abril 17, 2009

Individualismo


O que é a massa, senão loucura, fanatismo, embriaguez? A massa é sempre cega – e exatamente por isso, servil. O complemento indissociável de toda coletividade é a despersonalização.

Em meus tempos de militância na esquerda, cansei de ver os braços erguendo-se durante as votações, automáticos, hipnotizados pelo discurso passional ou dirigidos pelos acordos de bastidores. Assembléias são arremedos de democracia.

E as aglomerações em praça pública? Um demagogo verbaliza a palavra-chave ou faz o gesto apropriado, e o emocionalismo incita a massa em milésimos de segundos, numa onda incontrolável de autoenganação. É um frenesi, um êxtase, mas que extermina o indivíduo, apaga a consciência, aniquila o juízo crítico.

“O homem pode significar muito para si próprio, e quanto mais ele significa para si, mais significa para os outros”, escreveu Jacob Burckhardt. Ele estava certo. A ciência, a arte e a sabedoria só podem nascer do individualismo; se preservarmos, com todas as forças, a nossa autonomia, a nossa vontade. A multidão é a mentira. (Esta última frase não seria de Kierkegaard?)

abril 15, 2009

Material para bons ficcionistas

É uma pena que a maior parte dos nossos escritores esteja preocupada apenas em ser mais vanguardeira que dadaístas empedernidos. No Brasil pululam fatos que, de tão irreais, bem que mereciam ganhar verossimilhança graças à ficção.

O que dizer, por exemplo, da estudante – de pai pardo e avô negro – que perdeu a vaga, conquistada por meio do sistema de cotas, na Universidade Federal de Santa Maria? Como sempre, quando o Estado decide inventar uma justiça espúria, acaba somente praticando novas injustiças. No caso, antecipando-se à votação que deve ocorrer no Senado dentro de alguns dias, a universidade criou uma comissão para julgar os casos de “reserva racial”. Submetida a questionamentos diversos – dentre eles, “sofreu algum tipo de preconceito?” –, a jovem foi reprovada, pois não possuía o perfil de vítima, ou seja, por comprovar, em sua própria vida, que o racismo apregoado pelas “minorias politicamente corretas” não passa de fantasmagoria.

Mas não se trata apenas disso. Há outras questões que incomodam: quem pode julgar quem? E com quais fundamentos? E quem estabelece esses fundamentos? O pequeno tribunal dessa universidade é tão sórdido quanto um tribunal kafkiano. Ele comprova que a divisão da sociedade por raças é arbitrária, injusta e absurda – e, manipulada em comissões cujos membros defendem critérios absolutamente subjetivos, só tende a produzir aberrações.

Para onde a segue a carruagem? Teremos de, em breve, fornecer, no ato de inscrição para o vestibular, o mapeamento de DNA? O Estado criará novos cartórios, especializados em atestar as raças dos recém-nascidos? Ou bastará que os atuais cartórios de registro civil contratem geneticistas?

Ora, não seria melhor, de uma vez por todas, ressuscitar Alfred Rosemberg?

Escritores brasileiros: mãos à obra! Há material à farta para bons ficcionistas!

abril 13, 2009

Nove anos de Rascunho

Rogério Pereira, editor do jornal Rascunho, concedeu uma entrevista, dividida em seis partes, ao blog Papo Original. Abaixo, coloco o primeiro trecho desse diálogo tranqüilo, em que Rogério fala sobre livros, internet, futebol e vários outros temas:


Rascunho from Papo Original on Vimeo.

abril 10, 2009

Igualitarismo nivelador

Os números foram divulgados ontem pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo: 82,5% dos alunos da 8ª série do ensino fundamental apresentam desempenho medíocre em língua portuguesa. Se essa é a realidade do ensino paulista, o que deve ocorrer, por exemplo, no estado mais querido de Nelson Rodrigues, o Piauí?

Ironia à parte, enquanto a escola seguir considerando as diferenças individuais não pela óptica do reconhecimento diferencial dos méritos, mas segundo a idéia marxista que advoga um igualitarismo nivelador, os índices continuarão piorando. A escola da progressão continuada é a escola do amorfismo. A ideologia que hoje norteia a educação no Brasil tenta esconder a verdade, mas não premiar o esforço, o empenho e, portanto, o mérito individual, serve apenas para criar cidadãos passivos e ignorantes.

abril 09, 2009

Terremoto em L'Aquila

Penso nos mortos do terremoto na Itália. Mas penso principalmente nos vivos, na herança de dor e saudade que terão de carregar, e no sentimento, sempre devastador, de que a vida é uma luta entre forças desproporcionais, onde, de um lado, está o homem – cheio de orgulho, mas frágil, patético –, caminhando tendo diante de si o fim iminente, e de outro o infortúnio, demorado ou abrupto, mas sempre inevitável.

Se viver exige um ato de coragem diário, o que será viver sustentando o ônus do fatídico – e, pior, o ônus de escapar da morte e, em troca, ser condenado a suportar o peso de todas as conseqüências provocadas pela fatalidade?

abril 08, 2009

O prazer de fumar

Meu silencioso repúdio à arbitrariedade aprovada ontem aqui em São Paulo.

abril 07, 2009

Double Concerto

Ouvir Brahms significa experimentar certo estado de transcendência. De repente, o real, o físico é ultrapassado - e quando voltamos às mazelas do dia-a-dia, a sensação de que estivemos livres do peso de viver se mantém e nos reconforta. Aqui, violino e violoncelo não disputam nenhuma primazia, mas apenas dialogam para muito além do lirismo, criando uma natureza íntima comum, uma realidade da qual ansiamos jamais nos separar:

abril 04, 2009

Novo visual e leituras

Fui praticamente forçado, por um grande amigo, a mudar a aparência do blog. De fato, está melhor assim, arejado, com as letras maiores, design leve. Devagar, acerto os detalhes que faltam.

Para os que gostam, há uma boa entrevista com John Le Carré no Babelia deste sábado. E uma resenha, interessante, sobre livros de viagens, falando de R. L. Stevenson e Joseph Roth, entre outros.

abril 01, 2009

Biblioclastia na Venezuela?


Notícias publicadas em vários blogs e revistas digitais denunciam a destruição de livros na Biblioteca Nacional da Venezuela - por motivos ideológicos -, bem como a transformação desse órgão público em mero divulgador de instrução partidária.

Segundo as notícias, um dos responsáveis pela destruição, Fernando Báez, que foi diretor da Biblioteca Nacional, é, ironicamente, autor de um livro intitulado Historia universal de la destrucción de libros.

E há mais: dentre os links que me enviaram, um fórum de discussão afirma que a queima de livros em bibliotecas públicas está se tornando uma rotina naquele país.

Seria mais uma das faces obscurantistas da Revolução Bolivariana?

março 29, 2009

Leituras


Abro o jornal de domingo em busca de vida inteligente, coisa cada vez mais rara em um país no qual o governo corteja, todos os dias, a mediocridade das massas. Às vezes tenho sorte. A Folha de S. Paulo de hoje, por exemplo, traz um ótimo editorial, apontando a "concepção vingativa e primitiva de Justiça" que tem norteado setores do Judiciário. Tema, aliás, que Reinaldo Azevedo denuncia constantemente: como é possível, por exemplo, prender, intimidar e difamar com base apenas em conjecturas? O Estadão também me conforta: o bom ensaio de John Gray, no Caderno Aliás, oferece uma ampla radiografia da conjuntura atual. Gray é sempre instigante - e poucas coisas são melhores do que ler um pensador independente, cujos motivos para refletir restringem-se ao prazer da reflexão, à ânsia de buscar a verdade. Suely Caldas, no Caderno de Economia, coloca outra vez, sem piedade, o dedo na ferida do PT. Como não se tornar leitor assíduo de uma jornalista que jamais rasteja para o governo, que jamais torna doce a verdade? Finalmente, no Caderno 2, Daniel Piza - exatamente como Jerônimo Teixeira, na Veja - faz lúcida crítica literária, fugindo do oba-oba esquerdista - que contaminou boa parte da mídia nos últimos dias - em torno do novo livro de Chico Buarque. Enfim, um domingo de saldo positivo.

Agora, se me permitem, vou retornar ao meu Philip Roth.

março 27, 2009

Osesp


Sob a regência de Gennady Rozhdestvensky, um Alexander Glazunov previsível, chatíssimo, apenas para esquentar os motores. Mas o Concerto nº 1 para Violino em ré maior, Op.19, de Prokofiev, iniciou, de fato, a noite, com seu lirismo perturbador, envolvente. Depois do intervalo, a melhor suspresa: a Sinfonia nº 10 em mi menor, Op.93, de Shostakovich - magnífica! Fomos tragados pela sonoridade espantosa. Há tudo ali: um homem apaixonado, uma criança indefesa, um artista defendendo sua liberdade.

março 16, 2009

Da Rússia czarista aos bolcheviques


Estamos cansados de saber que foi assim? Talvez. Mas há certos números que devem ser relembrados de vez em quando:

"Existe uma enorme disparidade entre o tamanho do aparato penal e de segurança da Rússia czarista e o do que foi instaurado pelos bolcheviques. Em 1895, o Okhrana (Departamento de Polícia) tinha apenas 161 funcionários em tempo integral. Em outubro de 1916, pode ter chegado a um total de 15.000, incluindo funcionários alocados em outros departamentos. Em comparação, em 1919 a Cheka tinha no mínimo 37.000 funcionários, chegando a mais de um quarto de milhão em 1921. Disparidade semelhante se verifica no que diz respeito ao número de execuções. No último período czarista, entre 1866 e 1917, houve aproximadamente 14.000 execuções, enquanto no período soviético inicial, de 1917 a 1923, a Cheka promoveu cerca de 200.000 execuções."

