junho 06, 2009

No centenário do nascimento de Isaiah Berlin


Michael Ignatieff encerra sua biografia de Isaiah Berlin (6 de junho de 1909 - 5 de novembro de 1997) com uma frase que sintetiza não apenas a vida desse notável filósofo, mas também o que ele representa para toda uma geração de pensadores: “Num século escuro, Berlin mostrou o que deve ser uma vida da mente: cética, irônica, desapaixonada e livre”. Erguer-se acima das mazelas humanas, agitando, a cada pensamento, a cada ensaio, a cada aula, essas quatro bandeiras – e fazê-lo em uma época marcada por duas guerras mundiais e por ditaduras que, em nome de conduzir o mundo ao Paraíso, assassinaram milhões de pessoas – representa uma trabalho invejável.

Não me recordo qual foi o primeiro texto de Berlin que li, mas fui imediatamente fisgado por sua retórica “precipitada”, por seu estilo deliciosamente professoral, com uma lógica que não é fria, mas aberta ao gracejo, à ironia, e acima de tudo incansável na argumentação, com exemplos que vão se interligando em longos e sedutores parágrafos.

Sempre que leio Berlin imagino o que seria ouvi-lo durante uma aula, como seria dialogar com ele, vendo a linha de seu raciocínio nascer em meio aos gestos, ao movimento dos olhos, à agitação do corpo que se empolga – ou seja, viver o que Ignatieff descreve: “ser arrastado ao salão de sua mente”.

De qualquer forma, estou fadado a experimentar apenas parcela dessa sedução, quando leio seus ensaios. É um consolo, sem dúvida.

Sempre que releio “A busca do ideal” (in Estudos sobre a humanidade), por exemplo, deixo, prazerosamente, que ele me conduza de uma primeira visão geral sobre a história humana no século XX para o seu próprio percurso intelectual, convencido, como ele, de que esse é um processo de constante negação da barbárie, pois “somente os bárbaros”, diz Berlin, “não são curiosos sobre o lugar de onde vêm, como chegaram aonde estão, para onde parecem estar indo, se desejam ir para esse lugar, em caso positivo, por quê, em caso negativo, por que não”.

Passo a passo ele revisita todas as ilusões do pensamento, do ideal platônico ao marxismo, todos esses castelos construídos no ar, que insistem em nos dizer que um dia a razão triunfará definitivamente, dando início a uma era de cooperação e harmonia universal, a “história verdadeira”.

Depois, ele nos mostra como acordou – o lento despertar rumo ao “senso de realidade”: Maquiavel, Vico, Herder –, até atingir sua visão pluralista (e jamais relativista; como, aliás, ele insiste em sublinhar). Um pluralismo despojado de qualquer utopia, firmado na realidade, segundo o qual “um mundo sem conflitos de valores incompatíveis é um mundo completamente além de nosso conhecimento”.

Trata-se de uma visão dura, sem dúvida. Mas absolutamente lúcida. Berlin não se permite “descansar na cama confortável dos dogmas” ou ser “vítima de uma miopia auto-induzida”. Não. Jamais haverá uma solução final para o homem, pois uma sociedade sem problemas – ou um planeta sem problemas, sem divisões – é uma sociedade “em que a vida interior do homem, a imaginação moral, espiritual e estética, já não diz nada”.

E antes que nos perguntemos o que o homem pode fazer, então, diante da realidade injusta, insatisfatória, constantemente fendida, ele nos responde: “O melhor que podemos fazer é manter um equilíbrio precário que impeça a ocorrência de situações desesperadas, de escolhas intoleráveis”.

Esse é Berlin: o olhar aberto ao real, sem jamais aceitar qualquer véu que edulcore a nossa fragilidade. Nosso “equilíbrio inquieto” está “sob constante ameaça e em constante necessidade de reparo”, ele afirma. E não há como escapar: “A situação concreta é quase tudo” e “o risco moral às vezes não pode ser evitado”. Só essa verdade nos livra da embriaguez ideológica. E só ela nos move à negociação perene com os outros homens, à urgência de estarmos continuamente reinventando o diálogo, a “intercomunicação entre as culturas”.

Isso não quer dizer, no entanto, que devemos abdicar de certos bens incontestáveis, como a liberdade, a justiça, a procura de felicidade, a probidade, o amor. Berlin é claro: “Devemos buscar esses direitos e proteger as pessoas contra aqueles que os ignoram ou recusam em admiti-los; e quando o diálogo se torna impossível, podemos, então, nos sentir impelidos a guerrear com eles. Mas é necessário sempre tentar convencê-los”.

Àqueles que estão em busca de absolutos, o pensamento de Berlin parecerá decepcionante. Mas aqueles abertos à construção do “equilíbrio difícil”, esses sabem que viver significa nem sempre conseguir evitar escolhas penosas e soluções imperfeitas; que a razão não é um instrumento plenamente eficaz; e que nossas escolhas não são imbatíveis ou incontestáveis. Na verdade, a história já demonstrou que “a busca da perfeição é a receita para o derramamento de sangue”.

O pensamento de Berlin, portanto, não propõe uma receita infalível para se chegar à verdade. Ao contrário, é um incansável convite ao inseguro exercício da liberdade.

junho 05, 2009

Os melhores dias

As manhãs frias lembram-me a infância. São recordações intensas, vívidas. Assim que desperto e começo a me levantar, vejo-me criança, colocando o uniforme no quarto ainda escuro e sentindo o impacto dos tecidos gelados contra a pele. Esse desconforto, no entanto, dura pouco. Eu me lavava com prazer na água que parecia quebrar entre os dedos, e a cada golpe do líquido no rosto, uma sensação de revigoramento me invadia, como se o choque de temperaturas expulsasse para sempre a morbidez noturna. Minha mãe esperava-me na cozinha, o café sobre a mesa. E enquanto ela tremia, eu já me tornara elétrico, alerta, falante. Poucos minutos depois, caminhava na 11 de Junho, observando as calçadas cobertas de orvalho, o verde das árvores impregnado de um brilho mais puro, e percebendo, a cada passo, a suave cumplicidade do sol. O verão desaparecera. Toda a natureza refreara seus ímpetos e eu não tinha de vencer o mormaço que embotava meu cérebro. Era uma alegria cruzar o jardim público vendo a massa encapotada de crianças e jovens, aquele mar azul-marinho de cabeças inclinadas sob o frio, enquanto eu me sentia renascer, pronto a qualquer aventura. Tudo se revestia de uma beleza nova, incluindo as meninas, obrigadas a usar a saia do uniforme, trêmulas e adoravelmente frágeis apesar das meias de lã e dos capotes. Olho pela janela as pessoas lá embaixo, centenas de agasalhos multicoloridos movendo-se na direção do metrô, e meu impulso é estar entre elas, deixando que o frio afague meu rosto, seguindo, alegre, movido pela urgência da fuga, rumo aos melhores dias da infância.

maio 30, 2009

Clube dos colecionadores de figurinhas do sabonete Eucalol


Analisando os comentários do post abaixo – e agradeço aos comentaristas que aceitaram participar do debate –, vejo que ao menos em um ponto a maioria concorda: repete-se, entre nós, o hábito de entender a crítica literária como ofensa pessoal. E quando isso ocorre, a reação é sempre a mesma: desqualificar o crítico, muitas vezes de maneira injuriosa.

A outra face da moeda – representada pelo crítico servil ou pelos resenhistas (muitos deles também escritores) que se especializaram nos elogios mútuos – é, assim, o complemento perfeito, adequado, à realidade promíscua que caracteriza, em grande parte, a vida literária brasileira.

O escritor e tradutor Francisco Carlos Lopes – autor de Nó de sombras e Dobras da noite (ambos publicados pelo Instituto Moreira Salles) – defende uma tese curiosa sobre todos esses fenômenos, tese que poderia ser resumida em um só pensamento: a relação de compadrio, presente na política desde sempre, também corrompeu a literatura.

O longo comentário de Chico Lopes – enviado por e-mail na última quinta-feira –, que, com autorização do escritor, reproduzo abaixo, é um exercício de lucidez, de grande honestidade:

Rodrigo:

[...]

Em todo caso, o que queria dizer é que esse negócio de não poder julgar os trabalhos de amigos escritores com isenção, em termos puramente literários, é uma miséria tipicamente brasileira (outra delas). Deriva do espírito de "patota", que é inevitável entre nós, e que faz com que a literatura, tão minoritária, tão "clube dos colecionadores de figurinhas do sabonete Eucalol" em termos numéricos e expressivos na inculta sociedade brasileira, se componha de gente excêntrica cujo único motivo para existir é uma vaidade renitente.

Ora, tendo este como único motivo, na verdade, cumpre manter o compadrismo, não ofender ninguém, ser um sujeito sempre simpático, prestativo, generoso, nada crítico.
Não há, na verdade, clima para discussões estritamente literárias e estéticas e vontade de aperfeiçoar nada por esse lado. Aperfeiçoa-se, isto sim, as relações, como se beneficiar (e até de maneiras extra-literárias) delas, como chegar a editores e gente mais famosa etc. e aperfeiçoa-se a arte de nada dizer que possa afetar ilusões compartilhadas.
O sujeito que insistir nisso – na crítica, desprovida de "amizade" por amor à crítica, à mera verdade – será visto como antipático, discriminado e, se não for excluído do clubinho, será ao menos um membro muito evitado e pouco convidado, digamos...

Porque, na verdade, a Literatura aí, como arte que se depura, interessa pouquíssimo. E fica proibido, como em outros clubes de outras finalidades, que se toque em temas-tabu – já que a estrutura é tão frágil, a coisa tão presunçosa e baseada em tão voláteis famas e tão poucos talentos reais, que a verdade pode pôr tudo abaixo facilmente, e aquele que ousou proferi-la será odiado.

O que você disse é verdade – a festa é pequena e os dançarinos são poucos, e é feio ser muito exigente, quando se está em minoria – é preciso ser, acima de tudo, solidário e compassivo, não apresentar critérios ou requisitos de qualidade muito rígidos, levando em conta que todo mundo dança mais ou menos mal ou é francamente capenga.

A gente, por educação, consideração e, em não raros casos, compaixão, se abstém de dizer o óbvio – que o livro que Fulano nos mandou, na esperança de uma força, é medíocre ou precisaria passar por muita purgação e reescritura para se tornar melhor ou apenas digno de consideração.

Já passei muito por isso, cometi vários pecados de bondade ou complacência, ganhando amizades que passavam, então, a ter precisamente o tabu supracitado: nada de dizer a verdade sobre o trabalho do amigo, que ele tinha que ser mais humilde, se aperfeiçoar, escrever melhor, ouvir críticas. Um dia, porém, a complacência acaba, alguma coisa mais real se ventila, e tudo vai por água abaixo, já que o narcisismo primário que preside esses clubinhos é implacável, nesses momentos. Tudo acaba em carrancas, diz-que, diz-que, nas intrigas mais baixas, com os vaidosinhos se digladiando e propagando venenos e escrotidões. O reino da verdade acaba, por pura perversão, sendo o reino da realidade recalcada, o terreno minado onde ninguém de bom-tom deveria ter pisado...

Então acontece, com frequência fatal, que o sujeito mais verdadeiro se esquive voluntariamente, fique mais insociável, digamos, mais eremita, para evitar ser mal-educado ou simplesmente autêntico, mas seus escrúpulos serão mal compreendidos e isso acabará por ser tomado como arrogância.

