Outubro 29, 2011

Anna Akhmátova e o jugo da utopia

A história de Anna, a voz da Rússia – vida e obra de Anna Akhmátova (Editora Algol), escrito por Lauro Machado Coelho, principia, para mim, muito antes de maio de 2008, data da primeira edição dessa obra que, exatamente como todas as grandes biografias, é um gesto de amor, demorada reverência que o biógrafo faz diante do biografado – sem, contudo, abdicar do espírito crítico.

Volto no tempo vinte anos, quando ainda residia no interior paulista. Por uma dessas situações típicas dos países subdesenvolvidos, o único livreiro da cidade demorou quase trinta dias para conseguir um exemplar de Anna Akhmátova – poesia (1912-1964), da Editora L&PM. O volume, também organizado e traduzido por Lauro Machado Coelho, foi minha introdução ao mundo de Akhmátova, em grande parte oposto ao de Maiakóvski e Khlebinikóv, endeusados pela troika concretista e divulgados no Brasil como se fossem os principais poetas da Rússia.

Hoje, a literatura russa já não é mais uma estranha para nós. E graças ao trabalho de alguns poucos bons tradutores, sabemos que o espectro de vozes daquele país esconde relíquias mais complexas, mais ricas do que a voz sincopada e repetitiva de Maiakóvski. Mas trata-se de uma lenta descoberta, sempre inacabada, à qual Lauro Machado Coelho deu sua primeira contribuição naquele distante 1991, quando, dentre outras consequências, certamente de maior importância, empolgou este solitário leitor, perdido em uma cidadezinha medíocre.

Agora, Machado Coelho amplia a dose de elucidação e ensinamento, publicando o resultado de uma vida dedicada a Anna Akhmátova, a mais injustiçada das poetas, a mais perseguida – e também a mais resistente, a mais tenaz. Abrir o belo volume da Editora Algol representou não só uma volta ao passado, não apenas um retorno ao quarto de pé-direito alto e cortinas envelhecidas que eu ocupava na casa de minha avó paterna, no fim do longo corredor sempre na penumbra, mas também um recomeço: estou de pé, no centro do cômodo, retiro da estante a brochura de cor indecisa da Editora L&PM e, subitamente, descubro que minha leitura permaneceu incompleta durante todos estes anos – e que o pequeno livro tem novos capítulos a me oferecer.

O Paraíso

Dentre os diversos méritos de Anna, a voz da Rússia, quero salientar dois. O primeiro se refere ao trabalho de contextualização dos principais personagens da literatura russa moderna. Para o leitor, saber em que circunstâncias os escritores viviam, conhecer suas relações e seus objetivos estéticos pode iluminar os estilos, os temas e as opções políticas. Essa gama de informações liberta o leitor do estabelecido pelo senso comum, incluindo o de considerar Maiakóvski o gênio supremo de um período no qual acmeístas, simbolistas e futuristas lutavam entre si: alguns, de maneira semelhante ao que ocorre hoje no Brasil, propugnavam pelo abandono sistemático de todas as tradições; outros, mais sábios, alertavam para o fato de que “não se poderia conseguir verdadeiro desenvolvimento ignorando-se a tradição histórica e cultural”.

Quanto ao segundo mérito, ele está inserido nesse minucioso trabalho de contextualização. Lauro Machado Coelho destrinça a Revolução de 1917 e os crimes cometidos em nome da utopia comunista, mostrando-nos um Estado criminoso, excitado pelo ímpeto de transformar uma ideologia em religião – e cidadãos em cegos devotos.  

De fato, a ilusão romântica da igualdade absoluta não demorou a mostrar sua verdadeira face, começando pelo líder de 1917: “A impressão, por muito tempo arraigada no Ocidente, de que Liênin [grafia do autor] foi um idealista, cujas boas intenções foram subvertidas pela chegada de Stálin ao poder, não resiste, hoje, ao exame dos acontecimentos daquela época. Foi ele quem montou a infraestrutura de uma polícia política [...] responsável pela torturas e pressões contra os oposicionistas que superaram em brutalidade a Okránna dos tempos da monarquia. E toda a violência do período conhecido como o do Terror Vermelho aconteceu com o seu conhecimento e autorização”.

Esse desnudamento corrobora, aliás, outro ótimo livro: A guerra particular de Lênin (Editora Record), de Lesley Chamberlain, no qual a escritora narra de que maneira o cabeça dos bolcheviques se encarregou pessoalmente da deportação coletiva de intelectuais, transformando o sonho platônico do banimento ideológico em realidade.

Destruir pessoas em nome da construção do Paraíso na Terra tornou-se a regra de um regime totalitário que não deixou, inclusive, de devorar seus próprios militantes. O poeta Aleksandr Blók, por exemplo, proclamava que a “revolução iminente é um apocalipse necessário, para purificar a Rússia de toda corrupção e fazer nascer um mundo de amor e espiritualidade”; mas faleceu prematuramente, aos 41 anos, pois o Partido Comunista, temendo que ele fizesse críticas ao regime, recusou-lhe tratamento de saúde em uma clínica da Finlândia.

Esse verdadeiro estupro social, uma revolução que não apenas tentou modificar o país à força, mas também “subverter as bases espirituais e morais” da sociedade russa, investiria, sem piedade e com inexcedível cinismo, contra Anna Akhmátova.

