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outubro 11, 2011

Centelhas de verdade: Chamfort, Kraus, Lichtenberg, La Rochefoucauld

Entre o final de 2009 e meados de 2010, as livrarias brasileiras receberam dois importantes lançamentos, escritos por autores jamais traduzidos entre nós, e que, infelizmente, continuarão a não receber maiores cuidados. Creio, por inúmeras razões, que devemos nos contentar com esses livros, independente do fato de tais pensadores – Sébastien-Roch-Nicolas de Chamfort (Máximas e pensamentos & Caracteres e anedotas) e Karl Kraus (Aforismos) – terem deixado várias obras. É uma pena. Para os que leem outras línguas, isso não traz, claro, nenhuma dificuldade, mas para a massa que só domina o português, esse vazio editorial é um obstáculo à cultura, à inteligência.

As pessoas, evidentemente, podem acreditar que é possível ter uma ótima vida sem ler Chamfort, Kraus e quaisquer outros; e, de fato, a imensa maioria chega ao túmulo, em pleno século 21, mantendo-se afastada dos livros ou satisfazendo-se com uma insalubre mistura de romancinhos kardecistas e obras de autoajuda. Chamfort, aliás, escreveu um ótimo aforismo sobre o assunto: “O que faz o sucesso de grande quantidade de obras é a relação que se encontra entre a mediocridade das ideias do autor e a mediocridade das ideias do público”. Sabemos, contudo, o quanto esse comportamento é fruto da ignorância, o quanto essas escolhas são ditadas não pela vontade consciente dos leitores, mas por uma mescla de incultura, propaganda e obscurantismo (o que, aliás, sempre existirá). E temos consciência de que ler Chamfort ou Kraus – e também, para ficarmos no âmbito dos aforistas, La Rochefoucauld ou Lichtenberg – pode não tornar a vida melhor, mas, certamente, tem o poder de expandi-la, aprimorando nossa maneira de ver o mundo e de encarar nossas limitadas possibilidades de escolha, além de diminuir a cegueira e os tantos deslumbramentos de que somos acometidos, que nos fazem perder tempo com um sem número de coisas vãs.

Agudeza e concisão

Chamfort e Kraus ficaram famosos por seus aforismos. Percebam que não falamos aqui de provérbios ou ditos espirituosos, bons para enfeitar diálogos fúteis ou conceder ao falante um verniz de falsa erudição. O aforismo é uma forma de refletir sobre a realidade, de problematizá-la. Sua precisão serve bem à ironia e ao sarcasmo, pois transforma o pensamento numa seta que fere sem alarde, cujo zunido quase imperceptível sintetiza um erro, um absurdo, às vezes certa mentira renitente.

De origem multíplice – os estudiosos o encontram na Escola Hipocrática, nos livros sagrados da Índia, nos ensinamentos de Confúcio ou Lao-Tsé, e também na Bíblia, incluindo uma das leituras prediletas de Machado de Assis, o Eclesiastes –, o aforismo pretende ser uma epítome de frações do vivido ou do observado. Do mesmo modo, ele se assemelha – se for possível tal imagem – a um pequeno abismo, no qual o aprofundamento do tema soma-se à brevidade da expressão. Destituído de enredo, paira acima do tempo e do espaço, pois qual civilização ou que homem não encontrará verdade ao ler: “O que foi, será, o que se fez, se tornará a fazer: nada há de novo debaixo do sol!”?

Pleno de agudeza e concisão, no centro do aforismo pulsa uma força que pretende depurar a existência sem necessitar de argumentações. E quanto mais elaborada a frase por meio da qual o pensamento se expressa, mais o aforismo denuncia a banalização da linguagem. Manifestos contra o senso comum, julgamentos insólitos, exemplos de engenho linguístico, os aforismos estimulam nossa inteligência, obrigam-nos a refletir.

Vítima dos jacobinos

Segundo o que diz Cyril Connolly, em seu angustiado The unquiet grave, Chamfort era “um filósofo sem esperança e sem compaixão”, além de “bufão cínico e mimado pela corte” que ele trairia ao apoiar a Revolução Francesa. Pensionista da monarquia, secretário de Louis Joseph de Bourbon, príncipe de Condé, e depois secretário do próprio rei, foi dos primeiros a invadir a Bastilha, tornando-se um agitador das massas. O que ele desconhecia, contudo, é que a nova classe no governo não possuía a fleuma dos aristocratas, não era capaz de rir de si mesma ou de aceitar críticas, principalmente as irônicas – característica, aliás, não só dos jacobinos, mas da esquerda em geral.

