Os dias de julho
Mal julho começava, todo o material escolar era socado na parte mais escondida da estante, longe dos nossos olhos e, por trinta dias, longe das recomendações paternas. Bastava dos exercícios de matemática. As guerras e os falsos heróis teriam de esperar um mês, extáticos nas páginas frias da história. E as orações subordinadas – ah!, as orações subordinadas!... – estavam subordinadas ao mais completo esquecimento.
As férias de julho sempre foram as mais belas. O frio das manhãs rachando nossos lábios, o sol que jamais esquentava além da medida certa, a brisa de inverno que erguia nossas pipas, enfeitando o céu sobre o extenso matagal onde hoje, em minha cidade, passa a avenida 9 de Julho... Acreditem: ainda agradeço pelas distantes manhãs azuis, iluminadas, quando a culpa e este amargor inexistiam – e quando toda a filosofia terminava resumida no fascinante empirismo que erguia nossas pipas até o ponto mais alto do céu.
Mas as férias também significavam a liberdade de, por exíguos trinta dias, perder-me nos livros que sempre amei. Quantas tardes deitado na rede da casa de minha avó, lendo As mil e uma noites e devorando as gravuras daquela luxuosa tradução... E bastava que eu desse um passo, atravessasse a rua e lá estava a livraria Anhangüera, com o velho Faggiano a olhar-me detrás dos seus óculos dourados, sorrindo a sua benevolência de monge cisterciense, fazendo da pequena livraria a trapa onde, em silêncio, cultuávamos os livros.
Haverá mundo melhor? Se conseguíssemos, na infância, fazer uma pipa colorida para, sob um céu muito azul, erguê-la com nossos companheiros até perto das nuvens, seríamos menos tristes, com certeza. Se pudéssemos atravessar a rua da casa de nossa avó e encontrar todas as tardes um livreiro que é também o melhor dos mestres, então abriríamos as janelas de nossas casas e, apesar de sermos hoje outros homens e de em nossos corações a infância já estar quase perdida, seria possível sentir a brisa de julho, lembrar dos primeiros dias de férias, ouvir a voz do bom livreiro e, olhando para o céu coalhado de pipas, reencontrar a mesma delirante promessa de felicidade.
