agosto 23, 2009

O som aspirado do Aleph


Mais que transgressão sacrílega, o Golem – esse mito do judaísmo que se desenvolveu na Europa Oriental e Central – possui um forte apelo à resistência judaica diante de injustiças e preconceitos. A variante dessa lenda que mais aprecio é a do Maharal de Praga – que, à época dos pogroms, cria o Golem para defender os judeus das perseguições e acusações sem fundamento. A lenda foi recontada por Elie Wiesel – e há uma bela edição de 1986 pela Editora Imago, com ilustrações de Mark Podwal. A criatura, nessa história, não é somente um autômato, mas um ser de relativa complexidade, capaz de julgar e discernir, sempre a favor do bem. Está distante, dessa forma, de outra variante da lenda, que não me agrada: a do Golem como mero experimento de homens megalomaníacos, que pretendem ser Deus.

Mas esse mito se diversificou em dezenas de histórias. Os românticos alemães foram pródigos em criá-las, apresentando um Golem que, muitas vezes, não passa de certa versão piorada da espécie humana, licencioso, mesquinho. As variações, inclusive, chegaram aos modernos: em prosa ou poesia, Jorge Luis Borges e Isaac Bashevis Singer, por exemplo, revisitam o tema.

Em 2004, o Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Minas Gerais publicou uma coletânea de artigos: Os fazedores de golems, organizada por Luiz Nazario e Lyslei Nascimento. O livro é a melhor introdução ao tema em língua portuguesa, além de proporcionar um diálogo entre a tradição e as reescrituras modernas da lenda, não apenas em literatura, mas também no cinema, visitando inclusive várias das criaturas artificiais criadas pela imaginação. O ensaio de abertura do livro – “O Golem: do limo à letra”, de Lyslei Nascimento –, síntese histórica perfeita da representação do Golem na arte, está disponível na web, em pdf.

De minha parte, considero uma pena que as narrativas modernas tenham perdido os dois aspectos que mais me fascinam: o da criatura que faz justiça e o essencialmente cabalístico – ou seja, o da palavra, escrita ou falada, que insufla vida no barro inerte. Segundo o mito, o Golem é criado por meio da palavra ’emet (verdade). E como explica a professora Lyslei Nascimento, quando o rabino que o criou decide adormecê-lo,

apaga da palavra ’emet a letra Aleph, na transliteração, o sinal () que indica a aspiração da letra hebraica, representando o vento, o fôlego da vida. Ao se apagar a letra, o som aspirado do Aleph, desaparece o som vocálico do “e” – e a palavra ’emet – “verdade” – torna-se met, “morto”.

Trata-se de um mito, portanto, que homenageia a criação por meio da palavra, do verbo. Poucas lendas se aproximaram tanto da criação através da escrita – e da angústia que lhe é inerente. Nem sempre conseguimos dar vida aos nossos textos – na maioria das vezes, chegando ao final do trabalho, depois de horas ou dias de dedicação às palavras, temos sob o olhar uma peça defeituosa, um Golem claudicante, amorfo. Talvez lutar com as palavras nada mais seja do que essa tentativa desesperada e vã de recuperar, ao menos uma só vez, o sopro do Verbo divino, o som aspirado do Aleph. (O que, aliás, me recorda Hanna Arendt, para quem “nada do que vemos, ouvimos ou tocamos pode ser expresso em palavras que se equiparem ao que é dado aos sentidos”. Ou, dito de outra forma, tudo que expressamos por meio das palavras assume a condição de Golem – um ser imperfeito, capaz de cumprir determinadas missões, mas que jamais se igualará à realidade primeira, inaugural.)

agosto 20, 2009

Prazer e câncer do pensamento

Escrevi, para o último número do Rascunho, sobre Isaac Bashevis Singer e seu No tribunal de meu pai (Editora Cia. das Letras). A seguir, um trecho de minha crítica:

Na verdade, a formação de Isaac Bashevis Singer corrobora o que George Steiner diz, na longa entrevista concedida a Ramin Jahanbegloo (in George Steiner: à luz de si mesmo), sobre o vínculo entre erudição e judaísmo: “A religião judaica é a única para a qual o sábio é uma bênção”. Naquele paupérrimo apartamento do número 10 da rua Krochmalna, o pequeno Singer não se dedicava apenas ao estudo prazeroso das tradições hassídicas, mas, atormentado por inesgotáveis questionamentos, lia tudo que estivesse à mão, incluindo Crime e castigo, de Dostoiévski: “Parecia um livro de histórias, mas era outra coisa. Estranho e elevado, lembrava-me a Cabala. Quem escrevia livros assim? Quem era capaz de entendê-los? Aqui e ali, uma passagem se elucidava, eu entendia um episódio, e me entusiasmava com a beleza de uma nova compreensão”. Poucos anos depois, movido pela compulsão de saber, aprende hebraico, lê poesia iídiche e devora Strindberg, Turguêniev, Tolstói, Maupassant, Tchekhov. Apaixona-se por Sherlock Holmes, estuda Hillel Zeitlin e Spinoza - mas também se debruça sobre um compêndio de física. Tragado por um turbilhão de idéias, ele é a materialização do judeu descrito por Steiner:

[...] é aquele que lê um livro com um lápis na mão [...]. É também aquele que corrige os erros mesmo ao ler um jornal. [...] Eu não falo em termos de gênio, porém designo uma sede incessante de conhecimento, de transcendência e de pensamento puro. Creio que o judeu é aquele que, até na soleira de uma câmara de gás, ainda corrigia um texto. Os rabinos o fizeram. Corrigir um texto é interpelar Deus dizendo-Lhe que se é fiel a esse câncer do pensamento, a essa patologia do absoluto que Ele colocou em nós, sem que saibamos por que, é dizer-Lhe o que isso nos custou.

agosto 18, 2009

Rui Tavares e sua crítica ao “calvinismo literário”

Foi no simpático blog do Senhor Palomar que pude ler a crônica de Rui Tavares, “Bom! Bonito! Barato!”, agora disponível no blog do autor. Não deixem a leitura para depois. A seguir, um aperitivo desse texto suave, inteligente. Ele me me fez considerar uma pena que, em português, não tenhamos, no início das frases exclamativas, o sinal invertido dos espanhóis:

O texto escrito precisa de palavras curtas e palavras compridas, precisa de frases breves e de frases longas, precisa de linguagem concreta e de linguagem metafórica. O texto precisa de ritmo e esse ritmo só se consegue pela utilização de elementos diferenciados; mas o ritmo de um texto literário não é como um ritmo musical — ele não obedece sempre ao mesmo tempo, não cai em compassos, não é metronímico — e tem de ir sendo calibrado à mão em cada parágrafo, uns mais lentos, outros mais rápidos, outros que se desdobram em subordinadas. E também: frases sem verbos. O ritmo do texto não é tão regular nem sincopado como o da peça musical porque a sua busca é a da fluência. Fluência como a das melodias não musicais nas suas modulações sucessivas — como nos cursos de água, na brisa e no vento, nas chuvadas.

agosto 15, 2009

Péssimas escolhas

Nos últimos dias, por razão profissional, tenho sido obrigado a revisitar alguns livros que li há muitos anos – e aos quais não pretendia retornar. Refiro-me a certas obras presentes na lista da Fuvest para o Vestibular 2010.

Pois bem. Realmente desconheço o que norteia a escolha desses livros, mas certamente não são critérios estéticos. Escolher, do Romantismo brasileiro, José de Alencar, é uma afronta à sensibilidade dos jovens, é obrigá-los a perder tempo com um texto pomposo, artificial, de uma grandiloquência que chega a dar engulhos. Claro, podemos ver a escolha pelo lado bom: ao menos não obrigaram a juventude a ler O Guarani, mas, sim, Iracema, livrinho bem mais curto e relativamente menos medíocre. Mas, pergunto-me, por que escolher o que existe de pior no Romantismo brasileiro? Por que exigir que eles leiam o que há de mais embolorado em nossa literatura? Se os critérios forem aqueles que já cansamos de ouvir, de que as narrativas de Alencar serviram à criação de uma literatura efetivamente nacional, de que a prosa alencariana em Iracema é pura poesia, e blá, blá, blá..., sinceramente, precisamos, com urgência, dar um banho de água fria nos responsáveis pela escolha – e alguns talvez precisem de um bom clister ou de uma camisa-de-força.

Meu Jesus-cristinho! Minha Santa Terezinha de Lisieux! Por que não pedir que os jovens leiam o melhor?! Álvares de Azevedo e Castro Alves têm bons poemas – Azevedo, inclusive, escreveu alguns deliciosamente irônicos, em que ele ri do próprio Romantismo. E se é para ler Alencar, por favor, esqueçam essa bobagem de literatura indianista. (Isso talvez sirva aos estudiosos do folclore brasileiro, mas não à literatura.) Senhora é um romance razoável – e agredirá menos a inteligência da juventude.

Os problemas da lista, contudo, não param aí. Acho perfeito que os alunos tenham de ler Eça de Queirós. Mas não entendo porque três autores realistas (Eça, Machado e Aluísio Azevedo) – e entendo menos ainda porque, mais uma vez, não se escolhe o melhor. A cidade e as serras apresenta aquele Eça em que já se apagam as principais qualidades, como o sarcasmo e a crítica ferina à sociedade portuguesa. É um Eça que dá seus últimos suspiros. Por que não Os Maias? Por que tem muitas páginas? Ou por que a trama é complexa? Seja qual for o critério, mais uma vez despreza-se a inteligência dos jovens.

Também estranho a falta do Simbolismo. Portugal e Brasil têm ótimos poetas simbolistas. Claro que nenhum louco vai obrigar os jovens a ler um livro inteiro de Cruz e Souza, pois não há fígado que aguente. Mas, Jesus!, por que não uma boa antologia de poemas, reunindo os nomes mais importantes? Não seria melhor que os alunos pudessem ter uma visão ampla do movimento? Bastariam dez ou quinze poemas – e já teríamos uma ideia clara sobre a estética simbolista. E o mesmo poderia ser feito com os parnasianos.

Outra bobagem é Capitães da areia. Livrinho mal escrito, superficial, esquemático. Novamente escolhe-se o que um autor tem de pior. Jorge Amado já não é o que poderíamos chamar de clássico – e ainda obriga-se a juventude a ler o que ele tem de mais medíocre. Não entendo! Por que não pedir que os jovens leiam, por exemplo, A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água, obra divertidíssima – e uma das três ou quatro do Jorge que realmente merecem ser lembradas?

Na verdade, a lista da Fuvest é tristemente populista, pois comete o pior dos pecados: nivela por baixo a inteligência da juventude. Parte dos livros escolhidos passa a impressão de que os responsáveis se basearam naqueles estúpidos chavões: de que os jovens não leem, não gostam de ler, etc.

Ora, em minha opinião deveríamos fazer exatamente o contrário: deveríamos dar um voto de confiança aos jovens, oferecer-lhes o que a literatura de língua portuguesa tem de melhor, e entusiasmá-los à leitura de obras que realmente pudessem acrescentar algo à sua sensibilidade. Desacreditar da inteligência da juventude não é um bom recurso pedagógico. Talvez possa servir ao populismo rasteiro que grassa neste país, mas não é, decididamente, uma escolha sábia.

julho 27, 2009

De volta ao final de As Benevolentes

As questões não resolvidas sempre voltam. Por este ou aquele motivo, de vez em quando o cérebro as reapresenta ao nosso espírito. O final farsesco de As Benevolentes, de Jonathan Littell, é uma dessas interrogações para as quais busco resposta há algum tempo. Por que o escritor capaz de fazer uma obra de arte em 882 páginas escolhe destruir seu trabalho nas 14 restantes? Supor mera incompetência é uma solução pueril, fácil demais, e também incongruente. E a falta de coragem? O autor não teria sido capaz de ousar até o final? Mas se faltou ousadia, há uma causa no substrato dessa fraqueza.