Mais informações - e um texto realmente instigante - em Missa Negra - religião apocalíptica e o fim das utopias, de John Gray (Editora Record).

março 09, 2009

As melhores críticas


Leio com atraso dois textos publicados no Estadão na semana passada. Merecem destaque.

Na edição de quinta, 5 de março, Luiz Américo Camargo escreve sobre o Restaurante Moraes, o Rei do Filet, casa antiga na Praça Júlio Mesquita, onde fui a primeira vez ainda garoto, levado por meu pai. O texto de Camargo, no entanto, não serve apenas para despertar lembranças. Acima de outros prazeres, cumpre o papel da melhor crítica: recupera a história do restaurante; analisa os pratos, o ambiente, o serviço; faz comparações com a cozinha contemporânea; e não teme dizer ao leitor: é bom – vá. Quando chegamos ao final, podemos sentir os odores convidativos da carne. O texto é claro, leve, transpira isenção e, o melhor, não inventa metáforas excêntricas.

Trabalho semelhante faz Lauro Machado Coelho na edição de sábado, 7 de março. Escreve sobre a nossa querida Osesp em sua primeira noite com o maestro Yan-Pascal Tortelier. Lauro recusa-se à prática cada vez mais comum de usar o espaço da crítica para fazer fofocas, recordar questões desgastantes ou reacender mágoas. Não. Ele é um profissional, homem dedicado ao ofício de transformar sua crítica em minutos de ensinamento. As gradações do texto acompanham cada acorde. Quem não esteve no evento tem a visão clara do que foi a noite; alegra-se com a crise superada e, principalmente, com a música de altíssimo nível. É possível escutar uma gravação da Sinfonia nº 2 de Rachmáninov e saber em que trechos a Osesp teve desempenho melhor. A “precisão e sutileza” que Lauro reconhece em Tortelier, ele nos oferece em seu texto.

Dois críticos que são verdadeiros didatas. Essa maneira de escrever, cada vez mais rara na crítica brasileira, esconde uma sabedoria: ninguém é dono da verdade, mas o público merece a atenção e o cuidado dos que conhecem mais e, portanto, podem indicar caminhos, dizendo, claramente, o que é bom e o que não é.

Luiz Américo Camargo e Lauro Machado Coelho escrevem assim. E o melhor: sem discursos dúbios (a crítica ambígua esconde um traço indelével de covardia intelectual), sem a empáfia de pretender criar um novo gênero literário, recusando a proteção dos academicismos e da linguagem hermética.

março 08, 2009

Filosofia


A revista Crítica - dedicada à divulgação, ao ensino e à investigação filosófica - está, temporariamente, aberta a todos os leitores. É uma boa oportunidade para conhecer um arquivo diversificado, de ótima qualidade, no qual podemos encontrar artigos e resenhas de divulgação científica - como esta sucinta e correta introdução à leitura de Isaiah Berlin - ou textos mais profundos. A revista é dirigida por Desidério Murcho, mestre em Filosofia pela Universidade de Lisboa, atualmente professor na Universidade Federal de Ouro Preto, MG.

janeiro 15, 2009

Este é o grande, o terrível perigo:


"Assassins of the Mind".

E não pensem que ele está longe de nós.

dezembro 31, 2008

2008/2009


A fim de celebrar o início de 2009 - e agradecer por todos os gestos de atenção e carinho que recebi de meus leitores em 2008 -, publico o belíssimo lied "September", de Richard Strauss, na voz da magnífica soprano lírica finlandesa, Soile Isokoski. "September" pertence ao ciclo Vier letzte Lieder (Quatro últimas canções) e foi composto sobre um poema de Hermann Hesse.

Que possamos assistir ao fim de 2008 com a certeza de que a vida sempre se renova.



September

Hermann Hesse

Der Garten trauert,
kühl sinkt in die Blumen der Regen.
Der Sommer schauert
still seinem Ende entgegen.

Golden tropft Blatt um Blatt
nieder vom hohen Akazienbaum.
Sommer lächelt erstaunt und matt
in den sterbenden Gartentraum.

Lange noch bei den Rosen
bleibt er stehen, sehnt sich nach Ruh.
Langsam tut er die großen
müdgewordnen Augen zu.

*

Il giardino è triste,
fredda cade la pioggia sui fiori.
Rabbrividisce l'estate,
silenziosa verso la sua fine.

In pioggia d'oro, una dopo l'altra,
si staccano le foglie dall'alta acacia;
l'estate sorride attonita e spossata
nel sogno morente del giardino.

A lungo ancora resta vicino alle rose,
sospirando il riposo.
Lentamente chiude [i grandi]
gli occhi stanchi.

*

El jardín se entristece,
fría cae sobre las flores la lluvia.
El verano asiste
silenciosamente a la llegada de su fin.

Una tras otra, van cayendo
las doradas hojas de la alta acacia.
El verano sonríe, entre sorprendido y fatigado,
en el moribundo sueño del jardín.

Largo tiempo permanece él todavía junto a las rosas,
quieto, anhelando el reposo;
lentamente va cerrando
sus ojos fatigados.

*

The garden is mourning,
the rain sinks coolly into the flowers.
Summer shudders
as it meets its end.

Leaf upon leaf drops golden
down from the lofty acacia.
Summer smiles, astonished and weak,
in the dying garden dream.

For a while still by the roses
it remains standing, yearning for peace.
Slowly it closes its large
eyes grown weary.

*

Le jardin pleure,
Froide, la pluie coule sur les fleurs.
L'été frémit,
Muet à l'approche de sa fin.

L'or goutte de feuille en feuille,
Tombe du grand acacia.
L'été sourit, étonné et alangui,
Dans le rêve mourant du jardin.

Longtemps encore, auprès des roses
Il reste là, aspirant au repos.
Lentement il ferme ses grands yeux
Qui s'ensommeillent.

dezembro 07, 2008

Mestre Graciliano


Acabo de ler dois ótimos artigos sobre Graciliano Ramos e seu Vidas secas (que completa setenta anos de publicação e acaba de ganhar magnífica reedição pela Record): o de Reinaldo Azevedo - "Graciliano, o grande" -, na Veja, e o de Ronaldo Correia de Brito, em O Estado de S. Paulo - "Vidas Secas". Os dois reafirmam - o que nunca é demais - a qualidade do estilo de Graciliano, sua linguagem purificada, seu absoluto domínio da língua.

Reinaldo Azevedo salienta o repúdio do escritor ao "engajamento" na arte e dá pistas sobre os motivos de Graciliano ser colocado abaixo de Guimarães Rosa (típica injustiça, fruto de modismos, que o tempo haverá de corrigir). Mas Reinaldo faz, principalmente, uma bela análise da ética que perpassa a obra de Graciliano - muito distante do relativismo moral e cultural que impera atualmente -, compondo um artigo que merece não só leitura, mas reflexão.

Ronaldo Correia de Brito recorda outras qualidades de Graciliano - por exemplo, sua sábia distância do movimento modernista - e recoloca em pauta a questão do regionalismo, termo difuso, que tem servido para diminuir certos autores e enaltecer outros, tratando como universalistas apenas os que seguem a cartilha da vanguardice.

Ao falarem sobre Graciliano, Azevedo e Brito sinalizam o caminho daqueles que pretendem criar literatura - e não somente repetir as fórmulas emboloradas das vanguardas européias.

novembro 20, 2008

Limites da web - reflexões de um editor


Fui convidado a participar do Encontro Nacional de Revistas Culturais Independentes, realizado no SESC-SP, na Avenida Paulista, entre 5 e 7 de setembro.

Minha fala, enquanto editor do suplemento de literatura Palavra, do Le Monde Diplomatique (edição virtual), fez parte da Mesa que tratou do tema “A emergência das publicações culturais na internet – Quais as perspectivas para o debate cultural propiciadas pelas novas tecnologias? As novas mídias sugerem a criação de novos conteúdos ou interferem na concepção da publicação?”.

A seguir, transcrevo, com pequenas alterações, o que falei:

– Estamos apegados às indiscutíveis qualidades da web (velocidade de disseminação da mensagem e democratização da divulgação e do acesso às informações), mas falamos pouco ou nos esquecemos das dificuldades, dos limites.

Há um endeusamento da web, atualmente, como se ela pudesse ser a panacéia para as deficiências de difusão do conhecimento que enfrentamos no Brasil. Como se a web pudesse, de maneira mágica, solucionar, por exemplo, a exclusão social que nasce do analfabetismo (e também do chamado analfabetismo funcional). Como se o enorme volume de informações lançado diariamente na web não obedecesse à lógica da própria indústria editorial, ou seja, a de que grande parte do que é publicado não passa de lixo e será esquecido dentro de pouco tempo. A web não está isenta dos males da indústria cultural, mas, ao contrário, faz parte dela.

Assim, se a democratização representada pela web oferece ganhos, também provoca malefícios. O acúmulo de informações literalmente erradas, por exemplo, mais confunde do que esclarece. E esse caos se agiganta a cada dia, ideologizado, manipulado, disseminando mentiras.

Mas há outros problemas, ligados não só à web, mas também ao suporte, ao computador.

Sob determinado ponto de vista, a leitura na tela do computador é um retrocesso. O que fazemos na vertical, os leitores da Antiguidade faziam na horizontal.

Lembremos: as folhas de papiro eram coladas pelas extremidades umas às outras, formando longas fitas. Algumas, pelo que se sabe, de até 18 metros de comprimento, depois enroladas em torno de um bastonete, chamado umbilicus, formando rolos.