O que se pretende é abolir toda e qualquer hierarquia de qualidade em nome de uma solidariedade grupal muito falsa e eufórica. O que se pretende é que a música continue tocando e os dançarinos, bons, ruins, chinfrins, proibidos de serem refinados e exigentes, continuem dançando.
O sujeito mais consciente, que se absteve de entrar na dança e segue mudo, é um desmancha-prazer, um chato ressentido, nada mais que isso...

Não somos, brasileiros dados a escritores, digamos, amigos da severidade, da análise, da tarefa óbvia de separar joio do trigo. Não queremos ser desmentidos em nossas ilusões, queremos euforias, números falsos, estímulos, festinhas, beijos, abraços, elogios, nada mais que foguetório...
Por isso é tão difícil lidar com isso – porque apela-se mais para o talento de festeiro e mentiroso, compadre e sujeito simpático, que para a qualificação real. Não há jeito...O sujeito dotado de lucidez e espírito crítico acabará fora do baile.

Era o que eu queria dizer.
Abraços e parabéns.

Chico Lopes

maio 27, 2009

Reflexões sobre a crítica literária


Há alguns dias, respondendo ao e-mail de um amigo, no qual ele fazia comentários sobre minhas resenhas no Rascunho, escrevi que esse era um trabalho nem sempre agradável. E por uma simples razão: muitas vezes, a honestidade me obrigava a fazer críticas desfavoráveis.

À parte o fato de meus juízos estarem ou não corretos, o que apenas o tempo poderá dizer – e a história da crítica está pontilhada de erros e acertos, estes últimos em maioria –, quando, depois de ler certa obra, vejo-me obrigado a mostrar incongruências e desatinos, ajo assim sem qualquer prazer. Na verdade, sou tomado de certo mal-estar, pois, se há uma pulsão que move meu trabalho, é a de apontar acertos. Ao contrário do que muitos pensam, duvido que algum crítico seja movido por uma pulsão sádica.

Na verdade, os autores brasileiros não estão acostumados a receber críticas. Do que leio na mídia, percebo que a crítica desfavorável é, muitas vezes, escrita de forma velada, protegida sob uma terminologia praticamente hermética, como se, ao dissimular seu julgamento, o crítico pretendesse não se comprometer ou não fazer inimigos. Outra prática comum entre nós é a de considerar bom o que é apenas razoável ou medíocre. Alguns escritores, certamente, ficam satisfeitos – e o suposto crítico ganha amigos e fama. Esse tipo de celebridade, contudo, mostra apenas o quanto a perversão atingiu a literatura, a vida intelectual.

De minha parte, se considero um livro ruim, afirmo claramente o que penso. Por que haveria de fazer concessões? Por que haveria de tratar como gênio quem é somente mediano? Gotthold Lessing (na ilustração acima) tinha um pensamento apropriado sobre o assunto: “Em uma competição de coxos, o primeiro que chega ao final continua sendo coxo, apesar de tudo”.

Para Marcel Reich-Ranicki, os críticos atuam como porteiros de um baile, devendo introduzir um pouco de ordem na festa e, sobretudo, rechaçar, logo na entrada, os charlatães e os incapazes, a fim de deixar mais espaço no salão para os bons dançarinos. O pensamento de Ranicki, um dos críticos que mais aprecio, serve, no entanto, à realidade alemã. Em um país subdesenvolvido, onde a leitura não é um hábito, as edições raras vezes superam os dois mil exemplares e grande parte da população não ultrapassa a linha do analfabetismo funcional, o papel do crítico não é o de ser porteiro do baile. Simplesmente porque o salão está quase vazio e a orquestra toca, sem entusiasmo, para poucos dançarinos.

Quem faz crítica literária neste país, deveria trocar idéias, de maneira didática e sincera, com a minoria iluminada que se interessa pelo assunto, tentando formar consciências para uma verdade simples: em literatura, exatamente como acontece nos demais espaços da vida, há o ótimo, o bom, o medíocre e o ruim.

O baile, portanto, ainda está aberto a todos. Mas não há nada de errado em se aproximar de um dançarino e dizer: “Meu caro, você precisa treinar mais” ou “Meu amigo, você é um desastre”.

maio 25, 2009

Gongorismos

No Rascunho deste mês, analiso Nosso grão mais fino, novela de José Luiz Passos.

maio 22, 2009

Arnaldo Cohen e o “revolucionário conservador”

Pude ouvir a Osesp em duas oportunidades este mês, ambas com a regência de Claus Peter Flor, atualmente ocupando o cargo de diretor artístico da Orquestra Filarmônica da Malásia. Foram apresentações completamente díspares – e surpreendentes.

Em Noite transfigurada, de Arnold Schoenberg, Peter Flor conseguiu recriar o clima intimista, noturno do poema de Richard Dehmel. Seguindo o delicado continuum de cordas, experimentamos o encontro, a revelação da culpa e o generoso perdão do enamorado – ou seja, o triunfo do amor. Também ouvimos, de Felix Mendelssohn-Bartholdy, a Sinfonia nº 2 em Si Bemol maior, Op. 52. Não sou fã de Mendelssohn, um compositor, em minha opinião, apenas elegante. Mas foi impossível não ser contagiado pelo coro da Osesp e, principalmente, pela soprano Christina Landshamer, a melhor surpresa da noite: voz límpida, com uma sonoridade que em nenhum momento soou áspera ou cortante.

Mas Peter Flor reservava momentos ainda melhores. Ontem, fui surpreendido pela Sinfonia nº 2 em dó menor, Op. 27 de Josef Suk, um compositor desconhecido para mim. Conversando com Lauro Machado Coelho, ele me alertou: que eu estivesse preparado para fortes emoções, pois a sinfonia nascera do impacto de duas mortes – a de Dvorák, mestre de Suk, e a de Otilie Dvoráková, filha de Dvorák e esposa de Suk –, e o compositor havia concentrado nos cinco movimentos o absurdo de perder as pessoas que amava, o desespero, a revolta e, por fim, a resignada superação do luto. É, de fato, música espantosa, capaz de nos levar da indignação ao compartilhamento da dor.

Minha expectativa, no entanto, concentrava-se, desde o início da temporada, no Concerto nº 1 para piano, de Brahms. Passei os últimos dias ouvindo novamente as gravações que tenho aqui, com Arthur Rubinstein, Maurizio Pollini e Claudio Arrau, tentando captar as diferenças de interpretação, principalmente no adágio, o movimento que mais aprecio. Ontem, no entanto, ao ouvir Arnaldo Cohen, todas as nuanças desapareceram – e pude reviver o que já experimentara no ano passado, quando ouvi Cohen no Quinteto em fá menor de Brahms: ele é de uma virtuosidade, de um talento deslumbrante (e não há qualquer exagero neste adjetivo). Foi uma experiência inesquecível vê-lo, durante o concerto, trocar sorrisos com Peter Flor, demonstrando a perfeita unidade a que chegaram. E fiz questão de, na saída, cumprimentar Cohen e, principalmente, agradecer-lhe pela oportunidade de ouvir um pianista extraordinário interpretando meu compositor favorito: o “revolucionário conservador” Brahms.

maio 20, 2009

Liberal, didático, sensato

Neoliberal, não. Liberal é um livro despretensioso – mas obrigatório. Seu autor, o jornalista Carlos Alberto Sardenberg, reuniu nesse volume textos didáticos que jamais apelam a simplismos e não abrem mão da defesa dos valores liberais. E o que poderia ser melhor em um país no qual as leis imobilizam o mercado e a livre concorrência, onde o governo conseguiu a proeza de criar uma nova ideologia, o “neoliberalismo de esquerda fisiológico”? A irônica definição não é minha, mas de Sardenberg.

Com linguagem direta, clara, o livro traz aulas que se opõem, saudavelmente, ao socialismo, ideologia tão em voga neste país, mostrando que tal bandeira – “acabada, destruída como realidade e utopia” – serve apenas à demagogia e ao populismo. Artimanhas nas quais, aliás, o partido hoje no poder se esmerou, treinando nos palanques e nos sindicatos por décadas.

Um dos melhores textos do livro, “Adam Smith vive aqui”, explica como a busca dos próprios interesses e da satisfação das necessidades pessoais pode gerar riqueza para o empreendedor e à comunidade. Sardenberg parte de um exemplo colhido nas favelas de São Paulo, onde certa moradora, sensível e inteligente, sem esperar por benesses governamentais, montou uma lan house na cozinha de sua casa. Esse tipo de história, no entanto, não agrada aos defensores da caridade feita com dinheiro público. Para eles, o Programa Bolsa Família não é uma escola de imobilismo, não é a forma cínica de garantir eleitorado fiel e cego, mas trata-se de um passo a mais na direção do socialismo tupiniquim. Sardenberg, no entanto, expressa lucidez sobre a questão e sintetiza: “Um modelo econômico que fornece educação de qualidade e gera empregos não precisa dar comida, pois fornece às pessoas meios mais eficientes e duradouros”.

Em “Quinze anos com a mesma política econômica”, o jornalista nos oferece boa retrospectiva do período FHC–Lula. Sardenberg não doura a pílula, escreve com imparcialidade, sem maniqueísmos, mostrando de que maneira um conjunto de fatores provocou a virada estratégica da economia brasileira – e como as mudanças de discurso do PT sempre obedeceram a interesses eleitoreiros.

Mas Sardenberg não escreve apenas sobre economia e política. Sua visão de uma sociedade realmente liberal, que ele expõe ao tratar dos acidentes de trânsito e da proibição da venda de bebidas alcoólicas nas rodovias, defende a liberdade de consumo, o direito individual, e, ao mesmo tempo, punições que “desabem sobre o indivíduo que desrespeitou a lei e prejudicou os outros”. Ou seja, exatamente o contrário do que temos no Brasil, onde viceja “um conjunto de arbitrariedades ineficientes”.

A escrita de Sardenberg traz o mesmo estilo que ele tem imprimido, há algumas semanas, ao Jornal das Dez, no Canal Globo News: nenhuma histrionice, nada de trejeitos exagerados, gesticulação exaltada ou bruscas modulações de voz – características, aliás, que sobram em alguns apresentadores daquele noticioso. Sardenberg, ao contrário, transpira equilíbrio, sensatez.

Sem usar subterfúgios, as teses de Neoliberal, não. Liberal desagradam, com certeza, aos esquerdistas. E exatamente por esse motivo estão imbuídas de um profundo sentido de realidade.

maio 13, 2009

Arquivo Maaravi

Minha resenha sobre Jó – romance de um homem simples, de Joseph Roth, acaba de ser publicada no nº 4 da Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos (da Universidade Federal de Minas Gerais).

Convidado pela Profª Lyslei Nascimento, editora da publicação, enviei o texto de pronto, afinal, são pouquíssimas as revistas que apresentam uma proposta editorial tão sedutora.

O nome, Maaravi, vem de Kotel haMaaravi – o Muro Ocidental ou das Lamentações, em Jerusalém. Ruína do Templo destruído pelos romanos, o muro testemunhou séculos de história, transformando-se em um arquivo da memória judaica. Ali, os fiéis inserem, nas fendas entre as pedras, pequenos pedaços de papel com pedidos e orações.