Hoje, contudo, encontrei uma resposta que me satisfez. Graças ao artigo de Luiz Felipe Pondé, na Folha de S. Paulo, “Pequena sociologia do fungo”, creio que posso traçar ao menos um projeto de solução para minha dúvida.

Por que Littell destrói a weltanschauung do protagonista de seu romance, o jurista e oficial da SS Maximilian Aube? Por que Littell se recusa a afirmar a humanidade de um criminoso nazista? – Humanidade, saliente-se, construída em detalhes durante a maior parte do livro. O fato de ser judeu o impediria moralmente? Não. O problema é mais grave. No fundo, o final farsesco revela uma farsa moral.

Littell apenas repetiu o que a maioria das pessoas faz, e que Luiz Felipe Pondé analisa com mestria: transformar o livro em uma palhaçada foi a forma que o escritor encontrou de, hipocritamente, defender sua imagem de bom, justo, perfeito, incapaz de cometer qualquer mal. Littel não poderia levar até o fim o seu personagem, pois isso significaria não desculpar ou justificar um nazista, mas, como afirma Pondé, “iluminar seu parentesco com ele”. Escrever um final coerente – e grandioso como a maior parte do livro – representaria afirmar a verdade que todos negam: a de que somos, sim, capazes de fazer o mal.

Em literatura – como em toda forma de arte – não basta ter o domínio da técnica. É preciso coragem para ir além do que o senso comum prega. E Jonathan Littell, infelizmente, mostrou-se fraco e hipócrita.

julho 16, 2009

A honra de 32


As comemorações do 9 de Julho, na semana passada, foram inexpressivas. São Paulo não comemora a Revolução de 32 como seus heróis merecem. Aliás, o culto do heroísmo há muito caiu no esquecimento entre nós – a não ser, é claro, quando se trata das figuras que sucumbiram sob o regime de 64. Essas, graças à hegemonia cultural da esquerda, são sempre reverenciadas.

Minha formação, contudo, é diversa. Venho de uma época na qual 1932 era lembrado com orgulho na escola, com direito a discursos, bandeiras de São Paulo, cartazes. E a história dos jovens que morreram sob a metralha getulista, contada pelos professores, nos fazia olhar com desconfiança o jeito bonachão de Vargas.

Aliás, em minha família, desde cedo aprendemos que a luta revolucionária – que se resume, para os meus patriarcas, à luta pela liberdade – não é, não foi e nunca será uma tradição da esquerda.

No caso específico do 9 de Julho, cresci admirando o altar que meu avô paterno mantinha no escritório de sua casa: acima da escrivaninha, na parede, o capacete que ele usara nas trincheiras de 32 e um mapa do Estado de São Paulo, no qual estavam marcados à caneta as batalhas e os nomes dos amigos mortos ou feridos. Ao lado, numa estante próxima, ele mantinha sua própria foto, vestindo a farda de capitão-médico da revolução.

Meus avós e meus tios jamais falaram em separatismo ou demonstraram qualquer preconceito em relação aos outros estados. Falava-se apenas da luta de São Paulo pela legalidade, pela Constituição e contra a ditadura getulista, que desvirtuara os ideais de 1930. Durante as rodas de buraco ou de víspora, nos domingos à tarde, a política era um tema constante – e Getúlio sempre foi lembrado como um populista vulgar, nada mais.

Cresci ouvindo meu avô declamar os poemas de Guilherme de Almeida ou ler em voz alta, com orgulho, os discursos de Ibrahim Nobre. E, revendo aqueles dias, percebo que cultuar 32 representava, para nós, fazer também uma contraposição a qualquer forma de despotismo. Sim, os mais velhos eram todos anticomunistas, mas visceralmente liberais. Meu tio-avô, por exemplo, que foi deputado estadual e secretário de Justiça no governo Lucas Nogueira Garcez, infelizmente já falecido durante a ditadura de 64, subia nos palanques e descia o malho de sua oratória sobre a esquerda, mas era o único advogado em nossa cidade que aceitava defender, gratuitamente, os comunistas – e livrou muitos da cadeia.

A mãe de meu tio-avô, minha bisavó, mulher altiva, cultíssima, fluente em inglês, que chegou aos 94 anos de idade, nunca deixou de expressar sua discordância com os rumos de 64. Detestava Jango e defendia o golpe, mas achava que os militares haviam traído a confiança dos civis que apoiaram o movimento – e nunca teve receio de se referir aos presidentes do ciclo militar com os piores adjetivos. A seu modo, com a dignidade e a classe que lhe eram peculiares, enviou flores anos seguidos, no 31 de março, a políticos que, amigos de nossa família, tinham sido cassados pelos atos institucionais.

Não é de admirar, portanto, que a Revolução de 32 fosse venerada em minha casa.

Hoje, infelizmente, o obelisco do Parque Ibirapuera serve apenas para ser coberto por um preservativo gigante no Dia Mundial da Aids, nas escolas disseminou-se a mentira de que 32 foi um movimento desprezível das oligarquias paulistas, e há quem faça comentários cínicos ao ler, na entrada do mausoléu: “Viveram pouco para morrer bem – morreram jovens para viver sempre”. Mas a sordidez não muda o passado, não altera a verdade. Talvez consiga esconder das atuais gerações a honra daqueles mortos. Mas não para sempre. Não eternamente.

***

Adiciono a este post os lúcidos comentários do historiador Marco Antônio Villa, que lançou, no ano passado, um belo livro sobre a Revolução de 1932:

julho 06, 2009

Reflexões sobre o mercado editorial

Alguns dos artigos que compõem o primeiro número da Booktailors Publishing Magazine, dirigida por Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes, podem servir a inúmeras reflexões sobre o mercado editorial brasileiro. Independente disso, é reconfortante e animador ver como nossos irmãos portugueses passam em revista a arte da edição.

junho 26, 2009

Irresistível

Sofri um acesso de incontrolável identificação ao ver a capa de Veja. A revista fala exatamente o que eu gostaria de repetir, em alto e bom som, à politicalha que comanda este país: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”. Foi como se o meu rosto estivesse ali, compondo a capa, encimado pelo grito de revolta que, certamente, percute na consciência de todos os que têm um mínimo de capacidade crítica: “Basta de impunidade!”.

Depois, na longa reportagem “À sombra da Constituição”, o texto enxuto, claro, preciso, é acompanhado por dezenas de declarações que, em qualquer democracia civilizada, obrigariam o presidente da República a, no mínimo, ficar de joelhos e proferir um mea-culpa. O que, é evidente, não acontecerá aqui.

Deliciosamente mordaz, a revista também me presenteou com a legenda da página 65, na qual expõe a farsa do esquerdismo e denuncia a parcialidade e a demagogia daqueles que, por muito menos, já tentaram paralisar o país: “RADICAIS CALADOS – mais de 100 000 militantes de movimentos sociais pedem a saída de FHC em 1997. Hoje, MST, CUT e UNE funcionam como braço auxiliar do governo e só promovem manifestações de apoio a Lula”.

Veja ainda me regalou com a radiografia imparcial do movimentículo paredista da USP, a resenha de Nelson Ascher sobre Hammerstein ou a Obstinação, de Hans Magnus Enzensberger, e o artigo “Empregos secretos”, de J. R. Guzzo. Só faltou, para que a leitura fosse absolutamente perfeita, um daqueles bons ensaios do Reinaldo Azevedo.

junho 24, 2009

Entre os livros

Descobri o mundo no Gabinete de Leitura Ruy Barbosa. Na primeira visita, à tarde, sem saber como me comportar naquele ambiente sóbrio, silencioso, passei poucos minutos no salão de leitura. Dias depois, por algum motivo – eu teria 13, 14 anos? –, visitei o local à noite: fervilhava. Através de uma portinhola sob a escadaria, servia-se chá e café; os grupos, nas mesas, folheavam jornais e discutiam política; numa saleta ao lado, jogava-se xadrez em meio à neblina dos cigarros. E o melhor: dona Odete, a bibliotecária, permitia que alguns consulentes ultrapassassem o balcão e visitassem o acervo circulante. Logo eu percorria, deslumbrado, milhares de livros.

Eram os tempos da ditadura militar, e as obras de Marx e Lênin, retiradas do acervo, permaneciam fechadas em um armário, na sala da diretoria. Os emedebistas e a esquerda silenciada murmuravam pelos cantos contra o diretor da casa, o advogado Celso Zuchetti, um anticomunista brilhante e mordaz, de quem acabei por me tornar amigo.

No andar superior ficava o salão de estudos e o acervo de pesquisa, comandados pelo velho Daniel, homem simples, boníssimo, que orientava os mais jovens nos estudos. Sentado em sua mesinha, ele batia a sineta quando os sussurros das mesas subiam de tom, fazendo com que voltássemos a ruminar os livros. Numa das extremidades da sala, o retrato a óleo de Rui Barbosa nos observava, altivo como a República Velha.

Passaram-se semanas até que Daniel me franqueasse os livros guardados nas estantes da diretoria: uma Brasiliana completa, dezenas de raridades, luxuosas encadernações de clássicos portugueses – e os comunistas, que ao mero toque queimavam a ponta dos dedos.

Ultrapassei os difíceis anos da adolescência naqueles salões. Protegido pelos livros, ouvindo os debates dos mais velhos, acordando para um novo autor a cada noite, descobri que a idéia de fraternidade nasceu em uma biblioteca. De volta para casa, ao cruzar a rua do Rosário rumo ao sobradinho na Onze de Junho, eu era a minha última versão, sempre melhorada.

junho 21, 2009

Apartados da tradição

Em dois artigos publicados na Folha de S. Paulo (30 de maio e 13 de junho), Antonio Cicero fala sobre a idolatria do contemporâneo: “O desejo do contemporâneo não passa de sintoma de um agudo provincianismo temporal”.

De fato, quais garantias nos oferecem as obras que ainda não passaram pelo filtro do tempo? Quem olha apenas o presente condena-se ao emburrecimento, pois, na maioria das vezes, nossos contemporâneos – exaltados pela mídia – nada significam, resumindo-se a ecos medíocres da tradição.

Mas como nasce o provincianismo? E por que ele se mostra tão arraigado? O mal principia nos bancos escolares. Uma historinha explicará a afirmação: há alguns meses, jantando na casa de um amigo, pude usufruir da companhia de uma professora de história recém-formada pela USP. A jovem, muito falante, lá pelas tantas – e não pensem que ela abusou do vinho – nos brindou com uma dessas pérolas inesquecíveis: “É impossível não perceber que a filosofia e a arte gregas estão maculadas pela herança desumana da escravidão”. E destrambelhou a repetir velhos, inúteis e carcomidos chavões de esquerda, ao fim dos quais, enredada na sua própria teia, ela já condenara à fogueira Platão, Aristóteles, Sófocles e Ésquilo, absolvendo, para minha surpresa, Aristófanes, pois, outra pérola, “a comédia sempre tem um alto poder contestador”.

Imagino essa garota repetindo suas idiotices, anos a fio, para centenas de crianças e jovens. E, pior, imagino o idiota que, refestelado em sua cátedra, ensina tais absurdos. George Steiner está certo: “A maioria daqueles a quem confiamos nossos filhos na escola secundária, daqueles em quem procuramos orientação e exemplo na universidade, são, em maior ou menor intensidade, gentis coveiros” (in Lições dos Mestres).

Em minhas breves experiências na universidade tínhamos de ler Roland Barthes e Charles Sanders Peirce de joelhos. E ai dos que desviassem os olhos daquelas páginas! O escolhido deste princípio de século é Deleuze. E dentro de alguns anos, quem será o novo bezerro de ouro? Enquanto isso, a Poética e a Retórica de Aristóteles emboloram no setor mais úmido da biblioteca.

