abril 26, 2007


O silêncio impossível


Depois de ler Zama, um dos romances que mais me impressionaram nos últimos anos, li, também do argentino Antonio Di Benedetto (foto), O silencieiro, sobre o qual escrevi na edição deste mês do jornal Rascunho.

Um trecho de minha resenha: "A cidade realmente conspira contra o homem. As derivações da tecnologia fugiram, há muito tempo, do nosso controle. Entre a elaboração da ciência e os resultados que ela provoca - em termos de técnicas, instrumentos, modos de vida e variações de comportamento -, existe um abismo de irracionalidade, diante do qual o narrador de O silencieiro se diz um mártir, 'mártir da pretensão de viver minha vida e não a vida alheia, a vida imposta'."

abril 14, 2007

Pernetas


A manhã prometia o de sempre: caminhar até o metrô, ser prensado pela massa de suor, descer na estação, enfrentar duas filas para transpor as escadas rolantes, andar três quarteirões, fechar-se no escritório e deixar que o tempo passasse entre uma assinatura e outra.

Do lado de fora do apartamento – banho tomado, barba feita, terno e gravata impecáveis, camisa branquíssima, sapatos engraxados e cabelo emplastrado de brilhantina –, a chave não obedecia. As ranhuras não encontravam resistência na entrada, mas a haste se negava a girar. Colocou a pasta no chão e tentou novamente. Nada. Abriu e fechou a porta, usou de suavidade, assoprou na fechadura – em vão. Entrou, foi até a escrivaninha e trouxe de lá uma chave sobressalente. Nem sinal de girar. Bateu a porta. Não era possível. Telefonaria para um chaveiro? Seria preciso faltar da repartição? Andou pra lá e pra cá, tomou um copo d’água, assobiou a Marselhesa e resolveu insistir. Primeiro, do lado de dentro: funcionava. Depois, do lado de fora, com cuidado, sem tremer. Girou como sempre, enfim. Fez um novo teste, pois não queria surpresas na volta: perfeito.

Pensava que o contratempo iria complicar tudo. Mas ao chegar à estação, encontrou alguns gatos pingados, nada mais. Olhando o relógio, viu que não estava tão atrasado. Na plataforma, uma dúzia de pessoas nem um pouco afobadas. O trem foi parando e as janelas mostravam os interiores quase vazios. As portas se abriram, ele entrou, e apenas cinco cabeças viraram em sua direção. Se vinte minutos de diferença podiam mudar as coisas assim, o ideal seria atrasar-se todos os dias... Foi quando um dos passageiros se levantou e, apoiando-se na muleta e nos bancos vazios, veio sentar na sua frente. O homem tinha apenas uma perna. No lugar da outra, o pano dobrado e preso com alfinetes. Era moreno, semblante de índio, cabelos lisos e negros mal divididos do lado esquerdo. Olhava-o, inquiridor. O trem corria, rompendo a escuridão, e o perneta com os olhos nele. Mudou de lugar. Então se deu conta: todos os cinco tinham apenas uma perna. Todos usavam muletas. Todos o observavam, olhos fixos nas suas duas pernas, ou melhor, naquela segunda perna errada, fora de lugar, fora de propósito. Sentiu o suor escorrer pela nuca e, lentamente, encharcar o colarinho. O trem corria, e ele não tinha certeza de quantas estações faltavam. Mas o condutor anunciou a próxima parada: a sua. Pôs-se de pé, tenso, e aguardou, aguardou infinitamente, enquanto o olhavam. Assim que as portas abriram, correu como um doido, cruzou as escadas rolantes em poucos segundos, até chegar à rua, onde respirou fundo, seguro.

Ninguém percebeu o atraso. Quando o expediente se aproximava do final, acordou para o fato de que a secretária não o procurara nem uma vez. Abriu a porta devagar e olhou pela fresta: a moça estava sentada na mesinha, os olhos perdidos na parede, cantarolando. Fechou e deu voltas pela sala, preocupado. O que acontecia? A chave, os pernetas, agora isto. Um novo decreto que ele desconhecia? Fora exonerado e o superior aguardava a hora propícia para avisá-lo?

Decidiu voltar de táxi. Os engarrafamentos de costume, o calor no carro sem ar-refrigerado. Entrou no prédio e pegou o elevador. Rezando, enfiou a chave. Quando foi girá-la, a porta se abriu de repente e, sob a luz do hall, deparou-se com uma velhinha. Olharam-se sem nada entender, e ele estava a um passo de agredi-la por invadir seu apartamento, quando viu o número na porta: 71. Um misto de confusão e serenidade o preencheu. Sorrindo, sem graça, pediu desculpas e usou as escadas para subir ao oitavo andar. Relaxado, pronto a concluir o dia, enfiou a chave na fechadura. Mas o tambor não girava. Insistiu, forçou a porta, tentou novamente: nada. Sentou-se no chão, junto à entrada, esperando o mesmo milagre da manhã. Então escutou um barulho. Colou o ouvido na porta. Um arrastar de pé e um baque seco. De novo. E mais uma vez. Alguém caminhava lá dentro. Alguém com uma muleta.

(Crônica publicada na edição de 6 de abril de 2007 do jornal Bom Dia Jundiaí.)

abril 02, 2007

Tempo rápido e tempo lento


Elenir Eller é uma educadora de Jundiaí que decidiu começar vida nova no interior de Pernambuco, nas proximidades de um lugar chamado São José. Pode ser São José do Egito, São José da Coroa Grande ou São José do Belmonte, todos municípios de Pernambuco, mas, com sinceridade, não faço a menor idéia de onde ela está. Mas não importa, ao menos para esta crônica.

Na semana passada, trocando mensagens via Internet com Elenir, ela me contou que “São José fica pertinho daqui – meia hora de carro. Mas no carro de frete... põe uma hora ou mais nisso. Depois que o motorista pega você em casa, você tem de estar disposto a fazer um ‘tour’ pela cidade para pegar mais passageiros. Conclusão: ficamos rodando quase meia hora, passando, às vezes, duas ou três vezes pela mesma rua, pois um passageiro indica outros que estão aguardando o carro em casa. [...] A paisagem na estrada é linda, mas tem de estar relax, porque o carro vai parar um monte de vezes para entrada de novos passageiros e descida de outros, que apeiam pelo caminho”.