Mas deixo vocês com o texto de apresentação da revista. Ele tem uma eloqüência contagiante:

Esse arquivo de pedras é um lugar de culto e de adoração. Os judeus ortodoxos, com seus trajes e chapéus negros, movimentam o corpo e movem seus lábios em orações diante dele. Os jovens soldados israelenses fazem ali seu voto de amor à pátria. Pais e filhos renovam, ano após ano, sua aliança com o Eterno. O Templo, que sobrevive metonimicamente nessa parede, é a casa do Messias, a promessa da construção do terceiro Templo e do corpo judaico que foi disperso nas diásporas e exílios.

Tal qual o Muro Ocidental, onde os textos são inseridos nas fendas, a Arquivo Maaravi – Revista Digital de Estudos Judaicos – espera acolher trabalhos de escritores e artistas que se dedicam aos Estudos Judaicos desde o Ocidente até o Oriente.

A proposta da revista, que passa pela concepção da tradição judaica com seu léxico, procedimentos e temas, como um arquivo aberto, ou como a Biblioteca de Borges, não é aqui concebido como o acúmulo de documentos inertes de um passado perdido ou como um testemunho petrificado de uma identidade perdida.

O arquivo da cultura judaica, que aqui tomamos através da metáfora do Kotel, espera lidar com o passado como estrelas próximas, ou muito longínquas, arcaicas até, que vêm até nós através de um certo rastro luminoso, ou, com o presente e o futuro, que podem se apresentar em todo o seu fulgor através de vestígios, como queria Walter Benjamin.

Entre a lembrança e o esquecimento, o arquivo judaico não poderá, assim, ser analisado, descrito ou reinventado a partir de uma obsessão milimétrica, mas a partir de fragmentos, regiões, níveis. Composto por diferentes obras, o arquivo judaico perpassa, onipresente, livros dispersos, delineando uma rede de textos que pertencem a uma tradição de autores que se conhecem ou se ignoram, estabelecendo conexões as mais inusitadas; autores que se criticam, invalidam-se uns aos outros, plagiam-se e, ao mesmo tempo, a despeito de suas vontades, reencontram-se, às vezes sem saber, no território de papel da literatura ou no campo plástico da arte.

maio 11, 2009

George Steiner e David Hume

Há poucos meses, uma declaração de George Steiner provocou polêmica na Europa. Steiner teria dito que “é muito fácil sentar-se aqui, nesta casa, e dizer: ‘– O racismo é horrível!’. Mas pergunte-me o mesmo se uma família de jamaicanos se mudar para a casa ao lado com seis filhos que escutam reggae e rock and roll o dia inteiro [...]”. O grande ensaísta terminava a afirmação salientando o fato de que, caso tal família se tornasse sua vizinha, seu próprio imóvel perderia, com certeza, grande parte do valor.

Vivendo sob o império do politicamente correto, Steiner foi acusado, é claro, de racismo. Os intelectuais de esquerda ficariam felizes se ele tivesse dito que, no caso de um dia ter vizinhos desse tipo, se submeteria de bom grado à barulheira, recusando o direito de desfrutar do silêncio em nome de viver uma inusitada experiência multicultural. E que, quando fosse avisado sobre a deterioração do valor de seu imóvel, o transformaria, com prazer, num abrigo para imigrantes desempregados.

São tempos estranhos e inseguros os nossos, pois, segundo a opinião de muitos, deveríamos nos dar por felizes quando temos o bem-estar e o silêncio violentados – ou quando a propriedade que adquirimos com imensos sacrifícios é desvalorizada da noite para o dia. No entanto, sabemos que todo o problema nasceu do exemplo citado por Steiner: se, no lugar de “jamaicanos”, tivesse dito “portugueses” ou “austríacos”, sem citar nenhum estilo de música em especial, poucos reclamariam.

David Hume não sofria esse tipo de patrulhamento. Em seu ensaio Da simplicidade e do requinte na maneira de escrever pôde afirmar, sem receio, que “os gracejos de um aguadeiro, as observações de um camponês e a linguagem confusa de um carregador ou de um cocheiro de praça são coisas naturais e desagradáveis, simultaneamente”. O exemplo não foi gratuito. Hume o utiliza para defender uma tese simples: a literatura que apenas reproduz a realidade, que é uma cópia fiel do real, é, no mínimo, insípida.

Ele também critica o oposto: os escritores que recorrem a ornamentos estilísticos quando o assunto de que tratam não comporta tais maneirismos. Buscando um “meio termo justo entre os excessos de requinte e de simplicidade”, ele afirma, no entanto, “ser difícil, senão impossível, explicar por palavras” como chegar a tal equilíbrio. Mas salienta que o “exagero do requinte, além de ser o extremo menos ‘belo’, é o mais ‘perigoso’”.

Suspeito, entretanto, que o filósofo escreveria de outra forma se vivesse hoje no Brasil. Imagino-o suplicando aos escritores para que parassem de escrever como aguadeiros, camponeses, carregadores e cocheiros. E, repetindo novamente a lição de Joseph Addison, diria: “Escrevam com sentimentos naturais, mas que não sejam óbvios”.

maio 05, 2009

Yoani Sánchez

Em abril de 2008, falei aqui sobre a filóloga cubana Yoani Sánchez e seu blog, o Generación Y. Naquela oportunidade, Yoani havia recebido o Prêmio Ortega y Gasset de Jornalismo Digital. Ontem, ela esteve presente, virtualmente, no auditório da FIESP, durante o II Fórum de Liberdade de Imprensa e Democracia, organizado pela Revista Imprensa. Sua participação está documentada no Canal do Instituto Millenium, no YouTube, ou no site do instituto. Vale a pena acompanhar essa voz que tem denunciado, de maneira incansável, as limitações da liberdade de expressão em Cuba.

maio 04, 2009

Uma escola maldita

A Folha de S. Paulo publicou hoje entrevista com o professor Camilo da Silva Oliveira, que dirige há 22 anos a Escola Lúcia de Castro Bueno, em Taboão da Serra (Grande São Paulo), classificada em primeiro lugar, segundo o último Enem, na rede estadual paulista – mas apenas a 2.596ª melhor escola do país (média de 58,5, em 100 pontos).

Há muito tempo eu não lia uma entrevista tão corajosa, com tantas verdades. Estão lá, para quem quiser ler, as soluções e as idéias de um diretor lúcido, dedicado à honrosa e difícil tarefa de educar. Mas educar no verdadeiro sentido da palavra: instruir, criar condições para que os alunos alcancem um alto grau de desenvolvimento espiritual. E não, como pensa a maioria dos educadores hoje, tão-somente politizar.

Abaixo, coloco dois dos melhores trechos (os grifos são meus). Eles mostram, através do olhar de um professor experiente, que os governos estão perdidos, não sabem o que fazer com a educação, não possuem qualquer norte. Não há plano estratégico, neste país, para a educação. Ao mesmo tempo, Camilo da Silva Oliveira denuncia a esquerda, que deseja transformar a escola em sindicato, que coloca a transmissão de conhecimentos, de conteúdo, em último plano.

Infelizmente, Oliveira está certo: “A escola pública vai continuar dependendo de talentos isolados”.

FOLHA - No dia-a-dia, o que a sua escola tem de diferente?
OLIVEIRA - Um eixo pedagógico, o rol de conteúdos [currículo], uma sequência de conteúdos. Fui pesquisar, porque o Estado não tinha subsídio para isso. Pesquisei escolas particulares e vestibulares de ponta. O Estado nem desconfiava desse rol. E hoje, 20 anos depois, ainda nem desconfia [o currículo começou a ser implementado na rede estadual em 2008].

FOLHA - O sr. então tem uma escola que não segue a rede.
OLIVEIRA - Aqui é uma escola maldita, que vai contra os modismos de cada secretário. Depois da Rose Neubauer [gestão Mario Covas], em que as escolas perdiam aulas para treinamento de professores em horário de serviço, veio um que nem sabe o que é rol de conteúdos [Gabriel Chalita, gestão Geraldo Alckmin]. A escola, que já não funcionava, ficava uma semana em feira de ciências ou excursões para zoológico. Melhora o ensino? Vi que era fria e tirei a escola disso. No governo Serra, temos o terceiro secretário em dois anos e meio. Se o meu projeto dependesse do governo, estaria esfacelado. A menina do Mackenzie [Maria Lúcia Marcondes Carvalho Vasconcelos, primeira secretária da gestão José Serra] era bem intencionada, mas não conseguiu nada. A segunda [Maria Helena Guimarães de Castro] eu respeito porque sabe que escola é avaliação. E sabe que para avaliar precisa de um rol de conteúdos. Mas teve problemas de gestão. Por exemplo, a prova de temporários era uma boa ideia. Mas a implementação foi péssima, sem preparo jurídico, o que melou o sistema. Ou seja, o governo não tem a menor ideia do que fazer com as escolas. Deveríamos nos preocupar com o que realmente interessa, que é a aprendizagem dos alunos. Depois se acerta a burocracia. Hoje, os diretores ficam mais preocupados com as atinhas, e o aluno não tem aula. É uma inversão. É triste, porque se é esse caos em São Paulo, imagina nos outros Estados. Nem as universidades conhecem a rede. Ganhei da Escola de Aplicação da USP [que ficou em 3.293º lugar no ranking nacional], por exemplo. E a esquerda até hoje acha que a democracia é o principal debate para a escola. Você pega o PT, eles estão discutindo eleição para diretor de escola. Uma bobagem. Deveria pegar os melhores quadros para dirigir a escola. Isso aqui não é sindicato. Estou me aposentando e não vejo caminho. A escola pública vai continuar dependendo de talentos isolados. O Estado só atrapalha. Aquelas que seguiram a linha, se esfacelaram.

abril 30, 2009

Estranhos Sísifos

O prazer da leitura – mas não de qualquer leitura. Refiro-me àqueles livros em que nos reencontramos, como se estivéssemos, durante longo tempo, apartados do que é essencial para nós, sem que percebêssemos esse estado, essa condição menor. Então, por acaso, abrimos certa obra – e mal a primeira página foi encerrada, as sinapses, milhares delas, começam a espocar. Saltamos, de página a página, impulsionados pela febre. Quase um delírio, no qual nosso cérebro apenas reitera, incansável: “é isso!”, “exatamente!”, “perfeito!”. E quando, por algum inesperado motivo, nos damos conta de que avançamos dezenas de páginas sem fazer qualquer anotação, redescobrimos essa forma de amor à primeira vista, capaz de nos consumir em uma madrugada, sem que, para nosso desespero, consigamos chegar ao final do volume. Mas é somente o primeiro passo. Faz-se necessário retornar ao início, recomeçar a leitura, agora movidos pela pretensão de saborear lentamente cada uma das descobertas que nos hipnotizaram. Dissecá-las sem piedade, como se o corpo a ser estudado ainda se debatesse, preso à mesa de autópsia. É preciso, então, controlar nosso ímpeto e agir como o cientista que confere incansáveis vezes sua descoberta. A leitura da paixão, da fúria apaixonada, torna-se, assim, um exercício minucioso, um adágio – e, em nossas anotações, reformulamos a descoberta de outrem, transformando-a na verdade que, agora, nos pertence. Damos seqüência, assim, à incansável tarefa da palavra: transmutar-se a cada pensamento, a cada reflexão, conservando-se a mesma, mas desdobrando-se para dar vida a um novo estágio de consciência. Só quando esse exercício extenuante termina podemos dizer que realmente lemos, que somamos à nossa vida a experiência de alguém que se antecipou, sem saber, aos nossos pensamentos, aos nossos sonhos. Só então o ato de amor está completo. Mas, como sói ocorrer, restará sempre um engano, uma dúvida: não nos apossamos de tudo. Na verdade, grande parte do que nos empolgou ainda permanece lá, intocável, intraduzível. E se, passado algum tempo, reiniciarmos a leitura, um novo mundo se revelará. Esse é o fado dos verdadeiros leitores: somos estranhos Sísifos, condenados a um prazer infindável, devotados ao exercício que nos concede, poucas vezes, a magia da identificação.

abril 29, 2009

Estado de Israel, 61 anos


"A criação do Estado de Israel prestou o maior serviço que qualquer instituição humana pode executar pelos indivíduos - restituiu aos judeus não somente sua dignidade pessoal e seu status como seres humanos, mas, o que é muitíssimo mais importante, seu direito de escolher como indivíduos de que forma devem viver - a liberdade básica da escolha, o direito de viver ou morrer, salvar-se ou danar-se à sua maneira, sem o que a vida é uma forma de escravidão, como tem sido realmente para a comunidade judaica por quase 2 mil anos."