O mesmo ocorreu no caso do pergaminho. Enquanto a escrita era feita apenas no reto, ou seja, na primeira face do pergaminho, as folhas também eram coladas e enroladas, de maneira a construir o volumen. Só quando se percebeu que a consistência do pergaminho permitia que ele fosse utilizado dos dois lados é que se criou o códex, que se aproxima da aparência dos nossos livros: as folhas passaram a ser reunidas pelo dorso e recobertas com uma capa.

Passamos, assim, ao problema da legibilidade. Uma questão aparentemente técnica e sem importância, mas crucial para aqueles que não se preocupam apenas com a mera divulgação de informações; para aqueles editores preocupados com formas de se garantir a qualidade da leitura dessas informações.

Em nome da legibilidade, já vi manuais defendendo que os textos da web devem ser curtos, objetivos – na verdade, aproximando-se mais de uma peça publicitária do que de um artigo ou de um ensaio.

Além disso, há outras dificuldades, no que se refere, por exemplo, às consultas dos textos. E essas dificuldades vão muito além das formas de utilização do computador...

[Inclusive os computadores mais leves são desconfortáveis – e os novos modelos, que pretendem ser mais práticos, oferecem telas pequenas demais. Uma solução, em termos de suporte, pode ser o renascimento do e-reader, como o Kindle, da Amazon, e vários outros modelos, recentemente apresentados na Feira do Livro de Frankfurt. Eles podem ser mais cômodos, não só em termos de manuseio, mas também de luminosidade da tela, tamanho da fonte, etc.]

Para não descer a minúcias, não falarei aqui, por exemplo, das questões técnicas que envolvem o uso de fontes sem serifa, um hábito comum na web – e que, comprovadamente, dificulta a leitura.

Uma preocupação – que não angustia certamente o leitor comum, mas que consegue tirar o sono deste editor – é a necessidade de criarmos índices analíticos em nossas publicações, e não apenas sumários. Podemos fazer um índice de links, é certo, mas como garantir que determinado link nos remeta exatamente ao trecho que desejamos ler – e não à página inteira do artigo ou ao trecho da página que cabe na tela do computador? Vamos passar a vida dependendo da busca “em cache” do Google?

Ou seja, não basta pensarmos, tão-somente, em divulgar nossos conteúdos, mas precisamos refletir também em como assegurar aos leitores futuros que eles tenham acesso às informações que veiculamos não apenas por meio do confuso sistema de busca oferecido por um Google, mas por meio de índices que contemplem não só as entradas (ou seja, os principais registros descritivos de um artigo ou de uma publicação), mas também as remissões (ou seja, os termos que remetem a pontos determinados dos temas ou dos personagens tratados). E, mais do que isso, precisamos de índices que nos permitam estabelecer referências cruzadas entre diferentes artigos que, porventura, tratem de assuntos semelhantes.

O que quero dizer com estas observações é que a quase totalidade das nossas publicações na web tem se limitado a despejar o conteúdo na teia invisível da internet, confiando que o ato de disseminar informações pode se restringir a tão pouco. O que não é verdade. Garantir que o leitor possa encontrar, não só com rapidez, mas de maneira objetiva e lógica, o que ele procura também é um dever nosso – se é que desejamos desempenhar realmente o papel de editores.

Uma prática que se torna cada vez mais comum é, por exemplo, utilizar, em nossas publicações, o próprio sistema de busca do Google. Mas ele não segue a lógica do leitor – ou melhor, ele não permite que o leitor estabeleça a lógica da sua pesquisa. Ao contrário, trata-se de um sistema que utiliza uma lógica completamente arbitrária, que muitas vezes impede o leitor de encontrar o que deseja.

Como vamos substituir na web, no computador, no e-reader o ato de compulsar um volume, de folheá-lo, de consultá-lo por meio de referências?

Devo concluir, portanto, que, sob uma aparência de modernidade, utilizamos e oferecemos ferramentas ainda bem primitivas, com sérios problemas a serem superados, se é que desejamos realmente democratizar a informação e não apenas jogá-la no ferro-velho desorganizado, caótico, em que a web já se transformou.

Finalmente, diante de todas essas dificuldades, devo dizer que, no papel de editor, recuso-me a, em nome de remediar esses problemas, comprometer o conteúdo publicado. Em minha opinião, o texto não pode aceitar camisas-de-força. Não podemos diminuir a qualidade do nosso conteúdo, torná-lo de qualquer forma pequeno, aceitar abrir mão da profundidade que certos temas pedem, ou até mesmo exigem, em nome de facilitar o ato da leitura. Seria um retrocesso, sem dúvida. Seria obedecer à triste vulgarização que já se torna comum na maioria dos portais.

Fico me perguntando, por exemplo, se Marcel Proust, com seus longuíssimos parágrafos, de denso encadeamento, se submeteria a mudar seu estilo para ser publicado na web. O que o editor de uma revista deveria fazer se recebesse um capítulo de Em busca do tempo perdido? Recusá-lo? Diminuí-lo? Retalhar os parágrafos?

Nosso papel não é, portanto, sacrificar o texto, sacrificar as idéias, mas encontrar soluções, apresentar aos técnicos as nossas dificuldades e lutar para que a tecnologia se adapte às nossas necessidades – e às necessidades dos leitores. A tecnologia deve se adequar às necessidades da criação artística e da expressividade humana. E não o contrário.

Lutar em defesa dos leitores significa lutar também por nós, pois certamente não existem editores que não lêem...

Enquanto esse momento não chega, devemos torcer para que os leitores não desistam, mas também nos esforçar para perceber que o ato de ler não é tão simples e tão fácil quanto muitos de nós imaginamos, mas que ele requer esforço, ele exige um grande empenho – empenho físico, meus amigos. Esforço e empenho que crescem na exata medida em que os suportes e a própria organização das informações não ajudam, mas, ao contrário, muitas vezes dificultam a vida do leitor.

Enquanto não alcançarmos essas mudanças, nossos leitores continuarão sofrendo da nostalgia do livro, do texto escrito em papel. Uma nostalgia, em minha opinião, extremamente benéfica.

novembro 13, 2008


Tragédia, obsessão e liberdade


Na edição de outubro do Rascunho, escrevi sobre Nelson Rodrigues e as crônicas de O reacionário - memórias e confissões, que a Editora Agir lançou.

outubro 10, 2008

Jean Marie Gustave Le Clézio, um Nobel inexpressivo


Jean-François Fogel resume bem Le Clézio: "buenos sentimientos, respeto por todos, malestar frente a la violencia de la civilización industrial, prosa limpia. Un autor para el ecologista culto. [...] un ganador flojo". Ou seja um escritor sem firmeza, inexpressivo, realmente fraco, sem qualquer vitalidade.

Ao privilegiar o politicamente correto, a Academia Sueca abandona os critérios estéticos e, portanto, despreza grandes escritores. Uma pena.

setembro 06, 2008

Manuel Bandeira


No Rascunho de agosto, o resultado de minha leitura do Crônicas inéditas I, de Manuel Bandeira: "Pouco se salva".

agosto 17, 2008

Nos últimos meses


Sem tempo/vontade para este blog, deixo os textos publicados nos últimos meses: "Carta ao presente" (Edward Osborne Wilson) ; "A pequena alegria de Corsaletti" (Fabrício Corsaletti); e "Moderno e corrosivo" (Monteiro Lobato).

maio 19, 2008

"Falácias sobre a luta armada na ditadura"


Destemido e verdadeiro - todos os adjetivos tornam-se pequenos diante do artigo publicado hoje, na Folha de S. Paulo, pelo historiador Marco Antonio Villa. Vejam, por exemplo, este corajoso trecho:

"Todos os grupos de luta armada defendiam a ditadura do proletariado. As eventuais menções à democracia estavam ligadas à 'fase burguesa da revolução'. Uma espécie de caminho penoso, uma concessão momentânea rumo à ditadura de partido único.

Conceder-lhes o estatuto histórico de principais responsáveis pela derrocada do regime militar é um absurdo. A luta pela democracia foi travada nos bairros pelos movimentos populares, na defesa da anistia, no movimento estudantil e nos sindicatos. Teve na Igreja Católica um importante aliado, assim como entre os intelectuais, que protestaram contra a censura. E o MDB, nada fez? E seus militantes e parlamentares que foram perseguidos? E os cassados?"


Nada melhor do que pôr os pingos nos is.

abril 10, 2008

Generación Y


Nada melhor do que uma voz dissonante para nos mostrar a realidade. É o caso do blog Generación Y, escrito pela filóloga cubana Yoani Sánchez. Yoani ganhou o Prêmio Ortega y Gasset de Jornalismo Digital "por la perspicacia con la que su trabajo ha sorteado las limitaciones a la libertad de expresión que existen en Cuba, su estilo de información vivaz y el ímpetu con el que se ha incorporado al espacio global de periodismo ciudadano". Ótimas justificativas, não só para o prêmio, mas para a nossa atenta e diária leitura.

março 31, 2008

Livros inatingíveis e Japão


Neste mês de março, publiquei duas resenhas: no jornal Rascunho, "Palavras inatingíveis", sobre O livro dos livros perdidos - uma história das grandes obras que você nunca vai ler (Editora Record), do crítico Stuart Kelly. No UOL Educação, "Japão para crianças - a beleza do diferente", sobre o livro Minhas imagens do Japão (Editora CosacNaify), de Etsuko Watanabe.

março 11, 2008

Sem grandeza


Acabo de ler que as escolas públicas e particulares terão de ensinar a seus alunos uma nova matéria: história e cultura afro-brasileira e indígena. A lei foi sancionada hoje pelo presidente da República. Trata-se de uma peça burlesca, sem dúvida, tal decisão, em um país no qual os jovens saem do ensino médio sem sequer conhecer a história brasileira. Duvido que um rapaz de 17 anos consiga escrever um resumo de duas laudas, com relativa visão crítica, sobre, por exemplo, a República Velha, o 2º Reinado ou o bandeirismo. A nova lei é fruto do populismo rasteiro que tomou conta do país. Nada mais. Que democracia pequena! Em breve, as crianças serão obrigadas a estudar tupi e ioruba. Quanto ao português, que língua é mesmo essa?

março 06, 2008


Batráquios


Em artigo que está sobre minha mesa de trabalho há várias semanas, Alcir Pécora faz seu balanço de 2007 e expõe o itinerário da literatura brasileira rumo ao desprestígio.

