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março 14, 2013
Lançamento de “Muita retórica – Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha)” em Curitiba
Neste sábado, dia 16, a partir das 14h, estarei na Livraria Danúbio, em Curitiba, para o lançamento de meu livro, Muita retórica – Pouca
literatura (de Alencar a Graça Aranha), publicado pela Vide Editorial. Além dos
autógrafos, o objetivo é fazer um bate-papo sobre literatura e crítica
literária com os presentes. A Livraria Danúbio fica na Alameda Prudente de
Morais, 1.239, Batel Soho. Informações: (41) 3324-1784.
fevereiro 26, 2013
O mal da retórica na literatura brasileira
Álvaro Lins estava coberto de razão quando dizia: “Continuo,
com os elementos do meu ofício, a fazer o exercício de colecionar frases
desproporcionadas. Desproporcionadas entre as ideias, que são magras, e as
palavras, que são muito gordas. Um artifício semelhante ao que realizam os
alfaiates modernos: roupas de atletas para corpos de tísicos. Mas este
artifício, de que resulta um sucesso na arte dos alfaiates, não apresenta o
mesmo êxito na arte literária. O que resulta dele é um aleijão. O aleijão mais
constante da literatura brasileira”.
fevereiro 15, 2013
Escritores: entre a luta e a leviandade
“O momento de
escrever sempre traz para o verdadeiro escritor uma sensação penosa e
angustiante. Uma espécie de sentimento de medo ou de angústia. Certamente que
não é indolência aquilo que o faz adiar o seu trabalho até o último instante
possível. Ao contrário: o verdadeiro escritor ama e deseja o trabalho
literário; e nessa situação mesma é que se encontrará a causa das suas
hesitações. Imagina a literatura com a maior seriedade, e se imagina, por isso,
indigno dela. Experimenta ao escrever um duplo sofrimento: antes, a incerteza,
o receio, o medo de que nada consiga escrever; depois, o desgosto do que
escreveu: a certeza de que o seu trabalho vale muito pouco, ou quase nada,
porque tudo o que realiza se coloca infinitamente abaixo do que imagina e
deseja. Luta dramática esta que se desenvolve, no espírito do escritor, entre a
sua idealização e a sua realização. As ideias, os pensamentos, os planos não
são difíceis em si mesmos; a dificuldade toda se encontra na expressão em
palavras. Não sei nada de mais comovente do que essa luta de um escritor com as
palavras que precisam ser conquistadas e dominadas. Fico assombrado diante da leviandade e da inconsciência com que falsos
escritores jogam com as palavras, como se elas fossem uns brinquedos
inofensivos e fosse a literatura um divertimento sem consequências.”
– Álvaro Lins, em Sobre crítica e críticos.
– Álvaro Lins, em Sobre crítica e críticos.
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fevereiro 13, 2013
A façanha menor
“Não se espera
dos críticos, como se espera dos poetas, que nos ajudem a encontrar um sentido para
nossa vida. Cabe-lhes apenas tentar a façanha menor de descobrir um sentido às formas
em que pretendemos encontrar um sentido para nossa vida.”
– Frank Kermode, em The Sense of an Ending
– Frank Kermode, em The Sense of an Ending
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Frank Kermode
fevereiro 06, 2013
Perfumaria bilaquiana
No Rascunho
deste mês, analiso as crônicas de Olavo Bilac, nas quais estilo pomposo e imagística
pobre somam-se para criar textinhos maçantes, repletos de chavões. O ensaio
completo pode ser lido aqui.
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fevereiro 05, 2013
Ler sempre, mas com método
“Exercício de
vontade. – Ler com método, tomando notas e pondo em ordem, por escrito, as
impressões. Escrever, escrever sempre, todos os dias, escrever mesmo
banalidades, não para publicar, mas como quem pratica um ofício, com a
finalidade de pesquisar os processos da forma. Muitos dos nossos estudos e
leituras são mal aproveitados por falta de método. Voltar a ler certos autores
fundamentais como Bergson e Proust, com o lápis na mão e o caderno nas pernas.
Dominar a preguiça, sufocar o gosto das evasões para livros mais agradáveis
porque mais fáceis; não deixar-se vencer pelo simples prazer da leitura como um
diletante.”
São os sábios conselhos de Álvaro Lins, em Álvaro Lins – sobre crítica e críticos (org. de Eduardo Cesar Maia), que analiso em minha resenha na Folha de S. Paulo do último sábado.
