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dezembro 04, 2014

5 soluções para 5 problemas do escritor principiante

Superar a dificuldade de escrever exige soluções graduais
Uma das principais dificuldades do escritor principiante é exatamente escrever.

Não, isto não é uma piada. Eu não estou brincando.

Você quer escrever, mas não consegue. Deseja sinceramente ser escritor, mas encontra barreiras, obstáculos que parecem intransponíveis.

Do que converso com meus alunos e outros escritores, essa dificuldade surge por estes motivos:

a) você não consegue escolher uma das várias histórias que gostaria de contar;

b) quase sempre, você não tem um interlocutor, alguém que possa ler seu trabalho e, de forma livre, dialogar com você sobre diferentes questões;

c) os escritores que você admira dançam na sua mente num festim macabro, tentando se impor como modelos;

d) as dúvidas em relação ao uso correto da língua travam sua espontaneidade;

e) você escreve para ninguém.

Superar esses obstáculos exige soluções graduais, nesta ordem:

1. Antes de tudo, é preciso imaginar um leitor. Depois, com tempo e experiência, você talvez abandone esse recurso — mas, no início, conseguirá maior objetividade se não escrever para todo o mundo.

Você sabe, no fundo, que suas palavras se destinam a uma pessoa, a um grupo específico. E talvez até acredite que sua história, da forma que deseja contá-la, pode ajudar a resolver um problema, pessoal ou não.

Perceba que não se trata de escrever para agradar esse leitor ou esse grupo, mas apenas ter uma referência. À medida que a história surgir, você acabará se divertindo só por contrariar seu leitor imaginário.

2. Escolhido o leitor, o problema da história se resolverá facilmente. Talvez o tema se apresente de imediato. Na verdade, tema e leitor estão intimamente ligados.

Mas se várias histórias surgirem, escolha aquela sobre a qual você tem maior número de informações — e tem certeza que causará impacto no seu leitor.

3. Determine seu período de trabalho — ou o número de palavras que você vai produzir diariamente.

Não estabeleça metas impossíveis. Você pode escrever um conto de 2 mil palavras, por exemplo, em dois dias, mas um romance exigirá dedicação maior.

Estabelecida a produção diária, sente e escreva. Apenas escreva.

Não volte sobre cada frase, corrigindo-a, melhorando-a.

Não se preocupe se o maldito Word vai sublinhando as palavras com azul e vermelho. Se você escreve à mão, não se preocupe se “exceção” e “excessivo” estão escritos da forma correta.

Não se preocupe se as frases estão longas ou curtas, se a paragrafação segue uma lógica perfeita, irretocável.

Apenas escreva. Esta é a primeira etapa do processo. Só a primeira etapa.

4. Não tente se libertar dos seus modelos. Quanto mais você lutar contra eles, mais pularão como loucos na sua mente.

A originalidade, da forma como é pensada hoje, não passa de uma quimera. Camões imitou Virgílio, que imitou Homero, que imitou alguém (ou alguéns). E cada um o fez da sua maneira.

Livre-se do peso da originalidade.

Lembre-se do que André Gide afirmou: “Tudo já foi dito uma vez, mas como ninguém escuta é preciso dizer de novo”.

Texto a texto, leitura a leitura, você, com certeza, construirá sua forma de “dizer de novo”, seu próprio estilo.

5. Se for possível — mas não é essencial —, peça a um amigo (um verdadeiro amigo) que escute ou leia sua história.

Mas, por favor, que ele não seja também escritor. Um amigo escritor é bom para várias coisas — mas ele terá, com certeza, soluções de estilo diferentes das suas.

Escolha uma pessoa que considere sincera, alguém que tenha interesses diferentes dos seus, mas que mereça sua confiança.

Nesta primeira etapa do trabalho, o que você mais precisa são leitores comuns.

 Quando sua história estiver pronta, prepare-se para outra importante tarefa: reescrever.

novembro 29, 2014

Como nasce a inspiração?

Borges: "No caso de um conto, eu conheço o princípio, o ponto de partida, conheço o fim, conheço a meta"
Como surge a idéia de um conto, de um romance, de um poema?