A partir do momento em que começa a desaprovar os excessos da revolução, Chamfort sintetiza a ética jacobina: “Seja meu amigo – ou eu te matarei”. De fato, acaba preso por seus companheiros no ano de 1793. Julgado, é absolvido, mas logo depois recebe nova condenação. Em desespero, reage com uma tentativa de suicídio: o tiro na têmpora arranca-lhe o nariz e um pedaço do maxilar, mas não o mata. Usa, então, o abridor de cartas que encontra sobre a escrivaninha, primeiro ferindo o pescoço, depois o peito – e ainda assim sobrevive. Morre meses mais tarde, talvez de uma septicemia. Infelizmente, não seria o último a sofrer nas mãos dos que prometem o Paraíso na terra. E sabia do que seus amigos eram capazes, pois certa vez escreveu: “O homem no estado atual me parece mais corrompido pela razão do que pelas paixões”.

Suas máximas podem ser repletas de humor – “Um tolo que tem um momento de espírito espanta e escandaliza, tal como cavalos de carroça a galope” – ou de acrimônia – “Os burgueses, por uma vaidade ridícula, fazem de suas filhas o adubo para as terras das gentes de qualidade” –, mas guardam sabedoria e triste atualidade: “Um autor, homem de gosto, é, no meio desse público blasé, o mesmo que uma meretriz no meio de um círculo de velhos libertinos”.    

Contra a imprensa

Encontramos mal-estar semelhante ao de Chamfort nos aforismos de Karl Kraus. Morando em Viena, entre a derrocada do Império Austro-Húngaro e o início da II Guerra Mundial, ele foi testemunha do que Hermann Broch classificou de “alegre Apocalipse”. Em 1899 funda A Tocha (ou O Archote), publicação que editará sozinho durante trinta anos e na qual denuncia os absurdos de sua época, principalmente a forma como jornalistas e intelectuais justificavam o antissemitismo e a violência. Chama-os de “traidores da humanidade”.

Contestador da psicanálise – “É a doença cuja cura ela pretende ser “ –, Kraus é definido por Freud, erroneamente, como “um louco idiota com grande talento histriônico”. Se fosse apenas isso, alguns jornais não fariam, logo após a I Grande Guerra, uma campanha pedindo sua morte.

Revolucionário para alguns, reacionário para outros, Kraus apontou, sem medo, a covardia, o silêncio e a cumplicidade de intelectuais e jornalistas, mestres da incoerência e do descompromisso com a verdade. A imprensa, em sua opinião, era, essencialmente, uma corruptora da linguagem, capaz de utilizar eufemismos para qualificar a guerra e, logo a seguir, o avanço do nacional-socialismo. Kraus usa a ironia e a sátira, portanto, como instrumentos para se contrapor à linguagem deturpada pela ideologia e destituída de seu principal poder: o de criticar. Foi um lutador solitário, a voz da consciência de um tempo em que os homens perderam a razão: “Tendo bom ouvido, ouço barulhos que os outros não ouvem e que me perturbam a harmonia das esferas que os outros tampouco ouvem”.

Os elogios que Otto Maria Carpeaux escreveu sobre ele – “Assim como a teologia moral é a técnica de revelar os pecados, assim a arte satírica de Kraus é uma técnica de filologia moral” – encontram justificativa em cada um dos seus aforismos: mostrou-se implacável com jornalistas – “O que a sífilis poupou será devastado pela imprensa. Nos amolecimentos cerebrais do futuro, não se poderá mais constatar a causa com segurança” –, com certos escritores – “A ironia sentimental é um cão que ladra para a Lua enquanto mija sobre sepulturas” –, com as mulheres – “Vista de perto, muitas vezes uma mulher nos decepciona. Sentimo-nos atraídos porque ela aparenta ter espírito, e ela o tem” – e com os mitos que subsistem até hoje – “O progresso faz porta-moedas de pele humana”. Carpeaux está certo: “Karl Kraus é o maior escritor satírico e o maior moralista da literatura alemã”.