O império da festa, do “agito” como forma de marketing, de divulgação, que acaba por se sobrepor à própria literatura; a premiação dos medíocres; a literatura produzida por e para pequenos e inúteis grupos de pretensos iluminados, que lêem exclusivamente a si mesmos, lambendo-se mutuamente em eterna adoração; a tecnologia vista como salto inevitável à cultura, ao conhecimento; a subliteratura do “eu”, na qual relatos autobiográficos – que sofrem, aliás, da mais completa idiotia – são guindados à condição de best-sellers; o bairrismo dos grupelhos, transformado em uma espécie de nova luta de classes; o deslumbramento da academia com sua própria imagem – um fenômeno, aliás, rotineiro; e a crítica que se pretende um novo, e absoluto, gênero literário, substituindo julgamentos claros por metáforas lucubrantes: todos esses elementos estão no texto de Pécora, habilmente ironizados. Abstenho-me, portanto, de completar qualquer um deles. E, principalmente, de discordar.

Na verdade, o diagnóstico de Pécora expõe um doente cujos males tendem apenas a piorar. Uma democracia rasteiramente populista e filistina só pode produzir mais populismo e mais vulgaridade – em doses cavalares.

Se havia alguma dúvida em relação a este país, agora temos certeza que Euclides da Cunha estava realmente certo: "(...) Estou na reserva desde os vinte anos, quadra em que me assaltou o pessimismo incurável com que vou atravessando esta existência no pior dos piores países possíveis e imagináveis. Talvez não acredites: ando nas ruas desta aldeia de avenidas, com as nostalgias de um inglês smart perdido numa enorme aringa da África Central. Nostalgia e revolta: tu não imaginas como andam propícios os tempos a todas as mediocridades. Estamos no período hilariante dos grandes homens-pulhas, dos Pachecos empavesados e dos Acácios triunfantes. Nunca se berrou tão convictamente tanta asneira sob o sol! [...] É asfixiante! A atmosfera moral é magnífica para batráquios. Mas apaga o homem. [...]". (Carta a Otaviano Vieira, em 8 de agosto de 1909.)

O mal, infelizmente, contaminou a literatura.

fevereiro 26, 2008


Tímido acerto de contas com o passado


Na edição deste mês do jornal Rascunho, escrevo sobre o livro O africano, de Jean-Marie Gustave Le Clézio. Uma obra na qual, a cada página, o autor leva adiante a consoladora tarefa de se enganar.

fevereiro 21, 2008


Ironia e credulidade


Os recentes acontecimentos em Cuba e a solicitação de um amigo, para que eu escrevesse um texto sobre a história da ilha, os antecedentes e as conseqüências da Revolução Cubana, fizeram-me recordar de minha adolescência. Eu costumava ouvir, na casa de minha avó, um grande rádio de ondas curtas. Dentre as várias estações internacionais que escutava, muitas vezes sem nada entender, havia a Rádio Havana. O mote do locutor, pleno de orgulho, era: "Rádio Havana, Cuba, território livre da América!". Depois, seguiam-se as rumbas, e mais rumbas, e novamente o bordão. Ao me lembrar disso, escrevi para meu amigo: "Como as ditaduras podem ser irônicas, não é mesmo?". E ele, com absoluta razão, respondeu: "As ditaduras podem ser cínicas e nós podemos ser crédulos". E eu, inclinando a cabeça num gesto de assentimento, concluí: "Ainda bem que acordamos. A vida é melhor assim, com outros sonhos, nascidos da literatura".

fevereiro 18, 2008

A favor do Iluminismo


Extremamente brilhante a argumentação, na Folha de S. Paulo, de Nelson Ascher, criticando as opiniões de Rowan Williams, arcebispo de Canterbury (Cantuária).

Vivemos tempos perigosos - cada vez tenho mais essa certeza. Tudo que é essencial à liberdade humana está em jogo. E os inimigos não estão camuflados sob a bandeira de um partido cujo discurso propõe a igualdade impossível. Não. O perigo vive sob o manto protetor da religião - ou seja, do pior tipo de obscurantismo.

janeiro 22, 2008

Diálogo entre homens lúcidos


É sempre bom redescobrir a verdadeira arte do diálogo: conversar pelo prazer de conversar, sem querer provar nada, mas deixando as idéias fluírem com deleite.

janeiro 08, 2008

Ouriços e raposas


João Pereira Coutinho, que agora ocupa merecido lugar de destaque no jornal Folha de S. Paulo, presta hoje, em sua coluna, bela homenagem a Isaiah Berlin, uma das mentes mais lúcidas do século XX. Aqui, apenas para assinantes, infelizmente.

janeiro 04, 2008

Apropriação indébita de traduções


Corre pela web o abaixo-asssinado dos tradutores brasileiros, em resposta aos abusos recentemente denunciados pela mídia. Recomendo a leitura de um blog que reúne não apenas as assinaturas dos profissionais que ratificam os termos do abaixo-assinado, mas exemplos de como algumas editoras têm se apropriado do trabalho de vários tradutores.

dezembro 18, 2007


Meus gatos


Nada como ter as contas pagas, o aluguel em dia, a vasilha de comida cheia e uma vasta biblioteca. E dois humanos como empregados.

dezembro 04, 2007


Rubem Fonseca


Um dos exercícios mais interessantes que existem é ver nossa própria cultura - no caso, um de nossos escritores - analisada por um estrangeiro. Em sua coluna de hoje no El Boomeran(g), o ensaísta Jean-François Fogel escreve sobre Rubem Fonseca. A leitura é prazerosa, graças, em primeiro lugar, ao estilo de Fogel. Mas é igualmente saboroso ver com outros olhos um de nossos melhores autores: "A sus 82 años, el escritor brasileño Rubem Fonseca se parece a su prosa: es un hombre directo, concreto, eficiente, obsesionado por el presente, que se mueve con una vitalidad deslumbrante y la obvia conciencia de que nadie, pero nadie, se puede resistir a la sonrisa de un anciano que renunció a jubilarse de la juventud".

Mas depois de reencontrar Rubem Fonseca sob o olhar de Fogel, o exercício, para ser completo, pede que analisemos também o tratamento que parcela da mídia brasileira concede a Rubem e a vários outros dos nossos escritores.

novembro 22, 2007


O fetichista e a adúltera


Na edição do jornal Rascunho deste mês, escrevo sobre Flaubert e seu Madame Bovary:

Flaubert não estabeleceu apenas um método de trabalho. Sim, ele sabia que "todo talento de escrever não consiste senão na escolha das palavras. É a precisão que faz a força" - diz a Louise Colet, a 22 de julho de 1852. Mas não se tratou somente de disciplina. Flaubert tinha consciência das correntes que o prendiam, maiores que os seus próprios limites. Sabia que a expressão humana é claudicante, falha, imperfeita; que há um abismo separando a idéia e o discurso, a emoção e a palavra. O narrador de Madame Bovary conclui em certo trecho que "a palavra humana é como um caldeirão rachado, no qual batemos melodias próprias para fazer dançar os ursos, quando desejaríamos enternecer as estrelas". Ter a clara consciência da imperfeição, da rudeza dos meios humanos, do idioma, e ainda assim persistir, demanda mais que obediência a um método: exige obsessão, exige viver em um mórbido estado de vigilância e pesquisa, cuja primeira conseqüência é a solidão, e, logo a seguir, a visão fatal de seus semelhantes como uma horda de estúpidos e insensíveis.

novembro 15, 2007

Obscurantismo


Apenas para ratificar o que publiquei ontem neste espaço, reproduzo uma nota presente na edição de hoje do jornal Folha de S. Paulo:

LITERATURA: IRÃ VETA PUBLICAÇÃO DE LIVRO DE GARCÍA MÁRQUEZ
A reedição da novela "Memórias de Minhas Putas Tristes", de Gabriel García Márquez, foi proibida pelo governo iraniano. Um funcionário do Ministério da Cultura local disse que "a publicação do livro foi um erro". O último livro de Márquez foi traduzido para o persa e lançado no Irã há três semanas. A versão traduzida substitui a palavra "prostituta" por "minha beleza".

novembro 14, 2007

Terrorismo e religião


Coloco, a seguir, um trecho do livro As religiões assassinas, de Eli Barnavi, infelizmente ainda não traduzido no Brasil. Poucas vezes encontrei tanto equilíbrio ao tratar de um tema que costuma despertar paixões radicais. Ler não só o trecho abaixo, mas o longo excerto disponível na web, nos faz entender por que os valores da civilização fundada na Velha Europa, da qual somos herdeiros, são, no mínimo, imprescindíveis:

Cuanto más envejezco, más me convenzo de que la verdadera infraestructura de las sociedades es mental – ése es el caso del Islam, o más bien de la versión cerrada, exclusivista y autocentrada del Islam que acabó por imponerse en la Edad Media. La lectura de los informes anuales del Programa de las Naciones Unidas para el Desarrollo (PNUD), redactados por intelectuales árabes, es literalmente asombrosa. Por ejemplo, nos enteramos de que, en diez siglos, el mundo árabe-musulmán ¡ha traducido menos obras extranjeras que la España de hoy en en un solo año! Censura política y religiosa, falta de curiosidad, desprecio por lo que se hace en otras partes, todo se combina para transformar a una civilización antaño brillante y dominante en un vasto gueto libremente elegido y desgajado del resto del mundo. En torno al año 1000, el árabe era la lengua científica por excelencia, hasta el punto de que el filósofo y sabio judío Maimónides decía estar persuadido de que únicamente se podía razonar en esa lengua. Hoy, prácticamente ya no se pueden enseñar las ciencias en árabe y los diplomas de las universidades del mundo musulmán no valen ni el papel en el que están impresos. Esto es lo que dice de las universidades de su país Pervez Hoodbhoy, profesor de física nuclear en la universidad Quaid-e-Azam de Islamabad, en el Global Agenda 2006, el boletín del último Foro de la economía mundial de Davos: “Las universidades públicas de Pakistán y, con alguna excepción las privadas, son ruinas intelectuales y sus diplomas carecen prácticamente de valor. Según el Consejo pakistaní para la Ciencia y la Tecnología, los pakistaníes únicamente han logrado registrar ocho patentes internacionales en cincuenta y siete años”. Claro está, Pakistán sólo es un ejemplo entre otros, y no forzosamente el peor: “Es casi imposible”, prosigue el sabio pakistaní, “encontrar un nombre musulmán en las revistas científicas. La contribución de los musulmanes a la ciencia pura y aplicada, medida en términos de descubrimientos, de publicaciones y de patentes, es insignificante. La cruda realidad es que hace siglos que la ciencia y el Islam van cada uno por su lado. En resumen, la experiencia científica musulmana consiste en una edad de oro desde el siglo IX hasta el siglo XIV, a la que sigue un largo eclipse; en un modesto renacimiento en el siglo XIX; por último, en los últimos decenios del siglo XX, en un foso aparentemente infranqueable entre Islam de un lado, ciencia y modernidad del otro. Este foso, así lo parece, no deja de acrecentarse”.

novembro 10, 2007


Um final farsesco


Acabo de ler As Benevolentes, de Jonathan Littell. Decepcionante, para dizer o mínimo. O autor consegue destruir, nas páginas finais, um belo romance. Da página 882 em diante, até a última linha, na página 896, o castelo que ganhou o Goncourt de 2006 desmorona. A weltanschauung do jurista e oficial da SS Maximilian Aube, sua formidável personalidade, dividida entre o cinismo, a culpa, a neurose, a obediência cega, a paixão pela irmã e uma rara capacidade de auto-análise, tudo vem abaixo, num formidável e inesquecível gesto de desrespeito pelo leitor, que se vê transportado, subitamente, a uma verdadeira farsa. Assim, as quase 900 páginas tornam-se uma ardilosa mentira, um embuste. E a obra que poderia ser, como apregoaram os exaltados de sempre, um novo Guerra e paz, transforma-se numa estupidez pueril, numa pilhéria. Se há, como propôs Wayne Booth, uma "ética da ficção", ela deveria ser esfregada nas fuças de Littell. Aliás, agora percebo que 99% do que li sobre o livro na imprensa brasileira e internacional foi escrito por pessoas que não leram a obra até o fim. Ou seja, o autor é só o primeiro agente desse engodo editorial.

novembro 08, 2007


Sêneca


Argumentum pessimi turba est.

outubro 30, 2007


A cópia monótona da realidade


A convite do poeta Régis Bonvicino, escrevi para a revista Sibila uma crítica sobre o romance O Paraíso é bem bacana, de André Sant'Anna.

outubro 24, 2007


Saldo positivo


A semana, até o presente momento, oferece um saldo positivo. Por uma dessas casualidades com que a vida nos gratifica, minha mulher ganhou duas entradas para o recital do baixo Robert Holl (foto), na Sala São Paulo, nesta última segunda-feira. Fomos, é claro. E que maravilhosa voz! Apesar das canções de Schumann (sobre poemas de Heinrich Heine) e de Tchaikovsky serem belíssimas, Holl alcançou uma expressividade incrível cantando Rachmaninov, especialmente os dois últimos lieder, "Cristo ressurgiu" (versos de Merejkovsky) e "Oh, tu, meu campo semeado" (versos de Aliéksei Tólstoi). A força e o calor da voz de Holl ainda repercutem nos meus ouvidos.

Não foi menos agradável ler a crônica de João Pereira Coutinho, hoje, na Folha de S. Paulo (apenas para assinantes, infelizmente). O escritor português tem o dom de conceder vida à Ilustrada. É, sem qualquer dúvida, o melhor cronista da atualidade. O texto desta quarta-feira catapulta o eu do leitor, lança-o longe de qualquer visão derrotista. Não há melhor forma de se iniciar o dia, ainda mais quando ele está chuvoso e frio - e temos uma quantidade imensa de trabalho sobre a escrivaninha.

outubro 22, 2007


Uma história de amor - uma dilacerante antítese


Escrevo sobre a novela A fera na selva, de Henry James, na edição deste mês do jornal Rascunho. Para ler a resenha, basta clicar aqui.

outubro 11, 2007

A sabedoria de Doris Lessing




outubro 05, 2007

Um último obrigado


Na padaria, ontem cedo, soube que Toninho foi despedido. O homem que me atendeu no café-da-manhã durante os últimos cinco anos acaba de se perder na imensidão de São Paulo. Nunca mais o verei, certamente. E parece-me estranho que esse homem, sempre tão gentil, sempre atencioso, desapareça sem ao menos um último aperto de mão.

Logo cedo, no balcão do café, era Toninho quem se desdobrava, e seu nome podia ser escutado a todo o momento, em meio ao barulho das xícaras, às ordens gritadas para o chapeiro e ao atropelo dos que chegavam ali para a primeira refeição do dia, antes de pegarem o metrô.

Naqueles minutos tensos, quando a turba se amontoava em volta do balcão, fazendo seus pedidos ao mesmo tempo, dando aos tons de voz uma urgência às vezes mentirosa, ele era o único que nunca perdia a paciência. E o que me encantava na sua maneira de atender é que Toninho jamais foi servil. Havia uma leve tensão em seus gestos; possuído de uma agilidade e de uma concentração inigualáveis, ele comandava aquele espaço. Era educado sem ser submisso – qualidade rara em um empregado cuja principal tarefa é atender bem ao cliente, deixá-lo satisfeito, com a sensação de que, entre todos os que circundam a máquina de café e a vitrine de salgados, ele é o mais importante.

Observar o comportamento desse homem significava entender de que maneira alguém pode, apesar da função subalterna, manter sua dignidade, conceder aos seus menores atos certa dose de arte – com que perfeição ele lavava os copos e as xícaras; sua destreza ao preencher as comandas; e sempre, antes de me cumprimentar, tomava o cuidado de enxugar as mãos –, e assim manter-se acima da massa banal. Ser um subalterno, mas transformar seu trabalho em um refinado sistema de gestos, palavras, olhares e certezas.

Temo que ele tenha sido despedido por causa da idade, pois já passava dos quarenta. Mas se foi essa a razão, o que posso dizer, senão lastimar que, vagando por São Paulo ou remoendo suas decepções em alguma humilde casa da periferia, ele esteja impedido de ler este texto e, principalmente, de saber que suas diferentes gentilezas permanecem guardadas em minha memória – e que faço dessas lembranças uma forma de lhe dizer meu último muito obrigado.

setembro 21, 2007


A descoberta


O céu da manhã está encoberto. A primeira percepção é de que não há sol. Vejo-me, ainda criança, no quintal da casa de minha bisavó, à procura de algo. Ela, no seu imutável vestido negro, altiva, orgulhosa, pronta a educar-me nas mínimas oportunidades, me observa, de pé no alto da escada que leva à cozinha. A cena tem tantos detalhes – o tanque em desuso à direita; o canteiro circular no centro, com as roseiras; o corredor lateral que leva à entrada –, tantas recordações miúdas, observadas enquanto vejo a criança brincar, que imediatamente penso se não seria esse o melhor início para um livro de memórias. Há um único gesto surpreendente, no final: arranco, de sob a soleira da porta do porão, um ramo seco, semelhante a uma forquilha. Experimento um júbilo incontrolável, pois se trata de um tesouro, sem dúvida, cujos poderes não posso conceber. Ergo os galhos retos, compridos, pálidos e pontiagudos, balanço a descoberta no ar, pleno de satisfação – e minha bisavó sorri, não de qualquer jeito, mas tenho certeza que ela pensa: "Finalmente, ele encontrou. Agora tudo está bem". De sonhos assim, nos quais me sinto recompensado pelas matriarcas que me educaram, eu jamais deveria acordar.

setembro 19, 2007

Adriana Lisboa e Santiago Roncagliolo


Na edição deste mês do jornal Rascunho, publico duas críticas: analiso a delicada noveleta de Adriana Lisboa, Rakushisha, e o thriller Abril vermelho, de Santiago Roncagliolo; ambos boas surpresas.