Cada escritor tem sua história, sua forma de inspiração.

Vejam o que Jorge Luis Borges fala:

“Começa por uma espécie de revelação. Mas eu uso essa palavra de uma maneira modesta, não ambiciosa. Ou seja, de repente eu sei que algo vai acontecer e que isso que vai acontecer pode ser, no caso de um conto, o princípio e o fim. No caso de um poema, não: é uma idéia mais geral, e às vezes tem sido a primeira linha. Ou seja, algo me é dado, e depois intervenho, talvez estrague tudo (ri). No caso de um conto, por exemplo, eu conheço o princípio, o ponto de partida, conheço o fim, conheço a meta. Mas depois tenho que descobrir, através dos meus muito limitados meios, o que acontece entre o começo e o final”.

O que Borges conta é apenas o nascimento, a primeira fulguração do texto.

Todo o complexo e estimulante jogo de construir a narrativa vem depois.

novembro 25, 2014

O desejo do escritor é desvendar a existência

Como o fotógrafo, o escritor deseja fazer sua própria interpretação da vida
O fotógrafo Henri Cartier-Bresson dizia que, na verdade, não era a foto em si que o interessava. O que ele queria era “capturar uma fração de segundo do real”.

O desejo do escritor é semelhante. Ele não está — ou não deveria estar — preocupado com o livro em si, com a obra exposta numa reluzente livraria. O que o escritor almeja é desvendar um ou mais aspectos da existência, fazer sua própria interpretação da vida.

Aliás, o trabalho do escritor é semelhante ao do fotógrafo: o diafragma da câmera não escolhe sozinho a cena a ser capturada — e, para cada imagem escolhida, dezenas são desprezadas.

Se fosse de outra maneira, se nos bastasse o mero retrato da realidade, não precisaríamos da literatura e de outras formas de arte. Bastaria colocar câmeras em cada esquina, em cada casa, e permitir que qualquer um assistisse o que quisesse, quando quisesse.

A inutilidade de algo assim é tão evidente, que até mesmo um programa vulgar como Big Brother Brasil está sujeito a uma série de manipulações e provas, e supostos interrogatórios, traições e acordos — enfim, um complexo sistema ficcional, ainda que ordinário e grosseiro — para se tornar atraente.

Voltando à ficção literária, se quiséssemos listar os diferentes aspectos da vida humana, bastaria reler as principais narrativas. Um conto breve como “O colar”, de Maupassant, fala mais sobre fuga da realidade, orgulho e amor do que dezenas de tratados de psicologia.

Não foi a obra enquanto produto final que despertou o interesse de Maupassant, mas a possibilidade de capturar um sentimento, um comportamento, determinada situação, de uma forma que, ele intuía, só Maupassant poderia apreender.

novembro 24, 2014

O salto da imaginação à escrita

Os campanários de Martinville formam o momento libertador em que a imaginação se torna palavra escrita
Como o desejo de escrever se transforma em ato concreto?

No primeiro volume de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, o narrador conta sua experiência: ele recorda sua infância, quando escrever era um anseio atormentador.

Cada detalhe inspira o garoto. No entanto, há um abismo entre o pensamento e o gesto de empunhar o lápis. Sua angústia o persegue — e ser incapaz de concretizar o desejo de escrever muitas vezes o aniquila:

“Parecia-me então que eu existia da mesma forma que os outros homens, envelheceria e morreria como eles e que, no meio deles, apenas pertencia ao número dos que não têm pendor para escrever. E assim, desanimado, renunciava para sempre à literatura […]”.

A aflição cresce. A realidade está sempre a chamá-lo.

Como todo candidato a escritor que aguarda a inspiração genial ou o tema perfeito, ele se confunde. Os elementos, entretanto, acumulam-se — até que, num transbordamento, tudo se precipita quando, certo dia, vê as torres da igreja de Martinville.

Os campanários de Martinville formam esse momento libertador, em que, finalmente, imagens, sons, odores e sentimentos se transformam em palavras escritas.