São os sábios conselhos de Álvaro Lins, em Álvaro Lins – sobre crítica e críticos (org. de Eduardo Cesar Maia), que analiso em minha resenha na Folha de S. Paulo do último sábado.
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janeiro 25, 2013
Literatura e realidade: uma página dos diários de Edmund Wilson
[...]
(Em Os anos 20)
Toda literatura
fornece uma visão falsa da vida, porque é o anverso da realidade – o artista
preenche as lacunas de seu caráter ou de sua experiência forjando material
espiritual imaginário.
Em primeiro
lugar, o artista, em suas produções, distorce a vida numa certa direção,
fabrica para ela um rosto falso – e então o leitor, que tende a ser convencido
a acreditar, erroneamente, que a vida é realmente assim para o escritor e
portanto pode vir a ser assim para outrem, tenta na vida real concretizar a
imagem que o artista inventou justamente com o fim de preencher a lacuna de
algo que ele não conseguiu encontrar. No final, as incongruências do sistema tornam-se
claramente visíveis, e o modelo é jogado fora; como resultado, o leitor
recrimina o escritor por ter distorcido a realidade.
A questão é que
os leitores apoiam-se, como quem se apoia
em algo inquestionavelmente real e forte, numa coisa que, para o escritor, era
apenas falseamento confortante e perfeitamente consciente da vida, tal como sua
própria experiência a revelou para ele, de forma desconcertante, uma espécie de
eufemismo feito na esperança – infundada, como ele próprio sabe melhor do que
ninguém – de que, dando tal aparência às coisas, ela possa realmente lhes
atribuir esse caráter – ao sujeitar a totalidade de sua experiência às nuanças
e padrões de seu próprio temperamento, ele se esquece por um momento do mundo
real e incognoscível nesta extensão de sua própria consciência imediata para
preencher – o que, ilusoriamente, parece ocorrer – toda a paisagem da
experiência. Para o leitor, é como se este mundo invertido fosse talvez o mundo
real que ele vem procurando, e, temporariamente, ele pode vir a aceitá-lo.
(Em Os anos 20)
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janeiro 17, 2013
Bruno Tolentino e a “esterilidade palavrosa”
A tese de que a
Semana de 22, quando analisada no contexto da literatura brasileira, foi um
evento não só desnecessário, mas completamente dispensável, ganha força a cada
parágrafo do ensaio Banquete de ossos,
publicado em 1998. “[...] Tragicamente nos apalhaçamos em 22 no vão intuito de
dar o salto que afinal nem demos nem precisávamos dar: o salto mortal (ou
letal?) no trapézio dos andradóides não nos levou mais alto do que andáramos
até então”, denuncia Tolentino, mostrando, logo a seguir, como tudo que houve
de melhor após 1922 nasceu dos autores geniais que existiam muito antes da
Semana de Arte Moderna.
Ensaio para ser lido e estudado. Ensaio que devemos guardar dentro da carteira, numa folha dobradinha, para reler nos momentos de desespero, quando, depois de olhar a estante de literatura brasileira nas livrarias ou ler a opinião de certos críticos nos cadernos culturais, quase massacrados pelo amontoado de estultices, devemos, precisamos lembrar que “não somos uma variante afro-cafuza da lusofonia, nosso dilema não é ‘tupi or not tupi’, é, ainda e sempre, ser ou não ser o que de fato somos: uma grande e sempre por si mesma renovada civilização lusófona”.
O que Tolentino
chama de “ruidoso abalo símio de 1922” na verdade não teria passado – e
realmente não passou – de “um frisson nosso todo particular, de natureza,
fôlego e alcance decididamente paroquiais. Nada nos deu de verdadeiramente
universal que enriquecesse a língua que se queria subitamente ‘autofágica’ já
que o banquete devorou sobretudo nossa gramática. Pouco se acrescentou à ‘realidade’
além de uma amputação gradual das regências verbais, entre outros gracejos;
fenômenos que constituiriam um escândalo em qualquer língua [...]. Presentinho
de grego dos desossados balbucios populistas dos rapazes de 22…”
Ensaio para ser lido e estudado. Ensaio que devemos guardar dentro da carteira, numa folha dobradinha, para reler nos momentos de desespero, quando, depois de olhar a estante de literatura brasileira nas livrarias ou ler a opinião de certos críticos nos cadernos culturais, quase massacrados pelo amontoado de estultices, devemos, precisamos lembrar que “não somos uma variante afro-cafuza da lusofonia, nosso dilema não é ‘tupi or not tupi’, é, ainda e sempre, ser ou não ser o que de fato somos: uma grande e sempre por si mesma renovada civilização lusófona”.
