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| O leitor real grita no ouvido do vanguardeiro tupiniquim: "— Quero apenas uma boa história!" |
Muitos escritores
— e parcela da crítica — enaltecem, no Brasil, a literatura que se limita a
fazer acrobacias ou malabarismos lingüísticos.
Contudo, ao
valorizar de forma extrema esses experimentos vanguardistas, quase sempre
inócuos, o escritor transforma seu texto numa peça ilegível, que serve apenas
para agradar a meia dúzia de supostos iluminados.
Esse esforço para
criar um texto incompreensível mostra que o autor se concentrou no seu
narratário, no seu leitor imaginário, mas esqueceu o leitor real. Este, o
leitor de verdade, está, portanto, condenado ao ato de ler sem entender, à
leitura transformada em tortura, mero exercício de decifração.
Parece, inclusive,
haver um pacto entre algumas editoras: o de só publicar literatura brasileira
que seja hermética, confusa, repleta de jargões.
Os bons escritores
deveriam proclamar, sem dissimulação, sem receio do ataque das panelinhas,
que o leitor não tem obrigação de ser um paleógrafo. Não quer ser um
paleógrafo. Detesta paleografia!
Abandonados diante
da página impressa, condenados ao deserto no qual a imaginação, por mais que se
esforce, não consegue dar conta de construir o que seria tarefa do escritor,
nossos poucos leitores são facilmente raptados para o mundo da subliteratura, tornam-se
reféns dos romancinhos de auto-ajuda e de tantas outras panacéias na forma de
brochura.
Na verdade, os
vanguardeiros tupiniquins, alguns editores e parte da crítica esquecem que a
linguagem não lhes pertence exclusivamente, que a linguagem, como ensina
Georges Gusdorf, “manifesta o ser relacional do homem”.
O leitor real —
não o leitor fictício — é o “outro”, de quem Gusdorf nos fala em La Parole. O outro que é, “para cada um,
condição de existência”.







