dezembro 05, 2009
A Osesp sob o comando de Frank Shipway
Ainda que a plateia tenha delirado com O festim de Baltazar, de William Walton (ouvi a peça tendo a impressão, durante alguns trechos, de estar assistindo a um filme de Cecil B. DeMille), o melhor momento da noite, nesta última quinta-feira, foi a Sinfonia nº 29 em lá maior, de Mozart. Sob a regência de Frank Shipway, a orquestra tocou com, digamos, sabedoria. O Andante, de extrema delicadeza, e o lirismo às vezes quase infantil de Mozart, que nos dá uma insuperável sensação de jovialidade, como se a alegria pudesse subsistir para além daqueles minutos em que nos protegemos na sala de concerto: Shipway conseguiu extrair da orquestra os sons, as variações mais tênues. Com um currículo impressionante, ele rege destilando a dignidade que se espera de um grande maestro, e demonstra, a cada gesto, não só dar o melhor de si, mas realmente dialogar com a orquestra; um diálogo não apenas profícuo, mas que obteve da Osesp o que ela tem de melhor. E ao final da programação, o observador atento pôde perceber como a própria orquestra agradecia ao regente por ter feito o que, neste ano de 2009, nenhum outro conseguiu fazer.
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dezembro 04, 2009
Desperdício
O populismo é mestre em esbanjar dinheiro público de maneira irresponsável. O Vale Cultura, aprovado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, só reafirma como é fácil fazer demagogia com o dinheiro dos contribuintes e ainda rotulá-la de "política de incentivo à cultura". O dinheiro poderá ser usado, inclusive, para se comprar revistas, jornais e gibis. Como vemos, a preocupação governamental está profundamente ligada à educação das massas...
dezembro 01, 2009
Senso comum e arte
Voltando às minhas leituras de William Hazlitt, coloco a seguir um dos bons trechos do ensaio “Por que as artes não evoluem?”, de 1814. Temo que minha tradução não seja exemplar, mas certamente permitirá aos interessados descobrir um pouco desse crítico infelizmente nunca divulgado no Brasil:
“O princípio do sufrágio universal, por mais aplicável que seja a questões de governo, que têm a ver com os sentimentos e os interesses comuns da sociedade, não é aplicável, de modo algum, aos assuntos do gosto, pois, estes, só podem julgá-los os espíritos mais refinados. A humanidade nunca pôde entender completamente os maiores esforços do gênio, em qualquer uma das artes. Há uma infinidade de belezas e verdades muito além da sua compreensão, que chegam a ser comuns no mundo porque o refinamento e a sublimidade se misturam com outras qualidades, de natureza mais óbvia e vulgar. O gosto constitui o grau mais elevado da sensibilidade, assim como a impressão que atua sobre as mentes mais refinadas, da mesma forma que o gênio é o resultado da força do sentimento e da invenção. Pode-se dizer, no entanto, que o gosto público é suscetível de uma melhora gradual, pois o povo termina fazendo justiça às obras de maior mérito. Semelhante ideia é um erro. A reputação que, ao final, e quase sempre lentamente, se concede às obras de gênio provém da autoridade, não do assentimento popular nem do senso comum do mundo.”
“O princípio do sufrágio universal, por mais aplicável que seja a questões de governo, que têm a ver com os sentimentos e os interesses comuns da sociedade, não é aplicável, de modo algum, aos assuntos do gosto, pois, estes, só podem julgá-los os espíritos mais refinados. A humanidade nunca pôde entender completamente os maiores esforços do gênio, em qualquer uma das artes. Há uma infinidade de belezas e verdades muito além da sua compreensão, que chegam a ser comuns no mundo porque o refinamento e a sublimidade se misturam com outras qualidades, de natureza mais óbvia e vulgar. O gosto constitui o grau mais elevado da sensibilidade, assim como a impressão que atua sobre as mentes mais refinadas, da mesma forma que o gênio é o resultado da força do sentimento e da invenção. Pode-se dizer, no entanto, que o gosto público é suscetível de uma melhora gradual, pois o povo termina fazendo justiça às obras de maior mérito. Semelhante ideia é um erro. A reputação que, ao final, e quase sempre lentamente, se concede às obras de gênio provém da autoridade, não do assentimento popular nem do senso comum do mundo.”
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novembro 30, 2009
O avanço do Islã sobre a Europa
“[...] O número de mesquitas na França cresceu de cerca de 260 na metade da década de 1980 para mais de duas mil hoje. Há algumas mesquitas grandes em cidades como Paris, Marselha e Lyon, mas a maioria é pequena e o mesmo vale para a Alemanha e outros países europeus. A Alemanha tinha aproximadamente setecentas mesquitas de pequeno porte ou salões de oração nos anos 1980, mas são mais de 2.500 nos dias atuais. Havia 584 ‘mesquitas certificadas’ na Grã-Bretanha em 1999, mas o número real no presente é de pelo menos duas mil; em Birmingham, a segunda maior cidade da Inglaterra, existem atualmente mais mesquitas do que igrejas, apesar de muito menores. Pode ser que haja, agora, mais muçulmanos praticantes na Grã-Bretanha do que membros da Igreja da Inglaterra."
(in Os últimos dias da Europa - epitáfio para um velho continente, de Walter Laqueur)
(in Os últimos dias da Europa - epitáfio para um velho continente, de Walter Laqueur)
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novembro 28, 2009
Ensino de literatura e Internet
Convidado por meu amigo Antonio Carlos Olivieri, participei do projeto Livro Aberto, cujo objetivo é, utilizando os recursos da Internet, despertar a curiosidade dos alunos do ensino médio para a literatura brasileira. Nesta sua primeira fase, o projeto enfocou os livros selecionados para o vestibular da Fuvest.
Minha participação, divertidíssima, se restringiu a interpretar este ou aquele personagem. Mas o melhor foi conhecer pessoas animadas, cheias de entusiasmo, que amam seu trabalho e a literatura nacional.
Os podcasts já estão na web – e têm tudo para ser uma porta de entrada dos jovens à literatura. Confiram:
“Memórias de um Sargento de Milícias”, Manuel Antônio de Almeida
“Auto da Barca do Inferno”, Gil Vicente
“Iracema”, José de Alencar
“Dom Casmurro”, Machado de Assis
“O Cortiço”, Aluísio Azevedo
“A Cidade e as Serras”, Eça de Queirós
“Vidas Secas”, Graciliano Ramos
“Capitães da Areia”, Jorge Amado
“Antologia Poética”, Vinicius de Moraes
Minha participação, divertidíssima, se restringiu a interpretar este ou aquele personagem. Mas o melhor foi conhecer pessoas animadas, cheias de entusiasmo, que amam seu trabalho e a literatura nacional.
Os podcasts já estão na web – e têm tudo para ser uma porta de entrada dos jovens à literatura. Confiram:
“Memórias de um Sargento de Milícias”, Manuel Antônio de Almeida
“Auto da Barca do Inferno”, Gil Vicente
“Iracema”, José de Alencar
“Dom Casmurro”, Machado de Assis
“O Cortiço”, Aluísio Azevedo
“A Cidade e as Serras”, Eça de Queirós
“Vidas Secas”, Graciliano Ramos
“Capitães da Areia”, Jorge Amado
“Antologia Poética”, Vinicius de Moraes
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novembro 27, 2009
Vulgaridade, vulgaridade, vulgaridade
Da expressão lapidar do ministro da Cultura, dissecando em público o próprio corpo, a fim de defender seu emocionalismo intransigente, ao artigo de César Benjamin, na edição de hoje da Folha de S. Paulo, no qual testemunha sobre uma possível característica repulsiva do presidente da República, passando por certa mensagem publicitária de papel higiênico, que transformou as duas principais figuras do governo federal em garotos-propaganda à porta de uma latrina, e sem esquecer todas as expressões chulas que se tornaram, nos últimos anos, a principal muleta linguística dos discursos presidenciais, “nunca antes neste país” chafurdamos tanto na lama da vulgaridade, da grosseria.
A massa certamente se delicia e se espoja nesse espetáculo de sordidez, mas nós, que ainda exercemos a capacidade de julgar, devemos manter distância desse circo de escatologias, ainda que nossas opções sejam poucas: a ingestão de um emético diário – ou recordar com altivez, depois da leitura de mais um capítulo de William Hazlitt, o provérbio latino: Vulgus vult decipi, ergo decipiatur (O povo quer ser enganado, pois que o seja).
A massa certamente se delicia e se espoja nesse espetáculo de sordidez, mas nós, que ainda exercemos a capacidade de julgar, devemos manter distância desse circo de escatologias, ainda que nossas opções sejam poucas: a ingestão de um emético diário – ou recordar com altivez, depois da leitura de mais um capítulo de William Hazlitt, o provérbio latino: Vulgus vult decipi, ergo decipiatur (O povo quer ser enganado, pois que o seja).
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novembro 26, 2009
William Hazlitt, a Bolsa Escritor e a missão do crítico literário
Vivemos numa época estranha, na qual, dentre outros fenômenos excêntricos, parte significativa da crítica literária demonstra receio de qualificar, de exercer um julgamento. Como escrevi certa vez, a maior parte dos críticos e resenhistas se protege atrás de um dialeto acadêmico que, ao fim e ao cabo, nada explicita. Há muito de covardia intelectual nesse comportamento – e, percebo, uma boa dose de esperteza macunaímica, que se utiliza da linguagem hermética para se arrogar uma suposta hegemonia científica, disfarçada de imparcialidade, mas que, no fundo, esconde o medo de desagradar, de ferir vaidades.
Nos últimos anos, todos esses sintomas pioraram, pois grande parte dos críticos e resenhistas, seguindo a tendência geral do país, prefere se colocar no papel de pajem da demagogia, do populismo. Assim, eles se esmeram em distribuir análises (sempre análises, nunca julgamentos!) e elogios, como se estes conformassem um tipo curioso de Bolsa Família, a Bolsa Escritor, esmola para agradar copistas que, talvez, preferissem receber sua parte na forma de papel-moeda.
Em épocas assim, o melhor que podemos fazer é nos dedicar à leitura dos melhores críticos, o que nos ajuda a estabelecer uma barreira de lucidez, um filtro capaz de separar a moda passageira daquelas produções que nunca morrerão, às quais a humanidade, de tempos em tempos, sempre retorna, sedenta de verdade, ciência e beleza.
É o caso de William Hazlitt, que tenho relido com imenso prazer, amigo de William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge, mas que não se furtou a criticá-los duramente quando considerou que abdicavam de seus princípios estéticos, aderindo ao fácil, ao senso comum.
Otto Maria Carpeaux considerava Hazlitt um dos três principais intérpretes românticos de Shakespeare, ao lado de August Wilhelm Schlegel e Coleridge. E os leitores de Harold Bloom certamente lembram das inúmeras referências que ele faz a esse crítico cujo valor se iguala ao de outro gênio, Samuel Johnson, do qual Hazlitt não gostava.
Esse inglês é um ironista formidável, cuja linguagem, refinada e sem afetação, nos prende desde a primeira linha. Jacques Barzun diz que Hazlitt só tem um desejo: “fazer-nos leitores tão bons quanto ele”. É a missão que todo verdadeiro crítico literário deveria impor a si mesmo; inclusive porque essa é a única tarefa – extremamente honrosa, essencial para a formação dos leitores e para a vida cultural do país – que lhe cabe. O resto são firulas que alimentam a jactanciosidade no presente, mas estão condenadas a, no futuro, serem completamente esquecidas.
Nos últimos anos, todos esses sintomas pioraram, pois grande parte dos críticos e resenhistas, seguindo a tendência geral do país, prefere se colocar no papel de pajem da demagogia, do populismo. Assim, eles se esmeram em distribuir análises (sempre análises, nunca julgamentos!) e elogios, como se estes conformassem um tipo curioso de Bolsa Família, a Bolsa Escritor, esmola para agradar copistas que, talvez, preferissem receber sua parte na forma de papel-moeda.
Em épocas assim, o melhor que podemos fazer é nos dedicar à leitura dos melhores críticos, o que nos ajuda a estabelecer uma barreira de lucidez, um filtro capaz de separar a moda passageira daquelas produções que nunca morrerão, às quais a humanidade, de tempos em tempos, sempre retorna, sedenta de verdade, ciência e beleza.
É o caso de William Hazlitt, que tenho relido com imenso prazer, amigo de William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge, mas que não se furtou a criticá-los duramente quando considerou que abdicavam de seus princípios estéticos, aderindo ao fácil, ao senso comum.
Otto Maria Carpeaux considerava Hazlitt um dos três principais intérpretes românticos de Shakespeare, ao lado de August Wilhelm Schlegel e Coleridge. E os leitores de Harold Bloom certamente lembram das inúmeras referências que ele faz a esse crítico cujo valor se iguala ao de outro gênio, Samuel Johnson, do qual Hazlitt não gostava.
Esse inglês é um ironista formidável, cuja linguagem, refinada e sem afetação, nos prende desde a primeira linha. Jacques Barzun diz que Hazlitt só tem um desejo: “fazer-nos leitores tão bons quanto ele”. É a missão que todo verdadeiro crítico literário deveria impor a si mesmo; inclusive porque essa é a única tarefa – extremamente honrosa, essencial para a formação dos leitores e para a vida cultural do país – que lhe cabe. O resto são firulas que alimentam a jactanciosidade no presente, mas estão condenadas a, no futuro, serem completamente esquecidas.
novembro 20, 2009
Uma questão de coragem
O Brasil recebe, com honras de chefe de Estado, na próxima segunda-feira, o antissemita Mahmoud Ahmadinejad, fervoroso patrocinador do terrorismo muçulmano e presidente de um país no qual a religião está acima da política – ou seja, a fé cega é superior à liberdade.
Para comemorar mais essa genuflexão da diplomacia e do governo brasileiros, Reinaldo Azevedo publicou o post “Uma descompostura fabulosa no facinoroso”, no qual traduz, praticamente na íntegra, o discurso com que o reitor da Universidade de Columbia (EUA), Lee Bollinger, recepcionou Ahmadinejad, quando este, em 24 de setembro de 2007, falou num evento da Escola de Assuntos Públicos e Internacionais da instituição.
O post é longo, mas merece leitura atenta. O texto termina com a pergunta de Reinaldo, sobre quem, no Brasil, teria coragem de dizer essas verdades a Ahmadinejad.
De minha parte, prefiro fazer uma questão mais específica: quem, dentre os jornalistas e intelectuais brasileiros, teria coragem de divulgar esse discurso, de se contrapor às vozes oficiais do nosso Estado? Quem, neste país, ainda tem coragem para NÃO ficar de joelhos diante do governo? Dentre os raros que podem ser citados, sem dúvida está Reinaldo Azevedo.
Para comemorar mais essa genuflexão da diplomacia e do governo brasileiros, Reinaldo Azevedo publicou o post “Uma descompostura fabulosa no facinoroso”, no qual traduz, praticamente na íntegra, o discurso com que o reitor da Universidade de Columbia (EUA), Lee Bollinger, recepcionou Ahmadinejad, quando este, em 24 de setembro de 2007, falou num evento da Escola de Assuntos Públicos e Internacionais da instituição.
O post é longo, mas merece leitura atenta. O texto termina com a pergunta de Reinaldo, sobre quem, no Brasil, teria coragem de dizer essas verdades a Ahmadinejad.
De minha parte, prefiro fazer uma questão mais específica: quem, dentre os jornalistas e intelectuais brasileiros, teria coragem de divulgar esse discurso, de se contrapor às vozes oficiais do nosso Estado? Quem, neste país, ainda tem coragem para NÃO ficar de joelhos diante do governo? Dentre os raros que podem ser citados, sem dúvida está Reinaldo Azevedo.
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novembro 19, 2009
Como Javier Marías vê o mundo hoje
Uma das grandes vozes da literatura contemporânea, Javier Marías fala dos governantes medíocres e descarados:
Veo el mundo muy decadente. Basta con mirar alrededor. Berlusconi, Sarkozy, los Kirchner, Chávez o la corrupción en España. Gente mediocre y desfachatada. Tengo la sensación de un envilecimiento general de las poblaciones. Ojalá no tenga nada que ver con lo que se produjo en los años treinta. Ahora hay una especie de pragmatismo, de falta de escándalo; una tendencia a darle importancia a lo que no lo tiene y a no dársela a lo que quizá sí.
Mas ele também fala sobre literatura, seu processo de criação e o livro que está escrevendo: na edição do El País de hoje.
Veo el mundo muy decadente. Basta con mirar alrededor. Berlusconi, Sarkozy, los Kirchner, Chávez o la corrupción en España. Gente mediocre y desfachatada. Tengo la sensación de un envilecimiento general de las poblaciones. Ojalá no tenga nada que ver con lo que se produjo en los años treinta. Ahora hay una especie de pragmatismo, de falta de escándalo; una tendencia a darle importancia a lo que no lo tiene y a no dársela a lo que quizá sí.
Mas ele também fala sobre literatura, seu processo de criação e o livro que está escrevendo: na edição do El País de hoje.
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novembro 18, 2009
“Não podemos cair em utopias regressivas”
Em alguns casos, a distância do poder concede sabedoria ao político. Não que essa qualidade tenha faltado a Fernando Henrique Cardoso durante os seus oitos anos como presidente da República, mas agora, comparando aquele período ao atual, exercido por meio de um populismo desagregador, vemos bem a falta que nos faz um verdadeiro estadista.