janeiro 14, 2013
Vanguardeiros autistas
O ensaio de Luis Dolhnikoff na Revista Sibila, sobre o
estado atual da literatura brasileira, nasce das matérias publicadas na Folha de S. Paulo há alguns dias, ambas
escritas por Marco Rodrigo Almeida: “Eles não chegam lá” e “Ficção perdeu os leitores, diz autor de 'O Filho Eterno'”.
O raciocínio proposto pelo ensaísta toca no centro de uma importante questão da
nossa literatura, sobre a qual, aliás, venho falando há tempo: “Os romancistas
brasileiros escrevem, de fato, ‘para os amigos’, mas não como motivo primário.
Na verdade, eles não escrevem para o público, que desprezam”.
As consequências dessa atitude subdesenvolvida – mas que é tratada como supostamente vanguardista – não se esgotam, repito, “na leitura obscura, forçosamente aflitiva. Nossos poucos leitores, ávidos por uma literatura que os conduza para longe da mesmice e da banalidade, encontram, nas livrarias, as seções de literatura brasileira abarrotadas de textos herméticos. É fatal, portanto, que sejam raptados para o mundo da subliteratura, tornando-se reféns dos romancinhos kardecistas e de outras tantas panaceias na forma de brochura”.
O texto de Dolhnikoff,
que merece leitura atenta, pode ser sintetizado neste parágrafo acertadíssimo: “A
incapacidade dos escritores brasileiros de criarem livros ao mesmo tempo bons e
prazerosos é apenas a incapacidade dos escritores brasileiros de criarem livros
ao mesmo tempo prazerosos e bons. Eles são, como regra, chatos, porque, como
regra, são pretensiosos. E são pretensiosos por ignorarem o público leitor. Se
não o ignorassem, não poderiam ser chatos, sob o risco do fracasso. Cria-se assim
uma literatura satisfeita para ninguém, ou quase ninguém. Satisfeita talvez,
mas não satisfatória. A menos que se considere a criação literária um hobby, que, de fato, só interessa para
quem o pratica. Mas se se pretende algo além de um hobby, a literatura não pode satisfazer somente quem se dedica a
ela. O público tem de ser posto na equação. Ou nas equações. Pois há uma
simples e uma complexa”.
Denunciando uma
literatura que se pretende de vanguarda, mas que na verdade não passa de
literatura “autista”, o texto retoma, parcialmente, o que apontei há alguns
anos, no jornal Rascunho, no ensaio “Mazelas da narratofobia”: “Parcela dos escritores brasileiros contemporâneos sofre de
uma estranha patologia: escrevem não para satisfazer seus impulsos criativos,
mas, principalmente, para cumprir determinados preceitos. Dito de outra forma,
alguns escritores submetem a criatividade às regras difundidas por supostos
expertos, ou, pior, ao gosto das panelinhas. A escrita se afasta, assim, do seu
verdadeiro caráter — o de exercício de comunicação —, transformando-se num
fetiche. A literatura produzida segundo tais critérios não é só exclusivista,
mas pedante e artificial, além de subserviente: nasce para agradar a uns
poucos, para corresponder àquelas teorias que certos literatos diluíram e
transformaram em receitas aparentemente infalíveis”.
As consequências dessa atitude subdesenvolvida – mas que é tratada como supostamente vanguardista – não se esgotam, repito, “na leitura obscura, forçosamente aflitiva. Nossos poucos leitores, ávidos por uma literatura que os conduza para longe da mesmice e da banalidade, encontram, nas livrarias, as seções de literatura brasileira abarrotadas de textos herméticos. É fatal, portanto, que sejam raptados para o mundo da subliteratura, tornando-se reféns dos romancinhos kardecistas e de outras tantas panaceias na forma de brochura”.