Ela sofre, desde o início, a perseguição dos críticos pagos pelo Estado: é acusada de “desenvolver nas jovens operárias o sentimento neurótico da mártir submissa”. Mikhaíl Kuzmín, que a elogiara no passado, depois da revolução afirma que sua poesia “estava superada”. Bóris Éikhenbaum, um dos vários formalistas que fizeram escola, inclusive no Brasil, mostra bem a face nada literária e extremamente coerciva da crítica obediente à censura comunista: “Podemos perceber [em Anna Akhmátova] a dupla imagem paradoxal ou, no mínimo, contraditória, da heroína: metade prostituta, ardendo de paixão, e metade freira, orando a Deus e pedindo que a perdoe”. O próprio Maiakóvski, seu amigo, acabou por trair Akhmátova, mencionando-a “como um nome que precisa ser expurgado da poesia contemporânea”, pois só os futuristas podiam expressar “a rica harmonia das novas ideias e emoções”. Outros diriam que ela não passava de “uma poetisa da aristocracia, que perdeu a sua antiga função na sociedade feudal, e não encontrou uma nova na sociedade socialista”. E o perseguidor-mor do stalinismo, Andrêi Jdánov, decretaria: Anna Akhmátova é “uma das representantes do entulho reacionário”; “um dos exemplos padrão de uma poesia de salão vazia e aristocrática”; e copiando Éikhenbaum: “uma mulher que se move entre a alcova e o genuflexório”.

Hoje, esses comentários talvez pareçam risíveis, grotescos. Mas, naquela época, eram decretos que poderiam condenar à morte escritores, músicos e artistas plásticos. Lauro Machado Coelho relata, dentre vários casos, o de Borís Andrêievitch Pilniák – cujo livro, publicado em 1929, na Alemanha, “criticava a desintegração dos ideais socialistas”: o escritor “foi humilhado de todas as maneiras, forçado a fazer abjetos pedidos públicos de desculpas, e foi finalmente preso e executado” – e o de Maiakóvski, que, “encarado como um anacronismo e, incapaz de suportar os expurgos que tinha ajudado a perpetrar contra os outros, cometeria suicídio”.

A Revolução Russa, de maneira semelhante a todos os processos revolucionários da história, representou a institucionalização do sadismo. No auge do terror stalinista, Bukhárin proclamava: “Existe algo de grandioso e ousado na ideia de um expurgo geral”. Pouco tempo depois, ele também seria executado.

O banimento de Anna Akhmátova da literatura russa não recebeu a chancela oficial, mas permitiu uma perseguição vária. Foram anos seguidos escrevendo sem publicar – ou escrevendo, memorizando os versos e queimando-os em seguida. E para conseguir burlar a censura, ela teve de usar artifícios, submeter-se a recursos estilísticos como o de aludir “ao mito ou à História como uma forma indireta de se expressar”. Isolada da comunidade literária, vendo os amigos, o marido, o filho e os amantes serem punidos, torturados e presos, quando não executados, Anna ainda teve de enfrentar os cortes da pensão paga pelo Estado, os meses de espera à frente da penitenciária de Leningrado – mendigando informações sobre o filho –, os despejos e o pavor de, a qualquer momento, também ser encarcerada. A somatização não demorou: crises reincidentes de tuberculose e angina debilitaram sua saúde. 

Lauro Machado Coelho sintetiza bem as opções que restaram à intelectualidade russa: “poucos eram os que protestavam, pois a escravidão ainda era preferível ao túmulo”. A própria Akhmátova, além dos pedidos de clemência dirigidos a Stálin, foi obrigada a escrever poemas patrióticos, dignos dos piores poetastros. Sem dúvida, alcançar o éden pressupõe o esmagamento das consciências.

Por quê?

Mas Anna, a voz da Rússia é também o estudo meticuloso da personalidade e da obra de uma mulher aberta ao amor, capaz de um “sim” irrepreensível à existência, mesmo quando diante das piores angústias, das mais terríveis dificuldades. “Esta é a minha vida”, diz Akhmátova, “assim é a minha biografia. Quem pode recusar viver a própria vida?”
  
O biógrafo enfrenta todos os problemas, incluindo a questão do relacionamento de Anna e seu filho; cria um diálogo inspirador entre vida e poesia; e nos oferece um exaustivo trabalho de tradução. Pode-se desejar mais de um livro? No caso de Anna, a voz da Rússia, sim. Ainda é preciso apontar a ampla e atualizada bibliografia, as citações e notas de rodapé – que se transformam, nas mãos de Lauro Machado Coelho, em ferramentas de um estilista – e o CD com poemas declamados pela própria Akhmátova (em português, por Beatriz Segall). E ainda, finalizando, uma refinada editoração.

“Diga-me,” perguntou, certa vez, Anna Akhmátova, “por que o meu grande país, que expulsou Hitler, com toda a sua tecnologia, considerou necessário passar como um trator sobre o peito de uma mulher velha e doente?” Sem jamais conseguir uma resposta, amando a Rússia, ela dedicou sua vida à poesia.

***

Do ciclo de poemas “Réquiem” (1935-1940)

Poema 5.

Há dezessete meses grito,
chamando-te de volta para casa.
Já me atirei aos pés de teu carrasco.
És meu filho e meu terror.
As coisas se confundem para sempre
e não consigo mais distinguir, agora,
quem a fera, quem o homem,
e quanto terei de esperar até a tua execução.
Só o que me resta são flores empoeiradas
E o tilintar do turíbulo e pegadas
Que levam de lugar nenhum a parte alguma.
E bem nos olhos me olha,
com a ameaça de uma morte próxima,
uma estrela enorme.

(1939)

2 comentários:

samara disse...

estou em um curso eo professor rogerio deu para nós lermos um útimo obrigado gostei muito agora vou acom panhar para melhorar mais o meu con hecimento samara

Rodrigo Gurgel disse...

Bons estudos, Samara! E obrigado pela visita!