O trecho interessará a quem deseja escrever e está acostumado à ansiedade de não conseguir saltar do sentimento ao texto. Pode ser lido neste link.

novembro 22, 2014

O bom escritor sabe que é impossível ser genial o tempo inteiro

O que move o bom escritor é apenas o desejo de contar sua história da melhor forma possível
Em Os Testamentos Traídos, Milan Kundera conta a história do seu professor de música, um judeu perseguido pelos nazistas que, antes de partir para o Campo de Concentração de Terezin, é obrigado a mudar de uma residência a outra, sempre levando consigo seu pequeno piano.

Esse professor, certo dia, no final da aula, diz ao menino: “Há muitos trechos surpreendentemente fracos em Beethoven. Mas são os trechos fracos que dão destaque aos trechos fortes. É como um campo sem o qual a bela árvore que nele cresce não nos daria prazer”.

Ora, não é assim com as obras literárias? Não é assim com o conjunto da obra de um escritor?

Quando alguém começa a escrever, sonha em criar obras indispensáveis, perfeitas e inovadoras em seus mínimos detalhes — mas essa preocupação muitas vezes inibe sua criatividade e estraga o que poderia ser espontâneo.

O bom escritor, ao contrário, sabe que é impossível ser genial o tempo inteiro. Sabe também que a chamada originalidade é uma quimera.

Aliás, o que move o bom escritor é apenas o desejo de contar sua história da melhor forma possível. Assim ele planta seu campo, de forma espontânea — e ali podem surgir algumas árvores raras.

novembro 21, 2014

2 pecados que o escritor não pode cometer

São apenas 2.

O escritor — se deseja ser realmente um profissional — precisa evitar a impaciência e a indolência.

Ele não pode ter pressa se quiser atingir seus objetivos. Sofreguidão e escrita não combinam.

E não pode ser preguiçoso: precisa estar todos os dias, no mesmo horário, diante do papel em branco ou da tela do computador.

Kafka estava certo: “Existem dois pecados capitais, dos quais todos os outros derivam: impaciência e indolência. Por causa da impaciência os homens foram expulsos do paraíso, por causa da indolência eles não voltam”.

novembro 19, 2014

O que é melhor: bondade ou inteligência?

Para Hermann Broch, "uma arte que não é capaz de reproduzir a totalidade do mundo não é arte"
Hermann Broch dizia que “uma arte que não é capaz de reproduzir a totalidade do mundo não é arte”. Esse anseio permanente de completude dirigiu sua vida, uma luta constante para superar suas contradições, para que sua existência fosse o reflexo integral do seu pensamento. Talvez por esse motivo ele tenha se transformado não apenas no genial autor de A Morte de Virgílio, mas também num homem extremamente solidário.

O ensaísta e professor Erich von Kahler, que foi seu amigo — e também de Albert Einstein e Thomas Mann —, dizia que “você poderia encontrar Broch perdido numa grande cidade, armado de guias e horários de trens, atravessando enormes distâncias nos Estado Unidos, sempre para dar consolo a seus amigos ou pedir favores para eles. Ou podia ser encontrado também em sua casa, depois de quinze horas de trabalho diante da máquina de escrever, respondendo com extrema pontualidade à sua correspondência. Por trás dessa tranqüila aparência, com o cachimbo na boca e o olhar penetrante, eu via a tempestade de um abismo interior, mesclado de felicidade e do consolo da sua solidariedade fraternal”.

De fato, há uma história da tradição rabínica de que Hermann Broch gostava muito e que, de certa forma, resume sua vida: “Um estrangeiro visita um rabino muito sábio e lhe pergunta: — Mestre, o que é melhor, a bondade ou a inteligência? O rabino responde: claro que a inteligência, meu filho, pois ela é o centro da vida. Há um momento de silêncio. O rabino parece pensar. E antes que o estrangeiro agradeça e vá embora, o rabino completa: — Mas, se você só tem a inteligência, sem a bondade, é como se você tivesse a chave do quarto que está no centro da sua casa, mas tivesse perdido a chave da porta da entrada”.