Diante da entrevista que FHC concedeu ao jornal El País, traduzida no UOL Notícias, devo penitenciar-me dos inúmeros erros de avaliação que cometi, principalmente no início de seu primeiro governo, em 1995, quando, ainda militando no PT, eu apenas repetia os velhos chavões da esquerda e pautava-me mais pelo rancor típico dos esquerdistas do que pelo bom senso.
Leiam, por exemplo, o trecho abaixo. Vejam como FHC avalia a realidade de maneira correta e equilibrada:
El País: Onde estão os pensadores que têm de refletir em épocas de crise?
Cardoso: Em casa. E há necessidade de intelectuais com brio, gente que pense grande e dialogue com a sociedade. O que há são negativistas, têm o faro virado para trás. É preciso olhar para a frente, aceitar que a globalização está aí, que a Internet está aí, que há novas formas de produção, de comunicação. Não podemos cair em utopias regressivas [...].
Diante da entrevista que FHC concedeu ao jornal El País, traduzida no UOL Notícias, devo penitenciar-me dos inúmeros erros de avaliação que cometi, principalmente no início de seu primeiro governo, em 1995, quando, ainda militando no PT, eu apenas repetia os velhos chavões da esquerda e pautava-me mais pelo rancor típico dos esquerdistas do que pelo bom senso.
Leiam, por exemplo, o trecho abaixo. Vejam como FHC avalia a realidade de maneira correta e equilibrada:
El País: Onde estão os pensadores que têm de refletir em épocas de crise?
Cardoso: Em casa. E há necessidade de intelectuais com brio, gente que pense grande e dialogue com a sociedade. O que há são negativistas, têm o faro virado para trás. É preciso olhar para a frente, aceitar que a globalização está aí, que a Internet está aí, que há novas formas de produção, de comunicação. Não podemos cair em utopias regressivas [...].
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Fernando Henrique Cardoso
novembro 17, 2009
A volta de Robert Nozick
Odiado pela esquerda e há muitos anos esgotado no Brasil, o clássico Anarquia, Estado e Utopia, de Robert Nozick, acaba de ganhar nova edição pela Edições 70, de Lisboa. Os interessados podem ler, na Revista Crítica, a introdução ao livro, escrita pelo professor João Cardoso Rosas, da Universidade do Minho.
Se Nozick despertar o interesse de vocês, recomendo vivamente a leitura do ensaio “Por que os intelectuais se opõem ao capitalismo?”, disponível no ótimo Ordem Livre.
Se Nozick despertar o interesse de vocês, recomendo vivamente a leitura do ensaio “Por que os intelectuais se opõem ao capitalismo?”, disponível no ótimo Ordem Livre.
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novembro 15, 2009
A República que não existe
Na República dos meus sonhos há uma fórmula pétrea: 1 cidadão = 1 voto. Sem esse princípio básico, não há verdadeira democracia, mas apenas manipulação – exatamente o que fazem neste país por meio da chamada “proporcionalidade”, que concede, nas eleições ao legislativo federal, mais ou menos poder a este ou aquele cidadão, a depender do estado em que ele reside. Sílvio Romero estava certo:
“Aos que exerceram o monopólio de nos governar em nome do direito divino dos reis, sucederam os que exercem o mesmo monopólio em nome da esperteza, da audácia, da mentira, da corrupção. Contra esses é que é preciso bater, bater, bater, no intuito de desbravar o caminho dos tropeços que o entulham”. (In O Brasil dos meus sonhos.)
“Aos que exerceram o monopólio de nos governar em nome do direito divino dos reis, sucederam os que exercem o mesmo monopólio em nome da esperteza, da audácia, da mentira, da corrupção. Contra esses é que é preciso bater, bater, bater, no intuito de desbravar o caminho dos tropeços que o entulham”. (In O Brasil dos meus sonhos.)
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novembro 13, 2009
Causas do apagão
Eu estava nas ruas de São Paulo quando ocorreu o blecaute – e não foi nada agradável a sensação de completa insegurança que experimentei e pude constatar em centenas de outras pessoas.
É fácil para o subperonismo lulista – a expressão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é perfeita em sua síntese – simplesmente dar o caso por encerrado, como se não lhe coubesse qualquer responsabilidade ou, no mínimo, uma palavra de desculpa pelo transtorno causado a milhares de pessoas.
Mas se você, caro leitor, fica se perguntando por qual motivo o insigne presidente não vem a público e faz mais um dos seus discursinhos demagógicos, repletos de linguajar grosseiro, sorrisos ensaiados e ironias fáceis, leia a primeira parte do texto de Malu Gaspar, chefe da sucursal da revista Exame no Rio de Janeiro. Muitas coisas começarão a ficar claras.
[E aqui, a segunda parte da criteriosa análise de Malu Gaspar.]
É fácil para o subperonismo lulista – a expressão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é perfeita em sua síntese – simplesmente dar o caso por encerrado, como se não lhe coubesse qualquer responsabilidade ou, no mínimo, uma palavra de desculpa pelo transtorno causado a milhares de pessoas.
Mas se você, caro leitor, fica se perguntando por qual motivo o insigne presidente não vem a público e faz mais um dos seus discursinhos demagógicos, repletos de linguajar grosseiro, sorrisos ensaiados e ironias fáceis, leia a primeira parte do texto de Malu Gaspar, chefe da sucursal da revista Exame no Rio de Janeiro. Muitas coisas começarão a ficar claras.
[E aqui, a segunda parte da criteriosa análise de Malu Gaspar.]
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novembro 08, 2009
novembro 06, 2009
Sunt lacrimae rerum
“Há lágrimas nas coisas”, diz Virgílio na Eneida. Essa é a epígrafe de Os desaparecidos – A procura de 6 em 6 milhões de vítimas do Holocausto, de Daniel Mendelsohn, que analiso no Rascunho de novembro.
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novembro 01, 2009
Em berço esplêndido
Segundo a PricewaterhouseCoopers, a América Latina é a região do mundo em que menos se adquire livros: do total de obras comercializado no mundo em 2008, apenas 4,14% das vendas ocorreram em nosso continente. Dessa fatia minúscula, 70% corresponde a gastos feitos no Brasil.
Os dados são desanimadores: o brasileiro gasta, por ano, a média de US$ 19 com livros. Na França, um cidadão despende, anualmente, US$ 144. Em Israel, US$ 139.
Para essa grave deficiência, não há discurso demagógico, PAC, Bolsa Família ou qualquer outro programa populista que mascare a realidade. Só elevados gastos em educação, durante várias décadas, podem mudar esses números. Ou seja: aguardemos deitados em berço esplêndido.
Os dados são desanimadores: o brasileiro gasta, por ano, a média de US$ 19 com livros. Na França, um cidadão despende, anualmente, US$ 144. Em Israel, US$ 139.
Para essa grave deficiência, não há discurso demagógico, PAC, Bolsa Família ou qualquer outro programa populista que mascare a realidade. Só elevados gastos em educação, durante várias décadas, podem mudar esses números. Ou seja: aguardemos deitados em berço esplêndido.
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outubro 31, 2009
Tranquilidade

Minhas preferências musicais se inclinam sempre na direção da música de câmara e dos lieder. Não que eu desgoste das grandes sinfonias, mas, antes, prefiro os concertos; e, em primeiro lugar, os pequenos grupos de executantes, que me proporcionam uma agradável sensação de aconchego, tranquilidade. No caso da música lírica ocorre o mesmo: aprecio a ópera, mas os lieder e os duetos, íntimos, breves e líricos, me cativam. Hoje, desde o início da manhã, escuto Marilyn Schmiege e Julie Kaufmann interpretando as deliciosas canções de Brahms, o que torna a vida, no mínimo, mais suportável.
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outubro 30, 2009
Um aperitivo
A Editora Cosac Naify disponibilizou, no início deste mês, algumas páginas da tradução de Guerra e paz, de Liev Tolstói, que Rubens Figueiredo está produzindo.
Será terrível esperar até fins de 2010 pelo livro, mas, olhando para o que o tradutor nos ofereceu em Anna Kariênina, minhas expectativas serão plenamente recompensadas.
Será terrível esperar até fins de 2010 pelo livro, mas, olhando para o que o tradutor nos ofereceu em Anna Kariênina, minhas expectativas serão plenamente recompensadas.
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outubro 28, 2009
Narratofobia
No Rascunho deste mês, meu ensaio sobre a paúra de narrar:
[...] parte da produção literária distanciou-se radicalmente do receptor da mensagem, do leitor, transformando-o em um ser incapacitado para decodificar o texto, condenando-o a ler sem entender, ou ler defrontando-se com dificuldades sobre dificuldades.
[...] parte da produção literária distanciou-se radicalmente do receptor da mensagem, do leitor, transformando-o em um ser incapacitado para decodificar o texto, condenando-o a ler sem entender, ou ler defrontando-se com dificuldades sobre dificuldades.
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Victor Borisovitch Chklovski
outubro 24, 2009
A lucidez de Guilherme Valente
Um dos mais respeitáveis editores de língua portuguesa, Guilherme Valente, editor da famosa Gradiva, de Portugal, critica José Saramago. E o faz com extrema acuidade:
Saramago é, quanto a mim, um escritor engenhoso, mas elementar e habilmente lamecha, que, em termos de ideias, escreve e fala para um público pouco culto, cuja ignorância explora, para cujos juízos mal informados, ideológicos, sectários ou primários, apela, obscurecendo, em vez de (o) iluminar. [...]
Quando fala da Bíblia, de ciência, das viagens de exploração do Universo, ou de Castro, ou de tantas outras matérias sobre as quais regularmente diz, sempre no mesmo tom teocrático, enormidades, a minha dúvida é se ele é mesmo tão limitado intelectualmente como parece, ou se não se tratará de um sacrifício pulsional da inteligência e do conhecimento. [...]
Aqui, para aqueles que desejarem ler o texto na íntegra.
E aqui, para conhecer quem é esse perspicaz editor.
Saramago é, quanto a mim, um escritor engenhoso, mas elementar e habilmente lamecha, que, em termos de ideias, escreve e fala para um público pouco culto, cuja ignorância explora, para cujos juízos mal informados, ideológicos, sectários ou primários, apela, obscurecendo, em vez de (o) iluminar. [...]
Quando fala da Bíblia, de ciência, das viagens de exploração do Universo, ou de Castro, ou de tantas outras matérias sobre as quais regularmente diz, sempre no mesmo tom teocrático, enormidades, a minha dúvida é se ele é mesmo tão limitado intelectualmente como parece, ou se não se tratará de um sacrifício pulsional da inteligência e do conhecimento. [...]
Aqui, para aqueles que desejarem ler o texto na íntegra.
E aqui, para conhecer quem é esse perspicaz editor.
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outubro 09, 2009
Simenon
Fui resgatado das brumas por um romance de Georges Simenon: Sangue na neve. A dura objetividade da narrativa – Simenon não admite volteios de espécie alguma – sequestrou-me ao mundo nevoso, quase espectral, em que a maldade surge sem qualquer objetivo claro. Graham Greene trata melhor do tema, em seu romance de estreia, O condenado, cujo fim, triste e impactante, concentra profunda reflexão não apenas sobre a relação entre Bem e Mal, mas principalmente sobre como o Mal pode nascer movido pela gratuidade insana. Mas Simenon, ainda que fique um pouquinho atrás, nos oferece seus parágrafos curtos, certeiros; Frank, o protagonista taciturno e infantil, para quem o mundo e as pessoas são personagens de um teatro de sombras; e trechos antológicos, como este, em que se revela o cinismo da caftina Lotte, mãe de Frank, que aluga meninas em seu apartamento, ao comentar sobre os fregueses:
[...] Cada aquecedor, cada fogo, tem seu odor particular, sua vida própria, seu modo de respirar, seus ruídos mais ou menos incongruentes. O do salão cheira a linóleo, evoca o próprio cômodo, com seus móveis encerados, seu piano de armário, seus bordados e paninhos de crochê em cima das mesas de pé de galo e nos braços das poltronas.
– Os mais viciosos – diz Lotte – são os burgueses. E os burgueses gostam de fazer as suas patifarias numa atmosfera que lembre a eles a de suas casas.
É por isso que as duas mesinhas de manicure são minúsculas, por assim dizer invisíveis. Por outro lado, Lotte ensina as meninas a batucar o piano com um dedo só.
– Como as filhas deles, entende?
O quarto – o quarto grande, como é chamado, no qual Lotte dorme nesse momento – é todo revestido de tapetes, de cortinas, e atochado de pequenos trabalhos de agulha.
É Lotte ainda que afirma:
– Ah, se eu pudesse ter o retrato do pai deles, da mulher, das crianças! Ficaria rica, milionária!
[...] Cada aquecedor, cada fogo, tem seu odor particular, sua vida própria, seu modo de respirar, seus ruídos mais ou menos incongruentes. O do salão cheira a linóleo, evoca o próprio cômodo, com seus móveis encerados, seu piano de armário, seus bordados e paninhos de crochê em cima das mesas de pé de galo e nos braços das poltronas.
– Os mais viciosos – diz Lotte – são os burgueses. E os burgueses gostam de fazer as suas patifarias numa atmosfera que lembre a eles a de suas casas.
É por isso que as duas mesinhas de manicure são minúsculas, por assim dizer invisíveis. Por outro lado, Lotte ensina as meninas a batucar o piano com um dedo só.
– Como as filhas deles, entende?
O quarto – o quarto grande, como é chamado, no qual Lotte dorme nesse momento – é todo revestido de tapetes, de cortinas, e atochado de pequenos trabalhos de agulha.
É Lotte ainda que afirma:
– Ah, se eu pudesse ter o retrato do pai deles, da mulher, das crianças! Ficaria rica, milionária!
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setembro 03, 2009
Estado sem limites (do jeito que a esquerda gosta)
Brilhante, para dizer o mínimo, o artigo de Demétrio Magnoli hoje no Estadão:
Nunca, desde o encerramento da ditadura militar, o Estado brasileiro violou tão profundamente a ordem democrática quanto na hora em que Mattoso selecionou, entre os milhões de correntistas da CEF, o nome de Francenildo, uma testemunha da CPI que investigava o poderoso ministro. No mesmo dia em que o presidente da CEF acessava o extrato "suspeito", mas não o transmitia ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), guardando-o para Palocci, Tião Viana prometia aos jornalistas "uma grande surpresa". O poder que faz isso não conhece limites. Seu horizonte utópico é o Estado policial: a administração pública convertida em aparelho de intimidação permanente dos cidadãos, por meio da invasão da privacidade e da chantagem pessoal.
[...]
Quando proferiram seus votos, os cinco juízes enxergaram um semelhante não em Francenildo, mas em Palocci. Eles votaram na sua casta, deixando as impressões digitais do persistente patrimonialismo brasileiro nos registros da Corte constitucional.
Maus tempos os nossos, caros leitores. Tempos perigosos para os cidadãos comuns.
Nunca, desde o encerramento da ditadura militar, o Estado brasileiro violou tão profundamente a ordem democrática quanto na hora em que Mattoso selecionou, entre os milhões de correntistas da CEF, o nome de Francenildo, uma testemunha da CPI que investigava o poderoso ministro. No mesmo dia em que o presidente da CEF acessava o extrato "suspeito", mas não o transmitia ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), guardando-o para Palocci, Tião Viana prometia aos jornalistas "uma grande surpresa". O poder que faz isso não conhece limites. Seu horizonte utópico é o Estado policial: a administração pública convertida em aparelho de intimidação permanente dos cidadãos, por meio da invasão da privacidade e da chantagem pessoal.
[...]
Quando proferiram seus votos, os cinco juízes enxergaram um semelhante não em Francenildo, mas em Palocci. Eles votaram na sua casta, deixando as impressões digitais do persistente patrimonialismo brasileiro nos registros da Corte constitucional.
Maus tempos os nossos, caros leitores. Tempos perigosos para os cidadãos comuns.
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agosto 27, 2009
“Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora...”
Há um poema que, desde meus tempos de colégio, sempre releio. Lembro da tarde em que certa amiga o apresentou para mim, na cozinha ensolarada onde, com os livros abertos sobre a mesa, fazíamos um trabalho de literatura. Quando comecei a ler os versos – ah!, ainda posso reviver a mesma sensação... –, foi como se o mundo à minha volta subitamente parasse e eu, adentrando um salão desconhecido, amplo e majestoso, permanecesse extático, incapaz de qualquer movimento, possuído pela poesia. Foi, aliás, quando conheci Fernando Pessoa. O poema, “Hora Absurda”.
Gostaria de poder partilhar com vocês minhas ideias sobre esse poema, mas estou sem tempo, infelizmente. Contudo, deixo aqui o link para a breve mas lúcida análise que Pasquale Cipro Neto faz, na Folha de S. Paulo de hoje, dos quatro primeiros versos:
O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas...
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso...
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso...
E também reproduzo aqui duas das estrofes de que mais gosto:
Ah, como esta hora é velha!... E todas as naus partiram!
Na praia só um cabo morto e uns restos de vela falam
Do Longe, das horas do Sul, de onde os nossos sonhos tiram
Aquela angústia de sonhar mais que até para si calam...