- Isaiah Berlin, in "Escravidão e emancipação judaicas" (A força das idéias, Editora Cia. das Letras)

abril 28, 2009

Cartas e civilização

O artigo de João Pereira Coutinho, na Folha de hoje, me levou a revisitar um dos gêneros que mais aprecio: a epístola. Cartas são diálogos, francos ou não, em que revelamos facetas da personalidade – boas e más. Um epistolário, portanto, pode chegar a ser “uma autobiografia não premeditada, transmitida por mil casualidades, sobrevivente por puro milagre”, como bem definiu Hermann Kesten, ao falar sobre as cartas de Joseph Roth.

No Brasil, as missivas de Mário de Andrade e Monteiro Lobato apresentam não apenas o ser humano, muitas vezes num despojamento comprometedor, mas também a lenta e permanente elaboração de uma cultura tão extravagante quanto imatura, frágil. Elas formam a radiografia do país que ainda não encontrou seu centro, com suas qualidades e mazelas, ainda que os brasileiros se acreditem exemplos de cordialidade e civilização, vaidosos como índios se admirando a primeira vez num espelho.

Bem sei que talvez não tenhamos leitores para as dez mil cartas de Voltaire e outros tantos volumes de Madame de Sévigné, mas por que só publicamos, de Flaubert, uma pequena coletânea? É verdade que Marco Lucchesi nos presenteou com a correspondência de Giacomo Leopardi, traduzida por Maurício Dias, mas quando poderemos ler, em português, as cartas de John Keats, com a admirável introdução de Lionel Trilling? E as missivas de Diderot a Sophie Volland? Sim, temos as Cartas do cárcere, de Gramsci, plenas de amor paterno, documentos que, descontando-se o esquerdismo do militante, retratam a angústia da luta contra a própria decadência física. Mas, e as cartas de Cícero, de Petrarca? Ou, para ficar entre brasileiros, quando teremos as missivas, por exemplo, de Ribeiro Couto?

A Academia Brasileira de Letras tem procurado superar o atraso, e já publicou as cartas de Alphonsus de Guimaraens, José Honório Rodrigues e Casimiro de Abreu. Mas ainda há muito Brasil para ser revelado. Não o Brasil que sabe apenas olhar-se no espelho, mas aquele que, observando os outros, vê a grande distância que ainda deve percorrer para dar a si mesmo o nome de civilização.

abril 26, 2009

Euclides da Cunha: leitor de Rimbaud?

Leopoldo Bernucci já demonstrou (em A imitação dos sentidos, Edusp/University of Colorado at Boulder), ao tratar do problema da mimese na obra de Euclides da Cunha – mimese não como representação da semelhança, mas, sim, da diferença –, as relações intertextuais que Os sertões mantém com, entre outros, Victor Hugo e Domingo Sarmiento.

Sabe-se, também, da influência que teve – não só no que se refere a sugestões de leitura, mas, ainda que de maneira indireta, na própria elaboração de Os sertões – o intendente de São José do Rio Pardo, Francisco Escobar. Entre 1898 e 1901, período durante o qual Euclides viveu nessa cidade, ocupando-se da reconstrução da ponte que ruíra, os dois estabeleceram profunda relação de amizade, prolongada depois em razoável número de cartas.

Escobar foi um autodidata extremamente culto, além de bibliófilo. Se os números apresentados por Ângelo Caio Mendes Correa Jr. estão corretos, sua biblioteca, com sete mil volumes, deve ter representado um universo sem precedentes para Euclides. Há quem afirme, inclusive, que Escobar apresentou ao amigo os clássicos de Portugal, como Alexandre Herculano, por exemplo, além de inúmeros outros escritores, exercendo, assim, influência sobre o estilo do autor de Os sertões.

Pergunto-me, no entanto, que outros livros Escobar teria emprestado a Euclides. A resposta talvez possa ser encontrada na biblioteca do intendente, que, anos depois, foi prefeito de Poços de Caldas. Onde estariam esses livros? Que surpresas esses alfarrábios, que pertenceram a um homem de vasta cultura, à frente do seu tempo e do seu atrasado país, escondem? Que pistas eles poderiam oferecer sobre aqueles anos fecundos em São José do Rio Pardo, que permitiram a Euclides elaborar, dar forma definitiva a Os sertões?

Há bom tempo guardo comigo uma suspeita: Escobar apresentou Rimbaud a Euclides.

Um poema de Rimbaud, “Le dormeur du val” (“O adormecido do vale”), sempre me interessou pela semelhança que guarda em relação a um dos trechos mais belos de Os sertões, conhecido pelo título de “Higrômetros singulares”.

O poema aparece em duas primeiras edições: Reliquaire, poésies, L. Genonceaux, Paris, 1891 (prefácio de Rodolphe Darzens) e Poésies completes, L. Vanier, 1895 (prefácio de Paul Verlaine). Um desses livros faria parte da biblioteca de Francisco Escobar?

A semelhança entre os textos (que coloco abaixo) é fascinante. Em Euclides, “um velho jardim em abandono”, com uma “árvore única, uma quixabeira alta, sobranceando a vegetação franzina”. Em Rimbaud, na tradução de Ivo Barroso, “um recanto verde onde um regato canta / doidamente a enredar nas ervas seus pendões / De prata”.

Em Euclides, “o sol poente desatava, longa, a sua sombra pelo chão”. Em Rimbaud, “o sol, no monte que suplanta, / Brilha: um pequeno vale a espumejar clarões”.

Se o soldado, em Os sertões, tem “os braços largamente abertos, rosto voltado para os céus, para os sóis ardentes, para os luares claros, para as estrelas fulgurantes...”, no poema ele apresenta a “boca aberta, fronte ao vento, / [...] estendido sobre as relvas, ao relento, branco em seu leito verde onde chovia luz”.

Euclides fala da “ilusão exata de um lutador cansado, retemperando-se em tranqüilo sono, à sombra daquela árvore benfazeja”. No poema de Rimbaud, o verbo dormir surge duas vezes.

A transposição me parece clara. Euclides tirou o soldado do vale verdejante de Rimbaud e colocou-o na aridez da caatinga, concedendo-lhe um novo e mais elaborado contexto, descrevendo-o no seu estilo às vezes hiperbólico, que em nada se assemelha ao de Rimbaud.

Escobar teria importado um dos volumes? Ele acompanhava os lançamentos editoriais franceses, hábito comum entre os brasileiros cultos daquela época? Ou trata-se apenas de um tema recorrente na literatura, mera coincidência, como em vários outros casos?

Fico com a primeira hipótese. E não apenas pela semelhança entre os textos, mas pelo fato de que grande parte do que é descrito em Os sertões não pertence ao gênero histórico, mas à pura ficção.


O adormecido do vale

Era um recanto verde onde um regato canta
Doidamente a enredar nas ervas seus pendões
De prata; e onde o sol, no monte que suplanta,
Brilha: um pequeno vale a espumejar clarões.

Jovem soldado, boca aberta, fronte ao vento,
E a refrescar a nuca entre os agriões azuis,
Dorme; estendido sobre as relvas, ao relento,
Branco em seu leito verde onde chovia luz.

Os pés nos juncos, dorme. E sorri no abandono,
De uma criança que risse, enferma, no seu sono:
Tem frio, ó Natureza – aquece-o no teu leito.

Os perfumes não mais lhe fremem as narinas;
Dorme ao sol, suas mãos a repousar supinas
Sobre o corpo. E tem dois furos rubros no peito.

Outubro de 1870.
(in Poesia completa, 2ª edição revista, Editora Topbooks, 1994, tradução de Ivo Barroso)


Higrômetros singulares

[...]
Percorrendo certa vez, nos fins de setembro, as cercanias de Canudos, fugindo à monotonia de um canhoneio frouxo de tiros espaçados e soturnos, encontramos, no descer de uma encosta, anfiteatro irregular, onde as colinas se dispunham circulando um vale único. Pequenos arbustos, icozeiros virentes viçando em tufos intermeados de palmatórias de flores rutilantes, davam ao lugar a aparência exata de algum velho jardim em abandono. Ao lado uma árvore única, uma quixabeira alta, sobranceando a vegetação franzina.

O sol poente desatava, longa, a sua sombra pelo chão e protegido por ela – braços largamente abertos, face volvida para os céus – um soldado descansava.

Descansava... havia três meses.

Morrera no assalto de 18 de julho. A coronha da mannlicher estrondada, o cinturão e o boné jogados a uma banda, e a farda em tiras, diziam que sucumbira em luta corpo a corpo com adversário possante. Caíra, certo, derreando-se à violenta pancada que lhe sulcara a fronte, manchada de uma escara preta. E ao enterrar-se, dias depois, os mortos, não fora percebido. Não compartira, por isto, a vala comum de menos de um côvado de fundo em que eram jogados, formando pela última vez juntos, os companheiros abatidos na batalha. O destino que o removera do lar desprotegido fizera-lhe afina uma concessão: livrara-o da promiscuidade lúgubre de um fosso repugnante; e deixara-o ali há três meses – braços largamente abertos, rosto voltado para os céus, para os sóis ardentes, para os luares claros, para as estrelas fulgurantes...

E estava intacto. Murchara apenas. Mumificara conservando os traços fisionômicos, de modo a incutir a ilusão exata de um lutador cansado, retemperando-se em tranqüilo sono, á sombra daquela árvore benfazeja. Nem um verme – o mais vulgar dos trágicos analistas da matéria – lhe maculara os tecidos. Volvia ao turbilhão da vida sem decomposição repugnante, numa exaustão imperceptível. Era um aparelho revelando de modo absoluto, mas sugestivo, a secura extrema dos ares.

[...]
(in Os sertões – Campanha de Canudos, Ateliê Editorial/Imprensa Oficial – SP/Arquivo do Estado, 2002 – edição, prefácio, cronologia, notas e índices de Leopoldo M. Bernucci)

abril 23, 2009

Falstaff na Osesp


Não gostei do Falstaff interpretado pelo barítono Albert Schagidullin. Sua voz tem um registro mais próximo do de um baixo. Voz quase monocórdia, sem inflexões sugestivas, imprópria para uma ópera verdiana – e principalmente para uma ópera-bufa. Leonardo Neiva, entretanto, no papel de Ford, foi uma surpresa agradabilíssima. Bela voz, de rica modulação, a desse barítono brasileiro. Ele também demonstrou ser um ótimo ator. Outro aspecto positivo foi a direção cênica: com poucos recursos, André Heller-Lopes criou a atmosfera adequada, de bom gosto, reservando, para o final, uma solução mais do que agradável.

abril 21, 2009

Onde está Shakespeare?