Esse é Hermann Broch. Ele tinha as duas chaves: a da inteligência e a da bondade.

novembro 18, 2014

11 dicas para novos escritores

Não seja passivo(a) em relação à escrita. Não espere a fada-madrinha dos escritores entrar pela janela
Você quer ser escritor — mas não sabe como começar.

Sentado na frente da folha em branco ou da tela do computador, as idéias não chegam.

Fiz esta lista de 11 dicas pensando em você — numa forma de diminuir sua angústia e mostrar que você pode, sim, se tornar um escritor.

Leia com atenção cada item.

Depois, coragem: comece a escrever!

1. Acredite no poder das sinapses. Os neurônios conversam entre si, criam conexões inusitadas a cada milésimo de segundo. Mas precisam ser estimulados. 

Não, você não precisa se submeter a um tratamento de eletrochoques, mas deve estar aberto à realidade. 

Certa música, certa obra de arte, uma situação, uma frase solta que você escuta no ônibus ou no balcão da padaria: tudo pode desencadear a imaginação. Todos nós temos gatilhos emocionais que liberam ondas de fantasia. Não despreze nenhum deles — inclusive os que parecem infantis ou óbvios. 

Lembre-se do exemplo sináptico de Victor Hugo, que já se tornou clássico: no prefácio de O Corcunda de Notre-Dame, o escritor conta que o livro nasceu quando ele encontrou, ao explorar a Catedral de Notre-Dame de Paris, a palavra “fatalidade” gravada à mão numa parede. A forte impressão causada por essa descoberta fez com que começasse a imaginar a história.

2. Todo escritor é, antes de tudo, bom observador. Mas não se trata apenas de espreitar. É preciso dialogar, em silêncio, com os fatos, com as pessoas. 

Coloque-se na pele delas e tente compreender suas reações. Depois, imagine como você reagiria. E imagine como um escritor descreveria você. Esse exercício constante — analisar o real e você mesmo — aperfeiçoará seu poder de observação.

3. Abandone a idéia de que a vida é simples e de que tudo é evidente. Nada é simples. Por trás de cada gesto feito de maneira impensada há centenas de influências, escolhas, certezas, temores, dúvidas, interesses, desejos.

4. Anote tudo. Sempre. Não se preocupe se, no fim do dia, as anotações parecem incoerentes, sem nexo. Guarde-as em algum lugar. No final de trinta, quarenta dias, coloque-as sobre a escrivaninha: você descobrirá semelhanças — ou uma tendência. Por que não segui-la?

5. Leia. Leia muito. E não tenha receio, inclusive, de se inspirar no que lê. Eu disse “inspirar”, não “copiar”.

6. Não tenha medo de contar histórias. Não tenha medo, inclusive, do que pensarão sobre suas histórias. Comece com tramas simples e poucos personagens. Pode ser um único personagem. Mas evite cair na tentação do discurso em primeira pessoa, pois ele tem uma aparência de facilidade completamente enganosa.

7. Repito: apenas conte uma história. Deixe as invencionices vanguardistas e os malabarismos lingüísticos para mais tarde, quando estiver seguro(a) do que é capaz. Lembre-se: Ulysses não foi o primeiro livro de James Joyce.

8. Tenha um plano, ele ajudará você. Mas sinta-se livre para mudá-lo. Nenhum escritor sabe, com todos os detalhes, o começo, o meio e o fim da sua história. 

O som e a fúria, de William Faulkner, começou, segundo o próprio escritor, “com uma simples imagem mental: os fundilhos enlameados da calcinha de uma menina pequena trepada numa pereira, de onde podia ver, por uma janela, o local onde se realizava o funeral de sua avó e descrever o que estava acontecendo aos seus irmãos, no chão, embaixo”. Depois, Faulkner tentou contar a história que nasceu dessa imagem utilizando quatro narradores diferentes — e, ainda insatisfeito, adicionou um apêndice 15 anos depois de o livro ter sido publicado.

9. Ao escrever, não se preocupe em seguir a ordem lógica — ou cronológica — do seu enredo. Você tem poder absoluto sobre sua criação: pode matá-la e, sete meses depois, contar seu nascimento.