Mas há outras ótimas resenhas no especial dedicado à literatura latino-americana, entre elas, "Do amor e outros demônios", de Gregório Dantas, sobre o romance O passado, de Alan Pauls, e "Ponto de harmonia", de Jonas Lopes, sobre A cidade e os cachorros e Pantaleão e as visitadoras, de Mario Vargas Llosa.

setembro 06, 2007

Luciano Pavarotti


Rendeu-se ao show business, é verdade, e transformou sua arte, muitas vezes, num arremedo de canto lírico. Mas deu o melhor de si a centenas de platéias, emocionou multidões e tornou a vida um pouco mais suportável. Sua voz tinha rara abrangência de tons, o que lhe permitiu manter um diversificadíssimo repertório. No futuro, a aura de canastrão que o mercado lhe pespegou desaparecerá - e ele terá um lugar entre os grandes.







setembro 05, 2007

Anna Bessonova


Não se trata apenas de técnica, músculos ou preparo físico. Aqui, falamos de harmonia, graciosidade, leveza, ritmo, equilíbrio, porte, elegância. Ou seja, falamos de cultura, civilização. Talvez, um dia, cheguemos perto disso. Talvez, um dia, deixemos de ser um arraial de tropeiros, um clube de escroques. Um dia, com certeza ainda muito distante.







agosto 31, 2007

Passagem


Encontro meu filho no colégio. Há várias filas de alunos no amplo salão, e estou sentado, junto com outros pais, num local onde ele não pode me ver. De longe, percebo o quanto cresceu – está quase um adulto. Dá evidentes sinais de desconforto, contudo, olhando para os lados, o que interpreto como um pedido de ajuda. Ao mesmo tempo, os alto-falantes liberam uma estranha música, angustiante, pois sua letra se refere a alunos que serão expulsos da escola. Alguns deles, perfilados, passam a receber uma camiseta verde. Devem vesti-la sobre o uniforme e dirigirem-se a uma parte fechada do salão. À medida que presencio tudo, uma certeza cresce em mim: meu filho será expulso da escola – e assistirei a um vergonhoso auto-de-fé, cujo objetivo é humilhar os punidos. Desesperado, sem saber a quem recorrer, levanto e sigo para as filas, enquanto os alto-falantes silenciam e os jovens debandam. Meu filho vem na minha direção, acenando com a camiseta, que é apenas parte do uniforme do time de futebol, para o qual ele foi convocado. Abraço-o, conto-lhe minha confusão e ele ri. Sinto um profundo alívio. Mas no instante seguinte, dois mulatos se aproximam, tratando-o com estranha intimidade e usando o jargão que, imagino, é comum a certas igrejas evangélicas. Pergunto seus nomes. Eles mal se apresentam, embaralham uma desculpa e, nitidamente, inventam o nome do Seminário onde afirmam estudar. Observo, nos olhos injetados, a hipocrisia e a mentira que nadam com todo o vigor. Logo depois se despedem, mas tenho certeza de que já catequizaram meu filho. Quero alertá-lo sobre o comportamento dos dois, mas não há tempo: ele troca de roupa ali mesmo, pois o jogo vai começar. Olho para o seu corpo nu e me surpreendo. Havia me esquecido de que ele crescera, e esperava encontrar um pênis infantil. Mas vejo o membro adulto e fico alegremente surpreso, pois essa visão me dá a certeza de que ele pensa por si mesmo e não será influenciado pelos falsos catequistas. Ele parte, então, feliz, unindo-se aos amigos.

agosto 25, 2007


Sibila


O número 12 da Revista Sibila já está disponível na web e pode ser lido, integralmente, em pdf. Dentre os vários assuntos, há um equilibrado dossiê sobre Cuba, no qual ganham voz poetas exilados e artistas (um poeta e um pintor) que ainda vivem na ilha. O interessantíssimo perfil de Raúl Castro, escrito por Idalia Morejón Arnaiz, e uma entrevista com o professor Demétrio Magnoli fecham o dossiê. Leiam um trecho do bate-pronto com Magnoli:

Sibila: O senhor acha que os intelectuais e artistas que saíram de
Cuba transformaram a oposição a Castro num lucrativo produto de
exportação e são também cúmplices das mazelas do país?

DM: Não. Acho muito fácil fazer essa acusação a pessoas que saíram
do país quando a alternativa era ficar sem poder falar. Quem ficou foi
para a cadeia, porque Cuba é um país que proíbe o pensamento. Cuba
proíbe máquina de fax, recolhe computadores, proíbe conexões com
a internet. É uma coisa de outro mundo, por isso acho bem razoável
que eles tenham resolvido falar e escrever fora de Cuba. Saíram para
poder continuar se expressando.

Mas sugiro que a visita a Sibila – não só à última edição – seja feita com calma, pois há uma diversidade extraordinária de temas. Ainda no nº 12, por exemplo, cinco poemas de Drummond lidos por ele mesmo.

Quem percorrer as seções de Sibila não pode deixar também de conhecer o trabalho de Régis Bonvicino (foto) e Alcir Pécora, que dividem a direção da revista com o poeta e crítico Charles Bernstein. De Alcir Pécora, recomendo o ensaio deliciosamente irônico "Momento crítico: meu meio século", uma lúcida visão sobre a crítica e a literatura brasileiras contemporâneas. De Bonvicino, o vasto material em seu site chega a desorientar, positivamente, o leitor. Mas apreciei ler, entre os textos voltados à crítica, "A função da poesia" e "Borges: o poético e a poesia".

Para fechar este post e o sábado, um belo poema de Régis Bonvicino:

SÉTIMO POEMA

Silêncio é forma
contar é ato
livre, imprevisto
traço de luz

ele se aquieta
contraste & vulto
que rompe súbito
em outra véspera

voz das camândulas
no livre curso
lis de petúnias,
fisionomia,

muda, da sombra,
& os avelórios
cortando os dedos,
a cada conta

para Claude

agosto 24, 2007

Quando não há retorno


Um homem caminha perdido entre as ruelas de uma cidade do Bahrein. Foi o ponto máximo ao qual ele conseguiu chegar em termos de estranheza. Ele veste uma longa túnica branca e caminha impassível entre a multidão que vocifera. Mais alto que a maioria das pessoas, ele vê as cabecinhas agitando-se por milhares de coisas banais. Não está somente acima delas, mas além: os passos lentos, o olhar que cruza o oceano de inútil azáfama, os braços e seus movimentos quase imperceptíveis. Então se lembra de Kit, a heroína de O céu que nos protege, que há muitos anos ensinou-lhe a terrível lição: "De um certo ponto em diante não há retorno; este é o ponto a ser alcançado". Em sua irremediável solidão, sabe que lhe restaram os livros e sua consciência, sua lucidez, e recorda-se do dedo de seu pai, o indicador, com o qual ele batia contra a própria testa, repetindo: – O que você tem aqui dentro, ninguém pode arrancar. E essa imagem o faz lembrar da citação tantas vezes relida, que resume a verdade capaz de lhe conceder equilíbrio: "Sempre que tiver alguma coisa no espírito, seja uma reflexão torturante, a dor pela morte de um amigo, o amor não correspondido, o orgulho ferido, o ressentimento pela falsidade de alguém que lhe devia ser grato, enfim, qualquer emoção ou qualquer idéia obcecante, basta-lhe reduzi-la a preto-e-branco, usando-a como assunto de uma história ou enfeite de um ensaio, para esquecê-la de todo. Ele é o único homem livre". O homem segue seu caminho. Não está mais no Bahrein. Pode estar em qualquer ponto da Terra. Está vivo – ainda caminha acima e além da maioria. E sabe que precisa escrever.

agosto 21, 2007


A Viagem Invernal


Há livros, músicas e filmes aos quais sempre retornamos. Nós os revisitamos, de tempos em tempos, buscando algo que nos marcou, uma verdade antes apenas intuída e que, graças àquele livro ou àquela canção, tornou-se consciente e pôde ser até mesmo verbalizada. No meu caso, semanalmente volto a escutar o conjunto de canções Die Winterreise - A Viagem Invernal, composto de 24 poemas de Wilhelm Müller, musicados por Franz Schubert. A gravação que tenho, na voz do barítono Dietrich Fischer-Dieskau, um dos artistas mais completos do século XX, me coloca em estado de predisposição à vida. Ainda que os poemas estejam impregnados de melancolia, o sentimento de contínua partida, de permanente despedida, faz com que eu recupere a consciência de estar sempre a caminho, de que as certezas, se existem, são raríssimas – e de que não há outra forma de viver com lucidez.

Dentre os lieder, "Im Dorfe" é o que mais aprecio. Cães ladram enquanto todos dormem. Agitados, eles chacoalham suas correntes sob a noite fria. Mas o viajante se nega a dormir, pois recusa a falsa esperança que os sonhos muitas vezes alimentam. Ele não aceita mais quaisquer mentiras – e exatamente por esse motivo caminha em meio à escuridão. Colocou um ponto final em todos os sonhos; não quer meias verdades ou a felicidade acalentada nas horas de inconsciência. E enquanto segue seu caminho, cujo fim desconhece, grita para que os cães ladrem sempre, cada vez mais alto, pois não aceita dormir o sono que o tornará apenas mais infeliz. Com razão, ele se considera o único homem desperto, não só em meio à noite.

A seguir, uma tradução livre do poema, feita por uma grande amiga. Mas outras traduções, em diferentes línguas, podem ser encontradas no site dedicado exclusivamente a Die Winterreise.

No povoado

Cães latem, suas correntes chacoalham,
pessoas dormem em suas camas.
Elas sonham com o muito que não têm,
encontrando algum refrigério em coisas boas e más;

E amanhã de manhã tudo terá desaparecido.
Mas até lá elas terão aproveitado o que lhes toca,
e acalentado a esperança de que o que permaneceu
ainda será encontrado sobre seus travesseiros.

