agosto 05, 2011

Longo caminho de volta

No inverno, o sol não havia nascido quando eu saía de minha casa, um sobradinho na rua 11 de Junho, e caminhava até o ponto mais alto do Anhangabaú para assistir à primeira missa no Carmelo de São José. Nas manhãs mais frias, éramos quatro ou cinco encapotados, sob a penumbra da nave. O sino tocava, as irmãs abriam as portas da clausura, afastavam as cortinas escuras e, protegidas pelas grades, começavam a cantar. O celebrante era Padre Eugênio, alto, frágil, cuja voz, em certos momentos, não passava de um sussurro, diálogo pessoal com a vítima cuja expiação se repetia sobre a mesa do altar. E víamos, lentamente, a luz da manhã penetrar através do vitral de São Simão Stock e tingir de colorido os bancos de madeira, enquanto o sacerdote erguia o verdadeiro sol, alvo e puro em sua absoluta santidade. Quando saíamos para o jardim, o orvalho brilhava nas folhagens – e fechando o portão de ferro às minhas costas, eu empreendia, agora aquecido, o longo caminho de volta. Quais meus pensamentos naquelas manhãs? Por mais que me esforce, não consigo lembrar – e isso me revela o quanto eu era feliz.

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