10. Não seja passivo(a) em relação à escrita — não espere a fada-madrinha dos escritores entrar pela janela. Escolha um local, crie seu ambiente. (Minha vizinha, quando eu era menino, estudava com o rádio ligado e tirava ótimas notas. Eu, ao contrário, sempre precisei de silêncio.) Depois, estabeleça um horário e cumpra-o. Não importa se você apenas ficar olhando para o papel em branco.

11. Voltando ao primeiro ponto, não despreze a realidade.

Mas lembre-se do que Henry James escreveu: “A experiência nunca é limitada e nunca é completa; ela é uma imensa sensibilidade, uma espécie de vasta teia de aranha, da mais fina seda, suspensa no quarto de nossa consciência, apanhando qualquer partícula do ar no seu tecido. É a própria atmosfera da mente; e quando a mente é imaginativa — muito mais quando acontece de ela ser a mente de um gênio — ela leva para si mesma os mais tênues vestígios de vida, ela converte as próprias pulsações do ar em revelações”.

Este é o começo. Confie em você e vá em frente. Há milhares de leitores esperando por um bom escritor — alguém disposto a contar boas histórias.

novembro 17, 2014

Nenhum escritor é, apenas, uma máquina de produzir palavras

Georges Simenon, criador do famoso Comissário Maigret: exemplo de disciplina
Cada autor descobre, com a experiência, a forma de escrever mais adequada à sua personalidade. É preciso, antes de tudo, não lutar contra as próprias idiossincrasias. E encontrar, sem desprezá-las, a disciplina que resultará numa produção constante, diária.

Poucos escritores, entretanto, alcançam um comportamento metódico semelhante ao de Georges Simenon, o famoso criador do Comissário Maigret. Primeiro, ele escolhia, em sua imaginação, uma atmosfera: uma paisagem, um bairro da infância, certa estação do ano em determinada cidade… Ali, inseria um tema, uma das preocupações que trazia consigo — nada específico, mas que se apresentasse como um problema. Tendo acrescentado o tema à paisagem, vinham os personagens, imaginados ou baseados em pessoas reais. Esses três elementos se unem, então, e começam a se transformar no romance. Dois dias depois, sem escrever uma nota, Simenon tem o esboço pronto em sua mente — precisou recorrer apenas a algumas listas telefônicas (para encontrar o nome dos personagens) e a um mapa da cidade escolhida.

O mais impressionante, contudo, ainda está por ocorrer. Ele diz: “Na véspera do primeiro dia, sei o que vai acontecer no primeiro capítulo. Daí, dia após dia, capítulo após capítulo, descubro o que vem em seguida. Depois de iniciado um romance, escrevo um capítulo por dia, sem nunca perder um dia. Como é um esforço violento, tenho de seguir o ritmo do romance”.

Parece fácil, não é mesmo? Mas, acreditem, não há milagres. Se ele, por algum motivo, fosse obrigado a interromper o processo; se ficasse, por exemplo, doente por 48 horas, tudo se perderia. Seria obrigado a jogar fora os capítulos produzidos — e jamais retornaria ao romance.

O que um método oferece como solução, também cobra na forma de uma fraqueza. Nenhum escritor é, apenas, uma máquina de produzir palavras e sentenças.

novembro 16, 2014

Existe felicidade em escrever?

"Minhas dúvidas formam um círculo em torno de cada palavra." — Franz Kafka
O trabalho diário com as palavras não é fácil. Em abril de 1852, enquanto compõe Madame Bovary, Flaubert escreve a Louise Colet: “Estou mais cansado do que se empurrasse montanhas. Há momentos em que tenho vontade de chorar. É preciso uma vontade sobre-humana para escrever e eu sou apenas um homem”.

Esse tormento renasce, maior ou menor, no coração de cada escritor. Kafka anota, em novembro de 1910: “Quando sento-me diante da escrivaninha, meus ânimos não são melhores do que os do indivíduo que cai no meio da ‘Place de l’Opéra’ e quebra as duas pernas”.