Não se trata, contudo, de trocar um guia de cego por outro. Trata-se, sim, de estar aberto a tudo, sem preconceitos – e, em primeiro lugar, ler aqueles que nos antecederam, e cuja obra foi testada por gerações.

Não é o que acontece na universidade. O adjetivo que mais ouvi nos dois cursos de Letras que frequentei foi “superado”. “Fulano está superado”, decretava o arrogante catedrático. “Essa análise está superada”, grunhia a professora. “Como você pode perder tempo com esse autor superado?”, perguntou-me a prosélita do Departamento de Semiótica ao perceber que eu lia Albert Thibaudet. A universidade vive, assim, sob uma censura camuflada, procurando mais catequisar do que abrir consciências. E pobres dos que se afastam do redil! Um longo e doloroso calvário os aguarda, afinal – esse é outro dos chavões que cansei de ouvir –, “precisamos estar inseridos na modernidade”, ou seja, devemos ser cada vez mais provincianos.

A origem do problema, no entanto, é anterior aos cursos universitários. O que dizer de um aluno que termina o ensino médio sem jamais ter lido um poema de Catulo? Que jamais tenha ouvido falar de Heráclito? Pode parecer absurdo pensar nesses nomes quando a escola mal alfabetiza, mas a recente polêmica em torno dos livros adotados nos colégios paulistas mostra o descaso, a ignorância e o desvirtuamento dos responsáveis pela escolha das obras. Eles não são apenas provincianos; são filisteus.

Apartados da tradição, da nossa melhor herança cultural, os jovens podem viver sem grandes problemas – como de fato vivem –, mas terão um número reduzido de instrumentos para lidar com suas dúvidas e seus temores; e, menos sábios, celebrarão a mediocridade todos os dias, certos de viverem no melhor dos mundos.

junho 20, 2009

Shakespeare, Lampedusa e Vila-Matas

Enrique Vila-Matas resenha o Shakespeare de Giuseppe Tomasi di Lampedusa no Babelia deste sábado. O julgamento de Vila-Matas sobre o encontro desses dois escritores nos conduz ao caráter atemporal da leitura; e não poderia ser diferente:

Sus [de Lampedusa] eruditas y a veces alegres líneas sobre Shakespeare no cesan de comunicarnos que la lectura puede hacernos sentir dueños del tiempo y que ya sólo por eso la pasión de leer debería ser considerada como la más envidiable actividad que hay a este lado del paraíso.

junho 15, 2009

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.”

Na última edição do Rascunho, escrevi sobre Os desbravadores – uma história mundial da exploração da Terra (Editora Cia. das Letras), do historiador Felipe Fernández-Armesto.

junho 12, 2009

O abismo de Baudelaire

Dentre os textos de Meu coração desnudado, de Charles Baudelaire, que mais me incomodam, estimulam e divertem está o de número LV:

No amor, como em todos os negócios humanos, o entendimento cordial resulta de um mal-entendido. Esse mal-entendido é o prazer. O homem exclama: – Ó meu anjo! A mulher arrulha: – Mamãe! mamãe! E os dois imbecis estão persuadidos de que pensam de acordo. – O abismo infranqueável, que gera a incomunicabilidade, permanece infranqueado.

Nessa brevíssima meditação, Baudelaire, como bom anti-romântico, coloca o amor entre os “negócios” humanos, despojando-o de qualquer idealização. Depois, diminui a própria possibilidade de os homens se entenderem, visto que, no fundo, todo entendimento “resulta de um mal-entendido”. A seguir, denigre a relação entre homem e mulher, definindo inclusive o prazer como um mal-entendido. Não satisfeito, segue-se o diálogo ridículo, por meio do qual ele espezinha o que ainda resta de esperança em seu leitor, para, no fim, concluir apresentando o veredicto terrível, a condenação do gênero humano à incomunicabilidade.

O julgamento é de um pessimismo atroz, realmente exagerado, chocante. Mas é inegável que, mesmo se não estivermos propensos a concordar com Baudelaire, ele nos faz refletir. Quando chegamos ao ponto final, o espinho já foi enfiado em nossa carne.

Erich Auerbach percebeu bem essa característica, chamando nossa atenção para o fato de que, na obra baudelairiana, “a relação entre amantes – ou, mais precisamente, entre os que estão ligados pela atração sexual – é representada como uma obsessão misturada ao ódio e ao desprezo, um vício que não perde nada de sua força atormentadora e degradante ao ser experimentado em plena (e indefesa) consciência”.

Aliás, o ensaio de Auerbach do qual retirei a citação acima – “As flores do mal e o sublime” (in Ensaios de literatura ocidental) é um exemplo de como alguns leitores reagem a Baudelaire, inebriados por ele “cantar em estilo elevado a ansiedade paralisante”, mas ao mesmo tempo desejando manter distância dessa literatura que, quase sempre, nega a vida. Auerbach consegue analisar a poesia de Baudelaire com isenção, mas percebemos o quanto ela o incomoda. Ele exalta o “uso simbólico do horror realista”, mas repudia a “incompreensão diletante da tradição cristã”, a “desesperança sombria”, as “tentativas absurdas e fúteis de se inebriar e de escapar”.

Creio que a maioria dos leitores guarda o mesmo sentimento em relação a Baudelaire. Ele talvez empolgue os jovens, principalmente os cheios de amargura, os depressivos, os que se consideram incompreendidos. Mas o entusiasmo exagerado não é a melhor das reações possíveis à poesia e à literatura em geral. A empolgação, na verdade, esconde quase sempre o entendimento imperfeito, superficial – e traz, implícita, a necessidade da releitura. O leitor maduro, ainda que, como Auerbach, refute o “emaranhado sem esperança” de Baudelaire, consegue ler sua obra sem preconceito, aceitando que ele deseje inocular em nossas veias o seu veneno, mas preservando a dose de crítica que nos permite fruir a perfeição estética sem, contudo, sermos capturados pelo niilismo.

Minha relação com Baudelaire é exatamente assim. Depois que o leio, um exercício sempre prazeroso, sinto-me novamente expulso do Paraíso, e olho a vida de maneira ainda menos inocente – mas nem por isso deixo de acreditar que alguma forma de diálogo é possível, que o abismo não é de todo infranqueável.

[Falo mais sobre Erich Auerbach e seu Ensaios de literatura ocidental em minha resenha – “O humanista dividido” –, publicada no jornal Rascunho.]

junho 11, 2009

Scheherazade

O rei Šahriyar era um tolo. Que homem, em sã consciência, se deixaria engambelar por uma mulherzinha fútil, faladeira e lamurienta como Šahrazad (ou, se preferirem, Scheherazade)? Duas ou três noites ouvindo historinhas curiosas e intermináveis talvez pudesse ser uma alternativa interessante para alguém que descobriu ser traído pela esposa e sofre, por esse motivo, daquela melancolia típica do corno (mal, aliás, que pode ser perfeita e rapidamente curado, pois ninguém é insubstituível). Mas noites a fio? Santo Deus! Só um idiota – ou um surdo – para suportar tamanha embromação. Šahriyar, infelizmente, não pôde ler “A mulher selvagem e a casquilha”, de Baudelaire. Nesse pequeno poema em prosa, ele aprenderia que, frente a determinadas situações-limite, resta ao homem de bom senso poucas escolhas: enjaular a mulher ou apenas lançá-la janela afora. Por essas e outras razões, sempre que leio o Livro das mil e uma noites tenho a absoluta certeza de que ele foi escrito por uma mulher. Quem mais acreditaria que seu poder de sedução é invencível – ou que alguém pode se dispor a ouvir histórias interminavelmente?

junho 09, 2009

Silêncio

No fundo, tenho dedicado minha vida à busca do silêncio. Recordo-me de sempre desejá-lo. Talvez por isso, na juventude, tenha lido insistentemente são João da Cruz e santa Teresa D’Ávila, esses místicos do deserto carmelita, amantes do silêncio absoluto, no centro do qual arderia a chama da transcendência. Talvez por isso, quando penso no silêncio, a primeira imagem que surge é a da capela do Carmelo em minha cidade natal, onde passei horas, às vezes tardes inteiras, sob a penumbra dos vitrais, orando – ou apenas em silêncio. A outra recordação é a casa de minha avó paterna – ali também o silêncio fluía, era possível vê-lo no olhar de minha avó, sempre à espera, ou na fumaça de seus intermináveis cigarros, enquanto os cachorros dormiam e eu lia.

Morar em São Paulo, contudo, transforma a busca do silêncio em um exercício às vezes torturante. Em certos dias, para se ter paz, é preciso ouvir os quartetos de cordas de Beethoven no último volume, a fim de – literalmente – derrotar o ruído.

Não enlouquecerei como o personagem de Antonio Di Benedetto em O silencieiro, mas parece-me evidente que o ruído se tornou uma das principais características da nossa cultura – e que a maioria das pessoas não suporta o silêncio. Mais do que um produto de consumo, como diz George Steiner, o ruído é hoje uma imposição, uma categoria inseparável do viver – uma arbitrariedade.

junho 06, 2009

No centenário do nascimento de Isaiah Berlin


Michael Ignatieff encerra sua biografia de Isaiah Berlin (6 de junho de 1909 - 5 de novembro de 1997) com uma frase que sintetiza não apenas a vida desse notável filósofo, mas também o que ele representa para toda uma geração de pensadores: “Num século escuro, Berlin mostrou o que deve ser uma vida da mente: cética, irônica, desapaixonada e livre”. Erguer-se acima das mazelas humanas, agitando, a cada pensamento, a cada ensaio, a cada aula, essas quatro bandeiras – e fazê-lo em uma época marcada por duas guerras mundiais e por ditaduras que, em nome de conduzir o mundo ao Paraíso, assassinaram milhões de pessoas – representa uma trabalho invejável.

Não me recordo qual foi o primeiro texto de Berlin que li, mas fui imediatamente fisgado por sua retórica “precipitada”, por seu estilo deliciosamente professoral, com uma lógica que não é fria, mas aberta ao gracejo, à ironia, e acima de tudo incansável na argumentação, com exemplos que vão se interligando em longos e sedutores parágrafos.

Sempre que leio Berlin imagino o que seria ouvi-lo durante uma aula, como seria dialogar com ele, vendo a linha de seu raciocínio nascer em meio aos gestos, ao movimento dos olhos, à agitação do corpo que se empolga – ou seja, viver o que Ignatieff descreve: “ser arrastado ao salão de sua mente”.

De qualquer forma, estou fadado a experimentar apenas parcela dessa sedução, quando leio seus ensaios. É um consolo, sem dúvida.

Sempre que releio “A busca do ideal” (in Estudos sobre a humanidade), por exemplo, deixo, prazerosamente, que ele me conduza de uma primeira visão geral sobre a história humana no século XX para o seu próprio percurso intelectual, convencido, como ele, de que esse é um processo de constante negação da barbárie, pois “somente os bárbaros”, diz Berlin, “não são curiosos sobre o lugar de onde vêm, como chegaram aonde estão, para onde parecem estar indo, se desejam ir para esse lugar, em caso positivo, por quê, em caso negativo, por que não”.

Passo a passo ele revisita todas as ilusões do pensamento, do ideal platônico ao marxismo, todos esses castelos construídos no ar, que insistem em nos dizer que um dia a razão triunfará definitivamente, dando início a uma era de cooperação e harmonia universal, a “história verdadeira”.

Depois, ele nos mostra como acordou – o lento despertar rumo ao “senso de realidade”: Maquiavel, Vico, Herder –, até atingir sua visão pluralista (e jamais relativista; como, aliás, ele insiste em sublinhar). Um pluralismo despojado de qualquer utopia, firmado na realidade, segundo o qual “um mundo sem conflitos de valores incompatíveis é um mundo completamente além de nosso conhecimento”.