Acordem-me com seus latidos, cães vigilantes!
Não me deixem encontrar repouso nessas horas de torpor.
Eu dei um fim em todos os sonhos;
por que eu deveria permanecer entre pessoas que dormem?

agosto 20, 2007

Corporações de ofício


A praia, na forma de uma enseada, cheia de pessoas. Elas parecem caminhar a esmo, cabisbaixas. Parecem estar perdidas. Não se interessam pelo mar, sequer experimentam a temperatura da água. As ondas seguem seu ritmo e as pessoas vão e voltam, desorientadas. É o fim da tarde, prestes a anoitecer. Algo me diz que há um movimento grevista sendo preparado. Logo a seguir, em outro ambiente, talvez minha casa, talvez não, um homem – e sua indefectível mecha grisalha no cabelo – anuncia na tevê que "o governo decidiu extinguir as corporações de ofício". O programa jornalístico prossegue e agora tenho certeza: estou na sala do sobrado em que passei a infância, com os mesmos móveis, a mesma televisão, a cortina atrás da qual nos escondíamos. Mas experimento uma funda estranheza, pois a expressão "corporações de ofício" parece-me completamente fora de lugar. Surge diante de mim a imagem impossível de um Marco Polo grevista, de um Lorenzo de Médici presidente da Fiesp e os pensamentos se embaralham. Súbito, percebo que tudo está errado – a praia, a notícia e o fato de eu estar ali –, tudo está fora de lugar. O estranhamento se torna pungente – e acordo.

agosto 17, 2007

A decadência da escola


Sempre me surpreendo com o fato de que a escola brasileira – não só a pública – ensine cada vez menos. Quando meus pais estavam em idade escolar, na década de 1940, nenhuma criança terminava o antigo Ginásio sem ter estudado, durante quatro anos, latim, francês e inglês, além das matérias que até hoje são aprendidas. Depois, no que se chamava Colegial, aqueles que escolhiam a área de humanas, o antigo Clássico, acrescentariam o grego às línguas – e, em alguns estabelecimentos de ensino, também o espanhol. E ninguém seguiria para a universidade sem dominar os fundamentos da filosofia (método lógico de raciocínio, visão abrangente das escolas filosóficas, estudo dos textos básicos dos grandes mestres) e sem conhecer literatura clássica (os latinos eram lidos no original). Os livros didáticos daquela época ainda podem ser encontrados nos sebos e comprovam o que afirmo.

Esse período de ouro é passado, infelizmente – um passado, aliás, que já ouvi muitos pretensos educadores tratarem com desprezo. Mas aquela escola preparou uma geração cujos frutos ainda repercutem, apesar de cada vez mais diluídos.

Em minha casa, por exemplo, além da biblioteca paterna, pela qual tínhamos profundo respeito, recebíamos aulas informais de argumentação oral. Aos domingos, meu pai me incentivava a ler os artigos de fundo e os editoriais de O Estado de S. Paulo. Em seguida, escolhendo os pontos mais polêmicos, provocava o debate, muitas vezes radicalizando de maneira proposital o seu raciocínio, com o objetivo de forçar minha refutação. Quantas vezes fiquei encurralado, sem respostas. E em raras ocasiões, ao pressentir sua derrota, ele começava a rir, pois eu conseguira fisgá-lo. Lembro-me de, ao final daquelas tardes, imaginar-me entre os peripatéticos. Quando nossas discussões terminavam, um sentimento de orgulho me reconfortava, pois sabia que algo novo e melhor fora acrescentado à minha inteligência.

Se aquelas tardes foram possíveis, se meu pai conseguiu abrir minha consciência e meu discernimento daquela forma, foi porque recebeu uma formação escolar sólida, na qual os alunos jamais eram nivelados por baixo.

Revendo meus anos escolares, percebo que a decadência do ensino estava em marcha. Dentre as línguas, estudávamos apenas inglês, e não me recordo de, na aula semanal de filosofia, ter avançado além de uma rápida história das escolas filosóficas. A própria formação dos professores era desigual. Quando o Estado encerrou, de maneira arbitrária, o 2º Grau no Colégio Romeiro Pereira – em minha cidade natal, Jundiaí-SP – e fomos forçados a migrar para outras escolas, me surpreendi com a mediocridade de alguns dos professores que encontrei no Ana Pinto Duarte Paes. Um professor de história, por exemplo, nos obrigava a decorar as apostilinhas superficiais que ele elaborava e depois distribuía em classe, tremendo e espargindo perdigotos, profundamente emocionado ao nos ensinar que os gregos inventaram o bambolê. E havia também uma professora de inglês que passava as aulas folheando o Diário Oficial e fazendo comentários sarcásticos sobre os nomes estrambóticos que encontrava, esquecendo-se de que ela mesma atendia pelo nome de Dausinéia. Suportei apenas um ano aquela palhaçada. Transferido para o Instituto Experimental de Educação, reencontrei o prazer de estudar ao conhecer pelo menos três grandes mestres: Cecy Martinho (história), Paulo Bevilácqua e Paulo Vieira (ambos de língua portuguesa).

A derrocada da escola alcançaria seu ápice, no entanto, com a "progressão continuada". Por meio dela, com a desculpa de se promover oportunidades iguais em uma sociedade injusta, premia-se a negligência e a inércia. Milhares de alunos chegam à universidade sem estarem alfabetizados, impedidos de exercer qualquer juízo crítico que vá além de decidir entre as marcas de papel higiênico num supermercado. E sem conhecer nem mesmo a borda do que a humanidade acumulou em sua história.

Ao passar a falsa idéia de que somos todos iguais, a escola equipara o aluno dedicado, e que deseja se superar, àquele que sempre será, no máximo, mediano. Infelizmente, esqueceu-se, neste país, uma verdade simples: não se adquire conhecimento sem esforço, sem auto-superação. Assim, ensina-se menos e exige-se menos – e ao final, conseguimos uma horda de analfabetos. Um recurso perfeito para melhorar as estatísticas apresentadas à ONU e ao Banco Mundial, mas que substitui a meritocracia pelo deserto da ignorância.

agosto 15, 2007

Esquecimento


Não recordar-se dos próprios sonhos é errar o caminho que nos traz do mundo onírico à vigília. Ao caminhante noturno foi recomendado que não parasse em lugar algum, não obedecesse a qualquer dos seus sentidos, muito menos a sua curiosidade, mas ele falhou, certamente. Não se trata apenas de ter perdido a informação que, refazendo-se o percurso, poderá ser reencontrada, mas de experimentar a perda sem solução, pois nenhum guia noturno o levará a repisar suas próprias pegadas, de maneira a experimentar novamente o que viveu e sentiu ao passar por aquele trecho. Não lembrar de seus sonhos – tendo certeza que sonhou – talvez seja uma espécie de autocensura, talvez uma recriminação inconsciente, e por isso mesmo inaceitável. O coma, ou melhor, o tempo vivido em uma UTI, durante o qual vagamos entre o longínquo barulho dos aparelhos e a visão entrecortada daquele mundo sem dias ou noites, assemelha-se ao esquecimento do sonhado. Ainda levará uma hora para amanhecer. Como o herói que detém apenas um quarto do mapa do tesouro, que ele estuda repetidas vezes, sem conseguir identificar o Norte ou o Leste, assim inicio o dia, certo de ter perdido o essencial, esvaziado do patrimônio que jamais recuperarei.

agosto 09, 2007


A questão do romance policial


Há um interessante diálogo correndo pela web, dedicado ao romance policial. Começou com o Leandro Oliveira apontando os aspectos que ele considera "fracos no gênero". Depois, Marco Polli, sem refutar os argumentos do Leandro, descreveu quatro pontos que, segundo ele, são características fortes desse tipo de narrativa. A seguir, Olívia Maia lembrou Todorov e Alexandre Soares Silva ofereceu uma ótima citação de G. K. Chesterton.

Decidi entrar na conversa por um simples motivo: o romance policial já me concedeu horas gratificantes de leitura. Raymond Chandler, Dashiell Hammett, P. D. James e, principalmente, George Simenon tornaram meus dias mais suportáveis, fizeram-me ver facetas inesperadas do real e do ser humano, e me ofereceram a oportunidade de estudar como um autor pode resolver os problemas que coloca para si mesmo – ao optar por determinado enredo, ao constituir uma personagem com estas ou aquelas características, etc. –, sem abdicar da preocupação de tecer sua própria voz, seu estilo, cuidando da linguagem e da trama, enfim, erguendo um pequeno universo que se sustenta por si mesmo.

No texto que dá início ao bate-papo, o Leandro aponta três problemas: 1. "São constituídos a partir de um único pilar"; 2. "a tendência de um mesmo personagem aparecer numa série de livros"; e 3. "a grande maioria dos livros policiais possuem um único foco".

Em minha opinião, inicialmente, fazem-se necessárias duas ponderações. Primeiro, acredito que os três problemas nem sempre são problemas. O fato de adquirirem a forma de um tropeço ou de uma qualidade depende do autor e das escolhas que ele faz. E, segundo, podem ser encontrados em qualquer tipo de romance. Ou seja, nenhum dos três pontos está necessariamente circunscrito ao romance policial.

Vejamos o primeiro. Há dezenas de autores que produzem suas histórias partindo de um único centro. E nem sempre falham. Aliás, inúmeros romances restringem sua trama a um único motivo condutor, e nem por isso são menores ou de má qualidade. Não oferecer subtramas nem sempre é um sinal de fraqueza. Muitos dos romances atuais, escritos em primeira pessoa, abarcam um universo restrito, e o drama se desenrola, algumas vezes, na consciência do narrador, em suas lembranças ou no que ele imagina, envolvendo um número pequeno de personagens e obrigando-os a se relacionarem principal ou exclusivamente com o narrador.

Quanto ao segundo ponto, há autores que nunca escreveram uma só linha do gênero policial, mas, ainda que não repitam os personagens, repetem os mesmíssimos narradores. Você salta de um livro a outro e o narrador está lá, com outro nome, com problemas diferentes, mas falando do mesmo jeito, utilizando as mesmas pausas, preferindo os mesmos verbos e enfocando os dramas com a mesma psicologia. Nesse caso, realmente é um defeito. Mas no que se refere aos romances policiais, a honestidade do autor em relação a seus leitores é exemplar. Quando você pega nas mãos um Simenon, sabe que as chances de se deparar com o comissário Maigret são imensas. E o autor não tenta esconder isso de você. Ao contrário, a cada livro nos mostra como Maigret é um homem de personalidade complexa, múltipla, que se repete em determinados aspectos – aliás, como todo ser humano se repete –, mas sem escamotear suas dúvidas e angústias.

