Condenado ao exílio pelo imperador Augusto, Ovídio partiu para o litoral do mar Negro – à época, uma terra de bárbaros. De lá, enviou a Roma duas obras: Tristia (Cantos tristes) e Epistulae ex Ponto (Cartas Pônticas). Ambas são coleções de elegias cujo objetivo é comover o imperador – de maneira que Augusto lhe permita viver o degredo em local mais aprazível – e os amigos e familiares, para que não se esqueçam do poeta e, principalmente, abracem a defesa de sua causa.
Duas das Cartas Pônticas (tradução de Geraldo José Albino, Editora WMF Martins Fontes) são enviadas a Fábia, a jovem viúva com quem Ovídio se casara. Na primeira, ele diz que seus sofrimentos o tornaram velho antes do tempo, e que a esposa se assustaria com a degradação de seu corpo. De fato, deve ser terrível envelhecer prematuramente. Mas Otto Maria Carpeaux, que define Ovídio como “excessivamente sentimental”, acusando-o de ter contaminado a literatura universal com assuntos tediosos, está certo. A carta termina com a suposição de que Fábia, agoniada pelos sofrimentos do esposo, também teria envelhecido. Ovídio deseja ser eloqüente, mas sua ênfase na suposta decadência da mulher ressuma afetação.
A segunda carta é mais interessante. Cansado de esperar, Ovídio repreende a esposa:
Não é, pois, estranho que, buscando o término de todos os meus males, eu peça sem cessar outra plaga. Mais admirável é que tu, minha esposa, não ma tenhas obtido e que possas conter as lágrimas por minhas desgraças. Perguntas-me o que fazer? Por que não o procuras tu mesma? Tu o encontrarás, se realmente quiseres encontrá-lo. Querer é pouco: para chegares ao alvo, convém que o desejes com um afã capaz de abreviar o teu sono.
Sua insistência, contudo, torna-se patética. Ele chega a ordenar que Fábia se empenhe inclusive porque, em outros poemas, ela fora citada como exemplo de esposa – e, portanto, deveria provar que os elogios do marido eram verdadeiros. A carta se resume a uma sucessão de exigências, nas quais Ovídio apela até mesmo à lei matrimonial. A cobrança é evidente:
Eu não sou indigno e, se quiseres confessar a verdade, deves a meus méritos algum agradecimento que, certamente, me devolves com grande usura.
E o poeta deixa claro qual sentimento o impulsiona. Em determinado trecho, percebe-se que ele deveria ter recebido notícias pouco agradáveis sobre o comportamento da esposa:
Os ditos indiscretos não podem prejudicar-te, embora o desejem.
Ao receber a carta, Fábia deve ter feito o oposto do que seu marido cobrava. Seria a reação mais previsível diante de um texto no qual o desespero se transforma em presunção, em arrogância. Ao abusar dos recursos que a retórica oferece, Ovídio também exorbita da paciência de seus leitores.
Junho 29, 2009
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1 comentários:
fiquei curiosa. beijos, pedrita
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