Trata-se de uma visão dura, sem dúvida. Mas absolutamente lúcida. Berlin não se permite “descansar na cama confortável dos dogmas” ou ser “vítima de uma miopia auto-induzida”. Não. Jamais haverá uma solução final para o homem, pois uma sociedade sem problemas – ou um planeta sem problemas, sem divisões – é uma sociedade “em que a vida interior do homem, a imaginação moral, espiritual e estética, já não diz nada”.

E antes que nos perguntemos o que o homem pode fazer, então, diante da realidade injusta, insatisfatória, constantemente fendida, ele nos responde: “O melhor que podemos fazer é manter um equilíbrio precário que impeça a ocorrência de situações desesperadas, de escolhas intoleráveis”.

Esse é Berlin: o olhar aberto ao real, sem jamais aceitar qualquer véu que edulcore a nossa fragilidade. Nosso “equilíbrio inquieto” está “sob constante ameaça e em constante necessidade de reparo”, ele afirma. E não há como escapar: “A situação concreta é quase tudo” e “o risco moral às vezes não pode ser evitado”. Só essa verdade nos livra da embriaguez ideológica. E só ela nos move à negociação perene com os outros homens, à urgência de estarmos continuamente reinventando o diálogo, a “intercomunicação entre as culturas”.

Isso não quer dizer, no entanto, que devemos abdicar de certos bens incontestáveis, como a liberdade, a justiça, a procura de felicidade, a probidade, o amor. Berlin é claro: “Devemos buscar esses direitos e proteger as pessoas contra aqueles que os ignoram ou recusam em admiti-los; e quando o diálogo se torna impossível, podemos, então, nos sentir impelidos a guerrear com eles. Mas é necessário sempre tentar convencê-los”.

Àqueles que estão em busca de absolutos, o pensamento de Berlin parecerá decepcionante. Mas aqueles abertos à construção do “equilíbrio difícil”, esses sabem que viver significa nem sempre conseguir evitar escolhas penosas e soluções imperfeitas; que a razão não é um instrumento plenamente eficaz; e que nossas escolhas não são imbatíveis ou incontestáveis. Na verdade, a história já demonstrou que “a busca da perfeição é a receita para o derramamento de sangue”.

O pensamento de Berlin, portanto, não propõe uma receita infalível para se chegar à verdade. Ao contrário, é um incansável convite ao inseguro exercício da liberdade.

junho 05, 2009

Os melhores dias

As manhãs frias lembram-me a infância. São recordações intensas, vívidas. Assim que desperto e começo a me levantar, vejo-me criança, colocando o uniforme no quarto ainda escuro e sentindo o impacto dos tecidos gelados contra a pele. Esse desconforto, no entanto, dura pouco. Eu me lavava com prazer na água que parecia quebrar entre os dedos, e a cada golpe do líquido no rosto, uma sensação de revigoramento me invadia, como se o choque de temperaturas expulsasse para sempre a morbidez noturna. Minha mãe esperava-me na cozinha, o café sobre a mesa. E enquanto ela tremia, eu já me tornara elétrico, alerta, falante. Poucos minutos depois, caminhava na 11 de Junho, observando as calçadas cobertas de orvalho, o verde das árvores impregnado de um brilho mais puro, e percebendo, a cada passo, a suave cumplicidade do sol. O verão desaparecera. Toda a natureza refreara seus ímpetos e eu não tinha de vencer o mormaço que embotava meu cérebro. Era uma alegria cruzar o jardim público vendo a massa encapotada de crianças e jovens, aquele mar azul-marinho de cabeças inclinadas sob o frio, enquanto eu me sentia renascer, pronto a qualquer aventura. Tudo se revestia de uma beleza nova, incluindo as meninas, obrigadas a usar a saia do uniforme, trêmulas e adoravelmente frágeis apesar das meias de lã e dos capotes. Olho pela janela as pessoas lá embaixo, centenas de agasalhos multicoloridos movendo-se na direção do metrô, e meu impulso é estar entre elas, deixando que o frio afague meu rosto, seguindo, alegre, movido pela urgência da fuga, rumo aos melhores dias da infância.

maio 30, 2009

Clube dos colecionadores de figurinhas do sabonete Eucalol


Analisando os comentários do post abaixo – e agradeço aos comentaristas que aceitaram participar do debate –, vejo que ao menos em um ponto a maioria concorda: repete-se, entre nós, o hábito de entender a crítica literária como ofensa pessoal. E quando isso ocorre, a reação é sempre a mesma: desqualificar o crítico, muitas vezes de maneira injuriosa.

A outra face da moeda – representada pelo crítico servil ou pelos resenhistas (muitos deles também escritores) que se especializaram nos elogios mútuos – é, assim, o complemento perfeito, adequado, à realidade promíscua que caracteriza, em grande parte, a vida literária brasileira.

O escritor e tradutor Francisco Carlos Lopes – autor de Nó de sombras e Dobras da noite (ambos publicados pelo Instituto Moreira Salles) – defende uma tese curiosa sobre todos esses fenômenos, tese que poderia ser resumida em um só pensamento: a relação de compadrio, presente na política desde sempre, também corrompeu a literatura.

O longo comentário de Chico Lopes – enviado por e-mail na última quinta-feira –, que, com autorização do escritor, reproduzo abaixo, é um exercício de lucidez, de grande honestidade:

Rodrigo:

[...]

Em todo caso, o que queria dizer é que esse negócio de não poder julgar os trabalhos de amigos escritores com isenção, em termos puramente literários, é uma miséria tipicamente brasileira (outra delas). Deriva do espírito de "patota", que é inevitável entre nós, e que faz com que a literatura, tão minoritária, tão "clube dos colecionadores de figurinhas do sabonete Eucalol" em termos numéricos e expressivos na inculta sociedade brasileira, se componha de gente excêntrica cujo único motivo para existir é uma vaidade renitente.

Ora, tendo este como único motivo, na verdade, cumpre manter o compadrismo, não ofender ninguém, ser um sujeito sempre simpático, prestativo, generoso, nada crítico.
Não há, na verdade, clima para discussões estritamente literárias e estéticas e vontade de aperfeiçoar nada por esse lado. Aperfeiçoa-se, isto sim, as relações, como se beneficiar (e até de maneiras extra-literárias) delas, como chegar a editores e gente mais famosa etc. e aperfeiçoa-se a arte de nada dizer que possa afetar ilusões compartilhadas.
O sujeito que insistir nisso – na crítica, desprovida de "amizade" por amor à crítica, à mera verdade – será visto como antipático, discriminado e, se não for excluído do clubinho, será ao menos um membro muito evitado e pouco convidado, digamos...

Porque, na verdade, a Literatura aí, como arte que se depura, interessa pouquíssimo. E fica proibido, como em outros clubes de outras finalidades, que se toque em temas-tabu – já que a estrutura é tão frágil, a coisa tão presunçosa e baseada em tão voláteis famas e tão poucos talentos reais, que a verdade pode pôr tudo abaixo facilmente, e aquele que ousou proferi-la será odiado.

O que você disse é verdade – a festa é pequena e os dançarinos são poucos, e é feio ser muito exigente, quando se está em minoria – é preciso ser, acima de tudo, solidário e compassivo, não apresentar critérios ou requisitos de qualidade muito rígidos, levando em conta que todo mundo dança mais ou menos mal ou é francamente capenga.

A gente, por educação, consideração e, em não raros casos, compaixão, se abstém de dizer o óbvio – que o livro que Fulano nos mandou, na esperança de uma força, é medíocre ou precisaria passar por muita purgação e reescritura para se tornar melhor ou apenas digno de consideração.

Já passei muito por isso, cometi vários pecados de bondade ou complacência, ganhando amizades que passavam, então, a ter precisamente o tabu supracitado: nada de dizer a verdade sobre o trabalho do amigo, que ele tinha que ser mais humilde, se aperfeiçoar, escrever melhor, ouvir críticas. Um dia, porém, a complacência acaba, alguma coisa mais real se ventila, e tudo vai por água abaixo, já que o narcisismo primário que preside esses clubinhos é implacável, nesses momentos. Tudo acaba em carrancas, diz-que, diz-que, nas intrigas mais baixas, com os vaidosinhos se digladiando e propagando venenos e escrotidões. O reino da verdade acaba, por pura perversão, sendo o reino da realidade recalcada, o terreno minado onde ninguém de bom-tom deveria ter pisado...

Então acontece, com frequência fatal, que o sujeito mais verdadeiro se esquive voluntariamente, fique mais insociável, digamos, mais eremita, para evitar ser mal-educado ou simplesmente autêntico, mas seus escrúpulos serão mal compreendidos e isso acabará por ser tomado como arrogância.

O que se pretende é abolir toda e qualquer hierarquia de qualidade em nome de uma solidariedade grupal muito falsa e eufórica. O que se pretende é que a música continue tocando e os dançarinos, bons, ruins, chinfrins, proibidos de serem refinados e exigentes, continuem dançando.
O sujeito mais consciente, que se absteve de entrar na dança e segue mudo, é um desmancha-prazer, um chato ressentido, nada mais que isso...

Não somos, brasileiros dados a escritores, digamos, amigos da severidade, da análise, da tarefa óbvia de separar joio do trigo. Não queremos ser desmentidos em nossas ilusões, queremos euforias, números falsos, estímulos, festinhas, beijos, abraços, elogios, nada mais que foguetório...
Por isso é tão difícil lidar com isso – porque apela-se mais para o talento de festeiro e mentiroso, compadre e sujeito simpático, que para a qualificação real. Não há jeito...O sujeito dotado de lucidez e espírito crítico acabará fora do baile.

Era o que eu queria dizer.
Abraços e parabéns.

Chico Lopes

maio 27, 2009

Reflexões sobre a crítica literária


Há alguns dias, respondendo ao e-mail de um amigo, no qual ele fazia comentários sobre minhas resenhas no Rascunho, escrevi que esse era um trabalho nem sempre agradável. E por uma simples razão: muitas vezes, a honestidade me obrigava a fazer críticas desfavoráveis.

À parte o fato de meus juízos estarem ou não corretos, o que apenas o tempo poderá dizer – e a história da crítica está pontilhada de erros e acertos, estes últimos em maioria –, quando, depois de ler certa obra, vejo-me obrigado a mostrar incongruências e desatinos, ajo assim sem qualquer prazer. Na verdade, sou tomado de certo mal-estar, pois, se há uma pulsão que move meu trabalho, é a de apontar acertos. Ao contrário do que muitos pensam, duvido que algum crítico seja movido por uma pulsão sádica.

Na verdade, os autores brasileiros não estão acostumados a receber críticas. Do que leio na mídia, percebo que a crítica desfavorável é, muitas vezes, escrita de forma velada, protegida sob uma terminologia praticamente hermética, como se, ao dissimular seu julgamento, o crítico pretendesse não se comprometer ou não fazer inimigos. Outra prática comum entre nós é a de considerar bom o que é apenas razoável ou medíocre. Alguns escritores, certamente, ficam satisfeitos – e o suposto crítico ganha amigos e fama. Esse tipo de celebridade, contudo, mostra apenas o quanto a perversão atingiu a literatura, a vida intelectual.

De minha parte, se considero um livro ruim, afirmo claramente o que penso. Por que haveria de fazer concessões? Por que haveria de tratar como gênio quem é somente mediano? Gotthold Lessing (na ilustração acima) tinha um pensamento apropriado sobre o assunto: “Em uma competição de coxos, o primeiro que chega ao final continua sendo coxo, apesar de tudo”.

