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novembro 17, 2014

Nenhum escritor é, apenas, uma máquina de produzir palavras

Georges Simenon, criador do famoso Comissário Maigret: exemplo de disciplina
Cada autor descobre, com a experiência, a forma de escrever mais adequada à sua personalidade. É preciso, antes de tudo, não lutar contra as próprias idiossincrasias. E encontrar, sem desprezá-las, a disciplina que resultará numa produção constante, diária.

Poucos escritores, entretanto, alcançam um comportamento metódico semelhante ao de Georges Simenon, o famoso criador do Comissário Maigret. Primeiro, ele escolhia, em sua imaginação, uma atmosfera: uma paisagem, um bairro da infância, certa estação do ano em determinada cidade… Ali, inseria um tema, uma das preocupações que trazia consigo — nada específico, mas que se apresentasse como um problema. Tendo acrescentado o tema à paisagem, vinham os personagens, imaginados ou baseados em pessoas reais. Esses três elementos se unem, então, e começam a se transformar no romance. Dois dias depois, sem escrever uma nota, Simenon tem o esboço pronto em sua mente — precisou recorrer apenas a algumas listas telefônicas (para encontrar o nome dos personagens) e a um mapa da cidade escolhida.

O mais impressionante, contudo, ainda está por ocorrer. Ele diz: “Na véspera do primeiro dia, sei o que vai acontecer no primeiro capítulo. Daí, dia após dia, capítulo após capítulo, descubro o que vem em seguida. Depois de iniciado um romance, escrevo um capítulo por dia, sem nunca perder um dia. Como é um esforço violento, tenho de seguir o ritmo do romance”.

Parece fácil, não é mesmo? Mas, acreditem, não há milagres. Se ele, por algum motivo, fosse obrigado a interromper o processo; se ficasse, por exemplo, doente por 48 horas, tudo se perderia. Seria obrigado a jogar fora os capítulos produzidos — e jamais retornaria ao romance.

O que um método oferece como solução, também cobra na forma de uma fraqueza. Nenhum escritor é, apenas, uma máquina de produzir palavras e sentenças.

novembro 16, 2014

Existe felicidade em escrever?

"Minhas dúvidas formam um círculo em torno de cada palavra." — Franz Kafka
O trabalho diário com as palavras não é fácil. Em abril de 1852, enquanto compõe Madame Bovary, Flaubert escreve a Louise Colet: “Estou mais cansado do que se empurrasse montanhas. Há momentos em que tenho vontade de chorar. É preciso uma vontade sobre-humana para escrever e eu sou apenas um homem”.

Esse tormento renasce, maior ou menor, no coração de cada escritor. Kafka anota, em novembro de 1910: “Quando sento-me diante da escrivaninha, meus ânimos não são melhores do que os do indivíduo que cai no meio da ‘Place de l’Opéra’ e quebra as duas pernas”.

Mas por que Kafka insistiu, ainda que escutasse “as consoantes se chocando com ruído metálico”? “Minhas dúvidas formam um círculo em torno de cada palavra; vejo-as antes que a palavra […]”, ele afirma e prossegue, cheio de incertezas. Sentindo-se “estéril como uma pedra”, Flaubert também foi adiante. E hoje, quando lemos o resultado dessas angústias, perguntamos qual o motivo de terem feito o que não é prazeroso.

Para um tempo como o nosso, em que o hedonismo quase sempre dita as escolhas, é difícil compreender. Mas o escritor sabe a resposta. Sabe que o prazer é o que menos importa na felicidade — como lembra Ortega y Gasset em seu ensaio “Sobre la caza” —, porque a felicidade consiste sempre “numa atuação, numa energia e num esforço”.

novembro 13, 2014

Como o escritor deve ler?

Há várias formas de leitura. Lemos para passar o tempo, para escapar de nós mesmos, para nos afastar de preocupações e angústias. Ou, ao contrário, para nos aproximar ainda mais do que somos ou desejamos ser. Num dia em que as idéias estão emperradas, o início do “Endymion”, de John Keats, produz, para mim, o mesmo efeito de uma viagem ensolarada.

Mas como o escritor deve ler?

Talvez deseje apenas o entretenimento, mas o melhor que pode fazer por si mesmo é ler com o lápis na mão e o caderno de anotações ao lado, decidido a observar a construção de cada cena, de cada personagem, disposto a ir e voltar nas páginas, como o viajante que, tendo apenas a bússola e um mapa cheio de falhas, é obrigado a ir e voltar sobre seus próprios passos.

A leitura inocente não é mais possível para o escritor que deseja aprender. Sua tarefa é decifrar o segredo dos que o antecederam. E aprender com eles, sem medo de ser influenciado. Sua personalidade e o exercício constante da escrita se encarregarão de transformar as lições que estudou no seu próprio estilo.

novembro 12, 2014

Escritores e disciplina

No último final de semana, lembrei-me, por várias razões, de Ernest Hemingway. Muitos não sabem que ele escrevia de pé, apoiado a uma espécie de atril ou qualquer outro suporte em que, primeiro, pudesse usar lápis e papel — e depois, quando o texto começasse a fluir com arrebatamento, passar à máquina de escrever. Começava no nascer do sol e prosseguia, sem parar, até algum horário em torno do meio-dia: “Escrevo até chegar a um momento em que, ainda não tendo perdido o gás, posso antecipar o que vem em seguida”. Anotava o número diário de palavras, fazia hora extra quando, por algum motivo, não poderia escrever no dia seguinte — e, manhã após manhã, ao reiniciar o trabalho, reescrevia o que produzira no dia anterior. Questionado sobre seu método, ele não deixa dúvidas: “Disciplina se conquista”.