Um gigante

Kraus era leitor assíduo de outro brilhante aforista, sobre quem escreveu: “Lichtenberg cava mais fundo do que qualquer outro, mas não volta à superfície. Ele fala sob a terra. Só o escuta quem também cava fundo”.

Lido e citado por Kant, Thomas Mann, Goethe, Wittgenstein, Musil, Canetti e muitos outros, Georg Christoph Lichtenberg foi, além de satirista, matemático e físico experimental, professor da Universidade de Göttingen, apaixonado pela Inglaterra – chegou a ser preceptor dos filhos do rei Jorge III –, eleito para a Royal Society em 1793. Formou, com Christoph Martin Wieland e Gotthold Ephraim Lessing, o trio responsável pela divulgação de Shakespeare na Alemanha. Leitor devotado dos ingleses, recomendava aos alemães que não perdessem tempo com o Werther, de Goethe, mas se dedicassem a Daniel Defoe, Jonathan Swift e Laurence Sterne, o que, de certa forma, confirma sua revelação autoirônica: “Na realidade, fui à Inglaterra para aprender a escrever em alemão”.

Hipocondríaco e supersticioso – obcecado pela ideia da morte, tinha o hábito de contar os enterros que passavam sob sua janela –, um acidente sofrido na infância marcou-o com uma corcunda e dificultou seu crescimento, deixando-o pouco maior que um anão. Mas, salientemos: isso não impediu Lichtenberg de ter êxito com as mulheres.

Editor e escritor de almanaques, transformou esses anuários de temas populares, para os quais escrevia artigos de divulgação científica, num grande sucesso. Quanto aos seus inúmeros cadernos de notas (escritos de 1765 a 1799), a publicação se estendeu por vários anos, e só em 1971 os leitores tiveram acesso à obra completa.

Em permanente polêmica com alguns de seus contemporâneos, Lichtenberg alcançou influência espantosa. Kierkegaard chamava-o de “Voz no deserto” e Schopenhauer escreveu paráfrases de seus textos em O mundo como vontade e representação. Seus aforismos revelam argúcia surpreendente – “Na verdade, há muitos homens que leem apenas para não pensar” –, profunda visão ética – “Onde a moderação é um erro, a indiferença é um crime”–, capacidade para rir de si mesmo – “Ao longo de minha vida outorgaram-me tantas honras imerecidas, que eu bem poderia me permitir alguma crítica imerecida” – e certo lirismo – “Uma moeda de um centavo é sempre preferível a uma lágrima”.

Poucos, pouquíssimos tiveram sua obra colocada em tão alta conta por Otto Maria Carpeaux, que assim se referiu aos Aforismos: “Exilado numa ilha deserta, eu levaria este pequeno breviário de sadio bom senso, ao lado de Marco Aurélio e dos Pensées de Pascal, sem ofender aos meus santos. Lichtenberg, também, é um companheiro eterno”.

Delicada malevolência

Nesta rápida ciranda em torno do gênero aforístico, encerremos falando sobre um dos autores prediletos de Lichtenberg: François VI, duque de La Rochefoucauld, príncipe de Marcillac, membro de uma das famílias mais antigas da França. La Rochefoucauld lutou contra os cardeais Richelieu e Mazarin, participando ativamente – e sem sucesso – do confuso período da Fronda. Suas decepções foram tantas, que aos 48 anos se retirou da vida pública e passou a se dedicar exclusivamente à escrita. Publica Máximas e reflexões, conjunto de epigramas pessimistas e contundentes, em 1655. Edição a edição, revisará os textos, atenuando seu caráter ferino e dando-lhes mais brilho, maior concisão.

Desengano e ressentimento fizeram nascer esse livro. Para La Rochefoucauld, o mundo é movido por interesse e egoísmo – e são esses dois comportamentos que provocam, inclusive, as atitudes aparentemente virtuosas. Longe de criar um sistema filosófico, ele apenas insiste na tese de que o mal impulsiona todos os gestos humanos. Mas ainda que possamos discordar do seu pessimismo, suas frases nos encantam, pois ele escreve com leveza, delicada malevolência, fazendo jogos de paradoxos nos quais brilha uma inteligência extraordinária. Superficiais ou não, verdadeiros ou não, seus aforismos são lições de estilo, de habilidosa capacidade para condensar a linguagem.           