Para Marcel Reich-Ranicki, os críticos atuam como porteiros de um baile, devendo introduzir um pouco de ordem na festa e, sobretudo, rechaçar, logo na entrada, os charlatães e os incapazes, a fim de deixar mais espaço no salão para os bons dançarinos. O pensamento de Ranicki, um dos críticos que mais aprecio, serve, no entanto, à realidade alemã. Em um país subdesenvolvido, onde a leitura não é um hábito, as edições raras vezes superam os dois mil exemplares e grande parte da população não ultrapassa a linha do analfabetismo funcional, o papel do crítico não é o de ser porteiro do baile. Simplesmente porque o salão está quase vazio e a orquestra toca, sem entusiasmo, para poucos dançarinos.

Quem faz crítica literária neste país, deveria trocar idéias, de maneira didática e sincera, com a minoria iluminada que se interessa pelo assunto, tentando formar consciências para uma verdade simples: em literatura, exatamente como acontece nos demais espaços da vida, há o ótimo, o bom, o medíocre e o ruim.

O baile, portanto, ainda está aberto a todos. Mas não há nada de errado em se aproximar de um dançarino e dizer: “Meu caro, você precisa treinar mais” ou “Meu amigo, você é um desastre”.

maio 25, 2009

Gongorismos

No Rascunho deste mês, analiso Nosso grão mais fino, novela de José Luiz Passos.

maio 22, 2009

Arnaldo Cohen e o “revolucionário conservador”

Pude ouvir a Osesp em duas oportunidades este mês, ambas com a regência de Claus Peter Flor, atualmente ocupando o cargo de diretor artístico da Orquestra Filarmônica da Malásia. Foram apresentações completamente díspares – e surpreendentes.

Em Noite transfigurada, de Arnold Schoenberg, Peter Flor conseguiu recriar o clima intimista, noturno do poema de Richard Dehmel. Seguindo o delicado continuum de cordas, experimentamos o encontro, a revelação da culpa e o generoso perdão do enamorado – ou seja, o triunfo do amor. Também ouvimos, de Felix Mendelssohn-Bartholdy, a Sinfonia nº 2 em Si Bemol maior, Op. 52. Não sou fã de Mendelssohn, um compositor, em minha opinião, apenas elegante. Mas foi impossível não ser contagiado pelo coro da Osesp e, principalmente, pela soprano Christina Landshamer, a melhor surpresa da noite: voz límpida, com uma sonoridade que em nenhum momento soou áspera ou cortante.

Mas Peter Flor reservava momentos ainda melhores. Ontem, fui surpreendido pela Sinfonia nº 2 em dó menor, Op. 27 de Josef Suk, um compositor desconhecido para mim. Conversando com Lauro Machado Coelho, ele me alertou: que eu estivesse preparado para fortes emoções, pois a sinfonia nascera do impacto de duas mortes – a de Dvorák, mestre de Suk, e a de Otilie Dvoráková, filha de Dvorák e esposa de Suk –, e o compositor havia concentrado nos cinco movimentos o absurdo de perder as pessoas que amava, o desespero, a revolta e, por fim, a resignada superação do luto. É, de fato, música espantosa, capaz de nos levar da indignação ao compartilhamento da dor.

Minha expectativa, no entanto, concentrava-se, desde o início da temporada, no Concerto nº 1 para piano, de Brahms. Passei os últimos dias ouvindo novamente as gravações que tenho aqui, com Arthur Rubinstein, Maurizio Pollini e Claudio Arrau, tentando captar as diferenças de interpretação, principalmente no adágio, o movimento que mais aprecio. Ontem, no entanto, ao ouvir Arnaldo Cohen, todas as nuanças desapareceram – e pude reviver o que já experimentara no ano passado, quando ouvi Cohen no Quinteto em fá menor de Brahms: ele é de uma virtuosidade, de um talento deslumbrante (e não há qualquer exagero neste adjetivo). Foi uma experiência inesquecível vê-lo, durante o concerto, trocar sorrisos com Peter Flor, demonstrando a perfeita unidade a que chegaram. E fiz questão de, na saída, cumprimentar Cohen e, principalmente, agradecer-lhe pela oportunidade de ouvir um pianista extraordinário interpretando meu compositor favorito: o “revolucionário conservador” Brahms.

maio 20, 2009

Liberal, didático, sensato

Neoliberal, não. Liberal é um livro despretensioso – mas obrigatório. Seu autor, o jornalista Carlos Alberto Sardenberg, reuniu nesse volume textos didáticos que jamais apelam a simplismos e não abrem mão da defesa dos valores liberais. E o que poderia ser melhor em um país no qual as leis imobilizam o mercado e a livre concorrência, onde o governo conseguiu a proeza de criar uma nova ideologia, o “neoliberalismo de esquerda fisiológico”? A irônica definição não é minha, mas de Sardenberg.

Com linguagem direta, clara, o livro traz aulas que se opõem, saudavelmente, ao socialismo, ideologia tão em voga neste país, mostrando que tal bandeira – “acabada, destruída como realidade e utopia” – serve apenas à demagogia e ao populismo. Artimanhas nas quais, aliás, o partido hoje no poder se esmerou, treinando nos palanques e nos sindicatos por décadas.

Um dos melhores textos do livro, “Adam Smith vive aqui”, explica como a busca dos próprios interesses e da satisfação das necessidades pessoais pode gerar riqueza para o empreendedor e à comunidade. Sardenberg parte de um exemplo colhido nas favelas de São Paulo, onde certa moradora, sensível e inteligente, sem esperar por benesses governamentais, montou uma lan house na cozinha de sua casa. Esse tipo de história, no entanto, não agrada aos defensores da caridade feita com dinheiro público. Para eles, o Programa Bolsa Família não é uma escola de imobilismo, não é a forma cínica de garantir eleitorado fiel e cego, mas trata-se de um passo a mais na direção do socialismo tupiniquim. Sardenberg, no entanto, expressa lucidez sobre a questão e sintetiza: “Um modelo econômico que fornece educação de qualidade e gera empregos não precisa dar comida, pois fornece às pessoas meios mais eficientes e duradouros”.

Em “Quinze anos com a mesma política econômica”, o jornalista nos oferece boa retrospectiva do período FHC–Lula. Sardenberg não doura a pílula, escreve com imparcialidade, sem maniqueísmos, mostrando de que maneira um conjunto de fatores provocou a virada estratégica da economia brasileira – e como as mudanças de discurso do PT sempre obedeceram a interesses eleitoreiros.

Mas Sardenberg não escreve apenas sobre economia e política. Sua visão de uma sociedade realmente liberal, que ele expõe ao tratar dos acidentes de trânsito e da proibição da venda de bebidas alcoólicas nas rodovias, defende a liberdade de consumo, o direito individual, e, ao mesmo tempo, punições que “desabem sobre o indivíduo que desrespeitou a lei e prejudicou os outros”. Ou seja, exatamente o contrário do que temos no Brasil, onde viceja “um conjunto de arbitrariedades ineficientes”.

A escrita de Sardenberg traz o mesmo estilo que ele tem imprimido, há algumas semanas, ao Jornal das Dez, no Canal Globo News: nenhuma histrionice, nada de trejeitos exagerados, gesticulação exaltada ou bruscas modulações de voz – características, aliás, que sobram em alguns apresentadores daquele noticioso. Sardenberg, ao contrário, transpira equilíbrio, sensatez.

Sem usar subterfúgios, as teses de Neoliberal, não. Liberal desagradam, com certeza, aos esquerdistas. E exatamente por esse motivo estão imbuídas de um profundo sentido de realidade.

maio 13, 2009

Arquivo Maaravi

Minha resenha sobre Jó – romance de um homem simples, de Joseph Roth, acaba de ser publicada no nº 4 da Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos (da Universidade Federal de Minas Gerais).

Convidado pela Profª Lyslei Nascimento, editora da publicação, enviei o texto de pronto, afinal, são pouquíssimas as revistas que apresentam uma proposta editorial tão sedutora.

O nome, Maaravi, vem de Kotel haMaaravi – o Muro Ocidental ou das Lamentações, em Jerusalém. Ruína do Templo destruído pelos romanos, o muro testemunhou séculos de história, transformando-se em um arquivo da memória judaica. Ali, os fiéis inserem, nas fendas entre as pedras, pequenos pedaços de papel com pedidos e orações.

Mas deixo vocês com o texto de apresentação da revista. Ele tem uma eloqüência contagiante:

Esse arquivo de pedras é um lugar de culto e de adoração. Os judeus ortodoxos, com seus trajes e chapéus negros, movimentam o corpo e movem seus lábios em orações diante dele. Os jovens soldados israelenses fazem ali seu voto de amor à pátria. Pais e filhos renovam, ano após ano, sua aliança com o Eterno. O Templo, que sobrevive metonimicamente nessa parede, é a casa do Messias, a promessa da construção do terceiro Templo e do corpo judaico que foi disperso nas diásporas e exílios.

Tal qual o Muro Ocidental, onde os textos são inseridos nas fendas, a Arquivo Maaravi – Revista Digital de Estudos Judaicos – espera acolher trabalhos de escritores e artistas que se dedicam aos Estudos Judaicos desde o Ocidente até o Oriente.

A proposta da revista, que passa pela concepção da tradição judaica com seu léxico, procedimentos e temas, como um arquivo aberto, ou como a Biblioteca de Borges, não é aqui concebido como o acúmulo de documentos inertes de um passado perdido ou como um testemunho petrificado de uma identidade perdida.

O arquivo da cultura judaica, que aqui tomamos através da metáfora do Kotel, espera lidar com o passado como estrelas próximas, ou muito longínquas, arcaicas até, que vêm até nós através de um certo rastro luminoso, ou, com o presente e o futuro, que podem se apresentar em todo o seu fulgor através de vestígios, como queria Walter Benjamin.

Entre a lembrança e o esquecimento, o arquivo judaico não poderá, assim, ser analisado, descrito ou reinventado a partir de uma obsessão milimétrica, mas a partir de fragmentos, regiões, níveis. Composto por diferentes obras, o arquivo judaico perpassa, onipresente, livros dispersos, delineando uma rede de textos que pertencem a uma tradição de autores que se conhecem ou se ignoram, estabelecendo conexões as mais inusitadas; autores que se criticam, invalidam-se uns aos outros, plagiam-se e, ao mesmo tempo, a despeito de suas vontades, reencontram-se, às vezes sem saber, no território de papel da literatura ou no campo plástico da arte.

maio 11, 2009

George Steiner e David Hume

Há poucos meses, uma declaração de George Steiner provocou polêmica na Europa. Steiner teria dito que “é muito fácil sentar-se aqui, nesta casa, e dizer: ‘– O racismo é horrível!’. Mas pergunte-me o mesmo se uma família de jamaicanos se mudar para a casa ao lado com seis filhos que escutam reggae e rock and roll o dia inteiro [...]”. O grande ensaísta terminava a afirmação salientando o fato de que, caso tal família se tornasse sua vizinha, seu próprio imóvel perderia, com certeza, grande parte do valor.

Vivendo sob o império do politicamente correto, Steiner foi acusado, é claro, de racismo. Os intelectuais de esquerda ficariam felizes se ele tivesse dito que, no caso de um dia ter vizinhos desse tipo, se submeteria de bom grado à barulheira, recusando o direito de desfrutar do silêncio em nome de viver uma inusitada experiência multicultural. E que, quando fosse avisado sobre a deterioração do valor de seu imóvel, o transformaria, com prazer, num abrigo para imigrantes desempregados.

São tempos estranhos e inseguros os nossos, pois, segundo a opinião de muitos, deveríamos nos dar por felizes quando temos o bem-estar e o silêncio violentados – ou quando a propriedade que adquirimos com imensos sacrifícios é desvalorizada da noite para o dia. No entanto, sabemos que todo o problema nasceu do exemplo citado por Steiner: se, no lugar de “jamaicanos”, tivesse dito “portugueses” ou “austríacos”, sem citar nenhum estilo de música em especial, poucos reclamariam.