No último número do Rascunho, escrevo sobre o Teatro completo de Shakespeare, na tradução de Carlos Alberto da Costa Nunes, obra originalmente publicada na década de 1950 e agora reeditada pela Agir.

abril 19, 2009

Escolhas feitas

Próximo de completar 50 anos, sinto-me ranzinza, impaciente com tudo que envolve subcultura, futilidades que não estejam ligadas diretamente ao meu conforto e discursos repetitivos, cheios de lugares-comuns. Ler os jornais tornou-se, portanto, um exercício cada vez mais penoso. Depois do Google Reader, que me permite selecionar o que realmente me interessa, quase não há mais sentido em ler um jornal.

Aliás, o verbo é inadequado: não leio – dou uma passada de olhos. Mas até mesmo isso aborrece. Às vezes, o porteiro da manhã interfona, lembrando-me que os jornais estão na portaria há três ou quatro dias...

Do Estadão de hoje, por exemplo, o que se salva? O artigo de Demétrio Magnoli e o caderno de Economia. É verdade, leitor, você tem razão: minha ranzinzice alcançou níveis perigosos, próximos da intolerância. Mas, aos 50, não posso perder tempo com o que estou cansado de saber. Chegou a idade em que, calejado, sigo as dez ou quinze primeiras linhas de um texto – e sei o raciocínio do autor, conheço seus argumentos. Muitas vezes, nem isso é necessário, pois basta ver o nome do articulista para que eu vire a página rapidamente. Tenho certeza de que, em 99% das oportunidades, as pessoas repetirão o que vêm dizendo há anos – ou o que outros dizem há séculos.

Aos 50, não posso perder tempo com quem chove no molhado, com vacas de presépio, puxa-sacos, plagiadores, espíritos servis, demagogos, copiadores de releases, esquerdistas de todos os gêneros e, principalmente, com os que escrevem mal. Certa idéia pode ser extraordinária, mas se for escrita em português claudicante provoca no meu coração aquele prenúncio de angina pectoris que sinto quando, depois de admirar uma bela mulher, descubro que a concordância verbal não é um dos seus pontos fortes.

Minhas escolhas estão feitas. Eliminei do meu horizonte os temas que considero pequenos, insignificantes. Permaneço aberto ao novo, claro, mas desde que ele passe pelo crivo dos padrões de qualidade e de gosto pessoal que instituí para o meu universo. No âmbito da música, por exemplo, minha sensibilidade está fechada à maioria das manifestações contemporâneas. Sou atacado de profunda tristeza quando o Estadão passa uma semana sem publicar a crítica de Lauro Machado Coelho. E viverei os próximos dias, até quarta-feira, na expectativa de ouvir Falstaff com a Osesp.

Como vêem, além de relutar em seguir as novas regras de ortografia, tive a lucidez de não só abandonar a esquerda, mas tornar-me um conservador cético. Relendo as cartas de Jacob Burckhardt (a Editora Topbooks publicou uma ótima seleção há alguns anos), encontro a síntese do meu pensamento: "É uma longa história [...] a difusão da cultura e o decréscimo de sua originalidade e individualidade, da vontade e da capacidade; e um dia o mundo irá sufocar e cair sobre o estrume de seu próprio filisteísmo".

Apocalíptico demais? Não creio. Aliás, basta caminhar alguns quarteirões em São Paulo, dar uma espiada nos lançamentos das editoras ou ler um jornal: o futuro previsto por Burckhardt se tornou presente.

abril 17, 2009

Individualismo


O que é a massa, senão loucura, fanatismo, embriaguez? A massa é sempre cega – e exatamente por isso, servil. O complemento indissociável de toda coletividade é a despersonalização.

Em meus tempos de militância na esquerda, cansei de ver os braços erguendo-se durante as votações, automáticos, hipnotizados pelo discurso passional ou dirigidos pelos acordos de bastidores. Assembléias são arremedos de democracia.

E as aglomerações em praça pública? Um demagogo verbaliza a palavra-chave ou faz o gesto apropriado, e o emocionalismo incita a massa em milésimos de segundos, numa onda incontrolável de autoenganação. É um frenesi, um êxtase, mas que extermina o indivíduo, apaga a consciência, aniquila o juízo crítico.

“O homem pode significar muito para si próprio, e quanto mais ele significa para si, mais significa para os outros”, escreveu Jacob Burckhardt. Ele estava certo. A ciência, a arte e a sabedoria só podem nascer do individualismo; se preservarmos, com todas as forças, a nossa autonomia, a nossa vontade. A multidão é a mentira. (Esta última frase não seria de Kierkegaard?)

abril 15, 2009

Material para bons ficcionistas

É uma pena que a maior parte dos nossos escritores esteja preocupada apenas em ser mais vanguardeira que dadaístas empedernidos. No Brasil pululam fatos que, de tão irreais, bem que mereciam ganhar verossimilhança graças à ficção.

O que dizer, por exemplo, da estudante – de pai pardo e avô negro – que perdeu a vaga, conquistada por meio do sistema de cotas, na Universidade Federal de Santa Maria? Como sempre, quando o Estado decide inventar uma justiça espúria, acaba somente praticando novas injustiças. No caso, antecipando-se à votação que deve ocorrer no Senado dentro de alguns dias, a universidade criou uma comissão para julgar os casos de “reserva racial”. Submetida a questionamentos diversos – dentre eles, “sofreu algum tipo de preconceito?” –, a jovem foi reprovada, pois não possuía o perfil de vítima, ou seja, por comprovar, em sua própria vida, que o racismo apregoado pelas “minorias politicamente corretas” não passa de fantasmagoria.

Mas não se trata apenas disso. Há outras questões que incomodam: quem pode julgar quem? E com quais fundamentos? E quem estabelece esses fundamentos? O pequeno tribunal dessa universidade é tão sórdido quanto um tribunal kafkiano. Ele comprova que a divisão da sociedade por raças é arbitrária, injusta e absurda – e, manipulada em comissões cujos membros defendem critérios absolutamente subjetivos, só tende a produzir aberrações.

Para onde a segue a carruagem? Teremos de, em breve, fornecer, no ato de inscrição para o vestibular, o mapeamento de DNA? O Estado criará novos cartórios, especializados em atestar as raças dos recém-nascidos? Ou bastará que os atuais cartórios de registro civil contratem geneticistas?

Ora, não seria melhor, de uma vez por todas, ressuscitar Alfred Rosemberg?

Escritores brasileiros: mãos à obra! Há material à farta para bons ficcionistas!

abril 13, 2009

Nove anos de Rascunho

Rogério Pereira, editor do jornal Rascunho, concedeu uma entrevista, dividida em seis partes, ao blog Papo Original. Abaixo, coloco o primeiro trecho desse diálogo tranqüilo, em que Rogério fala sobre livros, internet, futebol e vários outros temas:


Rascunho from Papo Original on Vimeo.

abril 10, 2009

Igualitarismo nivelador

Os números foram divulgados ontem pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo: 82,5% dos alunos da 8ª série do ensino fundamental apresentam desempenho medíocre em língua portuguesa. Se essa é a realidade do ensino paulista, o que deve ocorrer, por exemplo, no estado mais querido de Nelson Rodrigues, o Piauí?

Ironia à parte, enquanto a escola seguir considerando as diferenças individuais não pela óptica do reconhecimento diferencial dos méritos, mas segundo a idéia marxista que advoga um igualitarismo nivelador, os índices continuarão piorando. A escola da progressão continuada é a escola do amorfismo. A ideologia que hoje norteia a educação no Brasil tenta esconder a verdade, mas não premiar o esforço, o empenho e, portanto, o mérito individual, serve apenas para criar cidadãos passivos e ignorantes.

abril 09, 2009

Terremoto em L'Aquila

Penso nos mortos do terremoto na Itália. Mas penso principalmente nos vivos, na herança de dor e saudade que terão de carregar, e no sentimento, sempre devastador, de que a vida é uma luta entre forças desproporcionais, onde, de um lado, está o homem – cheio de orgulho, mas frágil, patético –, caminhando tendo diante de si o fim iminente, e de outro o infortúnio, demorado ou abrupto, mas sempre inevitável.

Se viver exige um ato de coragem diário, o que será viver sustentando o ônus do fatídico – e, pior, o ônus de escapar da morte e, em troca, ser condenado a suportar o peso de todas as conseqüências provocadas pela fatalidade?

abril 08, 2009

O prazer de fumar

Meu silencioso repúdio à arbitrariedade aprovada ontem aqui em São Paulo.

abril 07, 2009

Double Concerto

Ouvir Brahms significa experimentar certo estado de transcendência. De repente, o real, o físico é ultrapassado - e quando voltamos às mazelas do dia-a-dia, a sensação de que estivemos livres do peso de viver se mantém e nos reconforta. Aqui, violino e violoncelo não disputam nenhuma primazia, mas apenas dialogam para muito além do lirismo, criando uma natureza íntima comum, uma realidade da qual ansiamos jamais nos separar:

abril 04, 2009

Novo visual e leituras

Fui praticamente forçado, por um grande amigo, a mudar a aparência do blog. De fato, está melhor assim, arejado, com as letras maiores, design leve. Devagar, acerto os detalhes que faltam.

Para os que gostam, há uma boa entrevista com John Le Carré no Babelia deste sábado. E uma resenha, interessante, sobre livros de viagens, falando de R. L. Stevenson e Joseph Roth, entre outros.

abril 01, 2009

Biblioclastia na Venezuela?


Notícias publicadas em vários blogs e revistas digitais denunciam a destruição de livros na Biblioteca Nacional da Venezuela - por motivos ideológicos -, bem como a transformação desse órgão público em mero divulgador de instrução partidária.

Segundo as notícias, um dos responsáveis pela destruição, Fernando Báez, que foi diretor da Biblioteca Nacional, é, ironicamente, autor de um livro intitulado Historia universal de la destrucción de libros.

E há mais: dentre os links que me enviaram, um fórum de discussão afirma que a queima de livros em bibliotecas públicas está se tornando uma rotina naquele país.

Seria mais uma das faces obscurantistas da Revolução Bolivariana?

março 29, 2009

Leituras


Abro o jornal de domingo em busca de vida inteligente, coisa cada vez mais rara em um país no qual o governo corteja, todos os dias, a mediocridade das massas. Às vezes tenho sorte. A Folha de S. Paulo de hoje, por exemplo, traz um ótimo editorial, apontando a "concepção vingativa e primitiva de Justiça" que tem norteado setores do Judiciário. Tema, aliás, que Reinaldo Azevedo denuncia constantemente: como é possível, por exemplo, prender, intimidar e difamar com base apenas em conjecturas? O Estadão também me conforta: o bom ensaio de John Gray, no Caderno Aliás, oferece uma ampla radiografia da conjuntura atual. Gray é sempre instigante - e poucas coisas são melhores do que ler um pensador independente, cujos motivos para refletir restringem-se ao prazer da reflexão, à ânsia de buscar a verdade. Suely Caldas, no Caderno de Economia, coloca outra vez, sem piedade, o dedo na ferida do PT. Como não se tornar leitor assíduo de uma jornalista que jamais rasteja para o governo, que jamais torna doce a verdade? Finalmente, no Caderno 2, Daniel Piza - exatamente como Jerônimo Teixeira, na Veja - faz lúcida crítica literária, fugindo do oba-oba esquerdista - que contaminou boa parte da mídia nos últimos dias - em torno do novo livro de Chico Buarque. Enfim, um domingo de saldo positivo.