Depois de ler, fiquei pensando em alguém que, acostumado à correria de São Paulo, se encontrasse subitamente num lugar como o que ela descreve, onde a vida segue em ritmo lento e o futuro – próximo ou distante – pode esperar. Todas as possíveis reações a tal mudança desfilavam diante de mim e nenhuma delas excluía algum tipo de choque.

Lembrei-me, então, do livro que li há vários anos, escrito pelo geógrafo Milton Santos – infelizmente falecido em 2001 –, intitulado “Técnica – Espaço – Tempo” (Editora Hucitec). Para quem não conhece o trabalho de Milton, talvez baste dizer que, dentre outras honrarias, em 1994 ele recebeu o Prêmio Vautrin Lud, o Nobel da geografia.

Em um dos textos que compõem o volume, Milton fala sobre “o tempo das metrópoles”. Ele tem uma visão peculiar das grandes cidades, que considera como “sistemas abertos e complexos, ricos de instabilidade e contingência”. E chega mesmo a ser otimista em relação aos aglomerados urbanos: “Quanto maior a cidade, mais numeroso e significativo o movimento, mais vasta e densa a co-presença e também maiores as lições e o aprendizado”. Milton expõe, no entanto, a dicotomia existente nesses espaços, dizendo que se existem “áreas luminosas, constituídas ao sabor da modernidade”, estas se “justapõem, superpõem e contrapõem ao resto da cidade, onde vivem os pobres”. Da mesma forma, se nas primeiras regiões o tempo é célere e a velocidade é glorificada, nas últimas, onde o espaço possui uma outra forma de racionalidade, o tempo é lento.

Mas a conclusão de Milton não me satisfaz. Para o geógrafo, quem, nos centros urbanos, tem mobilidade e pode comungar com as imagens e luzes pré-fabricadas, acaba por se perder, enquanto que os pobres, os homens lentos, “para quem essas imagens são miragens”, não podem se encantar por muito tempo com a falsa realidade e acabam, portanto, “descobrindo as fabulações”. Assim, o espaço “inorgânico”, no qual o tempo é lento, seria “um aliado da ação, a começar pela ação de pensar”.

Em minha opinião, as idéias de Milton, especificamente nos pontos acima, chegam a ser simplistas. É como se ele idealizasse a pobreza. Mas ser pobre, viver em regiões nas quais o tempo é lento – semelhantes àquela que Elenir descreve em sua mensagem –, jamais foi ou será garantia de uma conscientização maior em relação à realidade ou de um senso crítico aprimorado.

No caso de São Paulo, a verdade se insurge contra as esperançosas palavras de Milton, pois estamos narcotizados pelas miragens, entorpecidos pela velocidade. A maioria – sem diferença de classe, etnia, religião ou bairro – caminha à noite, na volta do trabalho, socada nos ônibus ou protegida dentro de carros blindados, ruminando o cansaço, o estresse e a frustração. Mantemos os olhos colados nos outdoors como se adorássemos totens luminosos – e chegamos a nos curvar, num triste alheamento, às imagens dos únicos deuses que restaram: o consumo e a futilidade.

(Crônica publicada na edição de 30 de março de 2007 do jornal Bom Dia Jundiaí.)

março 21, 2007


Juan Carlos Onetti


O horário de verão terminou, mas os relógios permanecem adiantados uma hora. Sempre que entra na cozinha, olha para o relógio sobre a porta que leva ao quintal e repete o mesmo esforço de cálculo, submete-se à enfadonha tarefa de subtrair uma hora à marcada pelos ponteiros. Mas não trará a escada que enferruja sob a mangueira. Na verdade, não consegue distinguir o que é mais cansativo: ter de realizar as subtrações quando deseja saber a hora ou a idéia de caminhar até o fundo do quintal, pegar a escada, trazê-la até a porta da cozinha, abri-la, subir três degraus, retirar o relógio da parede, acertar os ponteiros, recolocá-lo no lugar, descer, fechar a escada e levá-la a algum outro ponto, certamente mais próximo do que a mangueira.

O sol faz as pedras estalarem, os cachorros dormem sob as árvores, as varejeiras dançam acima dos montes de lixo, e ele, com a mão direita erguendo as fitas coloridas que compõem a cortina, pegajosas de gordura, examina a lavanderia – onde a negra, deitada sobre o piso de cimento, faz a sesta – e, um pouco adiante, o quintal. Observa tudo que lhe pertence, da mancha de umidade sob o tanque à velha rede amontoada a um canto, junto ao limoeiro ressequido, onde a cadela deu cria há três ou quatro semanas. Olha atentamente, certo de que, nos limites estabelecidos pelo muro, cada ínfimo detalhe é seu; mas certo também de que nada lhe diz respeito.

Deixa a cortina cair e, arrastando os chinelos, caminha em direção ao quarto, deita-se na cama desarrumada, acomoda-se nos travesseiros, afasta com os pés o lençol e a colcha de chenile, e acende um cigarro. O silêncio pesa mais que o calor. O silêncio sob o qual a rua, o bairro, a vida parece afundar, quizilenta – quebrado apenas pela respiração dele, com o paletó do pijama aberto, sem botões, deixando à mostra o peito cortado por uma cicatriz, e a calça manchada de urina, o cordão da cintura remendado com dois ou três nós. Ele fuma, não se importando com as cinzas que caem na barba por fazer e sobre os cabelos desgrenhados, compridos.

