disse era verdade: a arte tenta descobrir no universo, na matéria bem como nos fatos da vida, aquilo que é fundamental, duradouro, essencial.”

Saul Bellow, Discurso do Prêmio Nobel