Agora, se me permitem, vou retornar ao meu Philip Roth.

março 27, 2009

Osesp


Sob a regência de Gennady Rozhdestvensky, um Alexander Glazunov previsível, chatíssimo, apenas para esquentar os motores. Mas o Concerto nº 1 para Violino em ré maior, Op.19, de Prokofiev, iniciou, de fato, a noite, com seu lirismo perturbador, envolvente. Depois do intervalo, a melhor suspresa: a Sinfonia nº 10 em mi menor, Op.93, de Shostakovich - magnífica! Fomos tragados pela sonoridade espantosa. Há tudo ali: um homem apaixonado, uma criança indefesa, um artista defendendo sua liberdade.

março 16, 2009

Da Rússia czarista aos bolcheviques


Estamos cansados de saber que foi assim? Talvez. Mas há certos números que devem ser relembrados de vez em quando:

"Existe uma enorme disparidade entre o tamanho do aparato penal e de segurança da Rússia czarista e o do que foi instaurado pelos bolcheviques. Em 1895, o Okhrana (Departamento de Polícia) tinha apenas 161 funcionários em tempo integral. Em outubro de 1916, pode ter chegado a um total de 15.000, incluindo funcionários alocados em outros departamentos. Em comparação, em 1919 a Cheka tinha no mínimo 37.000 funcionários, chegando a mais de um quarto de milhão em 1921. Disparidade semelhante se verifica no que diz respeito ao número de execuções. No último período czarista, entre 1866 e 1917, houve aproximadamente 14.000 execuções, enquanto no período soviético inicial, de 1917 a 1923, a Cheka promoveu cerca de 200.000 execuções."

Mais informações - e um texto realmente instigante - em Missa Negra - religião apocalíptica e o fim das utopias, de John Gray (Editora Record).

março 09, 2009

As melhores críticas


Leio com atraso dois textos publicados no Estadão na semana passada. Merecem destaque.

Na edição de quinta, 5 de março, Luiz Américo Camargo escreve sobre o Restaurante Moraes, o Rei do Filet, casa antiga na Praça Júlio Mesquita, onde fui a primeira vez ainda garoto, levado por meu pai. O texto de Camargo, no entanto, não serve apenas para despertar lembranças. Acima de outros prazeres, cumpre o papel da melhor crítica: recupera a história do restaurante; analisa os pratos, o ambiente, o serviço; faz comparações com a cozinha contemporânea; e não teme dizer ao leitor: é bom – vá. Quando chegamos ao final, podemos sentir os odores convidativos da carne. O texto é claro, leve, transpira isenção e, o melhor, não inventa metáforas excêntricas.

Trabalho semelhante faz Lauro Machado Coelho na edição de sábado, 7 de março. Escreve sobre a nossa querida Osesp em sua primeira noite com o maestro Yan-Pascal Tortelier. Lauro recusa-se à prática cada vez mais comum de usar o espaço da crítica para fazer fofocas, recordar questões desgastantes ou reacender mágoas. Não. Ele é um profissional, homem dedicado ao ofício de transformar sua crítica em minutos de ensinamento. As gradações do texto acompanham cada acorde. Quem não esteve no evento tem a visão clara do que foi a noite; alegra-se com a crise superada e, principalmente, com a música de altíssimo nível. É possível escutar uma gravação da Sinfonia nº 2 de Rachmáninov e saber em que trechos a Osesp teve desempenho melhor. A “precisão e sutileza” que Lauro reconhece em Tortelier, ele nos oferece em seu texto.

Dois críticos que são verdadeiros didatas. Essa maneira de escrever, cada vez mais rara na crítica brasileira, esconde uma sabedoria: ninguém é dono da verdade, mas o público merece a atenção e o cuidado dos que conhecem mais e, portanto, podem indicar caminhos, dizendo, claramente, o que é bom e o que não é.

Luiz Américo Camargo e Lauro Machado Coelho escrevem assim. E o melhor: sem discursos dúbios (a crítica ambígua esconde um traço indelével de covardia intelectual), sem a empáfia de pretender criar um novo gênero literário, recusando a proteção dos academicismos e da linguagem hermética.

março 08, 2009

Filosofia


A revista Crítica - dedicada à divulgação, ao ensino e à investigação filosófica - está, temporariamente, aberta a todos os leitores. É uma boa oportunidade para conhecer um arquivo diversificado, de ótima qualidade, no qual podemos encontrar artigos e resenhas de divulgação científica - como esta sucinta e correta introdução à leitura de Isaiah Berlin - ou textos mais profundos. A revista é dirigida por Desidério Murcho, mestre em Filosofia pela Universidade de Lisboa, atualmente professor na Universidade Federal de Ouro Preto, MG.

janeiro 15, 2009

Este é o grande, o terrível perigo:


"Assassins of the Mind".

E não pensem que ele está longe de nós.

dezembro 31, 2008

2008/2009


A fim de celebrar o início de 2009 - e agradecer por todos os gestos de atenção e carinho que recebi de meus leitores em 2008 -, publico o belíssimo lied "September", de Richard Strauss, na voz da magnífica soprano lírica finlandesa, Soile Isokoski. "September" pertence ao ciclo Vier letzte Lieder (Quatro últimas canções) e foi composto sobre um poema de Hermann Hesse.

Que possamos assistir ao fim de 2008 com a certeza de que a vida sempre se renova.



September

Hermann Hesse

Der Garten trauert,
kühl sinkt in die Blumen der Regen.
Der Sommer schauert
still seinem Ende entgegen.

Golden tropft Blatt um Blatt
nieder vom hohen Akazienbaum.
Sommer lächelt erstaunt und matt
in den sterbenden Gartentraum.

Lange noch bei den Rosen
bleibt er stehen, sehnt sich nach Ruh.
Langsam tut er die großen
müdgewordnen Augen zu.

*

Il giardino è triste,
fredda cade la pioggia sui fiori.
Rabbrividisce l'estate,
silenziosa verso la sua fine.

In pioggia d'oro, una dopo l'altra,
si staccano le foglie dall'alta acacia;
l'estate sorride attonita e spossata
nel sogno morente del giardino.

A lungo ancora resta vicino alle rose,
sospirando il riposo.
Lentamente chiude [i grandi]
gli occhi stanchi.

*

El jardín se entristece,
fría cae sobre las flores la lluvia.
El verano asiste
silenciosamente a la llegada de su fin.

Una tras otra, van cayendo
las doradas hojas de la alta acacia.
El verano sonríe, entre sorprendido y fatigado,
en el moribundo sueño del jardín.

Largo tiempo permanece él todavía junto a las rosas,
quieto, anhelando el reposo;
lentamente va cerrando
sus ojos fatigados.

*

The garden is mourning,
the rain sinks coolly into the flowers.
Summer shudders
as it meets its end.

Leaf upon leaf drops golden
down from the lofty acacia.
Summer smiles, astonished and weak,
in the dying garden dream.

For a while still by the roses
it remains standing, yearning for peace.
Slowly it closes its large
eyes grown weary.

*

Le jardin pleure,
Froide, la pluie coule sur les fleurs.
L'été frémit,
Muet à l'approche de sa fin.

L'or goutte de feuille en feuille,
Tombe du grand acacia.
L'été sourit, étonné et alangui,
Dans le rêve mourant du jardin.

Longtemps encore, auprès des roses
Il reste là, aspirant au repos.
Lentement il ferme ses grands yeux
Qui s'ensommeillent.

dezembro 07, 2008

Mestre Graciliano


Acabo de ler dois ótimos artigos sobre Graciliano Ramos e seu Vidas secas (que completa setenta anos de publicação e acaba de ganhar magnífica reedição pela Record): o de Reinaldo Azevedo - "Graciliano, o grande" -, na Veja, e o de Ronaldo Correia de Brito, em O Estado de S. Paulo - "Vidas Secas". Os dois reafirmam - o que nunca é demais - a qualidade do estilo de Graciliano, sua linguagem purificada, seu absoluto domínio da língua.

Reinaldo Azevedo salienta o repúdio do escritor ao "engajamento" na arte e dá pistas sobre os motivos de Graciliano ser colocado abaixo de Guimarães Rosa (típica injustiça, fruto de modismos, que o tempo haverá de corrigir). Mas Reinaldo faz, principalmente, uma bela análise da ética que perpassa a obra de Graciliano - muito distante do relativismo moral e cultural que impera atualmente -, compondo um artigo que merece não só leitura, mas reflexão.

Ronaldo Correia de Brito recorda outras qualidades de Graciliano - por exemplo, sua sábia distância do movimento modernista - e recoloca em pauta a questão do regionalismo, termo difuso, que tem servido para diminuir certos autores e enaltecer outros, tratando como universalistas apenas os que seguem a cartilha da vanguardice.

Ao falarem sobre Graciliano, Azevedo e Brito sinalizam o caminho daqueles que pretendem criar literatura - e não somente repetir as fórmulas emboloradas das vanguardas européias.

novembro 20, 2008

Limites da web - reflexões de um editor


Fui convidado a participar do Encontro Nacional de Revistas Culturais Independentes, realizado no SESC-SP, na Avenida Paulista, entre 5 e 7 de setembro.

Minha fala, enquanto editor do suplemento de literatura Palavra, do Le Monde Diplomatique (edição virtual), fez parte da Mesa que tratou do tema “A emergência das publicações culturais na internet – Quais as perspectivas para o debate cultural propiciadas pelas novas tecnologias? As novas mídias sugerem a criação de novos conteúdos ou interferem na concepção da publicação?”.

A seguir, transcrevo, com pequenas alterações, o que falei:

– Estamos apegados às indiscutíveis qualidades da web (velocidade de disseminação da mensagem e democratização da divulgação e do acesso às informações), mas falamos pouco ou nos esquecemos das dificuldades, dos limites.

Há um endeusamento da web, atualmente, como se ela pudesse ser a panacéia para as deficiências de difusão do conhecimento que enfrentamos no Brasil. Como se a web pudesse, de maneira mágica, solucionar, por exemplo, a exclusão social que nasce do analfabetismo (e também do chamado analfabetismo funcional). Como se o enorme volume de informações lançado diariamente na web não obedecesse à lógica da própria indústria editorial, ou seja, a de que grande parte do que é publicado não passa de lixo e será esquecido dentro de pouco tempo. A web não está isenta dos males da indústria cultural, mas, ao contrário, faz parte dela.

Assim, se a democratização representada pela web oferece ganhos, também provoca malefícios. O acúmulo de informações literalmente erradas, por exemplo, mais confunde do que esclarece. E esse caos se agiganta a cada dia, ideologizado, manipulado, disseminando mentiras.

Mas há outros problemas, ligados não só à web, mas também ao suporte, ao computador.

Sob determinado ponto de vista, a leitura na tela do computador é um retrocesso. O que fazemos na vertical, os leitores da Antiguidade faziam na horizontal.

Lembremos: as folhas de papiro eram coladas pelas extremidades umas às outras, formando longas fitas. Algumas, pelo que se sabe, de até 18 metros de comprimento, depois enroladas em torno de um bastonete, chamado umbilicus, formando rolos.