O telefone tocará quando o relógio da cozinha bater cinco horas. Saberá, então, que são quatro, e que ela continua a insistir, apesar de suas recusas, de todo o desprezo que lhe reserva. Enquanto o barulho estridente irromper pela casa, renascerá nele a certeza de que terá de aceitá-la novamente – e que tudo voltará ao princípio, como aconteceu outras vezes. Ouvirá sua própria voz, sonolenta, dizendo-lhe mentiras, que a ama, que tudo está perdoado e que foi um tolo mandando-a embora. E dias depois ela voltará, semelhante a esta tarde de verão, vazia, inútil, morta, apesar de rir, caminhar pela casa, desdobrar-se em colocar ordem nas coisas. Devagar, tudo recomeçará, a nauseante sensação de incômodo, os gestos de impaciência, as brigas, a negra escondendo-se pelos cantos da casa, as ameaças, até chegarem aos bofetões, ele abrindo a gaveta da cômoda e arrancando de sob as meias o revólver, agitando-o no ar, aos gritos, mas sem nunca tirá-lo do coldre, enquanto ela também berra, agarra os próprios cabelos e chora, repetindo apenas “inferno, inferno”, entre soluços. A seguir partirá, enxotada, carregando a mala de couro com os cantos gastos e a fechadura que resiste duas ou três vezes até ser aberta.

Os meses passarão, as estações sucedendo-se, intermináveis, aprofundando a monotonia do tempo viciado em aguardar a morte. E o telefone voltará a tocar, dias seguidos, semanas, sempre na mesma hora, até que uma tarde qualquer, por um motivo torpe, ou por amar seu ódio, ele atenderá, ouvirá as lamúrias, as estúpidas promessas, vendo diante de si, pairando entre ele e o espelho do mancebo, a boca voraz, emplastada de batom ciclâmen. Cansado de segurar o aparelho, dirá apenas “venha”, sem desejá-la, mas precisando sentir-se vivo, nem que seja para reviver todas as cenas conhecidas, nem que seja, como agora, deitado na cama, enquanto traga o cigarro, para sentir-se como um personagem de Juan Carlos Onetti.

(Crônica publicada na edição de 16 de março de 2007 do jornal Bom Dia Jundiaí.)

março 15, 2007



Bordado sem risco


Na edição deste mês do jornal Rascunho, escrevo sobre o livro mais recente de Autran Dourado (foto), O senhor das horas, publicado pela Editora Rocco.

fevereiro 17, 2007

Ecos da pequena burguesia


Analiso, no texto que escrevi para a edição deste mês do jornal Rascunho, a novela Meu marido (Editora Record), da escritora e psicanalista Livia Garcia-Roza.

fevereiro 09, 2007


O romancista em seu livro


Cristóbal Alliende, o autor do texto a seguir, nasceu em München, Alemanha, em 1972. Viveu a maior parte do tempo em Santiago, Chile, onde estudou literatura hispânica na Universidade do Chile. En 1992 publicou o livro de poemas Melodías en claustro, sob o pseudônimo de Samuel Solln. Até 2000, trabalhou como editor do suplemento "Artes y Letras" do jornal El Mercurio. Atualmente, prepara seu doutorado sobre o escritor uruguaio, traduzido no Brasil pela Editora Cosac Naify há poucos meses, Felisberto Hernández.

O texto - do qual recomendo vivamente a leitura - mescla acurado conhecimento em literatura, fina ironia e bom humor. Foi publicado originalmente na edição do último 4 de fevereiro no El Mercúrio.


El novelista en su libro



Existen escuelas de literatura que asumen como incuestionable la independencia de la obra literaria, su desconexión con su creador. Esas escuelas cuelgan de sus paredes imponentes retratos de Roland Barthes, Jacques Derrida, Hillis Miller o Michel Foucault, y siguen cantando la muerte del autor. Todavía piensan que la realidad está regida por el lenguaje y que el trabajo de los escritores fulano o zutano no fue más que el resultado de procesos sociales inevitables... Vidas y procesos que, repiten, no son más que palabras.

Otras escuelas, menos abundantes y más desacreditadas e igualmente equivocadas, piensan que el historicismo decimonónico está de vuelta. Según ellas, es evidente que los escritores, de manera más o menos oblicua, se imprimen en sus libros y que, por ello, es imprescindible conocer a los primeros para entender a los segundos.

Pues bien, febrero está aquí y vale la pena, en vez de recomendar lecturas veraniegas, sugerir una lista de puntos que pueden ayudar a querer lo leído y a su autor. Parte de este listado tiene su origen en la polémica originada a comienzos de los años noventa por Francis-Noël Thomas y su libro The Writer Writing (Princeton 1992) y Wayne C. Booth, quien escribió la intoducción al estudio.

Primero: Las obras literarias no se crean solas ni son resultado de un proceso social. Las grandes obras, en cuanto originales, sólo se deben a alguien. Otra cosa es que la gran mayoría de lo publicado sea una mierda y respon00da a fórmulas probadas, copiadas, social y económicamente aceptadas que serializan al autor.

Segundo: Las obras literarias no crean a su autor. A veces, sólo a veces, esas obras dicen más de lo que el escritor -desde Marcel Proust hasta Felisberto Hernández- hubiese querido o, incluso, sabido conscientemente. Así, hay que entender a la novela que tenemos al frente como un telescopio; es decir, como un instrumento que nos permite a los lectores ver lo que a simple vista no se puede.

Tercero: El lector puede disfrutar con toda tranquilidad de una obra cuyo autor le es absolutamente desconocido. Sin embargo, hay que tener en cuenta que la buena literatura suele tener varias lecturas y que más de alguna de ellas surge de las obsesiones, amores o secretos del autor.

Cuarto: Así como la ficción de, digamos, una novela policial debe estar fundada en eventos verosímiles según los estándares de la realidad vivida por el autor, la escritura sobre sí mismo (desde la autobiografía hasta el género epistolar) dice poco de la realidad. De hecho, incluso la biografía no es más que una variante de la ficción por cuanto selecciona de manera maniquea eventos que superan infinitamente lo impreso.

Quinto: Al igual que todos los mortales que intentan inmortalizarse, los escritores son mentirosos. Los más mentirosos suelen ser los más brillantes.

Sexto: Como apuntó hace poco Milan Kundera, las novelas, incluidas las obras maestras, no le pertenecen al papá, la mamá, el país o la humanidad. Les pertenecen a sus autores, y a nadie más que a ellos; y si quieren cambiar o destruir lo que parece perfecto, que los editores se jodan.

