Julho 01, 2009

A viagem

O velho ônibus nos leva, em uma tarde de verão, à cidadezinha do interior. Somos cinco ou sete homens, espalhados no ônibus marrom e branco, sem qualquer conforto, suportando o mormaço e a poeira em nome de algo maior: um alfarrabista nos convidou para conhecer a coleção de manuscritos deixada pelo pai, leitor compulsivo que, durante anos, fez copiosas anotações sobre os livros que leu. Somos, portanto, uma comissão de peritos. Não conversamos durante a viagem. Não lemos. Sob o sol de verão, no ônibus sem ar-condicionado, nosso humor não é dos melhores. Mas chegamos. O sebo é amplo, excessivamente amplo. O filho orgulhoso nos recebe – alto, magro, cabelos emplastrados de brilhantina, óculos de aros grossos e escuros –, parecendo um tanto confuso. Depois das apresentações, sentamos em volta da mesa, no centro da loja, e ele traz os volumes, mais de quinze, todos encadernados, de diversos tamanhos. Ao abrir o primeiro da pilha, a surpresa: no alto da página, título, autor e editora do livro – e a data da leitura; e sob a bela caligrafia, tiras de histórias em quadrinhos, várias delas, algumas sobrepostas, todas coladas à página. Folheio o volume, atônito, e descubro que o exercício de colagem se repete a cada obra lida. As páginas, duras de goma-arábica, estão carregadas de recortes de jornal, sem qualquer lógica. A decepção é nítida no rosto de todos. Súbito noto a expressão alheia do nosso anfitrião, o olhar pueril, a palidez. Como não percebemos antes a evidente debilidade mental? Minha atenção, contudo, é desviada para a rua, por onde passam mulheres de maiô, algumas com saída-de-banho, outras penteando os cabelos ainda molhados. Uma delas, loira de cabelos compridos, veste um casaco de peles marrom, cujo decote deixa entrever os seios volumosos. Ela pára na esquina próxima e conversa com um idoso, pergunta-lhe sobre o dentista do bairro – e o velho, sorrindo, banguela, afirma que, graças ao profissional, perdeu todos os dentes. Levanto-me e vou à calçada. Depois, aborrecido, ao ônibus. Quando retorno, já é noite. O sebo está às escuras. Os membros da junta fuçam as estantes, fazem perguntas, querem salvar a viagem. Nosso anfitrião tem o olhar entristecido, derrotado. Ninguém se preocupa em acender as luzes. Então acordo.

2 comentários:

Anônimo disse...

Perfeito, como tudo que escreves. Fiquei com a sensação que tu andas lendo muito os japoneses...:)

Samara

Rodrigo Gurgel disse...

Obrigado, minha amiga. Os japoneses estão sempre aqui, principalmente o nosso querido Kawabata. Grande beijo!