O mesmo ocorreu no caso do pergaminho. Enquanto a escrita era feita apenas no reto, ou seja, na primeira face do pergaminho, as folhas também eram coladas e enroladas, de maneira a construir o volumen. Só quando se percebeu que a consistência do pergaminho permitia que ele fosse utilizado dos dois lados é que se criou o códex, que se aproxima da aparência dos nossos livros: as folhas passaram a ser reunidas pelo dorso e recobertas com uma capa.

Passamos, assim, ao problema da legibilidade. Uma questão aparentemente técnica e sem importância, mas crucial para aqueles que não se preocupam apenas com a mera divulgação de informações; para aqueles editores preocupados com formas de se garantir a qualidade da leitura dessas informações.

Em nome da legibilidade, já vi manuais defendendo que os textos da web devem ser curtos, objetivos – na verdade, aproximando-se mais de uma peça publicitária do que de um artigo ou de um ensaio.

Além disso, há outras dificuldades, no que se refere, por exemplo, às consultas dos textos. E essas dificuldades vão muito além das formas de utilização do computador...

[Inclusive os computadores mais leves são desconfortáveis – e os novos modelos, que pretendem ser mais práticos, oferecem telas pequenas demais. Uma solução, em termos de suporte, pode ser o renascimento do e-reader, como o Kindle, da Amazon, e vários outros modelos, recentemente apresentados na Feira do Livro de Frankfurt. Eles podem ser mais cômodos, não só em termos de manuseio, mas também de luminosidade da tela, tamanho da fonte, etc.]

Para não descer a minúcias, não falarei aqui, por exemplo, das questões técnicas que envolvem o uso de fontes sem serifa, um hábito comum na web – e que, comprovadamente, dificulta a leitura.

Uma preocupação – que não angustia certamente o leitor comum, mas que consegue tirar o sono deste editor – é a necessidade de criarmos índices analíticos em nossas publicações, e não apenas sumários. Podemos fazer um índice de links, é certo, mas como garantir que determinado link nos remeta exatamente ao trecho que desejamos ler – e não à página inteira do artigo ou ao trecho da página que cabe na tela do computador? Vamos passar a vida dependendo da busca “em cache” do Google?

Ou seja, não basta pensarmos, tão-somente, em divulgar nossos conteúdos, mas precisamos refletir também em como assegurar aos leitores futuros que eles tenham acesso às informações que veiculamos não apenas por meio do confuso sistema de busca oferecido por um Google, mas por meio de índices que contemplem não só as entradas (ou seja, os principais registros descritivos de um artigo ou de uma publicação), mas também as remissões (ou seja, os termos que remetem a pontos determinados dos temas ou dos personagens tratados). E, mais do que isso, precisamos de índices que nos permitam estabelecer referências cruzadas entre diferentes artigos que, porventura, tratem de assuntos semelhantes.

O que quero dizer com estas observações é que a quase totalidade das nossas publicações na web tem se limitado a despejar o conteúdo na teia invisível da internet, confiando que o ato de disseminar informações pode se restringir a tão pouco. O que não é verdade. Garantir que o leitor possa encontrar, não só com rapidez, mas de maneira objetiva e lógica, o que ele procura também é um dever nosso – se é que desejamos desempenhar realmente o papel de editores.

Uma prática que se torna cada vez mais comum é, por exemplo, utilizar, em nossas publicações, o próprio sistema de busca do Google. Mas ele não segue a lógica do leitor – ou melhor, ele não permite que o leitor estabeleça a lógica da sua pesquisa. Ao contrário, trata-se de um sistema que utiliza uma lógica completamente arbitrária, que muitas vezes impede o leitor de encontrar o que deseja.

Como vamos substituir na web, no computador, no e-reader o ato de compulsar um volume, de folheá-lo, de consultá-lo por meio de referências?

Devo concluir, portanto, que, sob uma aparência de modernidade, utilizamos e oferecemos ferramentas ainda bem primitivas, com sérios problemas a serem superados, se é que desejamos realmente democratizar a informação e não apenas jogá-la no ferro-velho desorganizado, caótico, em que a web já se transformou.

Finalmente, diante de todas essas dificuldades, devo dizer que, no papel de editor, recuso-me a, em nome de remediar esses problemas, comprometer o conteúdo publicado. Em minha opinião, o texto não pode aceitar camisas-de-força. Não podemos diminuir a qualidade do nosso conteúdo, torná-lo de qualquer forma pequeno, aceitar abrir mão da profundidade que certos temas pedem, ou até mesmo exigem, em nome de facilitar o ato da leitura. Seria um retrocesso, sem dúvida. Seria obedecer à triste vulgarização que já se torna comum na maioria dos portais.

Fico me perguntando, por exemplo, se Marcel Proust, com seus longuíssimos parágrafos, de denso encadeamento, se submeteria a mudar seu estilo para ser publicado na web. O que o editor de uma revista deveria fazer se recebesse um capítulo de Em busca do tempo perdido? Recusá-lo? Diminuí-lo? Retalhar os parágrafos?

Nosso papel não é, portanto, sacrificar o texto, sacrificar as idéias, mas encontrar soluções, apresentar aos técnicos as nossas dificuldades e lutar para que a tecnologia se adapte às nossas necessidades – e às necessidades dos leitores. A tecnologia deve se adequar às necessidades da criação artística e da expressividade humana. E não o contrário.

Lutar em defesa dos leitores significa lutar também por nós, pois certamente não existem editores que não lêem...

Enquanto esse momento não chega, devemos torcer para que os leitores não desistam, mas também nos esforçar para perceber que o ato de ler não é tão simples e tão fácil quanto muitos de nós imaginamos, mas que ele requer esforço, ele exige um grande empenho – empenho físico, meus amigos. Esforço e empenho que crescem na exata medida em que os suportes e a própria organização das informações não ajudam, mas, ao contrário, muitas vezes dificultam a vida do leitor.

Enquanto não alcançarmos essas mudanças, nossos leitores continuarão sofrendo da nostalgia do livro, do texto escrito em papel. Uma nostalgia, em minha opinião, extremamente benéfica.

novembro 13, 2008


Tragédia, obsessão e liberdade


Na edição de outubro do Rascunho, escrevi sobre Nelson Rodrigues e as crônicas de O reacionário - memórias e confissões, que a Editora Agir lançou.

outubro 10, 2008

Jean Marie Gustave Le Clézio, um Nobel inexpressivo


Jean-François Fogel resume bem Le Clézio: "buenos sentimientos, respeto por todos, malestar frente a la violencia de la civilización industrial, prosa limpia. Un autor para el ecologista culto. [...] un ganador flojo". Ou seja um escritor sem firmeza, inexpressivo, realmente fraco, sem qualquer vitalidade.

Ao privilegiar o politicamente correto, a Academia Sueca abandona os critérios estéticos e, portanto, despreza grandes escritores. Uma pena.

setembro 06, 2008

Manuel Bandeira


No Rascunho de agosto, o resultado de minha leitura do Crônicas inéditas I, de Manuel Bandeira: "Pouco se salva".

agosto 17, 2008

Nos últimos meses


Sem tempo/vontade para este blog, deixo os textos publicados nos últimos meses: "Carta ao presente" (Edward Osborne Wilson) ; "A pequena alegria de Corsaletti" (Fabrício Corsaletti); e "Moderno e corrosivo" (Monteiro Lobato).

maio 19, 2008

"Falácias sobre a luta armada na ditadura"


Destemido e verdadeiro - todos os adjetivos tornam-se pequenos diante do artigo publicado hoje, na Folha de S. Paulo, pelo historiador Marco Antonio Villa. Vejam, por exemplo, este corajoso trecho:

"Todos os grupos de luta armada defendiam a ditadura do proletariado. As eventuais menções à democracia estavam ligadas à 'fase burguesa da revolução'. Uma espécie de caminho penoso, uma concessão momentânea rumo à ditadura de partido único.

Conceder-lhes o estatuto histórico de principais responsáveis pela derrocada do regime militar é um absurdo. A luta pela democracia foi travada nos bairros pelos movimentos populares, na defesa da anistia, no movimento estudantil e nos sindicatos. Teve na Igreja Católica um importante aliado, assim como entre os intelectuais, que protestaram contra a censura. E o MDB, nada fez? E seus militantes e parlamentares que foram perseguidos? E os cassados?"


Nada melhor do que pôr os pingos nos is.

abril 10, 2008

Generación Y


Nada melhor do que uma voz dissonante para nos mostrar a realidade. É o caso do blog Generación Y, escrito pela filóloga cubana Yoani Sánchez. Yoani ganhou o Prêmio Ortega y Gasset de Jornalismo Digital "por la perspicacia con la que su trabajo ha sorteado las limitaciones a la libertad de expresión que existen en Cuba, su estilo de información vivaz y el ímpetu con el que se ha incorporado al espacio global de periodismo ciudadano". Ótimas justificativas, não só para o prêmio, mas para a nossa atenta e diária leitura.

março 31, 2008

Livros inatingíveis e Japão


Neste mês de março, publiquei duas resenhas: no jornal Rascunho, "Palavras inatingíveis", sobre O livro dos livros perdidos - uma história das grandes obras que você nunca vai ler (Editora Record), do crítico Stuart Kelly. No UOL Educação, "Japão para crianças - a beleza do diferente", sobre o livro Minhas imagens do Japão (Editora CosacNaify), de Etsuko Watanabe.

março 11, 2008

Sem grandeza


Acabo de ler que as escolas públicas e particulares terão de ensinar a seus alunos uma nova matéria: história e cultura afro-brasileira e indígena. A lei foi sancionada hoje pelo presidente da República. Trata-se de uma peça burlesca, sem dúvida, tal decisão, em um país no qual os jovens saem do ensino médio sem sequer conhecer a história brasileira. Duvido que um rapaz de 17 anos consiga escrever um resumo de duas laudas, com relativa visão crítica, sobre, por exemplo, a República Velha, o 2º Reinado ou o bandeirismo. A nova lei é fruto do populismo rasteiro que tomou conta do país. Nada mais. Que democracia pequena! Em breve, as crianças serão obrigadas a estudar tupi e ioruba. Quanto ao português, que língua é mesmo essa?

março 06, 2008


Batráquios


Em artigo que está sobre minha mesa de trabalho há várias semanas, Alcir Pécora faz seu balanço de 2007 e expõe o itinerário da literatura brasileira rumo ao desprestígio.

O império da festa, do “agito” como forma de marketing, de divulgação, que acaba por se sobrepor à própria literatura; a premiação dos medíocres; a literatura produzida por e para pequenos e inúteis grupos de pretensos iluminados, que lêem exclusivamente a si mesmos, lambendo-se mutuamente em eterna adoração; a tecnologia vista como salto inevitável à cultura, ao conhecimento; a subliteratura do “eu”, na qual relatos autobiográficos – que sofrem, aliás, da mais completa idiotia – são guindados à condição de best-sellers; o bairrismo dos grupelhos, transformado em uma espécie de nova luta de classes; o deslumbramento da academia com sua própria imagem – um fenômeno, aliás, rotineiro; e a crítica que se pretende um novo, e absoluto, gênero literário, substituindo julgamentos claros por metáforas lucubrantes: todos esses elementos estão no texto de Pécora, habilmente ironizados. Abstenho-me, portanto, de completar qualquer um deles. E, principalmente, de discordar.