Séptimo: Nunca olvidar la reacción furibunda de Cervantes ante la aparición del Quijote de Avellaneda: "Don Quijote nació sólo para mí y yo para él. Él sabía de aventuras y yo de cómo escribirlas. Él y yo somos simplemente una sola entidad".

Octavo: La relación entre la obra literaria y el autor se ubica en lo posible, mas nunca en lo demostrable. Específicamente, se ubica en lo que en alemán se conoce como "das Unheimliche".

janeiro 18, 2007


A poesia está em tudo


Para Manuel Bandeira (foto), a poesia pode ser encontrada "em tudo - tanto nos amores como nos chinelos, tanto nas coisas lógicas como nas disparatadas". É sobre esse incrível poeta brasileiro, um de meus preferidos, e suas crônicas, republicadas pela Editora Cosac Naify, que escrevo na edição deste mês do jornal Rascunho.

dezembro 31, 2006


Hora de estrellas


El silencio redondo de la noche
sobre el pentagrama
del infinito.

Yo me salgo desnudo a la calle,
maduro de versos
perdidos.
Lo negro, acribillado
por el canto del grillo,
tiene ese fuego fatuo,
muerto,
del sonido.
Esa luz musical
que percibe
el espíritu.

Los esqueletos de mil mariposas
duermen en mi recinto.

Hay una juventud de brisas locas
sobre el río.

Federico García Lorca

dezembro 28, 2006


Amor aos livros


Vale a pena ler a matéria do El País dedicada à brasileira Beatriz de Moura (foto acima) e sua estupenda Tusquets Editores.

Aqui, apenas um dos melhores trechos: "Quería leerlo todo, de modo que leí de la manera más caótica que pueda imaginarse, ficción de preferencia. Podía pasar con una naturalidad pasmosa de un ensayo sesudo a una novelita de Corín Tellado. Y, cuando ya trabajaba en editoriales, descubrí deslumbrada, casi a la vez, la literatura norteamericana e hispanoamericana. Sin embargo, a partir del momento en que empecé a leer por obligación, o sea, desde que tuve que leer, primero como lectora para otras editoriales y luego como editora yo misma, la naturaleza misma del placer de la lectura cambió radicalmente. Ya no leí sólo para complacerme a mí o instruirme yo, sino también para complacer e instruir a un lector hipotético que, por encima de mi hombro, empezó a compartir conmigo la lectura del mismo libro. Al principio me costó hacerme a esa presencia fantasmal a mis espaldas, pero hace ya mucho tiempo que me he acostumbrado a ella; tanto, que a veces hasta decide por mí…"

dezembro 13, 2006

O anti-romance


Em meu texto deste mês para o jornal Rascunho, escrevo sobre O amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos, o romance brasileiro por excelência, símbolo perfeito deste país, "réplica nova de um reino velho", para usar a frase modelar de Raymundo Faoro.

dezembro 02, 2006


O caminho do leitor


Acaba de ser publicado na Espanha o romance Onde os velhos não têm vez, de Cormac McCarthy (foto), com o título de No es país para viejos. A editora é a mesma, a Alfaguara, que iniciou suas atividades aqui há poucos meses.

Terminei de ler, há poucos minutos, a resenha publicada hoje no El País, escrita pelo escritor espanhol José María Guelbenzu, e ela me fez pensar, primeiro, no duro caminho que um leitor empreende para construir seu próprio juízo crítico. E, logo depois, em uma verdade quase sempre esquecida: que a crítica literária não é uma ciência exata e que, portanto, seu discurso jamais pode ser considerado definitivo.

Onde os velhos não têm vez serve como um exemplo interessante para compreendermos a multiplicidade de argumentos críticos que podem surgir da leitura de uma única obra, e de como toda a produção de resenhas, artigos ou teses nunca consegue dar conta de todos os aspectos de um livro, ainda que alguns críticos tenham essa pretensão, o que não me parece ser o caso, saliento, dos dois nomes citados aqui.

Se compararmos o texto de Guelbenzu, no qual ele elogia o romance, com, por exemplo, uma das resenhas publicadas no Brasil, escrita por Bernardo Carvalho, veremos que um mundo ideal de leitores seria aquele no qual cada um elaborasse sua própria crítica, sem escutar nenhuma outra voz, a não ser a da sua consciência.

Apenas a título de ilustração, seguem abaixo os parágrafos finais de Guelbenzu e de Carvalho:

"McCarthy ha escrito una novela en la que prescinde casi por completo de una de sus mejores bazas literarias: la creación de imágenes de belleza y plasticidad únicas y fascinantes. Aquí escribe con una desnudez extrema, es una escritura ascética de una contundencia demoledora. El sentido del ritmo y el selecto uso de la elipsis son tan potentes que cualquier autor de thriller daría un brazo por llegar a escribir con una tensión tan absorbente. No hay manera de soltar el libro. Es duro, duro e impactante."

"A leitura fácil de Onde os velhos não têm vez, se não deixa de ser prazerosa, também não impõe nenhum desafio. É possível que não haja nada errado nisso. Mas, se é a resistência que nos dá a dimensão da liberdade, talvez não reste outra opção senão se resignar ao fato de que, no mundo concebido pelo desencanto tardio e radical de McCarthy, não são só os velhos que não têm vez. A literatura também não."

novembro 28, 2006

Mineirice e esperança


Quando Sofia nasceu, o Itacolomi estava escondido sob a névoa. Ouro Preto quieta no amanhecer, as calçadas úmidas, nossas vozes abafadas pela noite da espera, o cheiro de lenha queimada ainda tímido no ar e os sinos que anunciavam as primeiras missas: olhávamos a neblina perdidos como o bandeirante Antônio Dias de Oliveira. Em 1698, ao chegar, pouco antes do anoitecer, à entrada do vale do Tripuí, ele não conseguiu divisar o famoso pico – referência para um provável caminho do ouro –, que permanecia "velado pela carapuça de nuvens", diz Manuel Bandeira.