Esse comportamento enérgico revela muito da personalidade de Hemingway — e também serve como estímulo aos escritores que estão sempre inventando uma desculpa para a própria indolência. A eles, Hemingway dedicou sua ironia: “O fracasso e a covardia bem disfarçada são mais humanos e mais amados”.

novembro 07, 2014

Descobrir a voz interior

A maior dificuldade que um escritor enfrenta é descobrir sua própria voz. Uma voz que ele modulará a cada novo narrador, a cada nova trama. Estamos sempre ouvindo outras vozes — ou pensando sobre como nossa voz deveria se expressar, com que inflexões, obedecendo a quais nuances. É preciso silenciar a tagarelice da própria mente e do mundo exterior. Sozinho, em silêncio e rodeado pelo silêncio, olhando a página ou a tela em branco, o escritor deve enfrentar a primeira tarefa: deixar sua voz vir à tona. Deixar ela emergir das regiões obscuras que, quase sempre, esquecemos de visitar. Diferente do que imaginamos, contudo, não se trata de uma descida ao Inferno. Não. Passo a passo, descobrir a voz interior é uma subida rumo a pontos mais altos, onde o horizonte se amplia e a luz revela o que não veríamos se estivéssemos ao rés do chão.

outubro 27, 2014

Nova turma do curso Bases da Criação Literária


O curso “Bases da Criação Literária”, cuja primeira turma, em 2012, foi um sucesso, está de volta. Regravei, em alta definição, todas as aulas — e adicionei uma 5ª aula, dedicada ao tema do humor, da ironia. Nesta nova edição, que começa no próximo dia 4 de novembro, haverá também uma 6ª aula, ao vivo, exclusivamente para esclarecer dúvidas dos alunos. Além disso, fiz um grupo, só para os alunos, no Facebook — e participarei dele, trocando informações e dicas. Todos os detalhes sobre como se inscrever estão nesta página.

março 10, 2014

Cursos on-line: a literatura como forma de realização pessoal

A internet permite hoje uma comunicação direta, clara – e com abrangência crescente. Quem imaginaria, há vinte anos, que um curso ministrado de algum ponto perdido no planeta poderia ser visto, ao vivo, por milhares de alunos de todos os continentes?

Nos últimos semestres, tenho realizado uma experiência frutuosa com meus cursos on-line. Semelhante ao que faço na crítica literária, busco romper com os lugares-comuns que hoje são disseminados em cursos e workshops. É um trabalho no qual abandono os modismos e procuro ensinar literatura sem jargões acadêmicos, sem discursos herméticos, mas tratando a literatura como “uma das vias régias que conduzem à realização pessoal de cada um” – idéia de Tzvetan Todorov que endosso plenamente.

Estes são os cursos disponíveis até o momento:

1. Bases da Criação Literária: estudamos, em 4 aulas, os elementos que compõem a criação literária, antecedendo-a ou fazendo parte intrínseca dela: qual a relação do escritor com a realidade? A inspiração é um mito? Qual a importância da ética e da tradição? Como a privação ou a derrota influenciam a criatividade?

2. Prática de Leitura e Formação do Estilo: em 12 aulas, mostro que precisamos abandonar a desconfiança e o cinismo em relação à linguagem. E, o principal: quem deseja criar seu próprio estilo de escrever deve reaprender a arte da leitura, entendida como ferramenta indispensável para a) descobrir as possibilidades expressivas da linguagem e b) absorver e transformar os estilos que se tornaram clássicos.

3. A Descoberta do Ensaio: analiso diferentes tipos de ensaio, gênero literário maleável, que oferece incrível liberdade de trabalho. Por meio da leitura crítica de 13 ensaístas, os alunos conhecem procedimentos estilísticos diversos e reúnem elementos que contribuam à formação do próprio estilo.

4. Joseph Conrad: em 4 aulas, desenvolvo a leitura crítica de algumas das narrativas fundamentais do escritor Joseph Conrad. O que ele tem a dizer para o homem contemporâneo? E para os escritores de hoje? São as duas perguntas que norteiam as leituras dos contos Mocidade e O Parceiro Secreto, da novela O Coração da Treva e do romance O Agente Secreto.

5. História da Literatura Ocidental — o magnum opus de Otto Maria Carpeaux: o curso, num total de 14 aulas, começa nesta próxima quarta-feira, dia 12 de março. Iniciaremos pela biografia de Carpeaux, até hoje nebulosa, a fim de, inclusive, contextualizar seu trabalho no panorama literário nacional. A seguir, examinaremos suas influências – de Johann Gottfried von Herder a Benedetto Croce e Ángel Valbuena Prat – e a idéia de história da literatura que ele planejou escrever. Depois, estudaremos as 10 partes que compõem a História da Literatura Ocidental, analisando o método e o estilo de Carpeaux.

Outro aspecto positivo da Internet é que meus alunos não são obrigados a assistir às aulas ao vivo, pois vídeos e material didático permanecem gravados no site – e os cursos podem ser feitos a qualquer momento.

Observação: – Para esclarecer dúvidas e analisar a ementa de cada curso, basta seguir os links presentes na minha página no Cedet On-line.