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janeiro 09, 2013
Salvo da banalidade
Escrevo, no Rascunho deste mês, sobre o goiano Hugo de Carvalho Ramos, cujas narrativas (em Tropas e boiadas) estão acima do que se
costumou chamar, entre nós, de regionalismo, termo dúbio e sempre aberto a
revisões. Impregnados de tom épico, alguns contos parecem nascer de episódios
da Chanson de Roland e outras canções
de gesta, com seus personagens heroicos, reticentes no que se refere a
introspecções, mas sempre prontos à presteza e à coragem, aceitando com
naturalidade a vida sob permanente tensão.
dezembro 29, 2012
“Onde a moderação é um erro, a indiferença é um crime”
A síntese da
ética jacobina – e, portanto, da ética esquerdista – foi elaborada por Sébastien-Roch-Nicolas
de Chamfort e permanece insuperável até hoje: “Seja meu amigo – ou eu te
matarei”. Pude experimentar o acerto dessas palavras nos últimos três meses, período
em que lutei, apesar da má vontade de uma minoria, pela prevalência do
verdadeiro.
O melhor fecho à polêmica foi publicado em 23 de dezembro, na Folha de S. Paulo: “A luta de James Joyce para reter o presente”, ensaio no qual pude não apenas colocar em prática minha hermenêutica – como faço desde 2006 no Rascunho e, em algumas oportunidades, na Revista Sibila –, mas defender, novamente e de maneira incansável, o que Georg Christoph Lichtenberg afirma: “Onde a moderação é um erro, a indiferença é um crime”.
Graças à lucidez
da Folha de S. Paulo, os fatos
começaram a ser esclarecidos antes mesmo que eu pudesse me manifestar, em dois
textos: “Crítico tido como severo é jurado ‘C’ do Jabuti” e “Rodrigo Gurgel, o jurado ‘C’, pagou o pato das gambiarras do regulamento”.
Quando,
finalmente, encontrei-me livre para falar, expus meus critérios,
também na Folha de S. Paulo, no texto
“Depoimento: Jurado ‘C’ explica nota zero dada no Jabuti”.
Logo depois, numa
breve entrevista – “Jurado C do Jabuti: ‘Não tentei manipular o resultado’” –,
detalhei algumas questões.
Mas nas duas
entrevistas seguintes – “‘Meu voto não foi maquiavélico nem quixotesco’, diz Rodrigo Gurgel” e, principalmente, “‘O sistema literário brasileiro está doente’, afirma jurado ‘C’ do Jabuti”, diálogo mantido com o editor do Caderno
Ilustríssima da Folha de S. Paulo,
jornalista Paulo Werneck – é que pude ir além da questão das notas, à qual se
apegaram alguns, para falar dos problemas e deficiências subjacentes em nosso
sistema literário, parcialmente revelados pela polêmica.
Essas questões foram
aprofundadas em quatro outras entrevistas: “É fato: os escritores mortos escrevem junto aos vivos”, “Ad Hominem Entrevista: Rodrigo Gurgel”, “A necessidade de um posicionamento crítico” e “‘Estamos muito longe de ter um público leitor’, diz crítico literário Rodrigo Gurgel, o Jurado C”.
O melhor fecho à polêmica foi publicado em 23 de dezembro, na Folha de S. Paulo: “A luta de James Joyce para reter o presente”, ensaio no qual pude não apenas colocar em prática minha hermenêutica – como faço desde 2006 no Rascunho e, em algumas oportunidades, na Revista Sibila –, mas defender, novamente e de maneira incansável, o que Georg Christoph Lichtenberg afirma: “Onde a moderação é um erro, a indiferença é um crime”.
novembro 07, 2012
Simões Lopes Neto: o narrador ideal de Walter Benjamin
A “Mboitatá” é a narrativa mais
admirável. Simões Lopes Neto conseguiu criar um exemplo perfeito de sintetismo,
construindo-o por meio de elementos que, de forma reiterada, transportam-nos ao
universo mítico. Numa cosmologia primitiva, a longa noite está instaurada — e o
que veio antes dela permanecerá incógnito. O homem, anulado diante do cosmo que
se desorganizou, encontra-se no anti-gênesis. Estamos in illo tempore: um passado indefinido, em meio ao caos. A desordem absoluta, que
enche de pavor homens e animais, favorece o surgimento do prodígio maléfico: a
serpente que devora olhos.
outubro 18, 2012
Marisa Lajolo resenha meu livro, “Muita retórica – Pouca literatura”
Marisa Lajolo
faz, neste texto publicado inicialmente no Facebook, um interessante diálogo
com meu livro. Uma leitura que aponta discordâncias, mas de maneira ética,
equilibrada, sábia. Leitura lobatiana, com aquela argúcia que Monteiro Lobato
nunca deixou de lado – e que Marisa Lajolo, decana dos estudos lobatianos, não
poderia deixar de ter.