Isso foi há um ano. E cada um de nós, dos que estavam na casa da Rua Henri Gorceix, guarda daqueles dias suas próprias lembranças. Imagino que a memória da mãe deve ser principalmente sensorial. Ela carregou Sofia nove meses inteiros, e naquela manhã nevoenta deu à luz em um parto bíblico, marcado de dores, como se confirmasse o terrível anátema do Gênesis. O pai talvez ainda sinta, ao olhar a filha que dá os primeiros passos, uma ponta da mesma perplexidade daquela madrugada, quando ele subia as escadas somente para descê-las logo depois, até perguntar-me, atônito, "E agora?!". O mais feliz de todos foi João Pedro, que dormia, imperturbável nos seus doze anos, quase cataléptico, graças à ignorância do que é a incerteza ou a ansiedade. Quanto à avó, também acabou cedendo ao sono, mas se abríssemos a porta do quarto, veríamos que, semelhante aos dragões das histórias infantis, ela cochilava apenas com um olho, enquanto o outro, vigilante, esperava pelo terceiro neto.

Um lado de minha consciência julga inconcebível existirem casais, nos dias de hoje, dispostos a procriar. Mas todas as dúvidas caem por terra quando vejo Sofia balbuciando as primeiras palavras. Essas sílabas confusas têm o poder de neutralizar minhas críticas ao amor que, não contente em amar, se submete cegamente à natureza. Sofia dá gritinhos, desarruma as gavetas e os armários, faz caretas e me resigno às suas peraltices, adorando o sorriso que desperta em mim aquele esquecido gozo de viver.

Quem foi a Minas sabe do sotaque indolente das mulheres, das interjeições sedutoras, do "ei..." demorado que nos atrai e enlaça sem deixar espaços à recusa. Essa mineirice perdura e se renova em Sofia, menina marota que resume, em sua fragilidade infantil, nossa condição humana, efêmera, precária. Mas seu jeito mineiro de encantar concede-me alegria – e a imprecisa esperança que, às vezes, acredito esgotada para sempre.

(Crônica publicada na edição de 24 de novembro de 2006, no jornal Bom Dia Jundiaí.)

novembro 22, 2006


Entre o zen e a melancolia


Na última edição do jornal Rascunho, publiquei um ensaio dedicado ao escritor Yasunari Kawabata, de quem a Estação Liberdade tem editado os principais romances, em traduções diretas do japonês.

Kawabata buscou elaborar uma literatura do comedimento, que dissesse menos, mas, por meio das sutilezas que só a cultura japonesa possui, ganhasse uma nova força expressiva. Ele almejou que a experiência da leitura de sua obra produzisse um efeito semelhante ao do exemplo de certo mestre zen: "Antes que um homem estude o zen, as montanhas são para ele montanhas e as águas são águas. Mas quando ele vislumbra a verdade, as montanhas não são mais montanhas, nem as águas são águas. Mais tarde, quando atinge o satori, as montanhas são novamente montanhas e as águas são águas". Ou seja, que seus leitores pudessem vislumbrar a realidade de maneira clara, despida do véu de ilusão com que nossas ânsias e desejos a recobrem.

novembro 14, 2006

Convite a Zama


Lentamente, vamos deixando de dar as costas à literatura em língua hispânica da América Latina, o que significa descobrir que a ficção e a poesia têm muito mais a oferecer do que Borges, Cortázar, Gabriel García Márquez, Neruda e a meia dúzia de escritores até há pouco tempo conhecidos em língua portuguesa.

Desde 2005, por exemplo, a Editora Globo vem publicando os principais romances do argentino Antonio Di Benedetto, de quem acabo de ler Zama. Um livro perturbador, muito distante do que algumas resenhas apressadas definiram como "biografia fictícia". Numa linguagem cinzelada, superior ao derramado palavrório e à retórica nem sempre expressiva de alguns escritores latino-americanos, que são tratados como geniais no Brasil, Zama é um daqueles romances cuja segunda principal qualidade – pois a primeira é a linguagem – reside no poder de nos questionar.

Para Juan José Saer, outro genial escritor argentino, que assina o prefácio de Zama, o romance "não se rebaixa à demagogia do maravilhoso nem à ilustração de tese sociológica; não se obstina em repetir-nos as velhas crônicas familiares que murcham o romance burguês desde fins do século XIX; não divide a realidade, que é problemática, em nações; não pretende ser a summa de nenhum grupo ou lugar; não dá ao leitor o que o leitor espera de antemão, porque os preconceitos da época condicionaram seu autor induzindo-o a escrever o que seu público lhe impõe; não honra revoluções nem heróis de extração duvidosa e, no entanto, apesar de sua austeridade, de seu laconismo, por ser o romance da espera e da solidão, não faz senão representar, a seu modo, obliquamente, a profunda condição da América, que cintila, frágil, em cada um de nós".

Perdoem-me a citação extensa, mas Saer, falecido há poucos anos, é um dos raros escritores que elaboraram uma diversificada e original reflexão sobre a escrita, seus processos criativos e os usos da linguagem.

De Antonio Di Benedetto, quero transcrever aqui um trecho de sua entrevista a Günter W. Lorenz, publicada em Diálogo com a América Latina – panorama de uma literatura do futuro (Editora E.P.U.): "[...] Escrevo porque se põem diante de mim, porque se colocam na minha imaginação, personagens envolvidos em um transe ou possuídos por uma obsessão ou uma esperança, e me empenho em levá-los até o final bem, que às vezes não existe. [...] escrevo porque gosto de narrar. Escrevo por que gosto da ocupação de escrever. Escrevo porque me guia uma vontade intensa de construir, por meio da palavra. Escrevo para analisar-me. Escrevo para esclarecer o que me prejudica, o que prejudica à gente como eu. Escrevo para entender e entender-me. Escrevo para que a subjetividade explore as paisagens abertas e as cavernas sombrias das pessoas que o mundo objetivo lhe propõe. Escrevo para que minha consciência percorra mais regiões do que o mundo objetivo lhe propõe. Escrevo para confessar e não ser absolvido".

