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| Superar a dificuldade de escrever exige soluções graduais |
Não, isto não é
uma piada. Eu não estou brincando.
Do que converso
com meus alunos e outros escritores, essa dificuldade surge por estes motivos:
a)
você não consegue escolher uma das
várias histórias que gostaria de contar;
b)
quase sempre, você não tem um
interlocutor, alguém que possa ler seu trabalho e, de forma livre, dialogar
com você sobre diferentes questões;
c) os escritores que
você admira dançam na sua mente num festim
macabro, tentando se impor como modelos;
d) as dúvidas em
relação ao uso correto da língua travam
sua espontaneidade;
e) você escreve
para ninguém.
Superar esses obstáculos exige soluções graduais, nesta ordem:
1.
Antes de tudo, é preciso imaginar um
leitor. Depois, com tempo e experiência, você talvez abandone esse recurso
— mas, no início, conseguirá maior objetividade se não escrever para todo o mundo.
Você sabe, no
fundo, que suas palavras se destinam a uma pessoa, a um grupo específico. E
talvez até acredite que sua história, da forma que deseja contá-la, pode ajudar
a resolver um problema, pessoal ou não.
Perceba que não se trata de escrever para agradar
esse leitor ou esse grupo, mas apenas ter uma referência. À medida que a
história surgir, você acabará se divertindo só por contrariar seu leitor
imaginário.
2.
Escolhido o leitor, o problema da história se resolverá facilmente. Talvez o
tema se apresente de imediato. Na verdade, tema
e leitor estão intimamente ligados.
Mas se várias
histórias surgirem, escolha aquela sobre a qual você tem maior número de informações — e tem certeza que causará impacto no seu leitor.
Não estabeleça metas impossíveis. Você pode escrever um conto de 2 mil
palavras, por exemplo, em dois dias, mas um romance exigirá dedicação maior.
Não volte sobre cada frase, corrigindo-a, melhorando-a.
Não se preocupe se
o maldito Word vai sublinhando as
palavras com azul e vermelho. Se você escreve à mão, não se preocupe se
“exceção” e “excessivo” estão escritos da forma correta.
Não se preocupe se
as frases estão longas ou curtas, se a paragrafação segue uma lógica perfeita,
irretocável.
4.
Não tente se libertar dos seus modelos. Quanto mais você lutar contra eles, mais pularão como loucos na sua mente.
A originalidade,
da forma como é pensada hoje, não passa
de uma quimera. Camões imitou Virgílio, que imitou Homero, que imitou
alguém (ou alguéns). E cada um o fez da sua maneira.
Livre-se do peso da originalidade.
Lembre-se do que
André Gide afirmou: “Tudo já foi dito uma vez, mas como ninguém escuta é
preciso dizer de novo”.
Texto a texto,
leitura a leitura, você, com certeza, construirá sua forma de “dizer de novo”,
seu próprio estilo.
5.
Se for possível — mas não é essencial —, peça a um amigo (um verdadeiro amigo) que escute ou leia sua história.
Mas, por favor, que ele não seja também escritor. Um amigo
escritor é bom para várias coisas — mas ele terá, com certeza, soluções de estilo diferentes
das suas.
Escolha uma pessoa
que considere sincera, alguém que tenha interesses diferentes dos seus, mas que
mereça sua confiança.
— Quando sua história estiver pronta, prepare-se para outra importante tarefa: reescrever.