Vamos a ele!
BOA RETÓRICA E BOA LITERATURA
Marisa Lajolo
Nas cores sóbrias da capa de Muita retórica – Pouca literatura (Campinas, SP: Vide Editorial)
uma figura de rosto borrado parece escrever em folhas que levantam voo e
transformam-se em pássaros. A capa é sedutora. O título intrigante provoca o
leitor. Mas o suspense se desfaz no subtítulo: De Alencar a Graça Aranha.
E é efetivamente pela prosa brasileira que Rodrigo Gurgel –
o autor do livro – passeia, compartilhando com seus leitores juízos sobre
escritores e obras do século XIX e comecinho do XX. Leitor rigoroso, de dedo em
riste e olhar severo, o crítico aponta e discute cochilos e acertos – de
diferentes ordens de grandeza – de nossos escribas.
É claro que o leitor não precisa concordar com Gurgel. Eu,
por exemplo, acho que Lucíola e O cortiço são grandes obras. Gurgel não
acha, mas ele expõe seus argumentos com tanto talento (a boa retórica!) que
fico obrigada a ir buscar os meus para discordar dele. O que é uma bela forma
de a crítica cumprir sua função de aprimorar a leitura.
Aprimorar a leitura literária não é concordar com nosso
interlocutor. Seja ele quem for. É respeitar leituras alheias, pois literatura
é um entrelaçamento de obras e de leituras que as obras receberam. O leitor que
decida em qual malha desta rede quer meter sua colher torta.
Este livro tem bastidores muito interessantes: ele nasce de
ensaios que seu autor publicou inicialmente no excelente jornal Rascunho, de Curitiba. E tem suas
primeiras discussões em formato bastante original. Gurgel lança o livro fazendo
uma palestra no YouTube e disponibilizando em seu blog longa entrevista que deu ao jornal santista A Tribuna.
Claro que nas respostas à entrevista e no calor da hora da
gravação vêm à tona detalhes do livro, outras opiniões de seu autor, enfim,
aquele making off que tanto delicia
fãs (como eu) de filmes em DVD. É aí, nestes bastidores e no day after, que Gurgel aponta, de forma
explícita e direta, um tópico que, no seu livro, é reafirmado ao longo dos
vinte ensaios que o compõem: a pluralidade dos domínios do conhecimento
necessários ao discurso que fala de literatura.
Filosofia, História, Sociologia, Retórica... muitos são os
sotaques que podem entrecruzar-se na fala do crítico e vários deles,
efetivamente, comparecem à fundamentação da crítica de Gurgel. E alguns outros
ele expulsa definitivamente, como os pobres linguistas estruturalistas, por si
mesmos afastados do palco (!) mas imediatamente substituídos por outros
fundamentalismos.
Vem da filosofia – do espanhol Ortega y Gasset – um dos
pressupostos do pensamento de Gurgel. A ideia de que eu sou eu + minha
circunstância inspira a amplificação que o crítico faz de uma obra para além
das palavras que seu autor escreve, e permite a ele (crítico) discutir a obra
entendendo-a como amplificadora da experiência humana.
Foi aí que Gurgel me pegou.
E a circunstância do leitor? E a circunstância do momento de
cada uma de suas leituras? Não seriam determinantes de sua compreensão da obra
e de sua valorização?
Eu, por exemplo, gosto de Inocência, livro que Gurgel considera um romancinho sentimental, onde o diminutivo desqualifica. Lembro
de ter lido o livro com onze para doze anos. Lição de escola, de Dona Maria
Luíza. Mas... havia uma menina na minha classe chamada Inocência, chata como a
peste. Petulante e convencida. Fui ler o
livro com a maior má vontade inspirada na homônima da heroína. Mas o livro me
emocionou: me comoveu a subalternidade da menina ao pai autoritário, a
confiança dela no padrinho, a delicadeza da homenagem representada por dar o
nome dela a uma borboleta...
Vinguei-me de minha colega apelidando-a de papilosa e acho que foi aí que me tornei
leitora de romances e aprendi a lidar com leituras alheias, matéria-prima de
professores de literatura.
Ou seja: como lidar com as infinitas circunstâncias em que
leitores leem o que leem? Este livro de Gurgel sugere várias destas maneiras.