Na opinião de La Rochefoucauld, “como mortais, tememos todas as coisas, como imortais as desejamos todas”. Inflexível na sua visão dos homens, ele afirma que “esquecemos facilmente nossos erros quando só nós os conhecemos” e que “se não tivéssemos defeitos não nos agradaria tanto notá-los nos outros”. Mas nosso aforista também pode cunhar frases de finíssimo humor: “Há casamentos bons, mas não os há deliciosos”.    

Fragmento moral

Para alguns, subjacente à arte do aforismo encontra-se apenas uma simplificação que falseia a realidade – juízo ao qual me oponho. Todos os aforistas analisados aqui estão muito além dessa frágil leitura. E o mesmo pode ser dito daqueles, tão essenciais quanto estes, de que não pudemos falar: o conceptista Baltasar Gracián y Morales; o infelizmente desconhecido Nicolás Gómez Dávila e seus geniais, intrépidos escólios; o veemente Ambrose Bierce; e tantos outros.

Malabarismos linguísticos, investigações acerca das leis que regem nossa conduta, sentenças que se contrapõem às loucuras e idiotices de uma época: os aforismos nascem na tênue fronteira entre a literatura e a filosofia. Fórmulas esmeradas, contraposições à verbosidade que concentram escárnio, denúncia, humor e lucidez, eles revelam, numa centelha, certo fragmento moral – quase sempre, apontando o que preferimos ocultar ou desconhecer.

outubro 06, 2011

O antirrevolucionário

Durante os primeiros meses da república, entre novembro de 1889 e junho de 1890, um brasileiro residente na Europa escreve, utilizando o pseudônimo de Frederico de S., seis longos ensaios sobre o golpe militar e seus desdobramentos. Publicados na Revista de Portugal, que pertencia a seu amigo íntimo, o escritor Eça de Queirós, os textos, reunidos sob o título de Fastos da ditadura militar no Brasil, são paradigmas do melhor publicismo, análise cética, arguta e irônica da ditadura que transformou o país politicamente estável numa farsa cujos principais personagens — exatamente como nos dias de hoje — são a demagogia, o empreguismo e a corrupção.

— Este é um trecho do ensaio que publiquei na edição deste mês do Rascunho, no qual falo de Eduardo Prado, o “reacionário magnífico”.

setembro 12, 2011

Joaquim Nabuco – o antifilisteu

No Rascunho deste mês, meu ensaio sobre o clássico Minha formação, de Joaquim Nabuco.

Leiam um trecho:

No ensaio “Um capítulo da higiene mental dos artistas”, Hermann Hesse fala sobre a importância do ócio na vida do escritor. O tom às vezes exageradamente hedonístico dessas páginas não me agrada, mas o romancista alemão está certo quando diz que “o trabalho intelectual se deixa envolver e dominar” cada vez mais “pela atividade industrial rude e violenta, sem tradição e bom gosto” e que “retalhamos o tempo em pequenos e ínfimos pedaços, dos quais cada um tem ainda o valor de uma moeda”. O texto, escrito em 1940, permanece atual, com um agravante: a arte, contaminando-se, de maneira crescente, do corriqueiro, do vulgar, passou a obedecer a certo filistinismo hostil, zombeteiro até, em relação à estética que, repelindo a demagogice, anseia preservar um mínimo de virtuoso requinte. Nabuco tinha perfeita consciência disso e denunciava que “o público, o protetor moderno das letras, cuja generosidade tem sido tão decantada, não passa de um Mecenas de meia-cultura”. Não por outro motivo ele alertou, 40 anos antes de Hesse, que

a primeira condição para o espírito receber a impressão de uma grande criação qualquer, seja ela de Deus, seja das épocas — nada é puramente individual —, é o repouso, a ocasião, a passividade, o apagamento do pensamento próprio […].

setembro 06, 2011

O ironista macambúzio

Costumo afirmar, para desagrado de meus amigos nacionalistas, que o Brasil é um país primitivo. E, para infelicidade deles, os fatos confirmam minha certeza. Em qual país civilizado, um crítico, escrevendo seu texto em 2011, poderia reclamar, ao se referir a certo autor de inegáveis méritos, que sua obra se encontra esquecida, salientando que a mesma afirmação já fora pronunciada na década de 1940, em 1967 e, novamente, dez anos depois?

