Voltando às epístolas de Ovídio, penso na exagerada fragilidade do poeta em relação ao imperador – mas não estamos também desprotegidos sob um Estado no qual as instituições são precárias e corruptas? Que poder tem, hoje, o cidadão perseguido por uma autoridade injusta? Ele não sofrerá a pena do exílio, mas se não for amigo das pessoas certas, se não dispuser de recursos para contratar advogados, se de alguma maneira for silenciado, quem se preocupará com ele? Alguém realmente acredita que, neste país, estamos livres do arbítrio?
Falta a Ovídio, no entanto, nobreza de caráter. Ou melhor: altivez. Não sabe aceitar seu destino – e perde-se em auto-acusações, humilhando-se inutilmente, desdobrando-se em elogios exagerados àqueles que poderiam ajudá-lo. Choramingas e resmungão, implora inclusive aos que o desprezam. É vergonhoso. E seu comportamento torna-se vulgar quando lembramos que ele não foi despojado dos próprios bens. Maria José de Queiroz – em seu belíssimo Os males da ausência, ou a literatura do exílio (Editora Topbooks) – relata, inclusive, que o poeta “mandara vir criados e um secretário de Roma” e que “recebera boa soma em dinheiro”. E mais: “a administração da província não o via como condenado a pena perpétua. Nem persona non grata. Isentaram-no de impostos e nomearam-no para o posto de agoníteta – presidente dos jogos sagrados”.
Como diz Carpeaux, “não é um poeta sério”. Apegou-se ao tema mais próximo e mais fácil – o culto exagerado de sua dor – e destrambelhou a maltratar seus leitores com sua lengalenga, com “o absurdo da sua pretensão e a tola ingenuidade com que dá voltas e mais voltas em torno de si mesmo, de suas angústias e, também, o que é mais triste, de suas esperanças” (Maria José de Queiroz).
A interrogação que fica, após a leitura, não é desprezível: que tipo de leitor pode apreciar essas cartas lamurientas, desprovidas daquela consciência da própria honra que os gregos nos transmitiram – e que Nietzsche resumiu em seu Amor fati?
Julho 03, 2009
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