Da consciência desse homem nasceu Zama, que ele dedica "às vítimas da espera", ou seja, a alguns de nós.

novembro 02, 2006


Realismo mágico à moda brasileira


Em minha resenha do mês de outubro no Rascunho, escrevo sobre Murilo Rubião e as duas coletâneas (falta apenas uma) de contos até agora publicadas pela Editora Companhia das Letras. Entre outras qualidades, Rubião tem um humor ácido, surpreendente.

outubro 13, 2006


Orhan Pamuk - 2


A edição de hoje do El País traz um lúcido artigo desse escritor turco que, ontem, foi anunciado como o Prêmio Nobel de Literatura deste ano. Três pontos chamaram-me a atenção: as preocupações do artista cuja origem está presa a um país dividido entre as culturas do Ocidente e do Oriente, ou melhor, entre o Ocidente e o Islã; sua visão sobre as relações que unem um novelista aos seus leitores, não só na Turquia, mas em todo o mundo; e, finalmente, o debate proposto por ele, ao tratar da preocupação - ou do medo - de que as literaturas nacionais deixem de falar das suas próprias tradições, preferindo optar por uma expressão universalista, o que, para alguns, significaria uma inevitável perda de autenticidade. Este último ponto é o que me parece mais próximo da realidade brasileira, onde, em minha opinião, parcela dos escritores insiste em aferrar-se a um regionalismo míope, produzindo uma literatura restrita, limitada. De qualquer forma, este é o artigo.

outubro 12, 2006


Orhan Pamuk


Não conheço o ganhador do Nobel de Literatura deste ano, o turco Orhan Pamuk. Mas interessei-me vivamente por sua obra depois de ler uma entrevista concedida ao jornal El País, da qual coloco, abaixo, um pequeno trecho. Assim, já encomendei o exemplar de um de seus romances, publicado entre nós pela Editora Cia. das Letras, Meu nome é Vermelho.

"Bueno, te vas construyendo una vida de escritor, desde luego, y desde ese punto de vista no eres igual a nadie más. Pero con esto no me estoy refiriendo a esa vanidad narcisista de los autores que se creen únicos. Distingamos entre ese narcisismo, que no comparto ni me interesa, y por otro lado el trabajo que hago. La manera en que yo veo ese trabajo, la manera en que escribo mis novelas, es siempre buscando lo que hay en lo más profundo del ser humano e intentando sacar eso a la superficie, para demostrar que todos somos iguales unos a otros. Sí, es verdad, pertenecemos a comunidades diferentes y a veces enfrentadas, la comunidad de la mezquita o del partido político que sea, pero más allá de eso todos somos muy semejantes. Y para poder sacar esa esencia común a la superficie, hay que escribir más allá de las ideas comunitarias, hay que escribir libre de ellas, desde el sentido básico y universal de lo humano. Y hacer esto no es muy común. De ahí la soledad del escritor, no porque seas un individuo especial y único, sino porque tienes que esforzarte en escribir desde fuera de las miradas limitadoras de las diversas ideologías comunitarias."

setembro 25, 2006


"Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira"


Nos últimos tempos, tenho escrito, mensalmente, uma longa resenha para o Rascunho, um jornal dedicado exclusivamente a literatura.

Apesar de ser impresso e, atualmente, distribuído a cerca de cinco mil assinantes, o Rascunho também pode ser lido em sua versão na web.

Na edição deste mês, além de um especial sobre o poeta Ferreira Gullar, comemorando os trinta anos de publicação do "Poema sujo", o jornal traz, dentre outros textos, um ensaio que escrevi sobre o romance Anna Kariênina, de Liev Tolstói, traduzido do russo por Rubens Figueiredo e publicado pela Editora Cosac Naify.

agosto 31, 2006

Eleições 2006


Mentira de tudo, em tudo e por tudo. Mentira na terra, no ar, no céu, onde, segundo o Padre Vieira, o próprio céu mentia no Maranhão, e direis que hoje mente ao Brasil inteiro. Mentira nos protestos. Mentira nas promessas. Mentira nos programas. Mentira nos projetos. Mentira nos progressos. Mentira nas reformas. Mentira nas convicções. Mentira nas transmutações. Mentira nas soluções. Mentira nos homens, nos atos e nas coisas. Mentira no rosto, na voz, na postura, no gesto, na palavra, na escrita. Mentira nos partidos, nas coligações e nos blocos. Mentira dos caudilhos aos seus apaniguados, mentira dos seus apaniguados à Nação. Mentira nas instituições. Mentira nas eleições. Mentira nas apurações. Mentira nas mensagens. Mentira nos relatórios. Mentira nos inquéritos. Mentira nos concursos. Mentira nas embaixadas. Mentira nas candidaturas. Mentira nas garantias. Mentira nas responsabilidades. Mentira nos desmentidos. A mentira geral. O monopólio da mentira.

(Rui Barbosa, em discurso de campanha presidencial na Associação Comercial do Rio de Janeiro, 1919.)

- Pescado no Prosa caótica, da minha querida Maira Parula.

agosto 22, 2006

Resenhas no Rascunho


Nos últimos meses tenho publicado resenhas no Rascunho, um jornal dedicado exclusivamente a literatura. Como não avisei os amigos sobre esses trabalhos, cito abaixo os autores sobre os quais escrevi, com seus nomes linkados aos textos:

Thomas Bernhard

Roberto Drummond

Bertold Brecht

Tahar Ben Jelloun

agosto 31, 2005


Lições de Graciliano


Nos últimos dias tenho lido, com grande prazer, o romance Angústia, de Graciliano Ramos. Há muitos anos li Vidas secas e São Bernardo, este último, em minha opinião, superior ao primeiro. Mas Angústia, que comecei a ler influenciado por um ensaio de Antonio Candido, parece-me o melhor de toda a obra de Graciliano, e um dos mais significativos romances da nossa literatura. A narrativa em primeira pessoa é hipnotizante, não só pela personalidade mórbida do protagonista, mas, com certeza, graças ao jogo perfeito das diferentes linhas de tempo que se entrecruzam ao longo do livro, uma técnica que eu já encontrara em Nostromo, de Joseph Conrad, mas nunca em língua portuguesa.