O palácio está em ruínas... Dói ver no parque o abandono
Da fonte sem repuxo... Ninguém ergue o olhar da estrada
E sente saudades de si ante aquele lugar-outono...
Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada...
Gostaria de poder partilhar com vocês minhas ideias sobre esse poema, mas estou sem tempo, infelizmente. Contudo, deixo aqui o link para a breve mas lúcida análise que Pasquale Cipro Neto faz, na Folha de S. Paulo de hoje, dos quatro primeiros versos:
O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas...
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso...
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso...
E também reproduzo aqui duas das estrofes de que mais gosto:
Ah, como esta hora é velha!... E todas as naus partiram!
Na praia só um cabo morto e uns restos de vela falam
Do Longe, das horas do Sul, de onde os nossos sonhos tiram
Aquela angústia de sonhar mais que até para si calam...
O palácio está em ruínas... Dói ver no parque o abandono
Da fonte sem repuxo... Ninguém ergue o olhar da estrada
E sente saudades de si ante aquele lugar-outono...
Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada...
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agosto 26, 2009
Enriquecer, mas sem perder o discurso jamais
Não está longe o ano de 1957, quando o montenegrino Milovan Djilas, férreo apoiador de Josip Broz Tito, lançou seu bombástico A Nova Classe – análise do sistema comunista, no qual denunciava o surgimento, no bloco dos países da Cortina de Ferro, de uma classe de privilegiados – os revolucionários que, ocupando altos cargos na burocracia, enriqueciam, corrompiam-se e se deleitavam nas benesses do Estado totalitário; sem, é claro, abdicar do discurso populista e demagógico, no qual os batidos chavões do igualitarismo seguiam intactos.
Djilas amargou processos, perda de cargos, expulsão do partido e prisões por conta da coragem, mas suas denúncias e análises, depois aprofundadas no livro Além da Nova Classe, de 1969, continuam atuais. Leiam, por exemplo, a reportagem da edição de hoje do El País: “La oligarquía orteguista”, que mostra como funcionários do governo da Nicarágua – no passado, guerrilheiros que fizeram parte da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) e lutaram contra a ditadura somozista; agora, burocratas do governo Daniel Ortega – enriquecem à sombra do Estado, sem abandonar, contudo, o discurso a favor dos pobres e as críticas à classe alta. Enquanto simulam virtude e defendem a luta de classes, cuidam com extremo carinho da própria conta bancária.
A imprensa brasileira deveria fazer reportagens semelhantes sobre os próceres do esquerdismo nacional. Há quase oito anos no poder, muitos certamente agora já podem viver de maneira nababesca – mas preservando os velhos discursos, pois uma boa pitada de contradição (que eles preferem chamar de dialética) é inerente aos catecismos leninistas.
Djilas amargou processos, perda de cargos, expulsão do partido e prisões por conta da coragem, mas suas denúncias e análises, depois aprofundadas no livro Além da Nova Classe, de 1969, continuam atuais. Leiam, por exemplo, a reportagem da edição de hoje do El País: “La oligarquía orteguista”, que mostra como funcionários do governo da Nicarágua – no passado, guerrilheiros que fizeram parte da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) e lutaram contra a ditadura somozista; agora, burocratas do governo Daniel Ortega – enriquecem à sombra do Estado, sem abandonar, contudo, o discurso a favor dos pobres e as críticas à classe alta. Enquanto simulam virtude e defendem a luta de classes, cuidam com extremo carinho da própria conta bancária.
A imprensa brasileira deveria fazer reportagens semelhantes sobre os próceres do esquerdismo nacional. Há quase oito anos no poder, muitos certamente agora já podem viver de maneira nababesca – mas preservando os velhos discursos, pois uma boa pitada de contradição (que eles preferem chamar de dialética) é inerente aos catecismos leninistas.
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agosto 23, 2009
O som aspirado do Aleph

Mais que transgressão sacrílega, o Golem – esse mito do judaísmo que se desenvolveu na Europa Oriental e Central – possui um forte apelo à resistência judaica diante de injustiças e preconceitos. A variante dessa lenda que mais aprecio é a do Maharal de Praga – que, à época dos pogroms, cria o Golem para defender os judeus das perseguições e acusações sem fundamento. A lenda foi recontada por Elie Wiesel – e há uma bela edição de 1986 pela Editora Imago, com ilustrações de Mark Podwal. A criatura, nessa história, não é somente um autômato, mas um ser de relativa complexidade, capaz de julgar e discernir, sempre a favor do bem. Está distante, dessa forma, de outra variante da lenda, que não me agrada: a do Golem como mero experimento de homens megalomaníacos, que pretendem ser Deus.
Mas esse mito se diversificou em dezenas de histórias. Os românticos alemães foram pródigos em criá-las, apresentando um Golem que, muitas vezes, não passa de certa versão piorada da espécie humana, licencioso, mesquinho. As variações, inclusive, chegaram aos modernos: em prosa ou poesia, Jorge Luis Borges e Isaac Bashevis Singer, por exemplo, revisitam o tema.
Em 2004, o Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Minas Gerais publicou uma coletânea de artigos: Os fazedores de golems, organizada por Luiz Nazario e Lyslei Nascimento. O livro é a melhor introdução ao tema em língua portuguesa, além de proporcionar um diálogo entre a tradição e as reescrituras modernas da lenda, não apenas em literatura, mas também no cinema, visitando inclusive várias das criaturas artificiais criadas pela imaginação. O ensaio de abertura do livro – “O Golem: do limo à letra”, de Lyslei Nascimento –, síntese histórica perfeita da representação do Golem na arte, está disponível na web, em pdf.
De minha parte, considero uma pena que as narrativas modernas tenham perdido os dois aspectos que mais me fascinam: o da criatura que faz justiça e o essencialmente cabalístico – ou seja, o da palavra, escrita ou falada, que insufla vida no barro inerte. Segundo o mito, o Golem é criado por meio da palavra ’emet (verdade). E como explica a professora Lyslei Nascimento, quando o rabino que o criou decide adormecê-lo,
apaga da palavra ’emet a letra Aleph, na transliteração, o sinal (’) que indica a aspiração da letra hebraica, representando o vento, o fôlego da vida. Ao se apagar a letra, o som aspirado do Aleph, desaparece o som vocálico do “e” – e a palavra ’emet – “verdade” – torna-se met, “morto”.
Trata-se de um mito, portanto, que homenageia a criação por meio da palavra, do verbo. Poucas lendas se aproximaram tanto da criação através da escrita – e da angústia que lhe é inerente. Nem sempre conseguimos dar vida aos nossos textos – na maioria das vezes, chegando ao final do trabalho, depois de horas ou dias de dedicação às palavras, temos sob o olhar uma peça defeituosa, um Golem claudicante, amorfo. Talvez lutar com as palavras nada mais seja do que essa tentativa desesperada e vã de recuperar, ao menos uma só vez, o sopro do Verbo divino, o som aspirado do Aleph. (O que, aliás, me recorda Hanna Arendt, para quem “nada do que vemos, ouvimos ou tocamos pode ser expresso em palavras que se equiparem ao que é dado aos sentidos”. Ou, dito de outra forma, tudo que expressamos por meio das palavras assume a condição de Golem – um ser imperfeito, capaz de cumprir determinadas missões, mas que jamais se igualará à realidade primeira, inaugural.)
agosto 20, 2009
Prazer e câncer do pensamento
Escrevi, para o último número do Rascunho, sobre Isaac Bashevis Singer e seu No tribunal de meu pai (Editora Cia. das Letras). A seguir, um trecho de minha crítica:
Na verdade, a formação de Isaac Bashevis Singer corrobora o que George Steiner diz, na longa entrevista concedida a Ramin Jahanbegloo (in George Steiner: à luz de si mesmo), sobre o vínculo entre erudição e judaísmo: “A religião judaica é a única para a qual o sábio é uma bênção”. Naquele paupérrimo apartamento do número 10 da rua Krochmalna, o pequeno Singer não se dedicava apenas ao estudo prazeroso das tradições hassídicas, mas, atormentado por inesgotáveis questionamentos, lia tudo que estivesse à mão, incluindo Crime e castigo, de Dostoiévski: “Parecia um livro de histórias, mas era outra coisa. Estranho e elevado, lembrava-me a Cabala. Quem escrevia livros assim? Quem era capaz de entendê-los? Aqui e ali, uma passagem se elucidava, eu entendia um episódio, e me entusiasmava com a beleza de uma nova compreensão”. Poucos anos depois, movido pela compulsão de saber, aprende hebraico, lê poesia iídiche e devora Strindberg, Turguêniev, Tolstói, Maupassant, Tchekhov. Apaixona-se por Sherlock Holmes, estuda Hillel Zeitlin e Spinoza - mas também se debruça sobre um compêndio de física. Tragado por um turbilhão de idéias, ele é a materialização do judeu descrito por Steiner:
[...] é aquele que lê um livro com um lápis na mão [...]. É também aquele que corrige os erros mesmo ao ler um jornal. [...] Eu não falo em termos de gênio, porém designo uma sede incessante de conhecimento, de transcendência e de pensamento puro. Creio que o judeu é aquele que, até na soleira de uma câmara de gás, ainda corrigia um texto. Os rabinos o fizeram. Corrigir um texto é interpelar Deus dizendo-Lhe que se é fiel a esse câncer do pensamento, a essa patologia do absoluto que Ele colocou em nós, sem que saibamos por que, é dizer-Lhe o que isso nos custou.
Na verdade, a formação de Isaac Bashevis Singer corrobora o que George Steiner diz, na longa entrevista concedida a Ramin Jahanbegloo (in George Steiner: à luz de si mesmo), sobre o vínculo entre erudição e judaísmo: “A religião judaica é a única para a qual o sábio é uma bênção”. Naquele paupérrimo apartamento do número 10 da rua Krochmalna, o pequeno Singer não se dedicava apenas ao estudo prazeroso das tradições hassídicas, mas, atormentado por inesgotáveis questionamentos, lia tudo que estivesse à mão, incluindo Crime e castigo, de Dostoiévski: “Parecia um livro de histórias, mas era outra coisa. Estranho e elevado, lembrava-me a Cabala. Quem escrevia livros assim? Quem era capaz de entendê-los? Aqui e ali, uma passagem se elucidava, eu entendia um episódio, e me entusiasmava com a beleza de uma nova compreensão”. Poucos anos depois, movido pela compulsão de saber, aprende hebraico, lê poesia iídiche e devora Strindberg, Turguêniev, Tolstói, Maupassant, Tchekhov. Apaixona-se por Sherlock Holmes, estuda Hillel Zeitlin e Spinoza - mas também se debruça sobre um compêndio de física. Tragado por um turbilhão de idéias, ele é a materialização do judeu descrito por Steiner:
[...] é aquele que lê um livro com um lápis na mão [...]. É também aquele que corrige os erros mesmo ao ler um jornal. [...] Eu não falo em termos de gênio, porém designo uma sede incessante de conhecimento, de transcendência e de pensamento puro. Creio que o judeu é aquele que, até na soleira de uma câmara de gás, ainda corrigia um texto. Os rabinos o fizeram. Corrigir um texto é interpelar Deus dizendo-Lhe que se é fiel a esse câncer do pensamento, a essa patologia do absoluto que Ele colocou em nós, sem que saibamos por que, é dizer-Lhe o que isso nos custou.
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Resenhas
agosto 18, 2009
Rui Tavares e sua crítica ao “calvinismo literário”
Foi no simpático blog do Senhor Palomar que pude ler a crônica de Rui Tavares, “Bom! Bonito! Barato!”, agora disponível no blog do autor. Não deixem a leitura para depois. A seguir, um aperitivo desse texto suave, inteligente. Ele me me fez considerar uma pena que, em português, não tenhamos, no início das frases exclamativas, o sinal invertido dos espanhóis:
O texto escrito precisa de palavras curtas e palavras compridas, precisa de frases breves e de frases longas, precisa de linguagem concreta e de linguagem metafórica. O texto precisa de ritmo e esse ritmo só se consegue pela utilização de elementos diferenciados; mas o ritmo de um texto literário não é como um ritmo musical — ele não obedece sempre ao mesmo tempo, não cai em compassos, não é metronímico — e tem de ir sendo calibrado à mão em cada parágrafo, uns mais lentos, outros mais rápidos, outros que se desdobram em subordinadas. E também: frases sem verbos. O ritmo do texto não é tão regular nem sincopado como o da peça musical porque a sua busca é a da fluência. Fluência como a das melodias não musicais nas suas modulações sucessivas — como nos cursos de água, na brisa e no vento, nas chuvadas.
O texto escrito precisa de palavras curtas e palavras compridas, precisa de frases breves e de frases longas, precisa de linguagem concreta e de linguagem metafórica. O texto precisa de ritmo e esse ritmo só se consegue pela utilização de elementos diferenciados; mas o ritmo de um texto literário não é como um ritmo musical — ele não obedece sempre ao mesmo tempo, não cai em compassos, não é metronímico — e tem de ir sendo calibrado à mão em cada parágrafo, uns mais lentos, outros mais rápidos, outros que se desdobram em subordinadas. E também: frases sem verbos. O ritmo do texto não é tão regular nem sincopado como o da peça musical porque a sua busca é a da fluência. Fluência como a das melodias não musicais nas suas modulações sucessivas — como nos cursos de água, na brisa e no vento, nas chuvadas.
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Rui Tavares
agosto 15, 2009
Péssimas escolhas
Nos últimos dias, por razão profissional, tenho sido obrigado a revisitar alguns livros que li há muitos anos – e aos quais não pretendia retornar. Refiro-me a certas obras presentes na lista da Fuvest para o Vestibular 2010.
Pois bem. Realmente desconheço o que norteia a escolha desses livros, mas certamente não são critérios estéticos. Escolher, do Romantismo brasileiro, José de Alencar, é uma afronta à sensibilidade dos jovens, é obrigá-los a perder tempo com um texto pomposo, artificial, de uma grandiloquência que chega a dar engulhos. Claro, podemos ver a escolha pelo lado bom: ao menos não obrigaram a juventude a ler O Guarani, mas, sim, Iracema, livrinho bem mais curto e relativamente menos medíocre. Mas, pergunto-me, por que escolher o que existe de pior no Romantismo brasileiro? Por que exigir que eles leiam o que há de mais embolorado em nossa literatura? Se os critérios forem aqueles que já cansamos de ouvir, de que as narrativas de Alencar serviram à criação de uma literatura efetivamente nacional, de que a prosa alencariana em Iracema é pura poesia, e blá, blá, blá..., sinceramente, precisamos, com urgência, dar um banho de água fria nos responsáveis pela escolha – e alguns talvez precisem de um bom clister ou de uma camisa-de-força.
Meu Jesus-cristinho! Minha Santa Terezinha de Lisieux! Por que não pedir que os jovens leiam o melhor?! Álvares de Azevedo e Castro Alves têm bons poemas – Azevedo, inclusive, escreveu alguns deliciosamente irônicos, em que ele ri do próprio Romantismo. E se é para ler Alencar, por favor, esqueçam essa bobagem de literatura indianista. (Isso talvez sirva aos estudiosos do folclore brasileiro, mas não à literatura.) Senhora é um romance razoável – e agredirá menos a inteligência da juventude.
Os problemas da lista, contudo, não param aí. Acho perfeito que os alunos tenham de ler Eça de Queirós. Mas não entendo porque três autores realistas (Eça, Machado e Aluísio Azevedo) – e entendo menos ainda porque, mais uma vez, não se escolhe o melhor. A cidade e as serras apresenta aquele Eça em que já se apagam as principais qualidades, como o sarcasmo e a crítica ferina à sociedade portuguesa. É um Eça que dá seus últimos suspiros. Por que não Os Maias? Por que tem muitas páginas? Ou por que a trama é complexa? Seja qual for o critério, mais uma vez despreza-se a inteligência dos jovens.
Também estranho a falta do Simbolismo. Portugal e Brasil têm ótimos poetas simbolistas. Claro que nenhum louco vai obrigar os jovens a ler um livro inteiro de Cruz e Souza, pois não há fígado que aguente. Mas, Jesus!, por que não uma boa antologia de poemas, reunindo os nomes mais importantes? Não seria melhor que os alunos pudessem ter uma visão ampla do movimento? Bastariam dez ou quinze poemas – e já teríamos uma ideia clara sobre a estética simbolista. E o mesmo poderia ser feito com os parnasianos.
Outra bobagem é Capitães da areia. Livrinho mal escrito, superficial, esquemático. Novamente escolhe-se o que um autor tem de pior. Jorge Amado já não é o que poderíamos chamar de clássico – e ainda obriga-se a juventude a ler o que ele tem de mais medíocre. Não entendo! Por que não pedir que os jovens leiam, por exemplo, A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água, obra divertidíssima – e uma das três ou quatro do Jorge que realmente merecem ser lembradas?
Na verdade, a lista da Fuvest é tristemente populista, pois comete o pior dos pecados: nivela por baixo a inteligência da juventude. Parte dos livros escolhidos passa a impressão de que os responsáveis se basearam naqueles estúpidos chavões: de que os jovens não leem, não gostam de ler, etc.