O escritor é o maranhense João Francisco Lisboa. E os principais defensores de sua memória formam um trio respeitável que, ao longo do século XX, malhou em ferro frio. No início da década de 1940, Álvaro Lins, então diretor da Coleção Joaquim Nabuco, da falecida Americ Editora, ao pensar em “livros antigos, esgotados ou pouco acessíveis” do século XIX, imediatamente lembrou de Lisboa. Graças a Lins, Octávio Tarquínio de Souza pôde organizar os volumes das Obras escolhidas, publicados em 1946. Vinte e um anos depois, João Alexandre Barbosa, em seu lúcido ensaio de introdução ao volumezinho da Coleção Nossos Clássicos (Editora Agir), mostrava-se enfático: “A obra de João Francisco Lisboa, apenas superficialmente referida nos nossos tratados de história literária ou somente lembrada em discursos comemorativos [...], obra que tem sido louvada sem ser lida ou que, e vem a dar no mesmo, se conhece tão somente de antologias da língua portuguesa [...]”, é “uma obra esquecida”. Finalmente, dez anos mais tarde, Maria de Lourdes M. Janotti lamentaria, no mais alentado estudo da vida e da obra do maranhense – João Francisco Lisboa: jornalista e historiador (Editora Ática) –, o fato de ele ser “um desconhecido para o país”, e que, descontados os poucos testemunhos de seus contemporâneos, o pesquisador que pretendesse estudá-lo se depararia com “um grande vazio bibliográfico”.

De fato, a bibliografia de – e sobre – João Francisco Lisboa é das mais pobres. A primeira edição de suas Obras completas foi publicada entre 1864 e 1865; no ano de 1901, uma nova edição surgiu, em Portugal; daí, saltamos para 1946, com as Obras escolhidas; e de lá para cá os problemas só se agravaram. Às vezes algum editor oferece uma surpresa, como as edições de Vida do Padre Vieira, pela extinta Jackson, ou os Apontamentos para a história do Maranhão, que a Vozes publicou em 1976, ou a Crônica política do Império, editada pela Francisco Alves em 1984. Hoje, quem pretende conhecer um pouco de Lisboa deve encetar penosa jornada pelos sebos, ou se satisfazer lendo excertos da sua obra mais famosa, Jornal de Timon, publicados pelas editoras Cia. das Letras (1995) e do Senado Federal (2004).

Mata-se, assim, com edições minguadas, esse escritor dono de estilo inigualável, verdadeiramente clássico, de páginas cujo poder descritivo só pode ser qualificado como surpreendente. Não há exagero, acreditem, quando afirmo que não termos edições dos seus folhetins –“Procissão dos Ossos” e “Festa de Nossa Senhora dos Remédios”, por exemplo, lançados quando ele era redator do Publicador Maranhense, em 1842 – ou dos “Retratos” que escreveu sob o pseudônimo de Zumbido – em 1843, no Echo do Norte – diminui a nossa literatura. E para que não me acusem de empreender, nesta série de ensaios, uma campanha difamatória contra certos românticos, repito apenas o julgamento de Álvaro Lins:

[...] Quando já envelhecida ou ultrapassada uma ideia de João Francisco Lisboa, ainda assim permanece íntegra e atualizada a forma em que ele a exprimira. [...] Que se compare a prosa do autor do Jornal de Timon, pelo senso estilístico e pela estrutura literária, com a de seus contemporâneos [...], sem excluir José de Alencar, de expressão formal tantas vezes insuportável na frouxidão ou vacuidade do seu verbalismo [...] – e ver-se-á, então, que João Francisco Lisboa não parece só um escritor de outra época, mas até de outro país e de outra literatura. Como prosador, aproxima-se dele, naquele tempo, tão só Manuel Antônio de Almeida (in A glória de César e o punhal de Brutus).