Na verdade, o diagnóstico de Pécora expõe um doente cujos males tendem apenas a piorar. Uma democracia rasteiramente populista e filistina só pode produzir mais populismo e mais vulgaridade – em doses cavalares.

Se havia alguma dúvida em relação a este país, agora temos certeza que Euclides da Cunha estava realmente certo: "(...) Estou na reserva desde os vinte anos, quadra em que me assaltou o pessimismo incurável com que vou atravessando esta existência no pior dos piores países possíveis e imagináveis. Talvez não acredites: ando nas ruas desta aldeia de avenidas, com as nostalgias de um inglês smart perdido numa enorme aringa da África Central. Nostalgia e revolta: tu não imaginas como andam propícios os tempos a todas as mediocridades. Estamos no período hilariante dos grandes homens-pulhas, dos Pachecos empavesados e dos Acácios triunfantes. Nunca se berrou tão convictamente tanta asneira sob o sol! [...] É asfixiante! A atmosfera moral é magnífica para batráquios. Mas apaga o homem. [...]". (Carta a Otaviano Vieira, em 8 de agosto de 1909.)

O mal, infelizmente, contaminou a literatura.

fevereiro 26, 2008


Tímido acerto de contas com o passado


Na edição deste mês do jornal Rascunho, escrevo sobre o livro O africano, de Jean-Marie Gustave Le Clézio. Uma obra na qual, a cada página, o autor leva adiante a consoladora tarefa de se enganar.

fevereiro 21, 2008


Ironia e credulidade


Os recentes acontecimentos em Cuba e a solicitação de um amigo, para que eu escrevesse um texto sobre a história da ilha, os antecedentes e as conseqüências da Revolução Cubana, fizeram-me recordar de minha adolescência. Eu costumava ouvir, na casa de minha avó, um grande rádio de ondas curtas. Dentre as várias estações internacionais que escutava, muitas vezes sem nada entender, havia a Rádio Havana. O mote do locutor, pleno de orgulho, era: "Rádio Havana, Cuba, território livre da América!". Depois, seguiam-se as rumbas, e mais rumbas, e novamente o bordão. Ao me lembrar disso, escrevi para meu amigo: "Como as ditaduras podem ser irônicas, não é mesmo?". E ele, com absoluta razão, respondeu: "As ditaduras podem ser cínicas e nós podemos ser crédulos". E eu, inclinando a cabeça num gesto de assentimento, concluí: "Ainda bem que acordamos. A vida é melhor assim, com outros sonhos, nascidos da literatura".

fevereiro 18, 2008

A favor do Iluminismo


Extremamente brilhante a argumentação, na Folha de S. Paulo, de Nelson Ascher, criticando as opiniões de Rowan Williams, arcebispo de Canterbury (Cantuária).

Vivemos tempos perigosos - cada vez tenho mais essa certeza. Tudo que é essencial à liberdade humana está em jogo. E os inimigos não estão camuflados sob a bandeira de um partido cujo discurso propõe a igualdade impossível. Não. O perigo vive sob o manto protetor da religião - ou seja, do pior tipo de obscurantismo.

janeiro 22, 2008

Diálogo entre homens lúcidos


É sempre bom redescobrir a verdadeira arte do diálogo: conversar pelo prazer de conversar, sem querer provar nada, mas deixando as idéias fluírem com deleite.

janeiro 08, 2008

Ouriços e raposas


João Pereira Coutinho, que agora ocupa merecido lugar de destaque no jornal Folha de S. Paulo, presta hoje, em sua coluna, bela homenagem a Isaiah Berlin, uma das mentes mais lúcidas do século XX. Aqui, apenas para assinantes, infelizmente.

janeiro 04, 2008

Apropriação indébita de traduções


Corre pela web o abaixo-asssinado dos tradutores brasileiros, em resposta aos abusos recentemente denunciados pela mídia. Recomendo a leitura de um blog que reúne não apenas as assinaturas dos profissionais que ratificam os termos do abaixo-assinado, mas exemplos de como algumas editoras têm se apropriado do trabalho de vários tradutores.

dezembro 18, 2007


Meus gatos


Nada como ter as contas pagas, o aluguel em dia, a vasilha de comida cheia e uma vasta biblioteca. E dois humanos como empregados.

dezembro 04, 2007


Rubem Fonseca


Um dos exercícios mais interessantes que existem é ver nossa própria cultura - no caso, um de nossos escritores - analisada por um estrangeiro. Em sua coluna de hoje no El Boomeran(g), o ensaísta Jean-François Fogel escreve sobre Rubem Fonseca. A leitura é prazerosa, graças, em primeiro lugar, ao estilo de Fogel. Mas é igualmente saboroso ver com outros olhos um de nossos melhores autores: "A sus 82 años, el escritor brasileño Rubem Fonseca se parece a su prosa: es un hombre directo, concreto, eficiente, obsesionado por el presente, que se mueve con una vitalidad deslumbrante y la obvia conciencia de que nadie, pero nadie, se puede resistir a la sonrisa de un anciano que renunció a jubilarse de la juventud".

Mas depois de reencontrar Rubem Fonseca sob o olhar de Fogel, o exercício, para ser completo, pede que analisemos também o tratamento que parcela da mídia brasileira concede a Rubem e a vários outros dos nossos escritores.

novembro 22, 2007


O fetichista e a adúltera


Na edição do jornal Rascunho deste mês, escrevo sobre Flaubert e seu Madame Bovary:

Flaubert não estabeleceu apenas um método de trabalho. Sim, ele sabia que "todo talento de escrever não consiste senão na escolha das palavras. É a precisão que faz a força" - diz a Louise Colet, a 22 de julho de 1852. Mas não se tratou somente de disciplina. Flaubert tinha consciência das correntes que o prendiam, maiores que os seus próprios limites. Sabia que a expressão humana é claudicante, falha, imperfeita; que há um abismo separando a idéia e o discurso, a emoção e a palavra. O narrador de Madame Bovary conclui em certo trecho que "a palavra humana é como um caldeirão rachado, no qual batemos melodias próprias para fazer dançar os ursos, quando desejaríamos enternecer as estrelas". Ter a clara consciência da imperfeição, da rudeza dos meios humanos, do idioma, e ainda assim persistir, demanda mais que obediência a um método: exige obsessão, exige viver em um mórbido estado de vigilância e pesquisa, cuja primeira conseqüência é a solidão, e, logo a seguir, a visão fatal de seus semelhantes como uma horda de estúpidos e insensíveis.

novembro 15, 2007

Obscurantismo


Apenas para ratificar o que publiquei ontem neste espaço, reproduzo uma nota presente na edição de hoje do jornal Folha de S. Paulo:

LITERATURA: IRÃ VETA PUBLICAÇÃO DE LIVRO DE GARCÍA MÁRQUEZ
A reedição da novela "Memórias de Minhas Putas Tristes", de Gabriel García Márquez, foi proibida pelo governo iraniano. Um funcionário do Ministério da Cultura local disse que "a publicação do livro foi um erro". O último livro de Márquez foi traduzido para o persa e lançado no Irã há três semanas. A versão traduzida substitui a palavra "prostituta" por "minha beleza".

novembro 14, 2007

Terrorismo e religião


Coloco, a seguir, um trecho do livro As religiões assassinas, de Eli Barnavi, infelizmente ainda não traduzido no Brasil. Poucas vezes encontrei tanto equilíbrio ao tratar de um tema que costuma despertar paixões radicais. Ler não só o trecho abaixo, mas o longo excerto disponível na web, nos faz entender por que os valores da civilização fundada na Velha Europa, da qual somos herdeiros, são, no mínimo, imprescindíveis:

Cuanto más envejezco, más me convenzo de que la verdadera infraestructura de las sociedades es mental – ése es el caso del Islam, o más bien de la versión cerrada, exclusivista y autocentrada del Islam que acabó por imponerse en la Edad Media. La lectura de los informes anuales del Programa de las Naciones Unidas para el Desarrollo (PNUD), redactados por intelectuales árabes, es literalmente asombrosa. Por ejemplo, nos enteramos de que, en diez siglos, el mundo árabe-musulmán ¡ha traducido menos obras extranjeras que la España de hoy en en un solo año! Censura política y religiosa, falta de curiosidad, desprecio por lo que se hace en otras partes, todo se combina para transformar a una civilización antaño brillante y dominante en un vasto gueto libremente elegido y desgajado del resto del mundo. En torno al año 1000, el árabe era la lengua científica por excelencia, hasta el punto de que el filósofo y sabio judío Maimónides decía estar persuadido de que únicamente se podía razonar en esa lengua. Hoy, prácticamente ya no se pueden enseñar las ciencias en árabe y los diplomas de las universidades del mundo musulmán no valen ni el papel en el que están impresos. Esto es lo que dice de las universidades de su país Pervez Hoodbhoy, profesor de física nuclear en la universidad Quaid-e-Azam de Islamabad, en el Global Agenda 2006, el boletín del último Foro de la economía mundial de Davos: “Las universidades públicas de Pakistán y, con alguna excepción las privadas, son ruinas intelectuales y sus diplomas carecen prácticamente de valor. Según el Consejo pakistaní para la Ciencia y la Tecnología, los pakistaníes únicamente han logrado registrar ocho patentes internacionales en cincuenta y siete años”. Claro está, Pakistán sólo es un ejemplo entre otros, y no forzosamente el peor: “Es casi imposible”, prosigue el sabio pakistaní, “encontrar un nombre musulmán en las revistas científicas. La contribución de los musulmanes a la ciencia pura y aplicada, medida en términos de descubrimientos, de publicaciones y de patentes, es insignificante. La cruda realidad es que hace siglos que la ciencia y el Islam van cada uno por su lado. En resumen, la experiencia científica musulmana consiste en una edad de oro desde el siglo IX hasta el siglo XIV, a la que sigue un largo eclipse; en un modesto renacimiento en el siglo XIX; por último, en los últimos decenios del siglo XX, en un foso aparentemente infranqueable entre Islam de un lado, ciencia y modernidad del otro. Este foso, así lo parece, no deja de acrecentarse”.

novembro 10, 2007


Um final farsesco


Acabo de ler As Benevolentes, de Jonathan Littell. Decepcionante, para dizer o mínimo. O autor consegue destruir, nas páginas finais, um belo romance. Da página 882 em diante, até a última linha, na página 896, o castelo que ganhou o Goncourt de 2006 desmorona. A weltanschauung do jurista e oficial da SS Maximilian Aube, sua formidável personalidade, dividida entre o cinismo, a culpa, a neurose, a obediência cega, a paixão pela irmã e uma rara capacidade de auto-análise, tudo vem abaixo, num formidável e inesquecível gesto de desrespeito pelo leitor, que se vê transportado, subitamente, a uma verdadeira farsa. Assim, as quase 900 páginas tornam-se uma ardilosa mentira, um embuste. E a obra que poderia ser, como apregoaram os exaltados de sempre, um novo Guerra e paz, transforma-se numa estupidez pueril, numa pilhéria. Se há, como propôs Wayne Booth, uma "ética da ficção", ela deveria ser esfregada nas fuças de Littell. Aliás, agora percebo que 99% do que li sobre o livro na imprensa brasileira e internacional foi escrito por pessoas que não leram a obra até o fim. Ou seja, o autor é só o primeiro agente desse engodo editorial.