Mas por que Kafka insistiu, ainda que escutasse “as consoantes se chocando com ruído metálico”? “Minhas dúvidas formam um círculo em torno de cada palavra; vejo-as antes que a palavra […]”, ele afirma e prossegue, cheio de incertezas. Sentindo-se “estéril como uma pedra”, Flaubert também foi adiante. E hoje, quando lemos o resultado dessas angústias, perguntamos qual o motivo de terem feito o que não é prazeroso.

Para um tempo como o nosso, em que o hedonismo quase sempre dita as escolhas, é difícil compreender. Mas o escritor sabe a resposta. Sabe que o prazer é o que menos importa na felicidade — como lembra Ortega y Gasset em seu ensaio “Sobre la caza” —, porque a felicidade consiste sempre “numa atuação, numa energia e num esforço”.

novembro 15, 2014

Literatura não é geração espontânea

Ler bons escritores e aprender com eles não significa copiá-los a vida inteira
Entre 2011 e 2012, um jovem amigo me procurou para falar sobre o curso que havia feito: um workshop de criação literária, cujo professor era — ainda é — um escritor de fama razoável. Notei, ao telefone, que havia certa urgência na voz dele; e marcamos um café para o dia seguinte.

Meu amigo estava angustiado. Como todo o jovem que escreve e deseja se aperfeiçoar, ele queria mais do que um curso: queria um norte, alguém experiente que lhe dissesse “siga por aqui”. Mas o workshop, que havia durado 4 horas, fora decepcionante.

Logo que sentamos à mesa, ele disse: “Sabe como o curso começou? Sabe qual foi a primeira coisa que ele falou?”. Eu respondi: “O quê?”. Meu amigo, com os olhos saltando e a boca cheia de indignação: “Ele foi para o meio da classe, ergueu os braços e falou como se fosse Moisés no alto do Monte Sinai: — Esqueçam tudo que vocês leram até hoje! Esqueçam todos os escritores que existiram antes de vocês! Vocês são os primeiros escritores na face da Terra! E hoje vão aprender que não existe, nunca existiu e jamais existirá um escritor melhor do que vocês!”. Eu já estava rindo, mas respondi: “Não acredito...”.

Os detalhes do cursinho, alguns insanos, não cabem aqui. Mas depois do café, no metrô de volta para casa, comecei a pensar em tudo. Não era possível que um escritor se dispusesse a começar seu workshop enganando os alunos. Aquela proclamação inicial não havia sido um conjunto de frases de efeito — ele realmente insistiu que os jovens deveriam parar de ler, pois “não podiam seguir modelos”.

Quando desci na estação perto de casa, já havia planejado o meu próprio workshop. Foi assim que nasceu o curso Bases da Criação Literária e todos os outros: com o objetivo de ir na contramão do que se ensina atualmente; mostrar aos alunos que não é possível começar do nada; que literatura não é geração espontânea; que ler os bons escritores e aprender com eles não significa copiá-los a vida inteira. E, principalmente, que existem forças, elementos que estão sempre presentes quando escrevemos — e ter consciência deles amplia o poder do escritor sobre o seu próprio processo criativo.

novembro 13, 2014

Como o escritor deve ler?

Há várias formas de leitura. Lemos para passar o tempo, para escapar de nós mesmos, para nos afastar de preocupações e angústias. Ou, ao contrário, para nos aproximar ainda mais do que somos ou desejamos ser. Num dia em que as idéias estão emperradas, o início do “Endymion”, de John Keats, produz, para mim, o mesmo efeito de uma viagem ensolarada.

Mas como o escritor deve ler?

Talvez deseje apenas o entretenimento, mas o melhor que pode fazer por si mesmo é ler com o lápis na mão e o caderno de anotações ao lado, decidido a observar a construção de cada cena, de cada personagem, disposto a ir e voltar nas páginas, como o viajante que, tendo apenas a bússola e um mapa cheio de falhas, é obrigado a ir e voltar sobre seus próprios passos.