Ora, em minha opinião deveríamos fazer exatamente o contrário: deveríamos dar um voto de confiança aos jovens, oferecer-lhes o que a literatura de língua portuguesa tem de melhor, e entusiasmá-los à leitura de obras que realmente pudessem acrescentar algo à sua sensibilidade. Desacreditar da inteligência da juventude não é um bom recurso pedagógico. Talvez possa servir ao populismo rasteiro que grassa neste país, mas não é, decididamente, uma escolha sábia.
Pois bem. Realmente desconheço o que norteia a escolha desses livros, mas certamente não são critérios estéticos. Escolher, do Romantismo brasileiro, José de Alencar, é uma afronta à sensibilidade dos jovens, é obrigá-los a perder tempo com um texto pomposo, artificial, de uma grandiloquência que chega a dar engulhos. Claro, podemos ver a escolha pelo lado bom: ao menos não obrigaram a juventude a ler O Guarani, mas, sim, Iracema, livrinho bem mais curto e relativamente menos medíocre. Mas, pergunto-me, por que escolher o que existe de pior no Romantismo brasileiro? Por que exigir que eles leiam o que há de mais embolorado em nossa literatura? Se os critérios forem aqueles que já cansamos de ouvir, de que as narrativas de Alencar serviram à criação de uma literatura efetivamente nacional, de que a prosa alencariana em Iracema é pura poesia, e blá, blá, blá..., sinceramente, precisamos, com urgência, dar um banho de água fria nos responsáveis pela escolha – e alguns talvez precisem de um bom clister ou de uma camisa-de-força.
Meu Jesus-cristinho! Minha Santa Terezinha de Lisieux! Por que não pedir que os jovens leiam o melhor?! Álvares de Azevedo e Castro Alves têm bons poemas – Azevedo, inclusive, escreveu alguns deliciosamente irônicos, em que ele ri do próprio Romantismo. E se é para ler Alencar, por favor, esqueçam essa bobagem de literatura indianista. (Isso talvez sirva aos estudiosos do folclore brasileiro, mas não à literatura.) Senhora é um romance razoável – e agredirá menos a inteligência da juventude.
Os problemas da lista, contudo, não param aí. Acho perfeito que os alunos tenham de ler Eça de Queirós. Mas não entendo porque três autores realistas (Eça, Machado e Aluísio Azevedo) – e entendo menos ainda porque, mais uma vez, não se escolhe o melhor. A cidade e as serras apresenta aquele Eça em que já se apagam as principais qualidades, como o sarcasmo e a crítica ferina à sociedade portuguesa. É um Eça que dá seus últimos suspiros. Por que não Os Maias? Por que tem muitas páginas? Ou por que a trama é complexa? Seja qual for o critério, mais uma vez despreza-se a inteligência dos jovens.
Também estranho a falta do Simbolismo. Portugal e Brasil têm ótimos poetas simbolistas. Claro que nenhum louco vai obrigar os jovens a ler um livro inteiro de Cruz e Souza, pois não há fígado que aguente. Mas, Jesus!, por que não uma boa antologia de poemas, reunindo os nomes mais importantes? Não seria melhor que os alunos pudessem ter uma visão ampla do movimento? Bastariam dez ou quinze poemas – e já teríamos uma ideia clara sobre a estética simbolista. E o mesmo poderia ser feito com os parnasianos.
Outra bobagem é Capitães da areia. Livrinho mal escrito, superficial, esquemático. Novamente escolhe-se o que um autor tem de pior. Jorge Amado já não é o que poderíamos chamar de clássico – e ainda obriga-se a juventude a ler o que ele tem de mais medíocre. Não entendo! Por que não pedir que os jovens leiam, por exemplo, A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água, obra divertidíssima – e uma das três ou quatro do Jorge que realmente merecem ser lembradas?
Na verdade, a lista da Fuvest é tristemente populista, pois comete o pior dos pecados: nivela por baixo a inteligência da juventude. Parte dos livros escolhidos passa a impressão de que os responsáveis se basearam naqueles estúpidos chavões: de que os jovens não leem, não gostam de ler, etc.
Ora, em minha opinião deveríamos fazer exatamente o contrário: deveríamos dar um voto de confiança aos jovens, oferecer-lhes o que a literatura de língua portuguesa tem de melhor, e entusiasmá-los à leitura de obras que realmente pudessem acrescentar algo à sua sensibilidade. Desacreditar da inteligência da juventude não é um bom recurso pedagógico. Talvez possa servir ao populismo rasteiro que grassa neste país, mas não é, decididamente, uma escolha sábia.
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julho 27, 2009
De volta ao final de As Benevolentes
As questões não resolvidas sempre voltam. Por este ou aquele motivo, de vez em quando o cérebro as reapresenta ao nosso espírito. O final farsesco de As Benevolentes, de Jonathan Littell, é uma dessas interrogações para as quais busco resposta há algum tempo. Por que o escritor capaz de fazer uma obra de arte em 882 páginas escolhe destruir seu trabalho nas 14 restantes? Supor mera incompetência é uma solução pueril, fácil demais, e também incongruente. E a falta de coragem? O autor não teria sido capaz de ousar até o final? Mas se faltou ousadia, há uma causa no substrato dessa fraqueza.
Hoje, contudo, encontrei uma resposta que me satisfez. Graças ao artigo de Luiz Felipe Pondé, na Folha de S. Paulo, “Pequena sociologia do fungo”, creio que posso traçar ao menos um projeto de solução para minha dúvida.
Por que Littell destrói a weltanschauung do protagonista de seu romance, o jurista e oficial da SS Maximilian Aube? Por que Littell se recusa a afirmar a humanidade de um criminoso nazista? – Humanidade, saliente-se, construída em detalhes durante a maior parte do livro. O fato de ser judeu o impediria moralmente? Não. O problema é mais grave. No fundo, o final farsesco revela uma farsa moral.
Littell apenas repetiu o que a maioria das pessoas faz, e que Luiz Felipe Pondé analisa com mestria: transformar o livro em uma palhaçada foi a forma que o escritor encontrou de, hipocritamente, defender sua imagem de bom, justo, perfeito, incapaz de cometer qualquer mal. Littel não poderia levar até o fim o seu personagem, pois isso significaria não desculpar ou justificar um nazista, mas, como afirma Pondé, “iluminar seu parentesco com ele”. Escrever um final coerente – e grandioso como a maior parte do livro – representaria afirmar a verdade que todos negam: a de que somos, sim, capazes de fazer o mal.
Em literatura – como em toda forma de arte – não basta ter o domínio da técnica. É preciso coragem para ir além do que o senso comum prega. E Jonathan Littell, infelizmente, mostrou-se fraco e hipócrita.
Hoje, contudo, encontrei uma resposta que me satisfez. Graças ao artigo de Luiz Felipe Pondé, na Folha de S. Paulo, “Pequena sociologia do fungo”, creio que posso traçar ao menos um projeto de solução para minha dúvida.
Por que Littell destrói a weltanschauung do protagonista de seu romance, o jurista e oficial da SS Maximilian Aube? Por que Littell se recusa a afirmar a humanidade de um criminoso nazista? – Humanidade, saliente-se, construída em detalhes durante a maior parte do livro. O fato de ser judeu o impediria moralmente? Não. O problema é mais grave. No fundo, o final farsesco revela uma farsa moral.
Littell apenas repetiu o que a maioria das pessoas faz, e que Luiz Felipe Pondé analisa com mestria: transformar o livro em uma palhaçada foi a forma que o escritor encontrou de, hipocritamente, defender sua imagem de bom, justo, perfeito, incapaz de cometer qualquer mal. Littel não poderia levar até o fim o seu personagem, pois isso significaria não desculpar ou justificar um nazista, mas, como afirma Pondé, “iluminar seu parentesco com ele”. Escrever um final coerente – e grandioso como a maior parte do livro – representaria afirmar a verdade que todos negam: a de que somos, sim, capazes de fazer o mal.
Em literatura – como em toda forma de arte – não basta ter o domínio da técnica. É preciso coragem para ir além do que o senso comum prega. E Jonathan Littell, infelizmente, mostrou-se fraco e hipócrita.
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julho 16, 2009
A honra de 32

As comemorações do 9 de Julho, na semana passada, foram inexpressivas. São Paulo não comemora a Revolução de 32 como seus heróis merecem. Aliás, o culto do heroísmo há muito caiu no esquecimento entre nós – a não ser, é claro, quando se trata das figuras que sucumbiram sob o regime de 64. Essas, graças à hegemonia cultural da esquerda, são sempre reverenciadas.
Minha formação, contudo, é diversa. Venho de uma época na qual 1932 era lembrado com orgulho na escola, com direito a discursos, bandeiras de São Paulo, cartazes. E a história dos jovens que morreram sob a metralha getulista, contada pelos professores, nos fazia olhar com desconfiança o jeito bonachão de Vargas.
Aliás, em minha família, desde cedo aprendemos que a luta revolucionária – que se resume, para os meus patriarcas, à luta pela liberdade – não é, não foi e nunca será uma tradição da esquerda.
No caso específico do 9 de Julho, cresci admirando o altar que meu avô paterno mantinha no escritório de sua casa: acima da escrivaninha, na parede, o capacete que ele usara nas trincheiras de 32 e um mapa do Estado de São Paulo, no qual estavam marcados à caneta as batalhas e os nomes dos amigos mortos ou feridos. Ao lado, numa estante próxima, ele mantinha sua própria foto, vestindo a farda de capitão-médico da revolução.
Meus avós e meus tios jamais falaram em separatismo ou demonstraram qualquer preconceito em relação aos outros estados. Falava-se apenas da luta de São Paulo pela legalidade, pela Constituição e contra a ditadura getulista, que desvirtuara os ideais de 1930. Durante as rodas de buraco ou de víspora, nos domingos à tarde, a política era um tema constante – e Getúlio sempre foi lembrado como um populista vulgar, nada mais.
Cresci ouvindo meu avô declamar os poemas de Guilherme de Almeida ou ler em voz alta, com orgulho, os discursos de Ibrahim Nobre. E, revendo aqueles dias, percebo que cultuar 32 representava, para nós, fazer também uma contraposição a qualquer forma de despotismo. Sim, os mais velhos eram todos anticomunistas, mas visceralmente liberais. Meu tio-avô, por exemplo, que foi deputado estadual e secretário de Justiça no governo Lucas Nogueira Garcez, infelizmente já falecido durante a ditadura de 64, subia nos palanques e descia o malho de sua oratória sobre a esquerda, mas era o único advogado em nossa cidade que aceitava defender, gratuitamente, os comunistas – e livrou muitos da cadeia.
A mãe de meu tio-avô, minha bisavó, mulher altiva, cultíssima, fluente em inglês, que chegou aos 94 anos de idade, nunca deixou de expressar sua discordância com os rumos de 64. Detestava Jango e defendia o golpe, mas achava que os militares haviam traído a confiança dos civis que apoiaram o movimento – e nunca teve receio de se referir aos presidentes do ciclo militar com os piores adjetivos. A seu modo, com a dignidade e a classe que lhe eram peculiares, enviou flores anos seguidos, no 31 de março, a políticos que, amigos de nossa família, tinham sido cassados pelos atos institucionais.
Não é de admirar, portanto, que a Revolução de 32 fosse venerada em minha casa.
Hoje, infelizmente, o obelisco do Parque Ibirapuera serve apenas para ser coberto por um preservativo gigante no Dia Mundial da Aids, nas escolas disseminou-se a mentira de que 32 foi um movimento desprezível das oligarquias paulistas, e há quem faça comentários cínicos ao ler, na entrada do mausoléu: “Viveram pouco para morrer bem – morreram jovens para viver sempre”. Mas a sordidez não muda o passado, não altera a verdade. Talvez consiga esconder das atuais gerações a honra daqueles mortos. Mas não para sempre. Não eternamente.
***
Adiciono a este post os lúcidos comentários do historiador Marco Antônio Villa, que lançou, no ano passado, um belo livro sobre a Revolução de 1932:
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julho 06, 2009
Reflexões sobre o mercado editorial
Alguns dos artigos que compõem o primeiro número da Booktailors Publishing Magazine, dirigida por Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes, podem servir a inúmeras reflexões sobre o mercado editorial brasileiro. Independente disso, é reconfortante e animador ver como nossos irmãos portugueses passam em revista a arte da edição.
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junho 26, 2009
Irresistível
Sofri um acesso de incontrolável identificação ao ver a capa de Veja. A revista fala exatamente o que eu gostaria de repetir, em alto e bom som, à politicalha que comanda este país: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”. Foi como se o meu rosto estivesse ali, compondo a capa, encimado pelo grito de revolta que, certamente, percute na consciência de todos os que têm um mínimo de capacidade crítica: “Basta de impunidade!”.
Depois, na longa reportagem “À sombra da Constituição”, o texto enxuto, claro, preciso, é acompanhado por dezenas de declarações que, em qualquer democracia civilizada, obrigariam o presidente da República a, no mínimo, ficar de joelhos e proferir um mea-culpa. O que, é evidente, não acontecerá aqui.
Deliciosamente mordaz, a revista também me presenteou com a legenda da página 65, na qual expõe a farsa do esquerdismo e denuncia a parcialidade e a demagogia daqueles que, por muito menos, já tentaram paralisar o país: “RADICAIS CALADOS – mais de 100 000 militantes de movimentos sociais pedem a saída de FHC em 1997. Hoje, MST, CUT e UNE funcionam como braço auxiliar do governo e só promovem manifestações de apoio a Lula”.
Veja ainda me regalou com a radiografia imparcial do movimentículo paredista da USP, a resenha de Nelson Ascher sobre Hammerstein ou a Obstinação, de Hans Magnus Enzensberger, e o artigo “Empregos secretos”, de J. R. Guzzo. Só faltou, para que a leitura fosse absolutamente perfeita, um daqueles bons ensaios do Reinaldo Azevedo.
Depois, na longa reportagem “À sombra da Constituição”, o texto enxuto, claro, preciso, é acompanhado por dezenas de declarações que, em qualquer democracia civilizada, obrigariam o presidente da República a, no mínimo, ficar de joelhos e proferir um mea-culpa. O que, é evidente, não acontecerá aqui.
Deliciosamente mordaz, a revista também me presenteou com a legenda da página 65, na qual expõe a farsa do esquerdismo e denuncia a parcialidade e a demagogia daqueles que, por muito menos, já tentaram paralisar o país: “RADICAIS CALADOS – mais de 100 000 militantes de movimentos sociais pedem a saída de FHC em 1997. Hoje, MST, CUT e UNE funcionam como braço auxiliar do governo e só promovem manifestações de apoio a Lula”.
Veja ainda me regalou com a radiografia imparcial do movimentículo paredista da USP, a resenha de Nelson Ascher sobre Hammerstein ou a Obstinação, de Hans Magnus Enzensberger, e o artigo “Empregos secretos”, de J. R. Guzzo. Só faltou, para que a leitura fosse absolutamente perfeita, um daqueles bons ensaios do Reinaldo Azevedo.
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junho 24, 2009
Entre os livros
Descobri o mundo no Gabinete de Leitura Ruy Barbosa. Na primeira visita, à tarde, sem saber como me comportar naquele ambiente sóbrio, silencioso, passei poucos minutos no salão de leitura. Dias depois, por algum motivo – eu teria 13, 14 anos? –, visitei o local à noite: fervilhava. Através de uma portinhola sob a escadaria, servia-se chá e café; os grupos, nas mesas, folheavam jornais e discutiam política; numa saleta ao lado, jogava-se xadrez em meio à neblina dos cigarros. E o melhor: dona Odete, a bibliotecária, permitia que alguns consulentes ultrapassassem o balcão e visitassem o acervo circulante. Logo eu percorria, deslumbrado, milhares de livros.
Eram os tempos da ditadura militar, e as obras de Marx e Lênin, retiradas do acervo, permaneciam fechadas em um armário, na sala da diretoria. Os emedebistas e a esquerda silenciada murmuravam pelos cantos contra o diretor da casa, o advogado Celso Zuchetti, um anticomunista brilhante e mordaz, de quem acabei por me tornar amigo.
No andar superior ficava o salão de estudos e o acervo de pesquisa, comandados pelo velho Daniel, homem simples, boníssimo, que orientava os mais jovens nos estudos. Sentado em sua mesinha, ele batia a sineta quando os sussurros das mesas subiam de tom, fazendo com que voltássemos a ruminar os livros. Numa das extremidades da sala, o retrato a óleo de Rui Barbosa nos observava, altivo como a República Velha.
Passaram-se semanas até que Daniel me franqueasse os livros guardados nas estantes da diretoria: uma Brasiliana completa, dezenas de raridades, luxuosas encadernações de clássicos portugueses – e os comunistas, que ao mero toque queimavam a ponta dos dedos.
Ultrapassei os difíceis anos da adolescência naqueles salões. Protegido pelos livros, ouvindo os debates dos mais velhos, acordando para um novo autor a cada noite, descobri que a idéia de fraternidade nasceu em uma biblioteca. De volta para casa, ao cruzar a rua do Rosário rumo ao sobradinho na Onze de Junho, eu era a minha última versão, sempre melhorada.
Eram os tempos da ditadura militar, e as obras de Marx e Lênin, retiradas do acervo, permaneciam fechadas em um armário, na sala da diretoria. Os emedebistas e a esquerda silenciada murmuravam pelos cantos contra o diretor da casa, o advogado Celso Zuchetti, um anticomunista brilhante e mordaz, de quem acabei por me tornar amigo.