David Hume não sofria esse tipo de patrulhamento. Em seu ensaio Da simplicidade e do requinte na maneira de escrever pôde afirmar, sem receio, que “os gracejos de um aguadeiro, as observações de um camponês e a linguagem confusa de um carregador ou de um cocheiro de praça são coisas naturais e desagradáveis, simultaneamente”. O exemplo não foi gratuito. Hume o utiliza para defender uma tese simples: a literatura que apenas reproduz a realidade, que é uma cópia fiel do real, é, no mínimo, insípida.

Ele também critica o oposto: os escritores que recorrem a ornamentos estilísticos quando o assunto de que tratam não comporta tais maneirismos. Buscando um “meio termo justo entre os excessos de requinte e de simplicidade”, ele afirma, no entanto, “ser difícil, senão impossível, explicar por palavras” como chegar a tal equilíbrio. Mas salienta que o “exagero do requinte, além de ser o extremo menos ‘belo’, é o mais ‘perigoso’”.

Suspeito, entretanto, que o filósofo escreveria de outra forma se vivesse hoje no Brasil. Imagino-o suplicando aos escritores para que parassem de escrever como aguadeiros, camponeses, carregadores e cocheiros. E, repetindo novamente a lição de Joseph Addison, diria: “Escrevam com sentimentos naturais, mas que não sejam óbvios”.

maio 05, 2009

Yoani Sánchez

Em abril de 2008, falei aqui sobre a filóloga cubana Yoani Sánchez e seu blog, o Generación Y. Naquela oportunidade, Yoani havia recebido o Prêmio Ortega y Gasset de Jornalismo Digital. Ontem, ela esteve presente, virtualmente, no auditório da FIESP, durante o II Fórum de Liberdade de Imprensa e Democracia, organizado pela Revista Imprensa. Sua participação está documentada no Canal do Instituto Millenium, no YouTube, ou no site do instituto. Vale a pena acompanhar essa voz que tem denunciado, de maneira incansável, as limitações da liberdade de expressão em Cuba.

maio 04, 2009

Uma escola maldita

A Folha de S. Paulo publicou hoje entrevista com o professor Camilo da Silva Oliveira, que dirige há 22 anos a Escola Lúcia de Castro Bueno, em Taboão da Serra (Grande São Paulo), classificada em primeiro lugar, segundo o último Enem, na rede estadual paulista – mas apenas a 2.596ª melhor escola do país (média de 58,5, em 100 pontos).

Há muito tempo eu não lia uma entrevista tão corajosa, com tantas verdades. Estão lá, para quem quiser ler, as soluções e as idéias de um diretor lúcido, dedicado à honrosa e difícil tarefa de educar. Mas educar no verdadeiro sentido da palavra: instruir, criar condições para que os alunos alcancem um alto grau de desenvolvimento espiritual. E não, como pensa a maioria dos educadores hoje, tão-somente politizar.

Abaixo, coloco dois dos melhores trechos (os grifos são meus). Eles mostram, através do olhar de um professor experiente, que os governos estão perdidos, não sabem o que fazer com a educação, não possuem qualquer norte. Não há plano estratégico, neste país, para a educação. Ao mesmo tempo, Camilo da Silva Oliveira denuncia a esquerda, que deseja transformar a escola em sindicato, que coloca a transmissão de conhecimentos, de conteúdo, em último plano.

Infelizmente, Oliveira está certo: “A escola pública vai continuar dependendo de talentos isolados”.

FOLHA - No dia-a-dia, o que a sua escola tem de diferente?
OLIVEIRA - Um eixo pedagógico, o rol de conteúdos [currículo], uma sequência de conteúdos. Fui pesquisar, porque o Estado não tinha subsídio para isso. Pesquisei escolas particulares e vestibulares de ponta. O Estado nem desconfiava desse rol. E hoje, 20 anos depois, ainda nem desconfia [o currículo começou a ser implementado na rede estadual em 2008].

FOLHA - O sr. então tem uma escola que não segue a rede.
OLIVEIRA - Aqui é uma escola maldita, que vai contra os modismos de cada secretário. Depois da Rose Neubauer [gestão Mario Covas], em que as escolas perdiam aulas para treinamento de professores em horário de serviço, veio um que nem sabe o que é rol de conteúdos [Gabriel Chalita, gestão Geraldo Alckmin]. A escola, que já não funcionava, ficava uma semana em feira de ciências ou excursões para zoológico. Melhora o ensino? Vi que era fria e tirei a escola disso. No governo Serra, temos o terceiro secretário em dois anos e meio. Se o meu projeto dependesse do governo, estaria esfacelado. A menina do Mackenzie [Maria Lúcia Marcondes Carvalho Vasconcelos, primeira secretária da gestão José Serra] era bem intencionada, mas não conseguiu nada. A segunda [Maria Helena Guimarães de Castro] eu respeito porque sabe que escola é avaliação. E sabe que para avaliar precisa de um rol de conteúdos. Mas teve problemas de gestão. Por exemplo, a prova de temporários era uma boa ideia. Mas a implementação foi péssima, sem preparo jurídico, o que melou o sistema. Ou seja, o governo não tem a menor ideia do que fazer com as escolas. Deveríamos nos preocupar com o que realmente interessa, que é a aprendizagem dos alunos. Depois se acerta a burocracia. Hoje, os diretores ficam mais preocupados com as atinhas, e o aluno não tem aula. É uma inversão. É triste, porque se é esse caos em São Paulo, imagina nos outros Estados. Nem as universidades conhecem a rede. Ganhei da Escola de Aplicação da USP [que ficou em 3.293º lugar no ranking nacional], por exemplo. E a esquerda até hoje acha que a democracia é o principal debate para a escola. Você pega o PT, eles estão discutindo eleição para diretor de escola. Uma bobagem. Deveria pegar os melhores quadros para dirigir a escola. Isso aqui não é sindicato. Estou me aposentando e não vejo caminho. A escola pública vai continuar dependendo de talentos isolados. O Estado só atrapalha. Aquelas que seguiram a linha, se esfacelaram.

abril 30, 2009

Estranhos Sísifos

O prazer da leitura – mas não de qualquer leitura. Refiro-me àqueles livros em que nos reencontramos, como se estivéssemos, durante longo tempo, apartados do que é essencial para nós, sem que percebêssemos esse estado, essa condição menor. Então, por acaso, abrimos certa obra – e mal a primeira página foi encerrada, as sinapses, milhares delas, começam a espocar. Saltamos, de página a página, impulsionados pela febre. Quase um delírio, no qual nosso cérebro apenas reitera, incansável: “é isso!”, “exatamente!”, “perfeito!”. E quando, por algum inesperado motivo, nos damos conta de que avançamos dezenas de páginas sem fazer qualquer anotação, redescobrimos essa forma de amor à primeira vista, capaz de nos consumir em uma madrugada, sem que, para nosso desespero, consigamos chegar ao final do volume. Mas é somente o primeiro passo. Faz-se necessário retornar ao início, recomeçar a leitura, agora movidos pela pretensão de saborear lentamente cada uma das descobertas que nos hipnotizaram. Dissecá-las sem piedade, como se o corpo a ser estudado ainda se debatesse, preso à mesa de autópsia. É preciso, então, controlar nosso ímpeto e agir como o cientista que confere incansáveis vezes sua descoberta. A leitura da paixão, da fúria apaixonada, torna-se, assim, um exercício minucioso, um adágio – e, em nossas anotações, reformulamos a descoberta de outrem, transformando-a na verdade que, agora, nos pertence. Damos seqüência, assim, à incansável tarefa da palavra: transmutar-se a cada pensamento, a cada reflexão, conservando-se a mesma, mas desdobrando-se para dar vida a um novo estágio de consciência. Só quando esse exercício extenuante termina podemos dizer que realmente lemos, que somamos à nossa vida a experiência de alguém que se antecipou, sem saber, aos nossos pensamentos, aos nossos sonhos. Só então o ato de amor está completo. Mas, como sói ocorrer, restará sempre um engano, uma dúvida: não nos apossamos de tudo. Na verdade, grande parte do que nos empolgou ainda permanece lá, intocável, intraduzível. E se, passado algum tempo, reiniciarmos a leitura, um novo mundo se revelará. Esse é o fado dos verdadeiros leitores: somos estranhos Sísifos, condenados a um prazer infindável, devotados ao exercício que nos concede, poucas vezes, a magia da identificação.

abril 29, 2009

Estado de Israel, 61 anos


"A criação do Estado de Israel prestou o maior serviço que qualquer instituição humana pode executar pelos indivíduos - restituiu aos judeus não somente sua dignidade pessoal e seu status como seres humanos, mas, o que é muitíssimo mais importante, seu direito de escolher como indivíduos de que forma devem viver - a liberdade básica da escolha, o direito de viver ou morrer, salvar-se ou danar-se à sua maneira, sem o que a vida é uma forma de escravidão, como tem sido realmente para a comunidade judaica por quase 2 mil anos."

- Isaiah Berlin, in "Escravidão e emancipação judaicas" (A força das idéias, Editora Cia. das Letras)

abril 28, 2009

Cartas e civilização

O artigo de João Pereira Coutinho, na Folha de hoje, me levou a revisitar um dos gêneros que mais aprecio: a epístola. Cartas são diálogos, francos ou não, em que revelamos facetas da personalidade – boas e más. Um epistolário, portanto, pode chegar a ser “uma autobiografia não premeditada, transmitida por mil casualidades, sobrevivente por puro milagre”, como bem definiu Hermann Kesten, ao falar sobre as cartas de Joseph Roth.

No Brasil, as missivas de Mário de Andrade e Monteiro Lobato apresentam não apenas o ser humano, muitas vezes num despojamento comprometedor, mas também a lenta e permanente elaboração de uma cultura tão extravagante quanto imatura, frágil. Elas formam a radiografia do país que ainda não encontrou seu centro, com suas qualidades e mazelas, ainda que os brasileiros se acreditem exemplos de cordialidade e civilização, vaidosos como índios se admirando a primeira vez num espelho.

Bem sei que talvez não tenhamos leitores para as dez mil cartas de Voltaire e outros tantos volumes de Madame de Sévigné, mas por que só publicamos, de Flaubert, uma pequena coletânea? É verdade que Marco Lucchesi nos presenteou com a correspondência de Giacomo Leopardi, traduzida por Maurício Dias, mas quando poderemos ler, em português, as cartas de John Keats, com a admirável introdução de Lionel Trilling? E as missivas de Diderot a Sophie Volland? Sim, temos as Cartas do cárcere, de Gramsci, plenas de amor paterno, documentos que, descontando-se o esquerdismo do militante, retratam a angústia da luta contra a própria decadência física. Mas, e as cartas de Cícero, de Petrarca? Ou, para ficar entre brasileiros, quando teremos as missivas, por exemplo, de Ribeiro Couto?

A Academia Brasileira de Letras tem procurado superar o atraso, e já publicou as cartas de Alphonsus de Guimaraens, José Honório Rodrigues e Casimiro de Abreu. Mas ainda há muito Brasil para ser revelado. Não o Brasil que sabe apenas olhar-se no espelho, mas aquele que, observando os outros, vê a grande distância que ainda deve percorrer para dar a si mesmo o nome de civilização.

abril 26, 2009

Euclides da Cunha: leitor de Rimbaud?

Leopoldo Bernucci já demonstrou (em A imitação dos sentidos, Edusp/University of Colorado at Boulder), ao tratar do problema da mimese na obra de Euclides da Cunha – mimese não como representação da semelhança, mas, sim, da diferença –, as relações intertextuais que Os sertões mantém com, entre outros, Victor Hugo e Domingo Sarmiento.

Sabe-se, também, da influência que teve – não só no que se refere a sugestões de leitura, mas, ainda que de maneira indireta, na própria elaboração de Os sertões – o intendente de São José do Rio Pardo, Francisco Escobar. Entre 1898 e 1901, período durante o qual Euclides viveu nessa cidade, ocupando-se da reconstrução da ponte que ruíra, os dois estabeleceram profunda relação de amizade, prolongada depois em razoável número de cartas.