A leitura inocente não é mais possível para o escritor que deseja aprender. Sua tarefa é decifrar o segredo dos que o antecederam. E aprender com eles, sem medo de ser influenciado. Sua personalidade e o exercício constante da escrita se encarregarão de transformar as lições que estudou no seu próprio estilo.

novembro 12, 2014

Escritores e disciplina

No último final de semana, lembrei-me, por várias razões, de Ernest Hemingway. Muitos não sabem que ele escrevia de pé, apoiado a uma espécie de atril ou qualquer outro suporte em que, primeiro, pudesse usar lápis e papel — e depois, quando o texto começasse a fluir com arrebatamento, passar à máquina de escrever. Começava no nascer do sol e prosseguia, sem parar, até algum horário em torno do meio-dia: “Escrevo até chegar a um momento em que, ainda não tendo perdido o gás, posso antecipar o que vem em seguida”. Anotava o número diário de palavras, fazia hora extra quando, por algum motivo, não poderia escrever no dia seguinte — e, manhã após manhã, ao reiniciar o trabalho, reescrevia o que produzira no dia anterior. Questionado sobre seu método, ele não deixa dúvidas: “Disciplina se conquista”.

Esse comportamento enérgico revela muito da personalidade de Hemingway — e também serve como estímulo aos escritores que estão sempre inventando uma desculpa para a própria indolência. A eles, Hemingway dedicou sua ironia: “O fracasso e a covardia bem disfarçada são mais humanos e mais amados”.

novembro 11, 2014

Estilo ou apenas o linguajar instintivo?

Muitos defendem a ausência de estilo no texto literário. Em nome dessa tese duvidosa, argumentam em favor do coloquialismo — um coloquialismo absoluto, não só livre de supostas artificialidades, mas que incorpore gírias, termos chulos e o calão dos grupos sociais presentes na narrativa.

A tese tem dois problemas: quando a linguagem coloquial se impõe, já não expressa mais naturalidade; tornou-se um estilo. Além disso, a quem interessa, por exemplo, um diálogo que seja apenas a cópia fiel da conversa que acabamos de ouvir no balcão da padaria? A quem interessa uma história narrada com o vocabulário específico de certo grupo de pessoas, a não ser a esses mesmos indivíduos? Dito de outra forma, se publicada, tal narrativa interessará a um número restrito de leitores; ou, por tempo determinado, a curiosos inocentes; ou por longo tempo, mas apenas a antropólogos, linguistas e sociólogos, que a utilizarão como documento em suas pesquisas.

Como dizia Nabokov, “a perfeição está no estilo e não, como só os tolos defendem, na espontaneidade, pois o espontâneo é o tagarelar do cronista”. Se o linguajar instintivo fosse a melhor solução, as sutilezas e dissimulações machadianas estariam hoje esquecidas — e o Bruxo do Cosme Velho não teria perdido seu tempo compondo, dentre outras frases, este famoso quiasmo: “Eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor”.

novembro 10, 2014

Escritores e gramática

Sempre insisto com meus alunos sobre a questão da gramática. Muitos acreditam que se tornarão ótimos escritores apenas estudando Napoleão Mendes de Almeida. “Mas o que você quer ser”, eu pergunto, “um escritor ou um gramático?”. Um escritor não precisa conhecer a definição de verbo defectivo — mas precisa ao menos intuir, graças a seu convívio diário com a língua, que certos verbos não apresentam todas as formas de tempo, de pessoa, etc. Ele sabe que seu personagem, referindo-se à falência de sua empresa, só pode dizer “eu fali”, no passado, pois, no presente, esse verbo existe apenas quando usamos “nós” ou “vós”. Esta é uma forma de conhecer como os verbos defectivos funcionam. E uma dúvida facilmente resolvível em qualquer dicionário da Web, pois todos oferecem a conjugação dos verbos. O mesmo acontece quando se trata da pontuação. O jovem escritor pode decorar tratados sobre o uso da vírgula — mas é a leitura atenta dos bons escritores que o ensinará a pontuar. Visitar os capítulos da gramática, principalmente aqueles — a maioria — que não foram explicados na escola, é meritório e certamente ajuda. Mas o bom escritor precisa ir muito além de um conjunto de prescrições e regras.