Ele nunca se esquece, por exemplo, de que está falando em público de suas
leituras privadas. Franqueia, pois ao leitor sua circunstância de leitura,
atribuindo a seus leitores reações que bem podem ter sido as suas: se você, leitor, teve vontade de rir, não se
sinta constrangido (115). Ou justificando suas decisões discursivas: ideia sobre a qual nem me darei ao trabalho
de comentar, tamanho o seu despropósito (143).
Ou ainda, mencionando outros críticos e pensadores com os
quais concorda ou dos quais diverge. Ou transcrevendo os textos dos romances
nos quais se apoiam suas observações, ou tirando da estante prosadores que têm
passado em branco na história canônica da literatura brasileira. Desta lista de
prosadores brasileiros do B que Muita retórica – Pouca literatura
apresenta, destaco a agradável surpresa que representa a leitura que Gurgel faz
de João Francisco Lisboa e de Joaquim Felício dos Santos.
Ou seja: todas aquelas folhas em revoada na primeira capa do
livro voltam obedientes à escrivaninha do crítico e compõem um livro
extremamente corajoso e provocador.
Vamos a ele!
outubro 09, 2012
Bilhete aos críticos envergonhados
“Um público que tenta dispensar a crítica e, afirma,
sabe o que quer ou de que gosta, brutaliza as artes e perde a memória cultural.”
– Northrop Frye
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outubro 06, 2012
Hoje, lançamento de “Muita retórica – Pouca literatura” em Santos
Às 16h, estarei na Livraria Realejo, no Gonzaga, para
autografar meu livro e bater um bom papo sobre literatura, crítica literária e os novos lançamentos do filósofo Olavo de Carvalho. Até lá, amigos!
outubro 05, 2012
“A obra literária se completa quando nós completamos a sua leitura”, diz Ortega y Gasset
Acima, o vídeo de minha palestra sobre o livro que acabo de lançar: Muita retórica – Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha). Olavo de Carvalho diz, com acerto, que “a crítica literária é a primeira disciplina filosófica, porque a crítica é a expressão intelectual mais imediata da própria experiência literária”. E a experiência literária, por sua vez, nada mais é que uma abertura à variedade da experiência humana. Ler literatura, portanto, é alargar a imaginação, ampliar nossa visão sobre as possibilidades da existência, inclusive sobre as possibilidades éticas ou morais da existência. Se entendemos a literatura assim, então a função do crítico é mostrar essas possibilidades, tomar o leitor pela mão e mostrar a ele um dos inúmeros caminhos possíveis. Para fazer isso, ele precisa recusar a arrogância epistêmica e o monismo de julgamento que imperam hoje. Ele deve ler a obra literária perguntando também até que ponto ela realmente responde ao que pretendeu ser, se ela realmente consegue ser uma estrutura coerente.
outubro 04, 2012
A salvação pelo duplo – “Maria Dusá”, de Lindolfo Rocha
Ao ler o romance Maria Dusá, de Lindolfo Rocha, é
preciso separar o joio do trigo. É o que faço em meu ensaio deste mês, no
jornal Rascunho.
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outubro 01, 2012
Palestra virtual sobre meu livro, “Muita retórica – Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha)”
Hoje, às 20 h, minha palestra on-line sobre o livro que acabo de
lançar: Muita retórica – Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha). Para
assistir basta seguir este link.
setembro 28, 2012
Palestra virtual sobre meu livro, “Muita retórica – Pouca literatura”
Na próxima 2ª feira, dia 1º de outubro, às 20 h, darei uma palestra
on-line sobre meu livro, Muita retórica – Pouca literatura (de Alencar a Graça
Aranha). Na data e horário marcados, para acompanhar a palestra basta ir ao
site da Vide Editorial e clicar no banner amarelo ou, se preferirem, ir direto à página de transmissão.
Aviso, inclusive, que o livro encontra-se à venda na Livraria Cultura, na Martins Fontes e na própria editora.
Aviso, inclusive, que o livro encontra-se à venda na Livraria Cultura, na Martins Fontes e na própria editora.
setembro 24, 2012
Olavo de Carvalho e “Muita retórica – pouca Literatura”
Não há o que comentar. Só posso agradecer ao filósofo
Olavo de Carvalho pelas palavras amigas a respeito do meu livro, Muita retórica– Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha).
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