Foi também uma agradável surpresa encontrar o sítio oficial de Graciliano na web. Naveguem com atenção pelas páginas e percebam como os breves textos têm uma simpatia rara, um agradável tom coloquial, destituído de qualquer empáfia. As informações são claras, a interface não agride o olhar. Enfim, um espaço semelhante ao estilo enxuto e preciso de Graciliano.

agosto 18, 2005


Quando o escritor é um transtorno


Em uma entrevista de julho de 2003, concedida a João Paulo Cuenca, no Portal Literal, o escritor e tradutor Rubens Figueiredo fala, com equilíbrio e sensatez, sobre a transformação do escritor em celebridade: "Conheci autores que são verdadeiros publicitários de si mesmos, eles vivem em campanha. Eu francamente acho isso uma tristeza."

Para Rubens, com quem concordo, "da maneira como costumamos tratar as coisas, tendemos a transformar o livro numa espécie de base para sustentar uma celebridade. A lógica da nossa sociedade depende muito dessa instituição que é o indivíduo de sucesso, e isso é uma deformação gritante, em face da experiência que a gente tem quando lê. Gostamos de ler porque descobrimos ali alguma coisa importante e verdadeira da vida. Isso não tem nada a ver com a pessoa pública do autor."

Em uma sociedade que privilegia o espetáculo em detrimento da arte, não poderia ser de outra forma, e a inversão de valores é completa: "O que ocorre é que essa lógica funciona de tal modo que esse estímulo, essa celebridade, começa a funcionar de uma forma independente daquilo que deveria ser a sua razão de ser, ou seja, o livro. Não importa mais o livro, importa a pessoa que os assina."

Rubens diz, com saboroso bom humor, que o escritor "é um transtorno", pois ele "é o que há de menos importante em todo o processo da literatura, em toda a experiência...". E salienta a importância do leitor, tão esquecido por certas vanguardas literárias, ao dizer que este "tem uma parcela tão grande de importância quanto o próprio livro".

Muito aquém do sonho...


Voltando ao nosso post anterior, e à fragilidade e imperfeição de que nos falava o amigo Erwin Maack em seu comentário, quero concluir com mais uma citação de Rubens Figueiredo, para quem "o que pesa menos é o escritor, porque, ao escrever o livro, ele quis alguma coisa, imaginou uma forma, vislumbrou um horizonte de perfeição, procurou aquilo e no fim sempre fracassa. Ele nunca consegue realizar aquilo." O sentimento final é mesmo sempre esse, o de estar aquém do que imaginei, muito longe de alcançar o sonho...

junho 25, 2004

"Eu achava que a sala queria me conter"


Um despretensioso encontro, no interior de Minas Gerais, com três irmãs muito estranhas é, resumidamente, o tema do conto – Azul índigo – de Neuza Paranhos. Mas o que essa menina, adotada desde o ano passado pelos nova-iorquinos, oferece aos seus leitores é muito mais. As descrições de Neuza surgem, em um primeiro momento, com surpreendente leveza, revelando depois certa melancolia, ou aquela irremediável tristeza que nos acomete quando descobrimos o interior do Brasil – sua pobreza, seu abandono – e as criaturas que, fingindo-se humanas, lutam para sobreviver ali. Os detalhes polvilham toda a narrativa, mas não pesam, não emperram a leitura, agindo, ao contrário, como molduras suaves da "casinha de porta e janela" e suas três estranhíssimas ocupantes. Neuza descreve esse universo singular sem distanciar-se de seu objeto, sem acomodar-se na posição de uma narradora onipresente, recusando-se, ao mesmo tempo, a sugerir qualquer tipo de proselitismo. Os dramas e os sonhos de três mulheres, esquecidas no fundão de um Brasil que não queremos ver, são delineados em um texto cuja leveza não encobre a dor que, por um momento, parece desejar nos conter.

junho 17, 2004

A verdade


"Eu poderia viver preso numa casca de noz e me sentir rei de espaços infinitos, se não fossem os maus sonhos que tenho."

Shakespeare, Hamlet

março 10, 2004

... y, además, no importa


Uma névoa de poluição encobre São Paulo. A um metro de distância já a percebemos, envolvendo as coisas num tom entre o cinza e um azul quase morto. Não há brisa. E o calor não é o daqueles dias de verão em que o sol nos convida a sair para a rua. Não. O ar nos enclausura em um sarcófago onde os elementos da realidade são todos os mesmos, onde as identidades desaparecem sob uma cor triste e impessoal. Em dias assim, um poema pode ser mais que uma forma de escape: pode ser a chave para erguermos a ponta do véu que recobre não apenas a cidade, mas também o nosso íntimo. Um poema como o daquele humilde professor de francês, Antonio Machado, nascido em Sevilha, Espanha, em 1875: "Mi infancia son recuerdos de un patio de Sevilla,/ y un huerto claro donde madura el limonero;/ mi juventud, veinte años en tierra de Castilla;/ mi historia, algunos casos que recordar no quiero."

Consejos

Sabe esperar, aguarda que la mar fluya
– así en la costa un barco – sin que el partir te inquiete.
Todo el que aguarda sabe que la victoria es suya;
porque la vida es larga y el arte es un juguete.
Y si la vida es corta
y no llega la mar a tu galera,
aguarda sin partir y siempre espera,
que el arte es largo y, además, no importa.

fevereiro 27, 2004

O universo dos blogs não tem limites. Eles conformam uma experiência visceralmente democrática na web e representam uma abertura sem precedentes em termos de comunicação.

Muitos estudiosos já se esforçam por compreender as forças que estão em jogo na blogmania e, principalmente, refletir sobre esse fenômeno, tentando captar o futuro – um exercício, em minha opinião, extremamente difícil.

José Luis Orihuela é um desses incansáveis pesquisadores. Professor da Universidade de Navarra, na Espanha, ele tem aproveitado a experiência de Orkut para, primeiro, congregar ali – em uma comunidade – todos os blogueiros. Depois, utilizando as descrições que cada um faz de seu blog, transpõe essas informações para o seu blog pessoal – o eCuaderno –, ampliando, assim, a rede de interconexões, divulgando as sinapses feitas em Orkut e somando novos dados às suas pesquisas.