Edições

Não seria próprio de um país primitivo que tenham restado, de tal escritor, tão poucas opções de leitura neste início do século XXI? Exatamente por esse motivo, somos obrigados a nos ater ao Jornal de Timon: trata-se, como dissemos, da única obra que ainda pode ser encontrada nas livrarias. É, aliás, sintomático que apenas esse livro – compêndio avassalador sobre as formas de corrupção, principalmente nos processos eleitorais – tenha sobrevivido ao esquecimento: o fato de termos duas edições do Jornal de Timon parece dizer que nosso país insiste em se olhar ao espelho, sem, ao que parece, enxergar-se. E, terrível ironia – semelhante às do próprio Lisboa, exímio ironista –, a obra mais completa é a publicada pela Editora do Senado.

Porém, antes de seguirmos em frente, a expressão “mais completa” exige explicações: a edição do Senado, apesar de trazer mais textos que a da Cia. das Letras, não apresenta o “Prospecto do Jornal de Timon”, escrito para ser uma introdução à obra. A da Cia. das Letras, por sua vez, traz o “Prospecto” mas descarta os folhetins iniciais, em que Lisboa estuda as eleições na Antiguidade, na Idade Média e nos tempos modernos. Finalmente, nenhuma das duas oferece os últimos folhetins, de 1858, escritos quando, vivendo em Portugal – recolhido à pesquisa de documentos sobre a história brasileira, função em que substituiu Gonçalves Dias –, Lisboa retomou a publicação interrompida em 1853.

O leitor, portanto, ainda que possa desfrutar, em ambas as edições, da parte mais significativa do Timon – “Partidos e eleições no Maranhão” –, ou perde os textos esclarecedores do início, ou fica sem saber que direção o autor tomou depois de ter praticamente esgotado seu tema principal. Suspensos num desagradável vácuo, somos obrigados a ler apenas o que os editores consideraram importante – sem, no entanto, conhecer seus critérios de avaliação.

Nasce Timon

A leitura dos textos que antecedem a parte central da obra nos revela os processos de formação do periódico – que foge completamente aos padrões contemporâneos – e de construção do narrador, Timon, inspirado no filósofo homônimo da Antiguidade, autor de poemas satíricos. Depois de lermos o “Prospecto”, que não deixa dúvidas quanto ao espírito do jornal –

Timon enche a sua obscura carreira em um obscuro e pequeno canto do mundo; e apesar do pouco aviso e desacordo que devera ser o resultado do seu ódio pretendido ao gênero humano, ou pelo menos à geração presente, nem por isso ignora que não é para todo o dizer tudo, em todo tempo e em todo lugar

­–, passamos à construção gradual do pensamento de Lisboa, como se o autor tateasse seu objeto de estudo, tratando primeiro dos crimes eleitorais e das formas de manipulação das massas em tempos remotos, para só depois atacar seus contemporâneos. Ele estuda a forma adequada de se exprimir; quem sabe, testa a reação dos leitores; ou apenas empreende um projeto realmente educativo. Já encontramos nesses capítulos os períodos bem arquitetados, límpidos, de pontuação segura; e descortinamos as fontes do autor: cita Plutarco, tratando-o com intimidade, a ponto de chamá-lo “único amigo”, e também Maquiavel, Montesquieu, Salústio, Tácito, Dickens – e mais à frente, Camões, Cervantes, Molière, Tocqueville e Chateaubriand (deste, Lisboa soube escolher, diferente de Alencar, o melhor livro: Mémoires d'outre-tombe).

O narrador implacável surge timidamente. De início, na segunda parte de “Eleições na Antiguidade”, fala de si como um simples “eu”, repetindo o mesmo procedimento parágrafos depois. A partir desse ponto, se pronuncia cada vez mais, agora referindo-se à sua pessoa como um terceiro – recurso que cria certo efeito de insuspeição, mas que, apesar de sugerir uma respeitosa distância entre Timon e os fatos, coloca o narrador no papel de testemunha ocular ou, pelo menos, de alguém capaz de obter declarações fidedignas. Pari passu, analogias entre exemplos do passado e a realidade do Maranhão começam a aparecer. Quando seus contemporâneos são invocados, tornando-se a matéria principal do texto, a construção do compêndio sobre crimes eleitorais e demagogia – para Timon, mãe de todas as transgressões políticas – chega ao ápice. E se o narrador, pessimista inflexível em relação ao Brasil, pondera que “onde há o mal também podemos encontrar o bem”, logo a seguir salienta: “Falo dos estranhos”.