No andar superior ficava o salão de estudos e o acervo de pesquisa, comandados pelo velho Daniel, homem simples, boníssimo, que orientava os mais jovens nos estudos. Sentado em sua mesinha, ele batia a sineta quando os sussurros das mesas subiam de tom, fazendo com que voltássemos a ruminar os livros. Numa das extremidades da sala, o retrato a óleo de Rui Barbosa nos observava, altivo como a República Velha.
Passaram-se semanas até que Daniel me franqueasse os livros guardados nas estantes da diretoria: uma Brasiliana completa, dezenas de raridades, luxuosas encadernações de clássicos portugueses – e os comunistas, que ao mero toque queimavam a ponta dos dedos.
Ultrapassei os difíceis anos da adolescência naqueles salões. Protegido pelos livros, ouvindo os debates dos mais velhos, acordando para um novo autor a cada noite, descobri que a idéia de fraternidade nasceu em uma biblioteca. De volta para casa, ao cruzar a rua do Rosário rumo ao sobradinho na Onze de Junho, eu era a minha última versão, sempre melhorada.
junho 21, 2009
Apartados da tradição
Em dois artigos publicados na Folha de S. Paulo (30 de maio e 13 de junho), Antonio Cicero fala sobre a idolatria do contemporâneo: “O desejo do contemporâneo não passa de sintoma de um agudo provincianismo temporal”.
De fato, quais garantias nos oferecem as obras que ainda não passaram pelo filtro do tempo? Quem olha apenas o presente condena-se ao emburrecimento, pois, na maioria das vezes, nossos contemporâneos – exaltados pela mídia – nada significam, resumindo-se a ecos medíocres da tradição.
Mas como nasce o provincianismo? E por que ele se mostra tão arraigado? O mal principia nos bancos escolares. Uma historinha explicará a afirmação: há alguns meses, jantando na casa de um amigo, pude usufruir da companhia de uma professora de história recém-formada pela USP. A jovem, muito falante, lá pelas tantas – e não pensem que ela abusou do vinho – nos brindou com uma dessas pérolas inesquecíveis: “É impossível não perceber que a filosofia e a arte gregas estão maculadas pela herança desumana da escravidão”. E destrambelhou a repetir velhos, inúteis e carcomidos chavões de esquerda, ao fim dos quais, enredada na sua própria teia, ela já condenara à fogueira Platão, Aristóteles, Sófocles e Ésquilo, absolvendo, para minha surpresa, Aristófanes, pois, outra pérola, “a comédia sempre tem um alto poder contestador”.
Imagino essa garota repetindo suas idiotices, anos a fio, para centenas de crianças e jovens. E, pior, imagino o idiota que, refestelado em sua cátedra, ensina tais absurdos. George Steiner está certo: “A maioria daqueles a quem confiamos nossos filhos na escola secundária, daqueles em quem procuramos orientação e exemplo na universidade, são, em maior ou menor intensidade, gentis coveiros” (in Lições dos Mestres).
Em minhas breves experiências na universidade tínhamos de ler Roland Barthes e Charles Sanders Peirce de joelhos. E ai dos que desviassem os olhos daquelas páginas! O escolhido deste princípio de século é Deleuze. E dentro de alguns anos, quem será o novo bezerro de ouro? Enquanto isso, a Poética e a Retórica de Aristóteles emboloram no setor mais úmido da biblioteca.
Não se trata, contudo, de trocar um guia de cego por outro. Trata-se, sim, de estar aberto a tudo, sem preconceitos – e, em primeiro lugar, ler aqueles que nos antecederam, e cuja obra foi testada por gerações.
Não é o que acontece na universidade. O adjetivo que mais ouvi nos dois cursos de Letras que frequentei foi “superado”. “Fulano está superado”, decretava o arrogante catedrático. “Essa análise está superada”, grunhia a professora. “Como você pode perder tempo com esse autor superado?”, perguntou-me a prosélita do Departamento de Semiótica ao perceber que eu lia Albert Thibaudet. A universidade vive, assim, sob uma censura camuflada, procurando mais catequisar do que abrir consciências. E pobres dos que se afastam do redil! Um longo e doloroso calvário os aguarda, afinal – esse é outro dos chavões que cansei de ouvir –, “precisamos estar inseridos na modernidade”, ou seja, devemos ser cada vez mais provincianos.
A origem do problema, no entanto, é anterior aos cursos universitários. O que dizer de um aluno que termina o ensino médio sem jamais ter lido um poema de Catulo? Que jamais tenha ouvido falar de Heráclito? Pode parecer absurdo pensar nesses nomes quando a escola mal alfabetiza, mas a recente polêmica em torno dos livros adotados nos colégios paulistas mostra o descaso, a ignorância e o desvirtuamento dos responsáveis pela escolha das obras. Eles não são apenas provincianos; são filisteus.
Apartados da tradição, da nossa melhor herança cultural, os jovens podem viver sem grandes problemas – como de fato vivem –, mas terão um número reduzido de instrumentos para lidar com suas dúvidas e seus temores; e, menos sábios, celebrarão a mediocridade todos os dias, certos de viverem no melhor dos mundos.
De fato, quais garantias nos oferecem as obras que ainda não passaram pelo filtro do tempo? Quem olha apenas o presente condena-se ao emburrecimento, pois, na maioria das vezes, nossos contemporâneos – exaltados pela mídia – nada significam, resumindo-se a ecos medíocres da tradição.
Mas como nasce o provincianismo? E por que ele se mostra tão arraigado? O mal principia nos bancos escolares. Uma historinha explicará a afirmação: há alguns meses, jantando na casa de um amigo, pude usufruir da companhia de uma professora de história recém-formada pela USP. A jovem, muito falante, lá pelas tantas – e não pensem que ela abusou do vinho – nos brindou com uma dessas pérolas inesquecíveis: “É impossível não perceber que a filosofia e a arte gregas estão maculadas pela herança desumana da escravidão”. E destrambelhou a repetir velhos, inúteis e carcomidos chavões de esquerda, ao fim dos quais, enredada na sua própria teia, ela já condenara à fogueira Platão, Aristóteles, Sófocles e Ésquilo, absolvendo, para minha surpresa, Aristófanes, pois, outra pérola, “a comédia sempre tem um alto poder contestador”.
Imagino essa garota repetindo suas idiotices, anos a fio, para centenas de crianças e jovens. E, pior, imagino o idiota que, refestelado em sua cátedra, ensina tais absurdos. George Steiner está certo: “A maioria daqueles a quem confiamos nossos filhos na escola secundária, daqueles em quem procuramos orientação e exemplo na universidade, são, em maior ou menor intensidade, gentis coveiros” (in Lições dos Mestres).
Em minhas breves experiências na universidade tínhamos de ler Roland Barthes e Charles Sanders Peirce de joelhos. E ai dos que desviassem os olhos daquelas páginas! O escolhido deste princípio de século é Deleuze. E dentro de alguns anos, quem será o novo bezerro de ouro? Enquanto isso, a Poética e a Retórica de Aristóteles emboloram no setor mais úmido da biblioteca.
Não se trata, contudo, de trocar um guia de cego por outro. Trata-se, sim, de estar aberto a tudo, sem preconceitos – e, em primeiro lugar, ler aqueles que nos antecederam, e cuja obra foi testada por gerações.
Não é o que acontece na universidade. O adjetivo que mais ouvi nos dois cursos de Letras que frequentei foi “superado”. “Fulano está superado”, decretava o arrogante catedrático. “Essa análise está superada”, grunhia a professora. “Como você pode perder tempo com esse autor superado?”, perguntou-me a prosélita do Departamento de Semiótica ao perceber que eu lia Albert Thibaudet. A universidade vive, assim, sob uma censura camuflada, procurando mais catequisar do que abrir consciências. E pobres dos que se afastam do redil! Um longo e doloroso calvário os aguarda, afinal – esse é outro dos chavões que cansei de ouvir –, “precisamos estar inseridos na modernidade”, ou seja, devemos ser cada vez mais provincianos.
A origem do problema, no entanto, é anterior aos cursos universitários. O que dizer de um aluno que termina o ensino médio sem jamais ter lido um poema de Catulo? Que jamais tenha ouvido falar de Heráclito? Pode parecer absurdo pensar nesses nomes quando a escola mal alfabetiza, mas a recente polêmica em torno dos livros adotados nos colégios paulistas mostra o descaso, a ignorância e o desvirtuamento dos responsáveis pela escolha das obras. Eles não são apenas provincianos; são filisteus.
Apartados da tradição, da nossa melhor herança cultural, os jovens podem viver sem grandes problemas – como de fato vivem –, mas terão um número reduzido de instrumentos para lidar com suas dúvidas e seus temores; e, menos sábios, celebrarão a mediocridade todos os dias, certos de viverem no melhor dos mundos.
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junho 20, 2009
Shakespeare, Lampedusa e Vila-Matas
Enrique Vila-Matas resenha o Shakespeare de Giuseppe Tomasi di Lampedusa no Babelia deste sábado. O julgamento de Vila-Matas sobre o encontro desses dois escritores nos conduz ao caráter atemporal da leitura; e não poderia ser diferente:
Sus [de Lampedusa] eruditas y a veces alegres líneas sobre Shakespeare no cesan de comunicarnos que la lectura puede hacernos sentir dueños del tiempo y que ya sólo por eso la pasión de leer debería ser considerada como la más envidiable actividad que hay a este lado del paraíso.
Sus [de Lampedusa] eruditas y a veces alegres líneas sobre Shakespeare no cesan de comunicarnos que la lectura puede hacernos sentir dueños del tiempo y que ya sólo por eso la pasión de leer debería ser considerada como la más envidiable actividad que hay a este lado del paraíso.
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junho 15, 2009
“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.”
Na última edição do Rascunho, escrevi sobre Os desbravadores – uma história mundial da exploração da Terra (Editora Cia. das Letras), do historiador Felipe Fernández-Armesto.
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junho 12, 2009
O abismo de Baudelaire
Dentre os textos de Meu coração desnudado, de Charles Baudelaire, que mais me incomodam, estimulam e divertem está o de número LV:
No amor, como em todos os negócios humanos, o entendimento cordial resulta de um mal-entendido. Esse mal-entendido é o prazer. O homem exclama: – Ó meu anjo! A mulher arrulha: – Mamãe! mamãe! E os dois imbecis estão persuadidos de que pensam de acordo. – O abismo infranqueável, que gera a incomunicabilidade, permanece infranqueado.
Nessa brevíssima meditação, Baudelaire, como bom anti-romântico, coloca o amor entre os “negócios” humanos, despojando-o de qualquer idealização. Depois, diminui a própria possibilidade de os homens se entenderem, visto que, no fundo, todo entendimento “resulta de um mal-entendido”. A seguir, denigre a relação entre homem e mulher, definindo inclusive o prazer como um mal-entendido. Não satisfeito, segue-se o diálogo ridículo, por meio do qual ele espezinha o que ainda resta de esperança em seu leitor, para, no fim, concluir apresentando o veredicto terrível, a condenação do gênero humano à incomunicabilidade.
O julgamento é de um pessimismo atroz, realmente exagerado, chocante. Mas é inegável que, mesmo se não estivermos propensos a concordar com Baudelaire, ele nos faz refletir. Quando chegamos ao ponto final, o espinho já foi enfiado em nossa carne.
Erich Auerbach percebeu bem essa característica, chamando nossa atenção para o fato de que, na obra baudelairiana, “a relação entre amantes – ou, mais precisamente, entre os que estão ligados pela atração sexual – é representada como uma obsessão misturada ao ódio e ao desprezo, um vício que não perde nada de sua força atormentadora e degradante ao ser experimentado em plena (e indefesa) consciência”.
Aliás, o ensaio de Auerbach do qual retirei a citação acima – “As flores do mal e o sublime” (in Ensaios de literatura ocidental) é um exemplo de como alguns leitores reagem a Baudelaire, inebriados por ele “cantar em estilo elevado a ansiedade paralisante”, mas ao mesmo tempo desejando manter distância dessa literatura que, quase sempre, nega a vida. Auerbach consegue analisar a poesia de Baudelaire com isenção, mas percebemos o quanto ela o incomoda. Ele exalta o “uso simbólico do horror realista”, mas repudia a “incompreensão diletante da tradição cristã”, a “desesperança sombria”, as “tentativas absurdas e fúteis de se inebriar e de escapar”.
Creio que a maioria dos leitores guarda o mesmo sentimento em relação a Baudelaire. Ele talvez empolgue os jovens, principalmente os cheios de amargura, os depressivos, os que se consideram incompreendidos. Mas o entusiasmo exagerado não é a melhor das reações possíveis à poesia e à literatura em geral. A empolgação, na verdade, esconde quase sempre o entendimento imperfeito, superficial – e traz, implícita, a necessidade da releitura. O leitor maduro, ainda que, como Auerbach, refute o “emaranhado sem esperança” de Baudelaire, consegue ler sua obra sem preconceito, aceitando que ele deseje inocular em nossas veias o seu veneno, mas preservando a dose de crítica que nos permite fruir a perfeição estética sem, contudo, sermos capturados pelo niilismo.
Minha relação com Baudelaire é exatamente assim. Depois que o leio, um exercício sempre prazeroso, sinto-me novamente expulso do Paraíso, e olho a vida de maneira ainda menos inocente – mas nem por isso deixo de acreditar que alguma forma de diálogo é possível, que o abismo não é de todo infranqueável.
[Falo mais sobre Erich Auerbach e seu Ensaios de literatura ocidental em minha resenha – “O humanista dividido” –, publicada no jornal Rascunho.]
No amor, como em todos os negócios humanos, o entendimento cordial resulta de um mal-entendido. Esse mal-entendido é o prazer. O homem exclama: – Ó meu anjo! A mulher arrulha: – Mamãe! mamãe! E os dois imbecis estão persuadidos de que pensam de acordo. – O abismo infranqueável, que gera a incomunicabilidade, permanece infranqueado.
Nessa brevíssima meditação, Baudelaire, como bom anti-romântico, coloca o amor entre os “negócios” humanos, despojando-o de qualquer idealização. Depois, diminui a própria possibilidade de os homens se entenderem, visto que, no fundo, todo entendimento “resulta de um mal-entendido”. A seguir, denigre a relação entre homem e mulher, definindo inclusive o prazer como um mal-entendido. Não satisfeito, segue-se o diálogo ridículo, por meio do qual ele espezinha o que ainda resta de esperança em seu leitor, para, no fim, concluir apresentando o veredicto terrível, a condenação do gênero humano à incomunicabilidade.
O julgamento é de um pessimismo atroz, realmente exagerado, chocante. Mas é inegável que, mesmo se não estivermos propensos a concordar com Baudelaire, ele nos faz refletir. Quando chegamos ao ponto final, o espinho já foi enfiado em nossa carne.
Erich Auerbach percebeu bem essa característica, chamando nossa atenção para o fato de que, na obra baudelairiana, “a relação entre amantes – ou, mais precisamente, entre os que estão ligados pela atração sexual – é representada como uma obsessão misturada ao ódio e ao desprezo, um vício que não perde nada de sua força atormentadora e degradante ao ser experimentado em plena (e indefesa) consciência”.
Aliás, o ensaio de Auerbach do qual retirei a citação acima – “As flores do mal e o sublime” (in Ensaios de literatura ocidental) é um exemplo de como alguns leitores reagem a Baudelaire, inebriados por ele “cantar em estilo elevado a ansiedade paralisante”, mas ao mesmo tempo desejando manter distância dessa literatura que, quase sempre, nega a vida. Auerbach consegue analisar a poesia de Baudelaire com isenção, mas percebemos o quanto ela o incomoda. Ele exalta o “uso simbólico do horror realista”, mas repudia a “incompreensão diletante da tradição cristã”, a “desesperança sombria”, as “tentativas absurdas e fúteis de se inebriar e de escapar”.
Creio que a maioria dos leitores guarda o mesmo sentimento em relação a Baudelaire. Ele talvez empolgue os jovens, principalmente os cheios de amargura, os depressivos, os que se consideram incompreendidos. Mas o entusiasmo exagerado não é a melhor das reações possíveis à poesia e à literatura em geral. A empolgação, na verdade, esconde quase sempre o entendimento imperfeito, superficial – e traz, implícita, a necessidade da releitura. O leitor maduro, ainda que, como Auerbach, refute o “emaranhado sem esperança” de Baudelaire, consegue ler sua obra sem preconceito, aceitando que ele deseje inocular em nossas veias o seu veneno, mas preservando a dose de crítica que nos permite fruir a perfeição estética sem, contudo, sermos capturados pelo niilismo.
Minha relação com Baudelaire é exatamente assim. Depois que o leio, um exercício sempre prazeroso, sinto-me novamente expulso do Paraíso, e olho a vida de maneira ainda menos inocente – mas nem por isso deixo de acreditar que alguma forma de diálogo é possível, que o abismo não é de todo infranqueável.
[Falo mais sobre Erich Auerbach e seu Ensaios de literatura ocidental em minha resenha – “O humanista dividido” –, publicada no jornal Rascunho.]