Escobar foi um autodidata extremamente culto, além de bibliófilo. Se os números apresentados por Ângelo Caio Mendes Correa Jr. estão corretos, sua biblioteca, com sete mil volumes, deve ter representado um universo sem precedentes para Euclides. Há quem afirme, inclusive, que Escobar apresentou ao amigo os clássicos de Portugal, como Alexandre Herculano, por exemplo, além de inúmeros outros escritores, exercendo, assim, influência sobre o estilo do autor de Os sertões.

Pergunto-me, no entanto, que outros livros Escobar teria emprestado a Euclides. A resposta talvez possa ser encontrada na biblioteca do intendente, que, anos depois, foi prefeito de Poços de Caldas. Onde estariam esses livros? Que surpresas esses alfarrábios, que pertenceram a um homem de vasta cultura, à frente do seu tempo e do seu atrasado país, escondem? Que pistas eles poderiam oferecer sobre aqueles anos fecundos em São José do Rio Pardo, que permitiram a Euclides elaborar, dar forma definitiva a Os sertões?

Há bom tempo guardo comigo uma suspeita: Escobar apresentou Rimbaud a Euclides.

Um poema de Rimbaud, “Le dormeur du val” (“O adormecido do vale”), sempre me interessou pela semelhança que guarda em relação a um dos trechos mais belos de Os sertões, conhecido pelo título de “Higrômetros singulares”.

O poema aparece em duas primeiras edições: Reliquaire, poésies, L. Genonceaux, Paris, 1891 (prefácio de Rodolphe Darzens) e Poésies completes, L. Vanier, 1895 (prefácio de Paul Verlaine). Um desses livros faria parte da biblioteca de Francisco Escobar?

A semelhança entre os textos (que coloco abaixo) é fascinante. Em Euclides, “um velho jardim em abandono”, com uma “árvore única, uma quixabeira alta, sobranceando a vegetação franzina”. Em Rimbaud, na tradução de Ivo Barroso, “um recanto verde onde um regato canta / doidamente a enredar nas ervas seus pendões / De prata”.

Em Euclides, “o sol poente desatava, longa, a sua sombra pelo chão”. Em Rimbaud, “o sol, no monte que suplanta, / Brilha: um pequeno vale a espumejar clarões”.

Se o soldado, em Os sertões, tem “os braços largamente abertos, rosto voltado para os céus, para os sóis ardentes, para os luares claros, para as estrelas fulgurantes...”, no poema ele apresenta a “boca aberta, fronte ao vento, / [...] estendido sobre as relvas, ao relento, branco em seu leito verde onde chovia luz”.

Euclides fala da “ilusão exata de um lutador cansado, retemperando-se em tranqüilo sono, à sombra daquela árvore benfazeja”. No poema de Rimbaud, o verbo dormir surge duas vezes.

A transposição me parece clara. Euclides tirou o soldado do vale verdejante de Rimbaud e colocou-o na aridez da caatinga, concedendo-lhe um novo e mais elaborado contexto, descrevendo-o no seu estilo às vezes hiperbólico, que em nada se assemelha ao de Rimbaud.

Escobar teria importado um dos volumes? Ele acompanhava os lançamentos editoriais franceses, hábito comum entre os brasileiros cultos daquela época? Ou trata-se apenas de um tema recorrente na literatura, mera coincidência, como em vários outros casos?

Fico com a primeira hipótese. E não apenas pela semelhança entre os textos, mas pelo fato de que grande parte do que é descrito em Os sertões não pertence ao gênero histórico, mas à pura ficção.


O adormecido do vale

Era um recanto verde onde um regato canta
Doidamente a enredar nas ervas seus pendões
De prata; e onde o sol, no monte que suplanta,
Brilha: um pequeno vale a espumejar clarões.

Jovem soldado, boca aberta, fronte ao vento,
E a refrescar a nuca entre os agriões azuis,
Dorme; estendido sobre as relvas, ao relento,
Branco em seu leito verde onde chovia luz.

Os pés nos juncos, dorme. E sorri no abandono,
De uma criança que risse, enferma, no seu sono:
Tem frio, ó Natureza – aquece-o no teu leito.

Os perfumes não mais lhe fremem as narinas;
Dorme ao sol, suas mãos a repousar supinas
Sobre o corpo. E tem dois furos rubros no peito.

Outubro de 1870.
(in Poesia completa, 2ª edição revista, Editora Topbooks, 1994, tradução de Ivo Barroso)


Higrômetros singulares

[...]
Percorrendo certa vez, nos fins de setembro, as cercanias de Canudos, fugindo à monotonia de um canhoneio frouxo de tiros espaçados e soturnos, encontramos, no descer de uma encosta, anfiteatro irregular, onde as colinas se dispunham circulando um vale único. Pequenos arbustos, icozeiros virentes viçando em tufos intermeados de palmatórias de flores rutilantes, davam ao lugar a aparência exata de algum velho jardim em abandono. Ao lado uma árvore única, uma quixabeira alta, sobranceando a vegetação franzina.

O sol poente desatava, longa, a sua sombra pelo chão e protegido por ela – braços largamente abertos, face volvida para os céus – um soldado descansava.

Descansava... havia três meses.

Morrera no assalto de 18 de julho. A coronha da mannlicher estrondada, o cinturão e o boné jogados a uma banda, e a farda em tiras, diziam que sucumbira em luta corpo a corpo com adversário possante. Caíra, certo, derreando-se à violenta pancada que lhe sulcara a fronte, manchada de uma escara preta. E ao enterrar-se, dias depois, os mortos, não fora percebido. Não compartira, por isto, a vala comum de menos de um côvado de fundo em que eram jogados, formando pela última vez juntos, os companheiros abatidos na batalha. O destino que o removera do lar desprotegido fizera-lhe afina uma concessão: livrara-o da promiscuidade lúgubre de um fosso repugnante; e deixara-o ali há três meses – braços largamente abertos, rosto voltado para os céus, para os sóis ardentes, para os luares claros, para as estrelas fulgurantes...

E estava intacto. Murchara apenas. Mumificara conservando os traços fisionômicos, de modo a incutir a ilusão exata de um lutador cansado, retemperando-se em tranqüilo sono, á sombra daquela árvore benfazeja. Nem um verme – o mais vulgar dos trágicos analistas da matéria – lhe maculara os tecidos. Volvia ao turbilhão da vida sem decomposição repugnante, numa exaustão imperceptível. Era um aparelho revelando de modo absoluto, mas sugestivo, a secura extrema dos ares.

[...]
(in Os sertões – Campanha de Canudos, Ateliê Editorial/Imprensa Oficial – SP/Arquivo do Estado, 2002 – edição, prefácio, cronologia, notas e índices de Leopoldo M. Bernucci)

abril 23, 2009

Falstaff na Osesp


Não gostei do Falstaff interpretado pelo barítono Albert Schagidullin. Sua voz tem um registro mais próximo do de um baixo. Voz quase monocórdia, sem inflexões sugestivas, imprópria para uma ópera verdiana – e principalmente para uma ópera-bufa. Leonardo Neiva, entretanto, no papel de Ford, foi uma surpresa agradabilíssima. Bela voz, de rica modulação, a desse barítono brasileiro. Ele também demonstrou ser um ótimo ator. Outro aspecto positivo foi a direção cênica: com poucos recursos, André Heller-Lopes criou a atmosfera adequada, de bom gosto, reservando, para o final, uma solução mais do que agradável.

abril 21, 2009

Onde está Shakespeare?

No último número do Rascunho, escrevo sobre o Teatro completo de Shakespeare, na tradução de Carlos Alberto da Costa Nunes, obra originalmente publicada na década de 1950 e agora reeditada pela Agir.

abril 19, 2009

Escolhas feitas

Próximo de completar 50 anos, sinto-me ranzinza, impaciente com tudo que envolve subcultura, futilidades que não estejam ligadas diretamente ao meu conforto e discursos repetitivos, cheios de lugares-comuns. Ler os jornais tornou-se, portanto, um exercício cada vez mais penoso. Depois do Google Reader, que me permite selecionar o que realmente me interessa, quase não há mais sentido em ler um jornal.

Aliás, o verbo é inadequado: não leio – dou uma passada de olhos. Mas até mesmo isso aborrece. Às vezes, o porteiro da manhã interfona, lembrando-me que os jornais estão na portaria há três ou quatro dias...

Do Estadão de hoje, por exemplo, o que se salva? O artigo de Demétrio Magnoli e o caderno de Economia. É verdade, leitor, você tem razão: minha ranzinzice alcançou níveis perigosos, próximos da intolerância. Mas, aos 50, não posso perder tempo com o que estou cansado de saber. Chegou a idade em que, calejado, sigo as dez ou quinze primeiras linhas de um texto – e sei o raciocínio do autor, conheço seus argumentos. Muitas vezes, nem isso é necessário, pois basta ver o nome do articulista para que eu vire a página rapidamente. Tenho certeza de que, em 99% das oportunidades, as pessoas repetirão o que vêm dizendo há anos – ou o que outros dizem há séculos.

Aos 50, não posso perder tempo com quem chove no molhado, com vacas de presépio, puxa-sacos, plagiadores, espíritos servis, demagogos, copiadores de releases, esquerdistas de todos os gêneros e, principalmente, com os que escrevem mal. Certa idéia pode ser extraordinária, mas se for escrita em português claudicante provoca no meu coração aquele prenúncio de angina pectoris que sinto quando, depois de admirar uma bela mulher, descubro que a concordância verbal não é um dos seus pontos fortes.

Minhas escolhas estão feitas. Eliminei do meu horizonte os temas que considero pequenos, insignificantes. Permaneço aberto ao novo, claro, mas desde que ele passe pelo crivo dos padrões de qualidade e de gosto pessoal que instituí para o meu universo. No âmbito da música, por exemplo, minha sensibilidade está fechada à maioria das manifestações contemporâneas. Sou atacado de profunda tristeza quando o Estadão passa uma semana sem publicar a crítica de Lauro Machado Coelho. E viverei os próximos dias, até quarta-feira, na expectativa de ouvir Falstaff com a Osesp.

Como vêem, além de relutar em seguir as novas regras de ortografia, tive a lucidez de não só abandonar a esquerda, mas tornar-me um conservador cético. Relendo as cartas de Jacob Burckhardt (a Editora Topbooks publicou uma ótima seleção há alguns anos), encontro a síntese do meu pensamento: "É uma longa história [...] a difusão da cultura e o decréscimo de sua originalidade e individualidade, da vontade e da capacidade; e um dia o mundo irá sufocar e cair sobre o estrume de seu próprio filisteísmo".

Apocalíptico demais? Não creio. Aliás, basta caminhar alguns quarteirões em São Paulo, dar uma espiada nos lançamentos das editoras ou ler um jornal: o futuro previsto por Burckhardt se tornou presente.

abril 17, 2009

Individualismo


O que é a massa, senão loucura, fanatismo, embriaguez? A massa é sempre cega – e exatamente por isso, servil. O complemento indissociável de toda coletividade é a despersonalização.

Em meus tempos de militância na esquerda, cansei de ver os braços erguendo-se durante as votações, automáticos, hipnotizados pelo discurso passional ou dirigidos pelos acordos de bastidores. Assembléias são arremedos de democracia.

E as aglomerações em praça pública? Um demagogo verbaliza a palavra-chave ou faz o gesto apropriado, e o emocionalismo incita a massa em milésimos de segundos, numa onda incontrolável de autoenganação. É um frenesi, um êxtase, mas que extermina o indivíduo, apaga a consciência, aniquila o juízo crítico.