Ficção

Iniciada a série de nove seções do capítulo “Partidos e eleições no Maranhão”, o leitor não tem dúvidas sobre que tipo de críticas encontrará – mas ainda desconhece as habilidades superiores do narrador: essas páginas se inscrevem entre as melhores da prosa brasileira – e deveriam ser lidas e estudadas por todos os que pretendem conhecer nossa literatura ou redigir em língua portuguesa.

Antes de iniciarmos a leitura, devemos ter claro que abandonamos o porto aparentemente seguro da ciência histórica e nos lançamos à ficção. Mais que utilizar recursos alegóricos – como salientou João Alexandre Barbosa –, Lisboa inventa, imagina, cria um universo particular, com personagens, cenários, diálogos; há dramas subjacentes à narração, ambições se digladiam, e o que se encontra em disputa não é um simples processo eleitoral, mas projetos de vida, individualidades que usam as mais diversas armas para garantir a prevalência de seus interesses. A cada página, sem nos esquecermos de que ele fala muitas vezes de personagens coletivos – os eleitores, o partido, a oposição etc. –, estamos, insisto, distantes do relato histórico, em plena criação fantasiosa, essencialmente ficcional. Não importa que tais páginas tenham sido escritas com intuito diverso, o de fazer severas denúncias ou de comprovar as teses do autor: o resultado escapa ao controle de Lisboa – e ele nos legou algo maior do que planejara.

Vejam, logo no início, o presidente de Província e seu medo de ser substituído, na iminência das eleições, por um adversário, o que acabaria com seu sonho de se candidatar a deputado. À longa descrição dos estados emocionais do político, acrescentam-se os angustiados pensamentos de quem procura se convencer da própria segurança, ainda que a realidade lhe mostre o contrário. Trata-se de um clima febril, no qual há evidente exagero melodramático, recurso que só aumenta nossa percepção sobre a absoluta egolatria desse político:

Só quem observar de perto um presidente candidato no meio destas obsessões e das intrigas que para a sua queda se agiram na corte e na província, ao aproximar-se a terrível quadra eleitoral, poderá compreender a intensidade da longa agonia que o vexa e extenua, até ser coroada pela morte e demissão, ou por um triunfo renhidamente disputado, miserável compensação dos amargos dissabores curtidos, e das cruéis injúrias devoradas.

Então, da fortaleza que guarda a cidade soa o aviso: um navio, trazendo a bandeira imperial, se aproxima. É o fim. Ele será substituído. Sem conseguir tomar as necessárias decisões, o presidente só vê a derrota. Até a rapidez com que o vapor se aproxima é acintosa. E nenhum detalhe escapa ao narrador: do uniforme desbotado da tropa que se perfila para receber o novo governante aos rojões que, sobrepondo-se ao som da música militar, a oposição estoura em diferentes bairros. Semanas mais tarde, quando o deposto embarca de volta à Corte, Timon é impiedoso:

S. Excia. desprendeu-se a custo de seus braços [de um correligionário], e dizem que no momento supremo lançara um derradeiro olhar, baço e vidrado pelo susto da fraudada candidatura, como um pecador não absolvido que partisse para outro mundo.

Antífrases

Se ficássemos dando exemplos da capacidade descritiva de Lisboa, seria melhor apenas transcrever grande parte do capítulo. Há, contudo, um aspecto de sua prosa que desejo ressaltar: a ironia. Apreciador dessa figura, ele se tornou um mestre na difícil e ilustrada arte do ironismo.

Voltando ao início do livro, ao descrever a morte de Fócion, político e general ateniense acusado de traição, Timon relata que o condenado, “no momento fatal, cedeu [...] a precedência para a morte a seus companheiros de infortúnio [...]; de maneira que quando lhe chegou a vez estava esgotada a taça do suplício”. A seguir, vejam com que aristocrática ironia ele descreve a atitude do carrasco: “Então o algoz, homem de uma pontualidade e exatidão que faria honra a qualquer banqueiro moderno, declarou que já tinha feito o seu dever, e certamente não havia aí obrigá-lo a moer outra dose de cegude, se lhe não pagassem primeiro as suas doze dracmas, que era o preço legal”. O enaltecimento do esmero e do profissionalismo, comparando-os aos de um banqueiro, desmerece, é claro, mais este do que o verdugo, mas ressalta a insanidade do gesto, o caráter excêntrico dessa condenação interrompida por uma exigência burocrática, ampliando a frieza e a cegueira das decisões de Estado. Poucas linhas à frente, Timon diz que os atenienses teriam se arrependido da condenação tempos depois; e conclui: “Estes amáveis republicanos tinham esta apreciável qualidade: raro era o homem eminente entre eles que escapasse à morte ou ao desterro; mas o arrependimento vinha sempre após, se bem que ordinariamente... quando já não podia aproveitar”. As antífrases cumprem seu papel – e o leitor percebe qual o verdadeiro sentido dos qualificativos que o narrador concede aos cidadãos de Atenas –, bem como essa compunção absurda, nascida apenas quando a injustiça se tornou irremediável. 