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junho 11, 2009
Scheherazade
O rei Šahriyar era um tolo. Que homem, em sã consciência, se deixaria engambelar por uma mulherzinha fútil, faladeira e lamurienta como Šahrazad (ou, se preferirem, Scheherazade)? Duas ou três noites ouvindo historinhas curiosas e intermináveis talvez pudesse ser uma alternativa interessante para alguém que descobriu ser traído pela esposa e sofre, por esse motivo, daquela melancolia típica do corno (mal, aliás, que pode ser perfeita e rapidamente curado, pois ninguém é insubstituível). Mas noites a fio? Santo Deus! Só um idiota – ou um surdo – para suportar tamanha embromação. Šahriyar, infelizmente, não pôde ler “A mulher selvagem e a casquilha”, de Baudelaire. Nesse pequeno poema em prosa, ele aprenderia que, frente a determinadas situações-limite, resta ao homem de bom senso poucas escolhas: enjaular a mulher ou apenas lançá-la janela afora. Por essas e outras razões, sempre que leio o Livro das mil e uma noites tenho a absoluta certeza de que ele foi escrito por uma mulher. Quem mais acreditaria que seu poder de sedução é invencível – ou que alguém pode se dispor a ouvir histórias interminavelmente?
junho 09, 2009
Silêncio
No fundo, tenho dedicado minha vida à busca do silêncio. Recordo-me de sempre desejá-lo. Talvez por isso, na juventude, tenha lido insistentemente são João da Cruz e santa Teresa D’Ávila, esses místicos do deserto carmelita, amantes do silêncio absoluto, no centro do qual arderia a chama da transcendência. Talvez por isso, quando penso no silêncio, a primeira imagem que surge é a da capela do Carmelo em minha cidade natal, onde passei horas, às vezes tardes inteiras, sob a penumbra dos vitrais, orando – ou apenas em silêncio. A outra recordação é a casa de minha avó paterna – ali também o silêncio fluía, era possível vê-lo no olhar de minha avó, sempre à espera, ou na fumaça de seus intermináveis cigarros, enquanto os cachorros dormiam e eu lia.
Morar em São Paulo, contudo, transforma a busca do silêncio em um exercício às vezes torturante. Em certos dias, para se ter paz, é preciso ouvir os quartetos de cordas de Beethoven no último volume, a fim de – literalmente – derrotar o ruído.
Não enlouquecerei como o personagem de Antonio Di Benedetto em O silencieiro, mas parece-me evidente que o ruído se tornou uma das principais características da nossa cultura – e que a maioria das pessoas não suporta o silêncio. Mais do que um produto de consumo, como diz George Steiner, o ruído é hoje uma imposição, uma categoria inseparável do viver – uma arbitrariedade.
Morar em São Paulo, contudo, transforma a busca do silêncio em um exercício às vezes torturante. Em certos dias, para se ter paz, é preciso ouvir os quartetos de cordas de Beethoven no último volume, a fim de – literalmente – derrotar o ruído.
Não enlouquecerei como o personagem de Antonio Di Benedetto em O silencieiro, mas parece-me evidente que o ruído se tornou uma das principais características da nossa cultura – e que a maioria das pessoas não suporta o silêncio. Mais do que um produto de consumo, como diz George Steiner, o ruído é hoje uma imposição, uma categoria inseparável do viver – uma arbitrariedade.
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junho 06, 2009
No centenário do nascimento de Isaiah Berlin

Michael Ignatieff encerra sua biografia de Isaiah Berlin (6 de junho de 1909 - 5 de novembro de 1997) com uma frase que sintetiza não apenas a vida desse notável filósofo, mas também o que ele representa para toda uma geração de pensadores: “Num século escuro, Berlin mostrou o que deve ser uma vida da mente: cética, irônica, desapaixonada e livre”. Erguer-se acima das mazelas humanas, agitando, a cada pensamento, a cada ensaio, a cada aula, essas quatro bandeiras – e fazê-lo em uma época marcada por duas guerras mundiais e por ditaduras que, em nome de conduzir o mundo ao Paraíso, assassinaram milhões de pessoas – representa uma trabalho invejável.
Não me recordo qual foi o primeiro texto de Berlin que li, mas fui imediatamente fisgado por sua retórica “precipitada”, por seu estilo deliciosamente professoral, com uma lógica que não é fria, mas aberta ao gracejo, à ironia, e acima de tudo incansável na argumentação, com exemplos que vão se interligando em longos e sedutores parágrafos.
Sempre que leio Berlin imagino o que seria ouvi-lo durante uma aula, como seria dialogar com ele, vendo a linha de seu raciocínio nascer em meio aos gestos, ao movimento dos olhos, à agitação do corpo que se empolga – ou seja, viver o que Ignatieff descreve: “ser arrastado ao salão de sua mente”.
De qualquer forma, estou fadado a experimentar apenas parcela dessa sedução, quando leio seus ensaios. É um consolo, sem dúvida.
Sempre que releio “A busca do ideal” (in Estudos sobre a humanidade), por exemplo, deixo, prazerosamente, que ele me conduza de uma primeira visão geral sobre a história humana no século XX para o seu próprio percurso intelectual, convencido, como ele, de que esse é um processo de constante negação da barbárie, pois “somente os bárbaros”, diz Berlin, “não são curiosos sobre o lugar de onde vêm, como chegaram aonde estão, para onde parecem estar indo, se desejam ir para esse lugar, em caso positivo, por quê, em caso negativo, por que não”.
Passo a passo ele revisita todas as ilusões do pensamento, do ideal platônico ao marxismo, todos esses castelos construídos no ar, que insistem em nos dizer que um dia a razão triunfará definitivamente, dando início a uma era de cooperação e harmonia universal, a “história verdadeira”.
Depois, ele nos mostra como acordou – o lento despertar rumo ao “senso de realidade”: Maquiavel, Vico, Herder –, até atingir sua visão pluralista (e jamais relativista; como, aliás, ele insiste em sublinhar). Um pluralismo despojado de qualquer utopia, firmado na realidade, segundo o qual “um mundo sem conflitos de valores incompatíveis é um mundo completamente além de nosso conhecimento”.
Trata-se de uma visão dura, sem dúvida. Mas absolutamente lúcida. Berlin não se permite “descansar na cama confortável dos dogmas” ou ser “vítima de uma miopia auto-induzida”. Não. Jamais haverá uma solução final para o homem, pois uma sociedade sem problemas – ou um planeta sem problemas, sem divisões – é uma sociedade “em que a vida interior do homem, a imaginação moral, espiritual e estética, já não diz nada”.
E antes que nos perguntemos o que o homem pode fazer, então, diante da realidade injusta, insatisfatória, constantemente fendida, ele nos responde: “O melhor que podemos fazer é manter um equilíbrio precário que impeça a ocorrência de situações desesperadas, de escolhas intoleráveis”.
Esse é Berlin: o olhar aberto ao real, sem jamais aceitar qualquer véu que edulcore a nossa fragilidade. Nosso “equilíbrio inquieto” está “sob constante ameaça e em constante necessidade de reparo”, ele afirma. E não há como escapar: “A situação concreta é quase tudo” e “o risco moral às vezes não pode ser evitado”. Só essa verdade nos livra da embriaguez ideológica. E só ela nos move à negociação perene com os outros homens, à urgência de estarmos continuamente reinventando o diálogo, a “intercomunicação entre as culturas”.
Isso não quer dizer, no entanto, que devemos abdicar de certos bens incontestáveis, como a liberdade, a justiça, a procura de felicidade, a probidade, o amor. Berlin é claro: “Devemos buscar esses direitos e proteger as pessoas contra aqueles que os ignoram ou recusam em admiti-los; e quando o diálogo se torna impossível, podemos, então, nos sentir impelidos a guerrear com eles. Mas é necessário sempre tentar convencê-los”.
Àqueles que estão em busca de absolutos, o pensamento de Berlin parecerá decepcionante. Mas aqueles abertos à construção do “equilíbrio difícil”, esses sabem que viver significa nem sempre conseguir evitar escolhas penosas e soluções imperfeitas; que a razão não é um instrumento plenamente eficaz; e que nossas escolhas não são imbatíveis ou incontestáveis. Na verdade, a história já demonstrou que “a busca da perfeição é a receita para o derramamento de sangue”.
O pensamento de Berlin, portanto, não propõe uma receita infalível para se chegar à verdade. Ao contrário, é um incansável convite ao inseguro exercício da liberdade.
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junho 05, 2009
Os melhores dias
As manhãs frias lembram-me a infância. São recordações intensas, vívidas. Assim que desperto e começo a me levantar, vejo-me criança, colocando o uniforme no quarto ainda escuro e sentindo o impacto dos tecidos gelados contra a pele. Esse desconforto, no entanto, dura pouco. Eu me lavava com prazer na água que parecia quebrar entre os dedos, e a cada golpe do líquido no rosto, uma sensação de revigoramento me invadia, como se o choque de temperaturas expulsasse para sempre a morbidez noturna. Minha mãe esperava-me na cozinha, o café sobre a mesa. E enquanto ela tremia, eu já me tornara elétrico, alerta, falante. Poucos minutos depois, caminhava na 11 de Junho, observando as calçadas cobertas de orvalho, o verde das árvores impregnado de um brilho mais puro, e percebendo, a cada passo, a suave cumplicidade do sol. O verão desaparecera. Toda a natureza refreara seus ímpetos e eu não tinha de vencer o mormaço que embotava meu cérebro. Era uma alegria cruzar o jardim público vendo a massa encapotada de crianças e jovens, aquele mar azul-marinho de cabeças inclinadas sob o frio, enquanto eu me sentia renascer, pronto a qualquer aventura. Tudo se revestia de uma beleza nova, incluindo as meninas, obrigadas a usar a saia do uniforme, trêmulas e adoravelmente frágeis apesar das meias de lã e dos capotes. Olho pela janela as pessoas lá embaixo, centenas de agasalhos multicoloridos movendo-se na direção do metrô, e meu impulso é estar entre elas, deixando que o frio afague meu rosto, seguindo, alegre, movido pela urgência da fuga, rumo aos melhores dias da infância.
maio 30, 2009
Clube dos colecionadores de figurinhas do sabonete Eucalol

Analisando os comentários do post abaixo – e agradeço aos comentaristas que aceitaram participar do debate –, vejo que ao menos em um ponto a maioria concorda: repete-se, entre nós, o hábito de entender a crítica literária como ofensa pessoal. E quando isso ocorre, a reação é sempre a mesma: desqualificar o crítico, muitas vezes de maneira injuriosa.
A outra face da moeda – representada pelo crítico servil ou pelos resenhistas (muitos deles também escritores) que se especializaram nos elogios mútuos – é, assim, o complemento perfeito, adequado, à realidade promíscua que caracteriza, em grande parte, a vida literária brasileira.
O escritor e tradutor Francisco Carlos Lopes – autor de Nó de sombras e Dobras da noite (ambos publicados pelo Instituto Moreira Salles) – defende uma tese curiosa sobre todos esses fenômenos, tese que poderia ser resumida em um só pensamento: a relação de compadrio, presente na política desde sempre, também corrompeu a literatura.
O longo comentário de Chico Lopes – enviado por e-mail na última quinta-feira –, que, com autorização do escritor, reproduzo abaixo, é um exercício de lucidez, de grande honestidade:
Rodrigo:
[...]
Em todo caso, o que queria dizer é que esse negócio de não poder julgar os trabalhos de amigos escritores com isenção, em termos puramente literários, é uma miséria tipicamente brasileira (outra delas). Deriva do espírito de "patota", que é inevitável entre nós, e que faz com que a literatura, tão minoritária, tão "clube dos colecionadores de figurinhas do sabonete Eucalol" em termos numéricos e expressivos na inculta sociedade brasileira, se componha de gente excêntrica cujo único motivo para existir é uma vaidade renitente.
Ora, tendo este como único motivo, na verdade, cumpre manter o compadrismo, não ofender ninguém, ser um sujeito sempre simpático, prestativo, generoso, nada crítico.
Não há, na verdade, clima para discussões estritamente literárias e estéticas e vontade de aperfeiçoar nada por esse lado. Aperfeiçoa-se, isto sim, as relações, como se beneficiar (e até de maneiras extra-literárias) delas, como chegar a editores e gente mais famosa etc. e aperfeiçoa-se a arte de nada dizer que possa afetar ilusões compartilhadas.
O sujeito que insistir nisso – na crítica, desprovida de "amizade" por amor à crítica, à mera verdade – será visto como antipático, discriminado e, se não for excluído do clubinho, será ao menos um membro muito evitado e pouco convidado, digamos...
Porque, na verdade, a Literatura aí, como arte que se depura, interessa pouquíssimo. E fica proibido, como em outros clubes de outras finalidades, que se toque em temas-tabu – já que a estrutura é tão frágil, a coisa tão presunçosa e baseada em tão voláteis famas e tão poucos talentos reais, que a verdade pode pôr tudo abaixo facilmente, e aquele que ousou proferi-la será odiado.
O que você disse é verdade – a festa é pequena e os dançarinos são poucos, e é feio ser muito exigente, quando se está em minoria – é preciso ser, acima de tudo, solidário e compassivo, não apresentar critérios ou requisitos de qualidade muito rígidos, levando em conta que todo mundo dança mais ou menos mal ou é francamente capenga.
A gente, por educação, consideração e, em não raros casos, compaixão, se abstém de dizer o óbvio – que o livro que Fulano nos mandou, na esperança de uma força, é medíocre ou precisaria passar por muita purgação e reescritura para se tornar melhor ou apenas digno de consideração.
Já passei muito por isso, cometi vários pecados de bondade ou complacência, ganhando amizades que passavam, então, a ter precisamente o tabu supracitado: nada de dizer a verdade sobre o trabalho do amigo, que ele tinha que ser mais humilde, se aperfeiçoar, escrever melhor, ouvir críticas. Um dia, porém, a complacência acaba, alguma coisa mais real se ventila, e tudo vai por água abaixo, já que o narcisismo primário que preside esses clubinhos é implacável, nesses momentos. Tudo acaba em carrancas, diz-que, diz-que, nas intrigas mais baixas, com os vaidosinhos se digladiando e propagando venenos e escrotidões. O reino da verdade acaba, por pura perversão, sendo o reino da realidade recalcada, o terreno minado onde ninguém de bom-tom deveria ter pisado...
Então acontece, com frequência fatal, que o sujeito mais verdadeiro se esquive voluntariamente, fique mais insociável, digamos, mais eremita, para evitar ser mal-educado ou simplesmente autêntico, mas seus escrúpulos serão mal compreendidos e isso acabará por ser tomado como arrogância.
O que se pretende é abolir toda e qualquer hierarquia de qualidade em nome de uma solidariedade grupal muito falsa e eufórica. O que se pretende é que a música continue tocando e os dançarinos, bons, ruins, chinfrins, proibidos de serem refinados e exigentes, continuem dançando.
O sujeito mais consciente, que se absteve de entrar na dança e segue mudo, é um desmancha-prazer, um chato ressentido, nada mais que isso...
Não somos, brasileiros dados a escritores, digamos, amigos da severidade, da análise, da tarefa óbvia de separar joio do trigo. Não queremos ser desmentidos em nossas ilusões, queremos euforias, números falsos, estímulos, festinhas, beijos, abraços, elogios, nada mais que foguetório...
Por isso é tão difícil lidar com isso – porque apela-se mais para o talento de festeiro e mentiroso, compadre e sujeito simpático, que para a qualificação real. Não há jeito...O sujeito dotado de lucidez e espírito crítico acabará fora do baile.
Era o que eu queria dizer.
Abraços e parabéns.
Chico Lopes
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maio 27, 2009
Reflexões sobre a crítica literária

Há alguns dias, respondendo ao e-mail de um amigo, no qual ele fazia comentários sobre minhas resenhas no Rascunho, escrevi que esse era um trabalho nem sempre agradável. E por uma simples razão: muitas vezes, a honestidade me obrigava a fazer críticas desfavoráveis.
À parte o fato de meus juízos estarem ou não corretos, o que apenas o tempo poderá dizer – e a história da crítica está pontilhada de erros e acertos, estes últimos em maioria –, quando, depois de ler certa obra, vejo-me obrigado a mostrar incongruências e desatinos, ajo assim sem qualquer prazer. Na verdade, sou tomado de certo mal-estar, pois, se há uma pulsão que move meu trabalho, é a de apontar acertos. Ao contrário do que muitos pensam, duvido que algum crítico seja movido por uma pulsão sádica.
Na verdade, os autores brasileiros não estão acostumados a receber críticas. Do que leio na mídia, percebo que a crítica desfavorável é, muitas vezes, escrita de forma velada, protegida sob uma terminologia praticamente hermética, como se, ao dissimular seu julgamento, o crítico pretendesse não se comprometer ou não fazer inimigos. Outra prática comum entre nós é a de considerar bom o que é apenas razoável ou medíocre. Alguns escritores, certamente, ficam satisfeitos – e o suposto crítico ganha amigos e fama. Esse tipo de celebridade, contudo, mostra apenas o quanto a perversão atingiu a literatura, a vida intelectual.
De minha parte, se considero um livro ruim, afirmo claramente o que penso. Por que haveria de fazer concessões? Por que haveria de tratar como gênio quem é somente mediano? Gotthold Lessing (na ilustração acima) tinha um pensamento apropriado sobre o assunto: “Em uma competição de coxos, o primeiro que chega ao final continua sendo coxo, apesar de tudo”.