novembro 07, 2014

Descobrir a voz interior

A maior dificuldade que um escritor enfrenta é descobrir sua própria voz. Uma voz que ele modulará a cada novo narrador, a cada nova trama. Estamos sempre ouvindo outras vozes — ou pensando sobre como nossa voz deveria se expressar, com que inflexões, obedecendo a quais nuances. É preciso silenciar a tagarelice da própria mente e do mundo exterior. Sozinho, em silêncio e rodeado pelo silêncio, olhando a página ou a tela em branco, o escritor deve enfrentar a primeira tarefa: deixar sua voz vir à tona. Deixar ela emergir das regiões obscuras que, quase sempre, esquecemos de visitar. Diferente do que imaginamos, contudo, não se trata de uma descida ao Inferno. Não. Passo a passo, descobrir a voz interior é uma subida rumo a pontos mais altos, onde o horizonte se amplia e a luz revela o que não veríamos se estivéssemos ao rés do chão.

março 10, 2014

Cursos on-line: a literatura como forma de realização pessoal

A internet permite hoje uma comunicação direta, clara – e com abrangência crescente. Quem imaginaria, há vinte anos, que um curso ministrado de algum ponto perdido no planeta poderia ser visto, ao vivo, por milhares de alunos de todos os continentes?

Nos últimos semestres, tenho realizado uma experiência frutuosa com meus cursos on-line. Semelhante ao que faço na crítica literária, busco romper com os lugares-comuns que hoje são disseminados em cursos e workshops. É um trabalho no qual abandono os modismos e procuro ensinar literatura sem jargões acadêmicos, sem discursos herméticos, mas tratando a literatura como “uma das vias régias que conduzem à realização pessoal de cada um” – idéia de Tzvetan Todorov que endosso plenamente.

Estes são os cursos disponíveis até o momento:

1. Bases da Criação Literária: estudamos, em 4 aulas, os elementos que compõem a criação literária, antecedendo-a ou fazendo parte intrínseca dela: qual a relação do escritor com a realidade? A inspiração é um mito? Qual a importância da ética e da tradição? Como a privação ou a derrota influenciam a criatividade?

2. Prática de Leitura e Formação do Estilo: em 12 aulas, mostro que precisamos abandonar a desconfiança e o cinismo em relação à linguagem. E, o principal: quem deseja criar seu próprio estilo de escrever deve reaprender a arte da leitura, entendida como ferramenta indispensável para a) descobrir as possibilidades expressivas da linguagem e b) absorver e transformar os estilos que se tornaram clássicos.

3. A Descoberta do Ensaio: analiso diferentes tipos de ensaio, gênero literário maleável, que oferece incrível liberdade de trabalho. Por meio da leitura crítica de 13 ensaístas, os alunos conhecem procedimentos estilísticos diversos e reúnem elementos que contribuam à formação do próprio estilo.

4. Joseph Conrad: em 4 aulas, desenvolvo a leitura crítica de algumas das narrativas fundamentais do escritor Joseph Conrad. O que ele tem a dizer para o homem contemporâneo? E para os escritores de hoje? São as duas perguntas que norteiam as leituras dos contos Mocidade e O Parceiro Secreto, da novela O Coração da Treva e do romance O Agente Secreto.

5. História da Literatura Ocidental — o magnum opus de Otto Maria Carpeaux: o curso, num total de 14 aulas, começa nesta próxima quarta-feira, dia 12 de março. Iniciaremos pela biografia de Carpeaux, até hoje nebulosa, a fim de, inclusive, contextualizar seu trabalho no panorama literário nacional. A seguir, examinaremos suas influências – de Johann Gottfried von Herder a Benedetto Croce e Ángel Valbuena Prat – e a idéia de história da literatura que ele planejou escrever. Depois, estudaremos as 10 partes que compõem a História da Literatura Ocidental, analisando o método e o estilo de Carpeaux.

Outro aspecto positivo da Internet é que meus alunos não são obrigados a assistir às aulas ao vivo, pois vídeos e material didático permanecem gravados no site – e os cursos podem ser feitos a qualquer momento.

Observação: – Para esclarecer dúvidas e analisar a ementa de cada curso, basta seguir os links presentes na minha página no Cedet On-line.