“O homem pode significar muito para si próprio, e quanto mais ele significa para si, mais significa para os outros”, escreveu Jacob Burckhardt. Ele estava certo. A ciência, a arte e a sabedoria só podem nascer do individualismo; se preservarmos, com todas as forças, a nossa autonomia, a nossa vontade. A multidão é a mentira. (Esta última frase não seria de Kierkegaard?)

abril 15, 2009

Material para bons ficcionistas

É uma pena que a maior parte dos nossos escritores esteja preocupada apenas em ser mais vanguardeira que dadaístas empedernidos. No Brasil pululam fatos que, de tão irreais, bem que mereciam ganhar verossimilhança graças à ficção.

O que dizer, por exemplo, da estudante – de pai pardo e avô negro – que perdeu a vaga, conquistada por meio do sistema de cotas, na Universidade Federal de Santa Maria? Como sempre, quando o Estado decide inventar uma justiça espúria, acaba somente praticando novas injustiças. No caso, antecipando-se à votação que deve ocorrer no Senado dentro de alguns dias, a universidade criou uma comissão para julgar os casos de “reserva racial”. Submetida a questionamentos diversos – dentre eles, “sofreu algum tipo de preconceito?” –, a jovem foi reprovada, pois não possuía o perfil de vítima, ou seja, por comprovar, em sua própria vida, que o racismo apregoado pelas “minorias politicamente corretas” não passa de fantasmagoria.

Mas não se trata apenas disso. Há outras questões que incomodam: quem pode julgar quem? E com quais fundamentos? E quem estabelece esses fundamentos? O pequeno tribunal dessa universidade é tão sórdido quanto um tribunal kafkiano. Ele comprova que a divisão da sociedade por raças é arbitrária, injusta e absurda – e, manipulada em comissões cujos membros defendem critérios absolutamente subjetivos, só tende a produzir aberrações.

Para onde a segue a carruagem? Teremos de, em breve, fornecer, no ato de inscrição para o vestibular, o mapeamento de DNA? O Estado criará novos cartórios, especializados em atestar as raças dos recém-nascidos? Ou bastará que os atuais cartórios de registro civil contratem geneticistas?

Ora, não seria melhor, de uma vez por todas, ressuscitar Alfred Rosemberg?

Escritores brasileiros: mãos à obra! Há material à farta para bons ficcionistas!

abril 13, 2009

Nove anos de Rascunho

Rogério Pereira, editor do jornal Rascunho, concedeu uma entrevista, dividida em seis partes, ao blog Papo Original. Abaixo, coloco o primeiro trecho desse diálogo tranqüilo, em que Rogério fala sobre livros, internet, futebol e vários outros temas:


Rascunho from Papo Original on Vimeo.

abril 10, 2009

Igualitarismo nivelador

Os números foram divulgados ontem pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo: 82,5% dos alunos da 8ª série do ensino fundamental apresentam desempenho medíocre em língua portuguesa. Se essa é a realidade do ensino paulista, o que deve ocorrer, por exemplo, no estado mais querido de Nelson Rodrigues, o Piauí?

Ironia à parte, enquanto a escola seguir considerando as diferenças individuais não pela óptica do reconhecimento diferencial dos méritos, mas segundo a idéia marxista que advoga um igualitarismo nivelador, os índices continuarão piorando. A escola da progressão continuada é a escola do amorfismo. A ideologia que hoje norteia a educação no Brasil tenta esconder a verdade, mas não premiar o esforço, o empenho e, portanto, o mérito individual, serve apenas para criar cidadãos passivos e ignorantes.

abril 09, 2009

Terremoto em L'Aquila

Penso nos mortos do terremoto na Itália. Mas penso principalmente nos vivos, na herança de dor e saudade que terão de carregar, e no sentimento, sempre devastador, de que a vida é uma luta entre forças desproporcionais, onde, de um lado, está o homem – cheio de orgulho, mas frágil, patético –, caminhando tendo diante de si o fim iminente, e de outro o infortúnio, demorado ou abrupto, mas sempre inevitável.

Se viver exige um ato de coragem diário, o que será viver sustentando o ônus do fatídico – e, pior, o ônus de escapar da morte e, em troca, ser condenado a suportar o peso de todas as conseqüências provocadas pela fatalidade?

abril 08, 2009

O prazer de fumar

Meu silencioso repúdio à arbitrariedade aprovada ontem aqui em São Paulo.

abril 07, 2009

Double Concerto

Ouvir Brahms significa experimentar certo estado de transcendência. De repente, o real, o físico é ultrapassado - e quando voltamos às mazelas do dia-a-dia, a sensação de que estivemos livres do peso de viver se mantém e nos reconforta. Aqui, violino e violoncelo não disputam nenhuma primazia, mas apenas dialogam para muito além do lirismo, criando uma natureza íntima comum, uma realidade da qual ansiamos jamais nos separar:

abril 04, 2009

Novo visual e leituras

Fui praticamente forçado, por um grande amigo, a mudar a aparência do blog. De fato, está melhor assim, arejado, com as letras maiores, design leve. Devagar, acerto os detalhes que faltam.

Para os que gostam, há uma boa entrevista com John Le Carré no Babelia deste sábado. E uma resenha, interessante, sobre livros de viagens, falando de R. L. Stevenson e Joseph Roth, entre outros.

abril 01, 2009

Biblioclastia na Venezuela?


Notícias publicadas em vários blogs e revistas digitais denunciam a destruição de livros na Biblioteca Nacional da Venezuela - por motivos ideológicos -, bem como a transformação desse órgão público em mero divulgador de instrução partidária.

Segundo as notícias, um dos responsáveis pela destruição, Fernando Báez, que foi diretor da Biblioteca Nacional, é, ironicamente, autor de um livro intitulado Historia universal de la destrucción de libros.

E há mais: dentre os links que me enviaram, um fórum de discussão afirma que a queima de livros em bibliotecas públicas está se tornando uma rotina naquele país.

Seria mais uma das faces obscurantistas da Revolução Bolivariana?

março 29, 2009

Leituras


Abro o jornal de domingo em busca de vida inteligente, coisa cada vez mais rara em um país no qual o governo corteja, todos os dias, a mediocridade das massas. Às vezes tenho sorte. A Folha de S. Paulo de hoje, por exemplo, traz um ótimo editorial, apontando a "concepção vingativa e primitiva de Justiça" que tem norteado setores do Judiciário. Tema, aliás, que Reinaldo Azevedo denuncia constantemente: como é possível, por exemplo, prender, intimidar e difamar com base apenas em conjecturas? O Estadão também me conforta: o bom ensaio de John Gray, no Caderno Aliás, oferece uma ampla radiografia da conjuntura atual. Gray é sempre instigante - e poucas coisas são melhores do que ler um pensador independente, cujos motivos para refletir restringem-se ao prazer da reflexão, à ânsia de buscar a verdade. Suely Caldas, no Caderno de Economia, coloca outra vez, sem piedade, o dedo na ferida do PT. Como não se tornar leitor assíduo de uma jornalista que jamais rasteja para o governo, que jamais torna doce a verdade? Finalmente, no Caderno 2, Daniel Piza - exatamente como Jerônimo Teixeira, na Veja - faz lúcida crítica literária, fugindo do oba-oba esquerdista - que contaminou boa parte da mídia nos últimos dias - em torno do novo livro de Chico Buarque. Enfim, um domingo de saldo positivo.

Agora, se me permitem, vou retornar ao meu Philip Roth.

março 27, 2009

Osesp


Sob a regência de Gennady Rozhdestvensky, um Alexander Glazunov previsível, chatíssimo, apenas para esquentar os motores. Mas o Concerto nº 1 para Violino em ré maior, Op.19, de Prokofiev, iniciou, de fato, a noite, com seu lirismo perturbador, envolvente. Depois do intervalo, a melhor suspresa: a Sinfonia nº 10 em mi menor, Op.93, de Shostakovich - magnífica! Fomos tragados pela sonoridade espantosa. Há tudo ali: um homem apaixonado, uma criança indefesa, um artista defendendo sua liberdade.

março 16, 2009

Da Rússia czarista aos bolcheviques


Estamos cansados de saber que foi assim? Talvez. Mas há certos números que devem ser relembrados de vez em quando:

"Existe uma enorme disparidade entre o tamanho do aparato penal e de segurança da Rússia czarista e o do que foi instaurado pelos bolcheviques. Em 1895, o Okhrana (Departamento de Polícia) tinha apenas 161 funcionários em tempo integral. Em outubro de 1916, pode ter chegado a um total de 15.000, incluindo funcionários alocados em outros departamentos. Em comparação, em 1919 a Cheka tinha no mínimo 37.000 funcionários, chegando a mais de um quarto de milhão em 1921. Disparidade semelhante se verifica no que diz respeito ao número de execuções. No último período czarista, entre 1866 e 1917, houve aproximadamente 14.000 execuções, enquanto no período soviético inicial, de 1917 a 1923, a Cheka promoveu cerca de 200.000 execuções."

Mais informações - e um texto realmente instigante - em Missa Negra - religião apocalíptica e o fim das utopias, de John Gray (Editora Record).

março 09, 2009

As melhores críticas


Leio com atraso dois textos publicados no Estadão na semana passada. Merecem destaque.

Na edição de quinta, 5 de março, Luiz Américo Camargo escreve sobre o Restaurante Moraes, o Rei do Filet, casa antiga na Praça Júlio Mesquita, onde fui a primeira vez ainda garoto, levado por meu pai. O texto de Camargo, no entanto, não serve apenas para despertar lembranças. Acima de outros prazeres, cumpre o papel da melhor crítica: recupera a história do restaurante; analisa os pratos, o ambiente, o serviço; faz comparações com a cozinha contemporânea; e não teme dizer ao leitor: é bom – vá. Quando chegamos ao final, podemos sentir os odores convidativos da carne. O texto é claro, leve, transpira isenção e, o melhor, não inventa metáforas excêntricas.

Trabalho semelhante faz Lauro Machado Coelho na edição de sábado, 7 de março. Escreve sobre a nossa querida Osesp em sua primeira noite com o maestro Yan-Pascal Tortelier. Lauro recusa-se à prática cada vez mais comum de usar o espaço da crítica para fazer fofocas, recordar questões desgastantes ou reacender mágoas. Não. Ele é um profissional, homem dedicado ao ofício de transformar sua crítica em minutos de ensinamento. As gradações do texto acompanham cada acorde. Quem não esteve no evento tem a visão clara do que foi a noite; alegra-se com a crise superada e, principalmente, com a música de altíssimo nível. É possível escutar uma gravação da Sinfonia nº 2 de Rachmáninov e saber em que trechos a Osesp teve desempenho melhor. A “precisão e sutileza” que Lauro reconhece em Tortelier, ele nos oferece em seu texto.

Dois críticos que são verdadeiros didatas. Essa maneira de escrever, cada vez mais rara na crítica brasileira, esconde uma sabedoria: ninguém é dono da verdade, mas o público merece a atenção e o cuidado dos que conhecem mais e, portanto, podem indicar caminhos, dizendo, claramente, o que é bom e o que não é.

Luiz Américo Camargo e Lauro Machado Coelho escrevem assim. E o melhor: sem discursos dúbios (a crítica ambígua esconde um traço indelével de covardia intelectual), sem a empáfia de pretender criar um novo gênero literário, recusando a proteção dos academicismos e da linguagem hermética.

março 08, 2009

Filosofia


A revista Crítica - dedicada à divulgação, ao ensino e à investigação filosófica - está, temporariamente, aberta a todos os leitores. É uma boa oportunidade para conhecer um arquivo diversificado, de ótima qualidade, no qual podemos encontrar artigos e resenhas de divulgação científica - como esta sucinta e correta introdução à leitura de Isaiah Berlin - ou textos mais profundos. A revista é dirigida por Desidério Murcho, mestre em Filosofia pela Universidade de Lisboa, atualmente professor na Universidade Federal de Ouro Preto, MG.