Para Marcel Reich-Ranicki, os críticos atuam como porteiros de um baile, devendo introduzir um pouco de ordem na festa e, sobretudo, rechaçar, logo na entrada, os charlatães e os incapazes, a fim de deixar mais espaço no salão para os bons dançarinos. O pensamento de Ranicki, um dos críticos que mais aprecio, serve, no entanto, à realidade alemã. Em um país subdesenvolvido, onde a leitura não é um hábito, as edições raras vezes superam os dois mil exemplares e grande parte da população não ultrapassa a linha do analfabetismo funcional, o papel do crítico não é o de ser porteiro do baile. Simplesmente porque o salão está quase vazio e a orquestra toca, sem entusiasmo, para poucos dançarinos.
Quem faz crítica literária neste país, deveria trocar idéias, de maneira didática e sincera, com a minoria iluminada que se interessa pelo assunto, tentando formar consciências para uma verdade simples: em literatura, exatamente como acontece nos demais espaços da vida, há o ótimo, o bom, o medíocre e o ruim.
O baile, portanto, ainda está aberto a todos. Mas não há nada de errado em se aproximar de um dançarino e dizer: “Meu caro, você precisa treinar mais” ou “Meu amigo, você é um desastre”.
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maio 25, 2009
maio 22, 2009
Arnaldo Cohen e o “revolucionário conservador”
Pude ouvir a Osesp em duas oportunidades este mês, ambas com a regência de Claus Peter Flor, atualmente ocupando o cargo de diretor artístico da Orquestra Filarmônica da Malásia. Foram apresentações completamente díspares – e surpreendentes.
Em Noite transfigurada, de Arnold Schoenberg, Peter Flor conseguiu recriar o clima intimista, noturno do poema de Richard Dehmel. Seguindo o delicado continuum de cordas, experimentamos o encontro, a revelação da culpa e o generoso perdão do enamorado – ou seja, o triunfo do amor. Também ouvimos, de Felix Mendelssohn-Bartholdy, a Sinfonia nº 2 em Si Bemol maior, Op. 52. Não sou fã de Mendelssohn, um compositor, em minha opinião, apenas elegante. Mas foi impossível não ser contagiado pelo coro da Osesp e, principalmente, pela soprano Christina Landshamer, a melhor surpresa da noite: voz límpida, com uma sonoridade que em nenhum momento soou áspera ou cortante.
Mas Peter Flor reservava momentos ainda melhores. Ontem, fui surpreendido pela Sinfonia nº 2 em dó menor, Op. 27 de Josef Suk, um compositor desconhecido para mim. Conversando com Lauro Machado Coelho, ele me alertou: que eu estivesse preparado para fortes emoções, pois a sinfonia nascera do impacto de duas mortes – a de Dvorák, mestre de Suk, e a de Otilie Dvoráková, filha de Dvorák e esposa de Suk –, e o compositor havia concentrado nos cinco movimentos o absurdo de perder as pessoas que amava, o desespero, a revolta e, por fim, a resignada superação do luto. É, de fato, música espantosa, capaz de nos levar da indignação ao compartilhamento da dor.
Minha expectativa, no entanto, concentrava-se, desde o início da temporada, no Concerto nº 1 para piano, de Brahms. Passei os últimos dias ouvindo novamente as gravações que tenho aqui, com Arthur Rubinstein, Maurizio Pollini e Claudio Arrau, tentando captar as diferenças de interpretação, principalmente no adágio, o movimento que mais aprecio. Ontem, no entanto, ao ouvir Arnaldo Cohen, todas as nuanças desapareceram – e pude reviver o que já experimentara no ano passado, quando ouvi Cohen no Quinteto em fá menor de Brahms: ele é de uma virtuosidade, de um talento deslumbrante (e não há qualquer exagero neste adjetivo). Foi uma experiência inesquecível vê-lo, durante o concerto, trocar sorrisos com Peter Flor, demonstrando a perfeita unidade a que chegaram. E fiz questão de, na saída, cumprimentar Cohen e, principalmente, agradecer-lhe pela oportunidade de ouvir um pianista extraordinário interpretando meu compositor favorito: o “revolucionário conservador” Brahms.
Em Noite transfigurada, de Arnold Schoenberg, Peter Flor conseguiu recriar o clima intimista, noturno do poema de Richard Dehmel. Seguindo o delicado continuum de cordas, experimentamos o encontro, a revelação da culpa e o generoso perdão do enamorado – ou seja, o triunfo do amor. Também ouvimos, de Felix Mendelssohn-Bartholdy, a Sinfonia nº 2 em Si Bemol maior, Op. 52. Não sou fã de Mendelssohn, um compositor, em minha opinião, apenas elegante. Mas foi impossível não ser contagiado pelo coro da Osesp e, principalmente, pela soprano Christina Landshamer, a melhor surpresa da noite: voz límpida, com uma sonoridade que em nenhum momento soou áspera ou cortante.
Mas Peter Flor reservava momentos ainda melhores. Ontem, fui surpreendido pela Sinfonia nº 2 em dó menor, Op. 27 de Josef Suk, um compositor desconhecido para mim. Conversando com Lauro Machado Coelho, ele me alertou: que eu estivesse preparado para fortes emoções, pois a sinfonia nascera do impacto de duas mortes – a de Dvorák, mestre de Suk, e a de Otilie Dvoráková, filha de Dvorák e esposa de Suk –, e o compositor havia concentrado nos cinco movimentos o absurdo de perder as pessoas que amava, o desespero, a revolta e, por fim, a resignada superação do luto. É, de fato, música espantosa, capaz de nos levar da indignação ao compartilhamento da dor.
Minha expectativa, no entanto, concentrava-se, desde o início da temporada, no Concerto nº 1 para piano, de Brahms. Passei os últimos dias ouvindo novamente as gravações que tenho aqui, com Arthur Rubinstein, Maurizio Pollini e Claudio Arrau, tentando captar as diferenças de interpretação, principalmente no adágio, o movimento que mais aprecio. Ontem, no entanto, ao ouvir Arnaldo Cohen, todas as nuanças desapareceram – e pude reviver o que já experimentara no ano passado, quando ouvi Cohen no Quinteto em fá menor de Brahms: ele é de uma virtuosidade, de um talento deslumbrante (e não há qualquer exagero neste adjetivo). Foi uma experiência inesquecível vê-lo, durante o concerto, trocar sorrisos com Peter Flor, demonstrando a perfeita unidade a que chegaram. E fiz questão de, na saída, cumprimentar Cohen e, principalmente, agradecer-lhe pela oportunidade de ouvir um pianista extraordinário interpretando meu compositor favorito: o “revolucionário conservador” Brahms.
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maio 20, 2009
Liberal, didático, sensato
Neoliberal, não. Liberal é um livro despretensioso – mas obrigatório. Seu autor, o jornalista Carlos Alberto Sardenberg, reuniu nesse volume textos didáticos que jamais apelam a simplismos e não abrem mão da defesa dos valores liberais. E o que poderia ser melhor em um país no qual as leis imobilizam o mercado e a livre concorrência, onde o governo conseguiu a proeza de criar uma nova ideologia, o “neoliberalismo de esquerda fisiológico”? A irônica definição não é minha, mas de Sardenberg.
Com linguagem direta, clara, o livro traz aulas que se opõem, saudavelmente, ao socialismo, ideologia tão em voga neste país, mostrando que tal bandeira – “acabada, destruída como realidade e utopia” – serve apenas à demagogia e ao populismo. Artimanhas nas quais, aliás, o partido hoje no poder se esmerou, treinando nos palanques e nos sindicatos por décadas.
Um dos melhores textos do livro, “Adam Smith vive aqui”, explica como a busca dos próprios interesses e da satisfação das necessidades pessoais pode gerar riqueza para o empreendedor e à comunidade. Sardenberg parte de um exemplo colhido nas favelas de São Paulo, onde certa moradora, sensível e inteligente, sem esperar por benesses governamentais, montou uma lan house na cozinha de sua casa. Esse tipo de história, no entanto, não agrada aos defensores da caridade feita com dinheiro público. Para eles, o Programa Bolsa Família não é uma escola de imobilismo, não é a forma cínica de garantir eleitorado fiel e cego, mas trata-se de um passo a mais na direção do socialismo tupiniquim. Sardenberg, no entanto, expressa lucidez sobre a questão e sintetiza: “Um modelo econômico que fornece educação de qualidade e gera empregos não precisa dar comida, pois fornece às pessoas meios mais eficientes e duradouros”.
Em “Quinze anos com a mesma política econômica”, o jornalista nos oferece boa retrospectiva do período FHC–Lula. Sardenberg não doura a pílula, escreve com imparcialidade, sem maniqueísmos, mostrando de que maneira um conjunto de fatores provocou a virada estratégica da economia brasileira – e como as mudanças de discurso do PT sempre obedeceram a interesses eleitoreiros.
Mas Sardenberg não escreve apenas sobre economia e política. Sua visão de uma sociedade realmente liberal, que ele expõe ao tratar dos acidentes de trânsito e da proibição da venda de bebidas alcoólicas nas rodovias, defende a liberdade de consumo, o direito individual, e, ao mesmo tempo, punições que “desabem sobre o indivíduo que desrespeitou a lei e prejudicou os outros”. Ou seja, exatamente o contrário do que temos no Brasil, onde viceja “um conjunto de arbitrariedades ineficientes”.
A escrita de Sardenberg traz o mesmo estilo que ele tem imprimido, há algumas semanas, ao Jornal das Dez, no Canal Globo News: nenhuma histrionice, nada de trejeitos exagerados, gesticulação exaltada ou bruscas modulações de voz – características, aliás, que sobram em alguns apresentadores daquele noticioso. Sardenberg, ao contrário, transpira equilíbrio, sensatez.
Sem usar subterfúgios, as teses de Neoliberal, não. Liberal desagradam, com certeza, aos esquerdistas. E exatamente por esse motivo estão imbuídas de um profundo sentido de realidade.
Com linguagem direta, clara, o livro traz aulas que se opõem, saudavelmente, ao socialismo, ideologia tão em voga neste país, mostrando que tal bandeira – “acabada, destruída como realidade e utopia” – serve apenas à demagogia e ao populismo. Artimanhas nas quais, aliás, o partido hoje no poder se esmerou, treinando nos palanques e nos sindicatos por décadas.
Um dos melhores textos do livro, “Adam Smith vive aqui”, explica como a busca dos próprios interesses e da satisfação das necessidades pessoais pode gerar riqueza para o empreendedor e à comunidade. Sardenberg parte de um exemplo colhido nas favelas de São Paulo, onde certa moradora, sensível e inteligente, sem esperar por benesses governamentais, montou uma lan house na cozinha de sua casa. Esse tipo de história, no entanto, não agrada aos defensores da caridade feita com dinheiro público. Para eles, o Programa Bolsa Família não é uma escola de imobilismo, não é a forma cínica de garantir eleitorado fiel e cego, mas trata-se de um passo a mais na direção do socialismo tupiniquim. Sardenberg, no entanto, expressa lucidez sobre a questão e sintetiza: “Um modelo econômico que fornece educação de qualidade e gera empregos não precisa dar comida, pois fornece às pessoas meios mais eficientes e duradouros”.
Em “Quinze anos com a mesma política econômica”, o jornalista nos oferece boa retrospectiva do período FHC–Lula. Sardenberg não doura a pílula, escreve com imparcialidade, sem maniqueísmos, mostrando de que maneira um conjunto de fatores provocou a virada estratégica da economia brasileira – e como as mudanças de discurso do PT sempre obedeceram a interesses eleitoreiros.
Mas Sardenberg não escreve apenas sobre economia e política. Sua visão de uma sociedade realmente liberal, que ele expõe ao tratar dos acidentes de trânsito e da proibição da venda de bebidas alcoólicas nas rodovias, defende a liberdade de consumo, o direito individual, e, ao mesmo tempo, punições que “desabem sobre o indivíduo que desrespeitou a lei e prejudicou os outros”. Ou seja, exatamente o contrário do que temos no Brasil, onde viceja “um conjunto de arbitrariedades ineficientes”.
A escrita de Sardenberg traz o mesmo estilo que ele tem imprimido, há algumas semanas, ao Jornal das Dez, no Canal Globo News: nenhuma histrionice, nada de trejeitos exagerados, gesticulação exaltada ou bruscas modulações de voz – características, aliás, que sobram em alguns apresentadores daquele noticioso. Sardenberg, ao contrário, transpira equilíbrio, sensatez.
Sem usar subterfúgios, as teses de Neoliberal, não. Liberal desagradam, com certeza, aos esquerdistas. E exatamente por esse motivo estão imbuídas de um profundo sentido de realidade.
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maio 13, 2009
Arquivo Maaravi
Minha resenha sobre Jó – romance de um homem simples, de Joseph Roth, acaba de ser publicada no nº 4 da Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos (da Universidade Federal de Minas Gerais).
Convidado pela Profª Lyslei Nascimento, editora da publicação, enviei o texto de pronto, afinal, são pouquíssimas as revistas que apresentam uma proposta editorial tão sedutora.
O nome, Maaravi, vem de Kotel haMaaravi – o Muro Ocidental ou das Lamentações, em Jerusalém. Ruína do Templo destruído pelos romanos, o muro testemunhou séculos de história, transformando-se em um arquivo da memória judaica. Ali, os fiéis inserem, nas fendas entre as pedras, pequenos pedaços de papel com pedidos e orações.
Mas deixo vocês com o texto de apresentação da revista. Ele tem uma eloqüência contagiante:
Esse arquivo de pedras é um lugar de culto e de adoração. Os judeus ortodoxos, com seus trajes e chapéus negros, movimentam o corpo e movem seus lábios em orações diante dele. Os jovens soldados israelenses fazem ali seu voto de amor à pátria. Pais e filhos renovam, ano após ano, sua aliança com o Eterno. O Templo, que sobrevive metonimicamente nessa parede, é a casa do Messias, a promessa da construção do terceiro Templo e do corpo judaico que foi disperso nas diásporas e exílios.
Tal qual o Muro Ocidental, onde os textos são inseridos nas fendas, a Arquivo Maaravi – Revista Digital de Estudos Judaicos – espera acolher trabalhos de escritores e artistas que se dedicam aos Estudos Judaicos desde o Ocidente até o Oriente.
A proposta da revista, que passa pela concepção da tradição judaica com seu léxico, procedimentos e temas, como um arquivo aberto, ou como a Biblioteca de Borges, não é aqui concebido como o acúmulo de documentos inertes de um passado perdido ou como um testemunho petrificado de uma identidade perdida.
O arquivo da cultura judaica, que aqui tomamos através da metáfora do Kotel, espera lidar com o passado como estrelas próximas, ou muito longínquas, arcaicas até, que vêm até nós através de um certo rastro luminoso, ou, com o presente e o futuro, que podem se apresentar em todo o seu fulgor através de vestígios, como queria Walter Benjamin.
Entre a lembrança e o esquecimento, o arquivo judaico não poderá, assim, ser analisado, descrito ou reinventado a partir de uma obsessão milimétrica, mas a partir de fragmentos, regiões, níveis. Composto por diferentes obras, o arquivo judaico perpassa, onipresente, livros dispersos, delineando uma rede de textos que pertencem a uma tradição de autores que se conhecem ou se ignoram, estabelecendo conexões as mais inusitadas; autores que se criticam, invalidam-se uns aos outros, plagiam-se e, ao mesmo tempo, a despeito de suas vontades, reencontram-se, às vezes sem saber, no território de papel da literatura ou no campo plástico da arte.
Convidado pela Profª Lyslei Nascimento, editora da publicação, enviei o texto de pronto, afinal, são pouquíssimas as revistas que apresentam uma proposta editorial tão sedutora.
O nome, Maaravi, vem de Kotel haMaaravi – o Muro Ocidental ou das Lamentações, em Jerusalém. Ruína do Templo destruído pelos romanos, o muro testemunhou séculos de história, transformando-se em um arquivo da memória judaica. Ali, os fiéis inserem, nas fendas entre as pedras, pequenos pedaços de papel com pedidos e orações.
Mas deixo vocês com o texto de apresentação da revista. Ele tem uma eloqüência contagiante:
Esse arquivo de pedras é um lugar de culto e de adoração. Os judeus ortodoxos, com seus trajes e chapéus negros, movimentam o corpo e movem seus lábios em orações diante dele. Os jovens soldados israelenses fazem ali seu voto de amor à pátria. Pais e filhos renovam, ano após ano, sua aliança com o Eterno. O Templo, que sobrevive metonimicamente nessa parede, é a casa do Messias, a promessa da construção do terceiro Templo e do corpo judaico que foi disperso nas diásporas e exílios.
Tal qual o Muro Ocidental, onde os textos são inseridos nas fendas, a Arquivo Maaravi – Revista Digital de Estudos Judaicos – espera acolher trabalhos de escritores e artistas que se dedicam aos Estudos Judaicos desde o Ocidente até o Oriente.
A proposta da revista, que passa pela concepção da tradição judaica com seu léxico, procedimentos e temas, como um arquivo aberto, ou como a Biblioteca de Borges, não é aqui concebido como o acúmulo de documentos inertes de um passado perdido ou como um testemunho petrificado de uma identidade perdida.