Nesta madrugada, visitando os links apresentados na comunidade formada por Orihuela, encontrei quatro blogs muito interessantes e que merecem uma leitura atenta, devotada.

No primeiro deles, Bemorth apresenta uma escrita rascante, muitas vezes furiosa, mas sempre crítica, mesmo quando fala de si mesmo:

"Y bailas, y probablemente estás haciendo el ridículo, pero qué más da, si es carnaval, un tío te acaba de tocar el culo con todo el morro y estás borracho, y aún cae algún kalimotxo más, y tus amigas parecen más el Zorro que Batgirl y van más borrachas que tú, y cuando veis a un grupo de tíos disfrazados de la Pantoja de Puerto Rico acabas cantando con ellos que se te enamora el alma, se te enamora. Patético, sí, pero ¿y las risas que te echas? Y sigues bailando viendo los tristes intentos de una de tus amigas por liarse con un chico (coño, ése no es el tío con el que se enrolló la semana pasada) mientras te fijas en lo genial que está el rubio ése de ahí delante, y piensas si entrarle (qué más da, estás borracho, todo te da lo mismo, hasta que te pueda soltar un par de hostias, con la pinta de heterosexual malote que tiene, y lo que te mola eso), hasta que ves que acaba de agarrar de la cintura a una tía ho-rri-ble a la que está dando un beso que te mereces tú. Absolut hombre desperdiciado por heterosexual. Ja."

Depois, visitando El blog de Shelob, encontro uma escritura simples, de alguém que fala de seus problemas diários com aparente leveza, mas escondendo sob o texto os dramas de uma entorpecida sociedade urbana, na qual até mesmo as pessoas mais próximas tornam-se desconhecidas para nós:

"La gente cambia, y la percepción que se tiene de algunos queda tan distorsionada que ya no queda sino un espejismo de lo que un día fue. Un amigo al que quería muchísimo ha dado un cambio tan radical que ya no puede seguir formando parte de ese grupo que comparte un trozo de mi corazón. De un plumazo ha pasado de ser mi mejor amigo a mi más cruel atacante. Ahora me sorprendo pensando cómo pude estar tan engañada.
Será que sí, tengo una dosis de gilipollez tan alta que no veo este tipo de cosas hasta que me estallan en la cara.
Él ha dejado de ser parte de mi vida, y ahora tengo que intentar llenar el vacío que ha dejado. Será duro, pero no tanto como pensaba; este ex-amigo me lo está poniendo tan fácil que asusta."

No terceiro, o título despretensioso – Evasivas – serve como uma tentativa de despistar o leitor. Mas quem se debruça com atenção, descobre um lirismo inusitado e surpreendente, emoldurado em um belíssimo trabalho gráfico. Vejam um trecho, apenas:

"Dentro de un tiempo recordaré este año
como recuerdo el saco de canicas de mi infancia,
tan bien como recuerdo el agujero en ese saco
desmigando a su paso cristales de color.

Como recuerdo la cuerda del yoyó que no sabía imitar
a la noria, ni al molinete,
ni hacerse el dormido siquiera.

Como recuerdo que mis patines de hierro y correas rojas
se llamaban Sancheski.
Como recuerdo su bolsa de cuadros escoceses,
la bolsa de aquellos patines empecinados en herirme las rodillas
una y otra vez y vuelta a levantar.
(...)"

Finalmente, uma surpresa nem um pouco menor se apresenta no blog Antes muerta que sencilla, assinado por Amul, no qual encontramos a angústia nascida dos limites da vida cotidiana. Uma angústia que parece ganhar ainda maior força na exata medida em que questionamos suas causas, sem encontrar as soluções:

"Mientras paseaba al perro, le daba vueltas a la cabeza pensando en un problema que tengo y no sé cómo solucionar. Mi cabeza giraba y giraba, y al rato mi cuerpo también. Pero estaba tan absorta en mis dudas, que de tanto girar, he ido haciendo un agujero en la tierra y he ido entrando lentamente como un descorchador de vino, dando vueltas y vueltas, hasta que he llegado a sentarme en un banco del andén de la línea diez."

São descobertas empolgantes, estas. Elas me fizeram refletir principalmente sobre o fato de que o espaço, a distância, as fronteiras, o relevo jamais foram – e jamais serão – barreiras ao sentimento da dor que representa viver. Essa dor é única, ainda que possamos senti-la de maneiras as mais diferentes. E ainda que possamos expressá-la em línguas muito ou pouco dessemelhantes. A dor de viver, de enfrentar o cotidiano, talvez seja a única e verdadeira herança comum da humanidade.


fevereiro 26, 2004


Inicio hoje este novo blog. O Crônica Literária cumpriu, bem ou mal, sua missão; e ele - seu formato e sua proposta editorial - já não expressava mais meus objetivos, meus projetos e minhas intenções em relação ao ato de escrever na web.

Um outro fato também referendou minha decisão: o Blogger brasileiro, de propriedade das Organizações Globo, mudou drasticamente as regras de participação, descaracterizando um dos principais fundamentos do universo dos blogs: absoluta inexistência de censura.

Antes de iniciar esta nova temporada, no entanto, quero agradecer à minha querida amiga, Cris Fernandes, que desenhou este novo template, baseando-se apenas em duas ou três pistas que lhe passei por e-mail. O resultado - suave, simples, belo (como todos os trabalhos da Cris) - não poderia estar mais de acordo com o que eu desejava e, principalmente, com o momento que estou vivendo. Obrigado, Cris!

Mas não posso dar o primeiro passo sem me lembrar aqui da mulher que, nos últimos anos, tem sido uma companheira inigualável e tem me impulsionado sempre a escrever: Mimi. Ela é a minha incentivadora, a minha inspiração e o meu aconchego.

Finalmente, a todos os amigos, aos leitores e aos visitantes esporádicos, o pensamento de Samuel Beckett: "As palavras são tudo o que temos."