Retornando ao capítulo “Partidos e eleições no Maranhão”, depois que o narrador municiou seus leitores com vários exemplos de corrupção, descreveu em minúcias os métodos escusos de burocratas e políticos, e também explanou sobre os motivos pelos quais a massa obedece a tais figuras, Timon conclui: “[...] As estupendas escolhas que assinalam e salpicam as páginas da nossa história eleitoral, não consentem duvidar que nos Governos populares a estima pública só se ganha por uma moral mais pura, e por um caráter intelectual mais elevado!” [grifo do autor]. A antífrase surge outra vez, pois, no que se refere à história eleitoral, não há, evidentemente, “escolhas estupendas”; no conjunto, o tom grandiloquente da ironia hiperbólica ressalta a zombaria.

Exagerado moralismo

Percebemos, não só pelo discurso irônico, que há um propósito moralizante em João Francisco Lisboa – mas ele talvez fosse movido também por uma ponta de amargor ou de vingança pessoal, pois, em 1840, doze anos antes de iniciar a publicação do Jornal de Timon, tivera sua candidatura à assembleia provincial preterida por uma influente família do Maranhão, fato que o fez se afastar da política até 1848. De qualquer forma, como moralista, se não foi um La Rochefoucauld ou um Chamfort – nem no estilo, nem no que se refere à pluralidade de interesses –, dentro dos estreitos limites em que viveu e estudou conseguiu colocar-se muito acima de seus contemporâneos.

A partir da seção VIII de “Partidos e eleições no Maranhão”, a insistência do narrador nos mesmos temas começa a enfastiar, inclusive porque ele abandona o didatismo irônico e o relato fantasioso, passando a defender princípios teóricos, teses. Sua casmurrice provoca efeito contrário ao desejado e nos leva a um beco sem saída: se toda a sociedade chafurda no crime e na depravação; se todos os políticos são criminosos; se o povo mostra-se sempre apático e manipulável; então não há como aperfeiçoar as instituições, estamos fadados ao crime e à demagogia perenes – e até mesmo as páginas do Timon são inúteis. Além disso, o discurso catastrofista desse pregador esconde uma contradição: se, como vimos, Lisboa participou da vida política de sua época – além de deputado provincial em três legislaturas, foi secretário de governo de 1835 a 1838 –, até que ponto a descrença que ele manifesta é sincera?

Por outro lado, historiadores atestam a veracidade dos problemas descritos por Lisboa. Basta ler “O sistema político do Segundo Reinado”, em Os donos do poder, de Raimundo Faoro, que inclusive cita algumas vezes o Jornal de Timon, ou “Eleições e partidos: o erro de sintaxe política”, em Teatro de sombras, de José Murilo de Carvalho, para constatarmos que, como diz este último, citando Joaquim Nabuco, o Segundo Império foi a “paródia da democracia”. Os poucos defeitos de Lisboa surgem, assim, da falta de distanciamento entre ele e seu objeto de análise, pois o autor não percebe que, apesar de ter-se na conta de imparcial, a paixão turva seu poder de julgar, condenando-o a um exagerado pessimismo.

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Quando residiu em Portugal, João Francisco Lisboa encontrou-se algumas vezes, numa pequena livraria, com Alexandre Herculano; e sua descrição do colega de ofício – “é um macambúzio pior que eu” – fala muito da sua própria personalidade. Mas devemos apagar da obra as páginas carrancudas do evangelizador, para ficarmos com os atributos que contradizem sua autodefinição: a eloquência mordaz, a escrita translúcida, a fabulação inebriante – e o riso ensolarado e destrutivo do ironista.