O arquivo da cultura judaica, que aqui tomamos através da metáfora do Kotel, espera lidar com o passado como estrelas próximas, ou muito longínquas, arcaicas até, que vêm até nós através de um certo rastro luminoso, ou, com o presente e o futuro, que podem se apresentar em todo o seu fulgor através de vestígios, como queria Walter Benjamin.
Entre a lembrança e o esquecimento, o arquivo judaico não poderá, assim, ser analisado, descrito ou reinventado a partir de uma obsessão milimétrica, mas a partir de fragmentos, regiões, níveis. Composto por diferentes obras, o arquivo judaico perpassa, onipresente, livros dispersos, delineando uma rede de textos que pertencem a uma tradição de autores que se conhecem ou se ignoram, estabelecendo conexões as mais inusitadas; autores que se criticam, invalidam-se uns aos outros, plagiam-se e, ao mesmo tempo, a despeito de suas vontades, reencontram-se, às vezes sem saber, no território de papel da literatura ou no campo plástico da arte.
maio 11, 2009
George Steiner e David Hume
Há poucos meses, uma declaração de George Steiner provocou polêmica na Europa. Steiner teria dito que “é muito fácil sentar-se aqui, nesta casa, e dizer: ‘– O racismo é horrível!’. Mas pergunte-me o mesmo se uma família de jamaicanos se mudar para a casa ao lado com seis filhos que escutam reggae e rock and roll o dia inteiro [...]”. O grande ensaísta terminava a afirmação salientando o fato de que, caso tal família se tornasse sua vizinha, seu próprio imóvel perderia, com certeza, grande parte do valor.
Vivendo sob o império do politicamente correto, Steiner foi acusado, é claro, de racismo. Os intelectuais de esquerda ficariam felizes se ele tivesse dito que, no caso de um dia ter vizinhos desse tipo, se submeteria de bom grado à barulheira, recusando o direito de desfrutar do silêncio em nome de viver uma inusitada experiência multicultural. E que, quando fosse avisado sobre a deterioração do valor de seu imóvel, o transformaria, com prazer, num abrigo para imigrantes desempregados.
São tempos estranhos e inseguros os nossos, pois, segundo a opinião de muitos, deveríamos nos dar por felizes quando temos o bem-estar e o silêncio violentados – ou quando a propriedade que adquirimos com imensos sacrifícios é desvalorizada da noite para o dia. No entanto, sabemos que todo o problema nasceu do exemplo citado por Steiner: se, no lugar de “jamaicanos”, tivesse dito “portugueses” ou “austríacos”, sem citar nenhum estilo de música em especial, poucos reclamariam.
David Hume não sofria esse tipo de patrulhamento. Em seu ensaio Da simplicidade e do requinte na maneira de escrever pôde afirmar, sem receio, que “os gracejos de um aguadeiro, as observações de um camponês e a linguagem confusa de um carregador ou de um cocheiro de praça são coisas naturais e desagradáveis, simultaneamente”. O exemplo não foi gratuito. Hume o utiliza para defender uma tese simples: a literatura que apenas reproduz a realidade, que é uma cópia fiel do real, é, no mínimo, insípida.
Ele também critica o oposto: os escritores que recorrem a ornamentos estilísticos quando o assunto de que tratam não comporta tais maneirismos. Buscando um “meio termo justo entre os excessos de requinte e de simplicidade”, ele afirma, no entanto, “ser difícil, senão impossível, explicar por palavras” como chegar a tal equilíbrio. Mas salienta que o “exagero do requinte, além de ser o extremo menos ‘belo’, é o mais ‘perigoso’”.
Suspeito, entretanto, que o filósofo escreveria de outra forma se vivesse hoje no Brasil. Imagino-o suplicando aos escritores para que parassem de escrever como aguadeiros, camponeses, carregadores e cocheiros. E, repetindo novamente a lição de Joseph Addison, diria: “Escrevam com sentimentos naturais, mas que não sejam óbvios”.
Vivendo sob o império do politicamente correto, Steiner foi acusado, é claro, de racismo. Os intelectuais de esquerda ficariam felizes se ele tivesse dito que, no caso de um dia ter vizinhos desse tipo, se submeteria de bom grado à barulheira, recusando o direito de desfrutar do silêncio em nome de viver uma inusitada experiência multicultural. E que, quando fosse avisado sobre a deterioração do valor de seu imóvel, o transformaria, com prazer, num abrigo para imigrantes desempregados.
São tempos estranhos e inseguros os nossos, pois, segundo a opinião de muitos, deveríamos nos dar por felizes quando temos o bem-estar e o silêncio violentados – ou quando a propriedade que adquirimos com imensos sacrifícios é desvalorizada da noite para o dia. No entanto, sabemos que todo o problema nasceu do exemplo citado por Steiner: se, no lugar de “jamaicanos”, tivesse dito “portugueses” ou “austríacos”, sem citar nenhum estilo de música em especial, poucos reclamariam.
David Hume não sofria esse tipo de patrulhamento. Em seu ensaio Da simplicidade e do requinte na maneira de escrever pôde afirmar, sem receio, que “os gracejos de um aguadeiro, as observações de um camponês e a linguagem confusa de um carregador ou de um cocheiro de praça são coisas naturais e desagradáveis, simultaneamente”. O exemplo não foi gratuito. Hume o utiliza para defender uma tese simples: a literatura que apenas reproduz a realidade, que é uma cópia fiel do real, é, no mínimo, insípida.
Ele também critica o oposto: os escritores que recorrem a ornamentos estilísticos quando o assunto de que tratam não comporta tais maneirismos. Buscando um “meio termo justo entre os excessos de requinte e de simplicidade”, ele afirma, no entanto, “ser difícil, senão impossível, explicar por palavras” como chegar a tal equilíbrio. Mas salienta que o “exagero do requinte, além de ser o extremo menos ‘belo’, é o mais ‘perigoso’”.
Suspeito, entretanto, que o filósofo escreveria de outra forma se vivesse hoje no Brasil. Imagino-o suplicando aos escritores para que parassem de escrever como aguadeiros, camponeses, carregadores e cocheiros. E, repetindo novamente a lição de Joseph Addison, diria: “Escrevam com sentimentos naturais, mas que não sejam óbvios”.
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maio 05, 2009
Yoani Sánchez
Em abril de 2008, falei aqui sobre a filóloga cubana Yoani Sánchez e seu blog, o Generación Y. Naquela oportunidade, Yoani havia recebido o Prêmio Ortega y Gasset de Jornalismo Digital. Ontem, ela esteve presente, virtualmente, no auditório da FIESP, durante o II Fórum de Liberdade de Imprensa e Democracia, organizado pela Revista Imprensa. Sua participação está documentada no Canal do Instituto Millenium, no YouTube, ou no site do instituto. Vale a pena acompanhar essa voz que tem denunciado, de maneira incansável, as limitações da liberdade de expressão em Cuba.
maio 04, 2009
Uma escola maldita
A Folha de S. Paulo publicou hoje entrevista com o professor Camilo da Silva Oliveira, que dirige há 22 anos a Escola Lúcia de Castro Bueno, em Taboão da Serra (Grande São Paulo), classificada em primeiro lugar, segundo o último Enem, na rede estadual paulista – mas apenas a 2.596ª melhor escola do país (média de 58,5, em 100 pontos).
Há muito tempo eu não lia uma entrevista tão corajosa, com tantas verdades. Estão lá, para quem quiser ler, as soluções e as idéias de um diretor lúcido, dedicado à honrosa e difícil tarefa de educar. Mas educar no verdadeiro sentido da palavra: instruir, criar condições para que os alunos alcancem um alto grau de desenvolvimento espiritual. E não, como pensa a maioria dos educadores hoje, tão-somente politizar.
Abaixo, coloco dois dos melhores trechos (os grifos são meus). Eles mostram, através do olhar de um professor experiente, que os governos estão perdidos, não sabem o que fazer com a educação, não possuem qualquer norte. Não há plano estratégico, neste país, para a educação. Ao mesmo tempo, Camilo da Silva Oliveira denuncia a esquerda, que deseja transformar a escola em sindicato, que coloca a transmissão de conhecimentos, de conteúdo, em último plano.
Infelizmente, Oliveira está certo: “A escola pública vai continuar dependendo de talentos isolados”.
FOLHA - No dia-a-dia, o que a sua escola tem de diferente?
OLIVEIRA - Um eixo pedagógico, o rol de conteúdos [currículo], uma sequência de conteúdos. Fui pesquisar, porque o Estado não tinha subsídio para isso. Pesquisei escolas particulares e vestibulares de ponta. O Estado nem desconfiava desse rol. E hoje, 20 anos depois, ainda nem desconfia [o currículo começou a ser implementado na rede estadual em 2008].
FOLHA - O sr. então tem uma escola que não segue a rede.
OLIVEIRA - Aqui é uma escola maldita, que vai contra os modismos de cada secretário. Depois da Rose Neubauer [gestão Mario Covas], em que as escolas perdiam aulas para treinamento de professores em horário de serviço, veio um que nem sabe o que é rol de conteúdos [Gabriel Chalita, gestão Geraldo Alckmin]. A escola, que já não funcionava, ficava uma semana em feira de ciências ou excursões para zoológico. Melhora o ensino? Vi que era fria e tirei a escola disso. No governo Serra, temos o terceiro secretário em dois anos e meio. Se o meu projeto dependesse do governo, estaria esfacelado. A menina do Mackenzie [Maria Lúcia Marcondes Carvalho Vasconcelos, primeira secretária da gestão José Serra] era bem intencionada, mas não conseguiu nada. A segunda [Maria Helena Guimarães de Castro] eu respeito porque sabe que escola é avaliação. E sabe que para avaliar precisa de um rol de conteúdos. Mas teve problemas de gestão. Por exemplo, a prova de temporários era uma boa ideia. Mas a implementação foi péssima, sem preparo jurídico, o que melou o sistema. Ou seja, o governo não tem a menor ideia do que fazer com as escolas. Deveríamos nos preocupar com o que realmente interessa, que é a aprendizagem dos alunos. Depois se acerta a burocracia. Hoje, os diretores ficam mais preocupados com as atinhas, e o aluno não tem aula. É uma inversão. É triste, porque se é esse caos em São Paulo, imagina nos outros Estados. Nem as universidades conhecem a rede. Ganhei da Escola de Aplicação da USP [que ficou em 3.293º lugar no ranking nacional], por exemplo. E a esquerda até hoje acha que a democracia é o principal debate para a escola. Você pega o PT, eles estão discutindo eleição para diretor de escola. Uma bobagem. Deveria pegar os melhores quadros para dirigir a escola. Isso aqui não é sindicato. Estou me aposentando e não vejo caminho. A escola pública vai continuar dependendo de talentos isolados. O Estado só atrapalha. Aquelas que seguiram a linha, se esfacelaram.
Há muito tempo eu não lia uma entrevista tão corajosa, com tantas verdades. Estão lá, para quem quiser ler, as soluções e as idéias de um diretor lúcido, dedicado à honrosa e difícil tarefa de educar. Mas educar no verdadeiro sentido da palavra: instruir, criar condições para que os alunos alcancem um alto grau de desenvolvimento espiritual. E não, como pensa a maioria dos educadores hoje, tão-somente politizar.
Abaixo, coloco dois dos melhores trechos (os grifos são meus). Eles mostram, através do olhar de um professor experiente, que os governos estão perdidos, não sabem o que fazer com a educação, não possuem qualquer norte. Não há plano estratégico, neste país, para a educação. Ao mesmo tempo, Camilo da Silva Oliveira denuncia a esquerda, que deseja transformar a escola em sindicato, que coloca a transmissão de conhecimentos, de conteúdo, em último plano.
Infelizmente, Oliveira está certo: “A escola pública vai continuar dependendo de talentos isolados”.
FOLHA - No dia-a-dia, o que a sua escola tem de diferente?
OLIVEIRA - Um eixo pedagógico, o rol de conteúdos [currículo], uma sequência de conteúdos. Fui pesquisar, porque o Estado não tinha subsídio para isso. Pesquisei escolas particulares e vestibulares de ponta. O Estado nem desconfiava desse rol. E hoje, 20 anos depois, ainda nem desconfia [o currículo começou a ser implementado na rede estadual em 2008].
FOLHA - O sr. então tem uma escola que não segue a rede.
OLIVEIRA - Aqui é uma escola maldita, que vai contra os modismos de cada secretário. Depois da Rose Neubauer [gestão Mario Covas], em que as escolas perdiam aulas para treinamento de professores em horário de serviço, veio um que nem sabe o que é rol de conteúdos [Gabriel Chalita, gestão Geraldo Alckmin]. A escola, que já não funcionava, ficava uma semana em feira de ciências ou excursões para zoológico. Melhora o ensino? Vi que era fria e tirei a escola disso. No governo Serra, temos o terceiro secretário em dois anos e meio. Se o meu projeto dependesse do governo, estaria esfacelado. A menina do Mackenzie [Maria Lúcia Marcondes Carvalho Vasconcelos, primeira secretária da gestão José Serra] era bem intencionada, mas não conseguiu nada. A segunda [Maria Helena Guimarães de Castro] eu respeito porque sabe que escola é avaliação. E sabe que para avaliar precisa de um rol de conteúdos. Mas teve problemas de gestão. Por exemplo, a prova de temporários era uma boa ideia. Mas a implementação foi péssima, sem preparo jurídico, o que melou o sistema. Ou seja, o governo não tem a menor ideia do que fazer com as escolas. Deveríamos nos preocupar com o que realmente interessa, que é a aprendizagem dos alunos. Depois se acerta a burocracia. Hoje, os diretores ficam mais preocupados com as atinhas, e o aluno não tem aula. É uma inversão. É triste, porque se é esse caos em São Paulo, imagina nos outros Estados. Nem as universidades conhecem a rede. Ganhei da Escola de Aplicação da USP [que ficou em 3.293º lugar no ranking nacional], por exemplo. E a esquerda até hoje acha que a democracia é o principal debate para a escola. Você pega o PT, eles estão discutindo eleição para diretor de escola. Uma bobagem. Deveria pegar os melhores quadros para dirigir a escola. Isso aqui não é sindicato. Estou me aposentando e não vejo caminho. A escola pública vai continuar dependendo de talentos isolados. O Estado só atrapalha. Aquelas que seguiram a linha, se esfacelaram.
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Reflexões
abril 30, 2009
Estranhos Sísifos
O prazer da leitura – mas não de qualquer leitura. Refiro-me àqueles livros em que nos reencontramos, como se estivéssemos, durante longo tempo, apartados do que é essencial para nós, sem que percebêssemos esse estado, essa condição menor. Então, por acaso, abrimos certa obra – e mal a primeira página foi encerrada, as sinapses, milhares delas, começam a espocar. Saltamos, de página a página, impulsionados pela febre. Quase um delírio, no qual nosso cérebro apenas reitera, incansável: “é isso!”, “exatamente!”, “perfeito!”. E quando, por algum inesperado motivo, nos damos conta de que avançamos dezenas de páginas sem fazer qualquer anotação, redescobrimos essa forma de amor à primeira vista, capaz de nos consumir em uma madrugada, sem que, para nosso desespero, consigamos chegar ao final do volume. Mas é somente o primeiro passo. Faz-se necessário retornar ao início, recomeçar a leitura, agora movidos pela pretensão de saborear lentamente cada uma das descobertas que nos hipnotizaram. Dissecá-las sem piedade, como se o corpo a ser estudado ainda se debatesse, preso à mesa de autópsia. É preciso, então, controlar nosso ímpeto e agir como o cientista que confere incansáveis vezes sua descoberta. A leitura da paixão, da fúria apaixonada, torna-se, assim, um exercício minucioso, um adágio – e, em nossas anotações, reformulamos a descoberta de outrem, transformando-a na verdade que, agora, nos pertence. Damos seqüência, assim, à incansável tarefa da palavra: transmutar-se a cada pensamento, a cada reflexão, conservando-se a mesma, mas desdobrando-se para dar vida a um novo estágio de consciência. Só quando esse exercício extenuante termina podemos dizer que realmente lemos, que somamos à nossa vida a experiência de alguém que se antecipou, sem saber, aos nossos pensamentos, aos nossos sonhos. Só então o ato de amor está completo. Mas, como sói ocorrer, restará sempre um engano, uma dúvida: não nos apossamos de tudo. Na verdade, grande parte do que nos empolgou ainda permanece lá, intocável, intraduzível. E se, passado algum tempo, reiniciarmos a leitura, um novo mundo se revelará. Esse é o fado dos verdadeiros leitores: somos estranhos Sísifos, condenados a um prazer infindável, devotados ao exercício que nos concede, poucas vezes, a magia da identificação.
abril 29, 2009
Estado de Israel, 61 anos

"A criação do Estado de Israel prestou o maior serviço que qualquer instituição humana pode executar pelos indivíduos - restituiu aos judeus não somente sua dignidade pessoal e seu status como seres humanos, mas, o que é muitíssimo mais importante, seu direito de escolher como indivíduos de que forma devem viver - a liberdade básica da escolha, o direito de viver ou morrer, salvar-se ou danar-se à sua maneira, sem o que a vida é uma forma de escravidão, como tem sido realmente para a comunidade judaica por quase 2 mil anos."
- Isaiah Berlin, in "Escravidão e emancipação judaicas" (A força das idéias, Editora Cia. das Letras)
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