Finalmente, no que se refere ao fato de os romances policiais se fixarem "em um único foco", ou seja, segundo o Leandro, se concentrarem ou no criminoso ou no detetive, essa observação também é relativa. Bons escritores podem optar por esse "único foco" e nos oferecer o mundo. E outros, alguns até mesmo geniais, não nos oferecem um foco específico, mas realizam o extremo oposto: uma narrativa que se espalha nas mais surpreendentes direções, algumas vezes sem nada concluir – uma opção que, em mãos inábeis, pode gerar um fracasso colossal.

Enfim, creio que os supostos defeitos listados pelo Leandro tornam-se qualidades nas mãos de um bom escritor, produza ele romance policial ou não. Ou podem ser defeitos, sim, mas isso independe do gênero. Talvez, se o Leandro optasse por nos mostrar exemplos, certamente concluiria que onde um autor errou, outro, ao optar pela mesma técnica narrativa, acertou em cheio.

NOTA (às 22h50 de sexta-feira, 10 de agosto) - O Babelia desta semana trata do romance policial: La novela policiaca vive un auge indiscutible. Prueba de ello son los aires de renovación que se perciben en España, el esplendor de la nueva narrativa negra francesa o la aparición de nuevos autores suecos, en la línea marcada por Maj Söjwal y Per Wahlöö o Henning Mankell. Lo negro experimenta, además, una afortunada contaminación de otros géneros con resultados muy potentes.

agosto 08, 2007


O revolucionário


Preparando-se para sair, ele reclamou do frio, enquanto vestia o casaco disforme, lembrança de sua estada na Rússia, quando o partido o obrigara a permanecer vários meses em uma cidadezinha do interior, até que o impacto do golpe militar fosse devidamente analisado e "as coisas ficassem mais claras no Brasil".

Só a tela da tevê iluminava a sala. Ele soltou um grunhido de despedida à mulher, concentrada em acompanhar o capítulo da novela, e, ainda palitando os dentes, saiu para a rua.

O encontro daquela noite não seria no partido, mas em um prédio sórdido, ao lado da rodoviária, onde o aguardavam cinco companheiros. A pauta, fácil de ser resolvida: decidiriam uma maneira eficaz de compor duas ou três alianças no diretório, de forma a desmantelar o grupo independente.

A perna esquerda doía, mas ele tinha o hábito de fazer seu esqueleto obedecê-lo – afinal, tudo era uma questão de disciplina. Com o palito, retirava os restos de comida que ficaram entre os dentes, engolindo-os depois de mastigar um pouquinho.

A reunião não o preocupava. As táticas para conter os insatisfeitos, silenciar os mais audaciosos e seduzir os que sempre estão prontos a passar para o lado mais forte compunham os melhores capítulos do manual que ele e toda a velha guarda decoraram.

Escarafunchar os dentes do fundo obrigava-o a abrir a boca de maneira estranha. Mas quando largava o palito entre os lábios, tornava-se impossível saber se ele ria com malícia ou se aquelas expressões eram somente reflexos dos movimentos de sua língua, tentando alcançar um teimoso fiapo de carne que se agarrava à obturação.

Depois de alguns quarteirões, as dores alcançaram os quadris, mas acima das agulhadas repousava, sereno, o treinamento de jamais faltar ao dever. Não falharia. Não agora, depois de viver décadas pulando de fábrica a fábrica, aliciando simpatizantes para a causa e promovendo distúrbios ou greves. Como em tantas outras vezes, assim que acendesse o pavio, sairia de cena, pronto para ser usado em uma nova missão.

É certo que, no passado, as glórias pelos distúrbios bem-sucedidos ficaram no altar dos dirigentes. Mas quando pôde, não desperdiçou a chance de derrotar aquelas lideranças, incluindo seu melhor amigo, pois "os fins justificam os meios", e traí-lo representava um mal insignificante, se comparado ao mundo que ele tinha certeza de estar construindo, onde os povos viveriam unidos sob a bandeira da igualdade, "comandados pela única classe capaz de promover a revolução", assim ditava o manual.

O muro do quartel acompanhava seus passos naquele trecho. De volta da Rússia, ficara preso ali cerca de quinze dias, o que consolidou sua fama. Mas ninguém saberá o quanto ele próprio contribuiu para que se espalhasse a notícia das torturas e das humilhações, pois, na verdade, jamais encostaram sequer um dedo em sua pele branca e flácida. Nem mesmo o interrogaram, tamanha a sua insignificância.

E ao ser libertado, encontrou a chance de substituir os que estavam presos ou mortos. Gradativamente, ascendeu na organização clandestina, protegido por um emprego medíocre no comércio, pelo ar falsamente circunspecto e pelo silêncio ardiloso que os tolos acreditavam ser um sinal de sabedoria.

Na década de 1980, quando o novo partido surgiu, a antiga escola foi relegada a segundo plano, e ele teve de galgar os mesmos degraus do passado, agora obedecendo à cartilha na qual algumas das melhores palavras de ordem foram substituídas por uma só, tristemente repetida: "democracia".

O pedacinho de carne enfim se soltou. Espremendo os olhos como um animal que acaba de sair da toca e ainda não se acostumou à luz, ele observa, parado sob o semáforo, as janelas do prédio encardido. O vermelho e o verde se alternam na calva repleta de manchas. O venerável estrategista sorri, joga fora o palito mastigado e atravessa a rua, a caminho de uma nova traição.

agosto 06, 2007


O irremediável


A criança azul está diante de mim, vestida como todos os bebês que estão prontos a deixar a maternidade. Seu rosto azul se contorce, ela resmunga, agitando o corpinho em movimentos desconexos. Olho-a demoradamente, estendida sobre um balcão de metal. Analiso o porquê do azul, se a criança respira e apresenta todos os reflexos. Ao mesmo tempo, por trás desses raciocínios técnicos, um pensamento me incomoda: a persistente comparação que faço, lembrando-me do Menino com cachimbo, de Picasso. Serei um médico? Algum tipo de enfermeiro? Ou mero curioso? Talvez, um intrometido. Os pais, de pé, aguardam do outro lado do balcão. Mas não esperam que eu libere a criança. Querem, antes, um diagnóstico. Argumento com eles, tento explicar as possíveis causas – das quais não me recordo agora –, e a cada justificativa, como se fossem médicos, eles rebatem minhas alegações. O que seria, aparentemente, uma consulta final, rotineira, torna-se uma discussão. O bebê chora, esperneia. No rosto azul, irrompe a boca aberta, vermelha, a lingüinha brilhante agitando-se como um peixe que acaba de saltar para fora do aquário. Não escuto os pais. Olho a criança e me preenche o sentimento do irremediável: terá de ser azul por toda a vida. Não há o que fazer. Sofro pelo bebê. E sinto-me derrotado. Então, acordo.

agosto 02, 2007


Diálogo com Rilke



Ao levantar os olhos do livro, das linhas próximas, e
ao deixar de vê-las
para contemplar a noite perfeita:
Oh! Os sentimentos pressionados se dispersam quais
estrelas,
como a fita de um maço
de flores desfeita.

Juventude suave, e severa, árdua indecisão,
ardores e arqueamentos delicados –
Por toda a parte o desejo de corresponder e em parte
alguma a ambição;
Terra suficiente, mundo demasiado.


[Tradução de
Marco Lucchesi, em Poemas à noite, Editora Topbooks.]


Há uma falsa idéia nesse poema de Rilke: a de que ele fala dos sentimentos e das sensações próprios da juventude. Talvez ele se refira apenas à juventude, mas prefiro pensar diferente. Primeiro, porque o "desejo de corresponder" e a "ambição" não me parecem antagônicos. E também por não acreditar que, quando somos jovens, a ambição inexiste. No entanto, é claro que o poeta trata de um outro tempo, e de uma cultura distante da nossa.

De qualquer maneira, o poema me agrada, pois, se ele expressa verdades típicas da juventude, então todos nós, leitores, permanecemos jovens. Não há leitor que, ao erguer os olhos do livro e contemplar a natureza, a vida ao seu redor, não sinta a tensão se diluir, seja porque descobriu dentro de si aquela certeza que reafirma o conteúdo da leitura, seja porque, desviando-se das idéias que o absorvem, ele acorda para o fato de que o pulsar da existência ultrapassa a sua angústia, subverte suas preocupações, tornando as dúvidas pequenas, quase sem importância.

Na verdade, o poema descreve essa atividade de contração e relaxamento que o ato de ler proporciona – toda ciência nasce de uma busca empreendida na intimidade, no silêncio, sendo, logo a seguir, referendada, negada ou redimensionada pelo real. Às vezes, ocorre o inverso. Mas sem o livro – seja ele o objeto onde espelhamos nossa experiência, seja ele o ponto a partir do qual repensamos o viver –, sem o livro, sem a possibilidade da comparação, da analogia, seríamos menores.

No que se refere estritamente à ficção, quantas gerações levaríamos para conhecer os vícios que Balzac nos mostra em um único romance? E quantas vezes, ao sermos apresentados a alguém, não ganha vida diante de nós um José Dias e seus superlativos? Ou até mesmo Conceição, ainda que sem as "chinelinhas da alcova"? E, pelo fato de conhecê-la, não se concretiza então a possibilidade de rompermos a lógica do conto e, astuciosamente, agirmos de maneira contrária à do imaturo Nogueira?

Poder compulsar a experiência humana, identificando-nos ou não com os personagens, as cenas e as idéias que os livros nos oferecem, permite que a vida continue sendo suficiente – e o mundo não nos esmague com seu excesso.